A
Cidade FLUTUANTE
Veneza
Veneza é uma cidade que desperta paixões. Durante
séculos, os seus habitantes construíram as suas casas sobre estacas
enterradas no lodo da laguna, transformando os canais em ruas e
avenidas. Nasceu assim uma cidade-estado que viveu no fausto de
uma porta privilegiada dos viajantes que chegavam à Europa vindos
do Oriente. É esse passado de riqueza que hoje justifica a visita
à cidade flutuante.
| Texto de Nuno Pina e Fotos de Anabela
Costa, Casa da Imagem e Fototeca |
Sobre
Veneza quase tudo já foi dito. Para os românticos, é um local único.
Poetas cantaram a beleza do pôr do Sol no Grande Canal, onde as águas
do Adriático surgem como um espelho cujos reflexos caleidoscópicos
cintilam na alvura dos palácios renascentistas. Outros vibram com
a bruma mística que se costuma abater sobre a cidade, envolvendo-a
sob um manto de mistério
que serve de cenário ao mais famoso carnaval da Europa e onde os encapuzados
vagueiam pelas ruas labirínticas entrecortadas pelas inúmeras pontes
que surgem em cada esquina.
Para os mais racionalistas, Veneza pode ser apenas uma cidade
que nasceu e cresceu no meio da laguna. Uma cidade formada por 117
ilhas; 150 canais e 400 pontes. Pode parecer redutor para a cidade
que os venezianos construíram sobre o fundo lodoso e embelezaram
graças às riquezas acumuladas de uma profícua actividade comercial
que remonta aos tempos da Idade Média, mas também não deixa de ser
uma definição.
Por isso, tanto os românticos como os racionalistas
têm razão. Veneza é um pouco das duas observações, mas também é
verdade que quem um dia visita a laguna não deixa de pensar no regresso
a uma cidade cujas origens remontam aos tempos da queda do Império
Romano, quando no século V d. C. os povos bárbaros do Norte invadiram
as fronteiras romanas.
Povoamento da laguna
Nessa
altura, para escapar às hordas invasoras, as populações fugiram
para a laguna, ocupando as suas pequenas ilhas onde estabeleceram
os acampamentos. Pouco a pouco, foram surgindo as primeiras casas
construídas sob estacaria que eram enterradas no fundo do lodo da
laguna, um sistema que veio a demonstrar ser tão sólido como resistente,
tanto mais que perdurou até ao século XVII, altura em que a igreja
de La Salute foi ainda construída desta forma arcaica.
Quando se iniciou o povoamento da laguna, cada
ilha era independente das suas
vizinhas, mas tal como os marinheiros de uma grande armada, cedo
perceberam que a sua força estava na união dos esforços necessários
para resistir não só aos inimigos comuns, mas também às ofensivas
do mar. Foi assim que as ihas se foram aproximando. Foram construídas
pontes e assoreados alguns canais de molde a dilatar a área de terra
firme, um bem que cedo se tornou precioso para os venezianos, que
na mesma altura assumiram um dos grande traços do seu carácter de
cidadãos: todos os homens são iguais, mas subordinados a um bem
comum.
É difícil dizer com exactidão quando é que o
destino de todos os refugiados que se abrigaram na laguna foi assumido
como uma cidade, mas a tradição afirma que tal foi proclamado -
evidentemente com solenidade - a 25 de Março de 421 ao meio-dia...
Tanta exactidão no ano, no mês, no dia, e até na hora, leva muitos
historiadores a duvidar, tanto mais que na época o continente vivia
tempos
conturbados com as ricas cidades romanas a caírem nas mãos dos invasores
oriundos do Norte, embora tantas riquezas disponíveis tivessem "pago"
a independência dos refugiados. Os bárbaros esqueceram-se dos pobres
pescadores que se tinham refugiado na laguna, o que lhes permitiu
começar a negociar com a venda do peixe, mas também do sal, ou esse
cristal retirado da água do mar não fosse um valioso bem de troca
na época. Basta recordar que os próprios legionários de Roma eram
pagos com sal, o que veio a dar origem ao vocábulo salário.
A cidade dos Dodges
Mas se há dúvidas quanto ao momento da fundação da cidade, parece
haver um entendimento sobre o início da utilização da denominação
Dux para a entidade que assumiu o governo dos povos da laguna. Dux
chegou a ser traduzido como "duque" embora no linguajar da época
tivesse uma conotação mais próxima de "dirigente". No dialecto local
a palavra dux evoluiu para dodge, tendo surgido uma função que perdurou
durante mais de 1100 anos, pelo que Veneza é hoje muitas vezes apelidada
como a cidade dos dodges.
Apesar de ser a personalidade que ocupou o vértice
da pirâmide social na cidade-Estado, podendo influenciar a sua vida
quotidiana e a sua história, este dirigente estava simultaneamente
manietado pela vigilância constante para evitar que pudesse ultrapassar
as suas prerrogativas, abusando da autoridade.
Deste modo, Veneza logrou evitar a conquista
do poder por um homem ou por uma família, como aconteceu em muitas
outras cidades-Estado que ao longo dos séculos salpicaram a península
italiana.
