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[Veneza - Arquitectura]

Ambiente ORIENTAL

Quem chega a Veneza por essa grande porta de entrada que é a piazzeta, anexa à grande praça de São Marcos, não pode deixar de ficar surpreendido pelas grandes cúpulas arredondadas e pequenos minaretes que contrastam com a arquitectura típica das cidades do continente. É um ambiente que nos remete para o imaginário da arquitectura oriental.

Esta é uma das imagens de Veneza desde as suas origens. Quando as populações se instalaram na laguna para escapar às invasões bárbaras, os imperadores romanos trocaram Roma por Constantinopla (Bizâncio), deixando uma feitoria em Ravena.

Os laços entre a emergente Veneza e Ravena foram tão lógicos como naturais, e não é por acaso que a Igreja de Santa Maria Assunta, na ilha de Torcello, a mais antiga edificação da cidade dos dodges, tem traços tão semelhantes com as igrejas de Ravena.

O eixo Constantinopla-Ravena-Veneza foi-se fortificando ao mesmo tempo que os venezianos iniciavam a actividade comercial que os levou a rumar para Oriente. Surgiu assim uma forte influência bizantina na arquitectura da nova cidade.

O melhor exemplo é a imponente catedral de São Marcos, na grande sala de visitas da cidade. As cúpulas cobertas de talha dourada, os mosaicos policromos recordam-nos a cada olhar o diálogo que a cidade manteve com o Oriente durante séculos.


Triunfo do gótico
Todavia, com a chegada ao século XIV, quando Veneza caminhava para o seu apogeu, sendo uma cidade do Norte, não poderia escapar às influências do estilo gótico que irradiava de França. O casamento entre o gosto educado ao estilo oriental, alterado ao sabor dos ventos das novidades arquitectónicas, deu origem ao que alguns classificam como gótico-florido, uma variante estilística verdadeiramente única, que tem o seu melhor exemplo nas obras de ampliação do Palácio dos Dodges (1340/1360).

Ao mesmo tempo que o palácio de onde emanava o poder político da cidade foi conquistado por esta forma arquitectónica, os grandes mercadores seguiram o mesmo caminho para a construção dos palácios que foram crescendo nas margens do Grande Canal.

A elegante assimetria da Ca´d´Oro é um dos melhores exemplos desta moda que conquistou os venezianos, ao mesmo tempo que no continente as cidades italianas começavam a sofrer as influências da arquitectura renascentista. Sem nunca ter aderido aos cânones da arquitectura da Renascença, Veneza seguiu o seu caminho, que manteve mais tarde noutros palácios como os de Foscari e Justiniano, erigidos à imagem da Ca´d´Oro, apesar de terem surgido cerca de um século depois.


O coração DA CIDADE

Durante séculos, as grandes viagens dos mercadores venezianos terminavam na piazzetta adjacente à Praça de São Marcos. As suas escadarias, que descem para o mar, e o longo cais, que hoje é partilhado pelas gôndolas e pelos vaporettos que asseguram as ligações entre as ilhas e o continente, são a porta de acesso ao lobby da cidade ladeado pela imponência do Palácio dos Dodges, as autoridades políticas da cidade durante mais de dez séculos.


Palácio dos Dodges
A sede política da cidade-Estado é um palácio que representa dignamente o poder e a glória de Veneza. Protegida pelos labirínticos canais da laguna, foi a sede do Grande Conselho, a quem cabia a eleição do dodge que governava a cidade.

Se hoje este grande palácio é visto como um dos grandes exemplos da forma como o estilo gótico foi interpretado pelos venezianos, ele é apenas o último de três palácios que ocuparam a piazzetta.

No início, nos tempos conturbados de século XIV, a defesa da sede política da cidade necessitava mais que o obstáculo natural criado pela laguna. Cresceu assim um castelo defendido por um fosso e uma tradicional ponte levadiça do qual não restam hoje quaisquer traços. Em 1345 começou a ser construído o segundo palácio, que visava não só albergar a sede política de Veneza, mas também testemunhar o seu poder marítimo e comercial emergente.

Para além de ser a residência dos dodges, este novo palácio, que foi crescendo ao longo dos anos, albergava ainda a sede do Conselho dos Dez e do Conselho dos Três, para além de ser a sede do poder judicial e até prisão. A história refere dois grandes incêndios (1574 e 1577), pelo que se pode concluir que a sua rica decoração interior data do século XVI.