Os
dodges eram eleitos de acordo com um complicado processo de nomes
tirados à sorte e diversas nomeações intermediárias, onde uma criança
era chamada a retirar de uma urna de ouro os nomes que formavam
o colégio eleitoral que acabava por nomear o novo dirigente.
Os eleitores eram os nobres da cidade, cujo
nome figurava no Livro de Ouro. Eram à volta de dois mil, dos cerca
de 120 mil habitantes da laguna, formando o que se chamava o Grande
Conselho.
A nobreza era controlada pelo Conselho dos Dez
e por três inquisidores, mais conhecidos como Conselho dos Três.
Estes inquisidores detinham o poder de vida ou morte sobre qualquer
veneziano. Foram eles que condenaram Casanova à prisão sob a acusação
de aliciamento de três jovens da nobreza para a maçonaria.
O poder dos conselhos era tal que à mínima suspeita
de abuso de poder de um dodge poderia implicar a sua condenação
à morte. Só no século XV sete dodges foram assassinados, outro foi
decapitado e uma dúzia de outros foram obrigados a abdicar.
República Sereníssima
Para além de cidade dos dodges, Veneza também ficou conhecida como
República Sereníssima, uma denominação algo contrastante com a pompa
dos apelidos que muitas outras cidades-Estado italianas reivindicaram.
A
razão da escolha não é muito clara, apesar de ser conhecida desde
o século XIV. No entanto, a opção pode passar perfeitamente pela
serenidade de uma cidade onde a estabilidade política contrastava
com revoluções sangrentas, repressões ferozes e conflitos constantes
com inimigos interiores e exteriores ao espaço geográfico que hoje
é a Itália moderna. Veneza escapou aos períodos mais conturbados
da política regional, mantendo-se livre de grandes problemas militares
até ser conquistada por Napoleão. Foi a estabilidade da Republica
Sereníssima, protegida do exterior pelas águas do Adriático, que
lhe permitiu a grande expansão comercial que criou o seu apogeu
no século XV.
Os primeiros habitantes chegaram à laguna para
escapar das invasões bárbaras e rapidamente se tornaram pescadores
e comerciantes de sal.
O mar era a única riqueza da cidade, e foi pelo
mar que partiram em busca das grandes rotas comerciais.
Veneza tornou-se na porta de entrada da Europa
das grandes rotas comerciais que atravessavam a Ásia, sendo o ponto
de chegada da Rota da Seda, essa artéria onde pulsou o comércio
medieval entre o longínquo Catai (China) e a Europa, onde se cruzavam
cristãos, muçulmanos, judeus, chineses, mongóis, indianos, caravanas
de camelos, cavalos e elefantes, transportando seda, especiarias
e pedas preciosas, para além da cultura de todas as gentes e credos.
Entre
os mercadores de Veneza, Marco Polo é o mais conhecido. Partiu da
cidade dos dodges em 1292 e viveu no Catai, na corte mongol, que
então governava o maior império jamais edificado pelo homem, tendo
regressado 25 anos depois com um carregamento de rubis, pérolas
e esmeraldas, que impressionou Veneza, uma cidade que na época já
vivia no fausto do comércio de luxo.
As ligações com o Oriente estão bem patentes
em símbolos arquitectónicos da cidade. A Igreja de São Marcos não
esconde as grandes influências bizantinas que testemunham os contactos
próximos entre a cidade dos dodges e a capital do Império Romano
do Oriente (actualmente Istambul).
Depois da queda de Bizâncio, o conquistador
turco tornou-se num dos grandes rivais da actividade comercial de
Veneza. O apogeu da cidade surgiu no século XV, após a derrota dos
turcos em Gallipoli (1416) que lhe abriu as portas do Mediterrâneo
e o controlo das ilhas de Creta e Chipre. Na mesma altura, para
se defender da cobiça dos senhores de Milão, os venezianos voltaram
ao continente, onde asseguraram o controlo de cidades como Verona,
Dine, Bréscia e Bérgamo, assegurando desta forma o domínio do Adriático.
As galeras venezianas (todas propriedade do Estado) dominaram o
Mediterrâneo durante cerca de 80 anos, mas a conquista de Constantinopla
pelos turcos (1453) e a chegada de Vasco da Gama à India, criando
uma alternativa mais rápida e lucrativa para o comércio com o Oriente,
marcou o início do declínio de Veneza, que sofreu uma importante
derrota naval contra os turcos em Chipre (1500). Mais tarde, na
batalha de Lepanto - que salvou a Europa de uma invasão turca -
as galeras venezianas foram fortemente castigadas, o que reduziu
o poderio naval da cidade.
O golpe final verificou-se em 1797, quando Napoleão
conquistou a República Sereníssima abolindo uma constituição com
dez séculos de existência. Foi o fim dos dodges. O imperador francês
veio depois a ceder a cidade aos austríacos, que reinaram até a
cidade ser agrupada no território de Itália, após a unificação da
península nos finais do século XIX.
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