O Palácio dos Dodges tem duas fachadas: uma orientada para o Grande Canal e outra virada para a piazzetta. É aí que surge a Porta della Carta, um brilhante frontal gótico, onde o dodge afixava os seus decretos. Sobre a porta que hoje dá acesso aos visitantes do palácio surge uma cópia do alto relevo que representa um dodge frente ao leão de São Marcos - o símbolo da cidade -, cujo original foi destruído pelas tropas napoleónicas após a invasão. No interior, encontram-se as grandes escadarias - Scala dei Gianti - cujo nome advém da presença de duas enormes estátuas de Marte (Deus da guerra) e Neptuno (Deus dos mares), obras de Sansovino. O palácio segue a arquitectura clássica italiana: o rés-do-chão funcionava para as actividades quotidianas; no primeiro andar era a residência do dodge e no último andar, os venezianos colocaram as salas nobres. A Sala del Collegio é, talvez, a mais bela, com as suas pinturas de Veronese, onde o governo recebia os embaixadores estrangeiros ou os cidadãos no regresso das suas viagens. Quem esperava para ser recebido, aguardava na Sala del Anticollegio da autoria de Palladio.

No mesmo andar surgem as salas ocupadas pelo Consiglio dei Dieci, que surgia como um comité de segurança onde os cidadãos suspeitos eram levados após uma espera na Sala della Bussolla, cujo nome advém do facto de a passagem contar com uma porta circulante escondida por uma enorme estante. A Sala Maggiore del Consiglio, sobranceira à laguna - como não poderia deixar de ser - , onde tinham assento os nobres de Veneza que ditavam as leis e apontavam os candidadtos ao cargo de dodge, chegou a ter, segundo se fala, uma obra de arte da pintura renascentista. Foi destruída pelo fogo, retomando a sua dignidade graças à arte de Tintoreto, Veronese e Palma.

Estes são apenas alguns dos locais que não se devem perder numa visita ao Palácio dos Dodges, embora nem sempre seja fácil conhecer, à primeira, toda a sua riqueza. As sucessivas obras de restauro fazem com que ciclicamente muitas salas sejam vedadas ao público, num monumento onde há tantas curiosidades para conhecer que será fastidioso enumerar. Até a cela onde esteve preso e de onde se evadiu Casanova é um local de romagem para muitos.


Praça de São Marcos
Quem deixa para trás a piazzetta e o Palácio dos Dodges, entra na magnífica Praça de São Marcos. Talvez tenha sido este o caminho seguido por Napoleão após a conquista da cidade-Estado, e talvez seja por isso que o Corso afirmou que se trata "da mais bela sala de visitas da Europa".

Se a praça é o grande coração da cidade, nunca esquecida em qualquer passegiatta ao fim da tarde, desde sempre foi local de encontro para os cidadãos venezianos que ali acorreram com a mesma frequência com que hoje os turistas procuram o refúgio das arcadas por onde se estendem as mais variadas lojas e onde é importante não falhar uma visita aos cafés Florian ou Quadri, que se espaiam em grandes esplanadas e onde à noite não falta a música de várias orquestras, que rivalizam entre si na conquista de ouvintes.

Um expresso ou um capuccino, acompanhado com um tramezzino (sandes em pão cortado triangularmente) ou uma schiacciata (folhado), para não falar nos gelados, têm outro sabor em plena piazza.


Campanile
As altas torres sineiras fazem parte do cenário da maioria das cidades italianas, sendo na maioria dos casos vistas como uma imagem cívica. Este símbolo não poderia faltar em Veneza onde a Campanile é a mais antiga e simultaneamente uma das mais modernas edificações da cidade.
A antiguidade advém-lhe das suas fundações utilizarem os alicerces romanos quando a torre começou a crescer no século IX. A construção foi muito demorada, só tendo terminado no início do século XVI, da mesma forma que a juventude tem a ver com o facto de a torre se ter abatido aparatosamente no dia 14 de Julho de 1902.

Após o acidente, que miraculosamente não causou vítimas, o Conselho Municipal decidiu voltar a erigi-la. A reconstrução foi mais rápida, e a torre, com os seus 99 metros de altura, ficou concluída em 1912, sendo uma cópia exacta da original, incluindo mesmo os quatro sinos que anunciavam quatro actividades diárias, que voltaram a ser fundidos.

Renasceu assim a velha torre que surge em frente da Torre dell´Orologio, uma das atracções da cidade, já que se trata de um relógio astronómico construído no final do século XV, encimado pelas estátuas de dois mouros vestidos com peles de carneiro, que, hora a hora, abatem pesados maços de ferro sobre um relógio que marca a cadência da vida na cidade.


Basílica de São Marcos
Construída entre 1063 e 1094, a Basílica de São Marcos é o símbolo de Veneza, para não dizer o espelho da cidade e do seu esplendor, já que a sua história está intimamente ligada à cidade. No início foi construída para ser a capela dos dodges, testemunhando o poder e a riqueza da cidade, tendo por isso sofrido obras de ampliação em três épocas distintas. Para cimentar a afirmação de que a basílica é o espelho do poder de Veneza, bastará dizer que o ex-líbris do monumento foram durante anos os quatro cavalos de bronze que os guerreiros venezianos trouxeram de Constantinopla como troféu de guerra em 1204. Estas estátuas, cuja origem divide os historiadores, que lhe dão uma origem grega (séc. IV ou III a.C.) ou latina (séc. IV d.C.), transformaram-se num símbolo tão forte da cidade que Napoleão Bonaparte, após a conquista da cidade, deu ordens para as deslocar para Paris como troféu de guerra, a exemplo do obelisco pilhado no Egipto que hoje suge na Place Vendôme, no coração de Paris.

Hoje, os cavalos que surgem na balaustrada sobranceira à entrada da basílica são cópias. Contudo, os venezianos tiveram sorte. Se Napoleão foi o ladrão que roubou ladrão, os cavalos que haviam feito parte do saque de Constantinopla acabaram por ser devolvidos a Veneza, podendo ser hoje apreciados no Museu Marciano.

Mas os cavalos são apenas mais um dos exemplos da ligação entre Veneza e Constantinopla, entre Veneza e o Império Romano do Oriente. No entanto, há muitos outros: num dos recantos da catedral surge um interessante grupo escultórico do século IV d.C. de origem cretense, Trata-se dos Tetrarcas, representando os imperadores Diocleciano, Maximino, Valério e Constantino. Para os historiadores, a ligação de Veneza com o Oriente é identificada pela arquiectura da basílica, que assume a cruz grega coroada por cinco cúpulas (uma ao centro e outras em cada uma dos braços). No átrio, os mosaicos mostram imagens do Antigo Testamento. Uma escadaria conduz ao Museu Marciano (merece uma visita), onde estão expostos as verdadeiras esculturas que encantaram Napoleão.

Mas entre pequenas e grandes histórias que estão ligadas a cada recanto da basílica, para quem é capaz de vibrar com a beleza da arquitectura, o verdadeiro clímax passa por pisar os mosaicos multicores que atapetam o chão numa variedade de cores que só algumas tapeçarias são capazes de igualar, resistindo à tentação dourada das cúpulas cobertas de ouro ou dos mais requintads mármores.

São estes contrastes que fazem aquilo a que podemos chamar cultura: testemunhar o resultado do cruzamento de culturas, procurando compreender o que o Oriente deu ao Ocidente e, talvez, tentar imaginar até onde se poderia ter chegado sem os radicalismos religiosos de parte a parte. Só que a religião esteve sempre presente nos mundos que confluíram em Veneza. Talvez, por isso, o grande inimigo da cidade dos dodges tenha sido os turcos...

A própria identidade da cidade está encerrada na Basílica de São Marcos. São as relíquias do Apóstolo que pregou o nome de Cristo no Egipto, tendo morrido em Alexandria, onde foi sepultado. Por volta do ano 800, mercadores venezianos resgataram o corpo. Entre a lenda e a história pode haver grandes diferenças, mas o que restou aponta para que o corpo tenha sido escondido no meio de carne de porco, de molde a evitar a inspecção dos muçulmanos. A relíquia chegou a Veneza em 829. Foi uma excelente manobra política, numa época em que a religião controlava os movimentos da Europa. Graças a São Marcos, Veneza logrou rivalizar com Roma, que se orgulhava de ser guardiã das relíquias de São Pedro.

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