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[Veneza - Grande Canal]

PASSEIO público

A relíquia chegou a Veneza em 829. Foi uma excelente manobra política, numa época em que a religião controlava os movimentos da Europa. Graças a São Marcos, Veneza logrou rivalizar com Roma, que se orgulhava de ser guardiã das relíquias de São Pedro


Da mesma forma que os britânicos discursavam no Hyde Park Corner, os diletantes franceses passeavam no início do século XX pelos Campos Elíseos, sendo copiados pelos portugueses, que criaram o Passeio Público que saía do Rossio na direcção dos "arrabaldes" onde hoje está o Marquês de Pombal.

Toda a Europa tinha, ou tem, ou seus ex-líbris. Veneza não passou ao lado desta moda, embora os passeios pela cidade que flutua na laguna do Adriático apresentassem uma alternativa diferente. Não tinha carruagens ou os "americanos" (eléctricos) que cativavam a Europa. Todas as deslocações eram feitas de barco.

O tempo passou, mas em Veneza nada se alterou. É certo que os grandes veleiros deram lugar a modernos barcos de cruzeiro, mas na cidade que flutua, os passeios são feitos de gôndolas, os táxis são barcos a motor e os autocarros chamam-se vaporetto.

Em Veneza não há automóveis nem há estradas. Os polícias fazem as patrulhas nos seus barcos; os bombeiros circulam de barco; os alimentos chegam de barco e os detritos são devolvidos nos barcos que criam o tráfego nas vias feitas de água de uma cidade que vive sobre a água.

Por isso, o Grande Canal, que atravessa a cidade na foma de um S invertido, surge nos seus cerca de quatro quilómetros como uma das artérias mais famosas do mundo.

Todas as ricas famílias com o seu nome ligado à história da cidade tiveram um palácio com o nome da sua família virado para o Canal. Contrariamente às residências fortificas que na mesma altura foram construídas no continente, nenhum dos palácios venezianos é fortificado. Qualquer deles conta, pelo menos, com duas portas: uma virada para o canal, prevendo amarrações para os diversos barcos que por ali circulam, e outra orientada para terra firme.

O primeiro andar é sempre considerado um andar de serviços, já que é no andar superior - o piano nobile - que surgem os espaços residenciais.


O grande canal
A zona oeste do Canal chama-se Dorsoduro (dorso duro), porque o solo é relativamente firme. A zona este, talvez a mais sofisticada e elegante, é conhecida como Rialto (costa alta), sendo aí que surge a zona monumental da cidade.

Conhecer Veneza passa por ir de Dorsoduro até Rialto, o que pode ser feito num vaporetto ou num dos táxis que surgem acostados à porta de todos os hotéis. Para muitos, aqueles que chegam a Veneza de comboio, este é o caminho de chegada, já que ligam a gare e a Praça de São Marcos, numa viagem de cerca de 40 minutos.

Mas se o Grande Canal permite conhecer o ambiente de Veneza, para visitar as duas margens do Canal o melhor é andar a pé, utilizando as pontes que o cruzam.


A Punta Dela Dogana
Numa cidade mercantil, a fronteira - dogana - é um local fundamental. Este vértice da ilha da Giudecca, que aponta na direcção da Praça de São Marcos, pode ser visto como a entrada do Grande Canal. Foi durante anos o ponto onde os navios atracavam para descarregar as suas mercadorias sobre o olhar dos oficiais que atri-buíam as taxas. No cimo de uma torre erigida em 1677 surge um catavento, onde uma figura móvel que simboliza a fortuna dos mercadores se orienta ao sabor do vento sobre um globo terrestre sustentado por dois atlantes.


Santa Maria Della Salute
Paralelamente ao campanile que se ergue na Praça de São Marcos, o posicionamento da Igreja de Santa Maria della Salute é, pela sua situação geográfica, um dos monumentos mais fotografados de Veneza.

Construída em acção de Graças pelo final da peste que devastou a cidade em 1630, dizimando um terço da sua população, continua a ser um local de festa a 21 de Novembro, o Dia da Madonna della Salute. A nave octogonal foi desenhada por Baldassare Longhena, que seguiu a orientação de outras igrejas dedicadas ao culto mariano.


Ponte de Rialto
A circulação em Veneza foi feita durante séculos através de pontes de madeira. Uma das primeiras grandes pontes de pedra a ser construída foi decidida em 1524, tendo o projecto sido pedido a vários especialistas.

Diz-se que entre os projectos apresentados à cidade surgiu um assinado por um certo Miguel Ângelo. No entanto, a obra foi entregue a António da Ponte, numa época em que vários conflitos arrasavam a península italiana, o que obrigou a diversos atrasos.

A obra apenas se iniciou em 1588, tendo sido concluída quatro anos depois. Surgiu assim a ponte de Rialto com o seu arco único com 28 metros sobre o Grande Canal, elevando-se a 7,5 metros de altura.


CA'D'ORO
Se ao longo do Canal se multiplicam diversos palácios, alguns dos quais transformados em hotéis, outros adaptados a colégios e universidades, há ainda alguns que continuam a servir de residências.

A descoberta de todos os palácios faz parte do desafio que representa viajar ao longo do Grande Canal, seja de vaporetto seja de gôndola.

No entanto, há um edifício que merece uma visita especial, pois a sua arquitectura marcou muito do futuro das edificações que se lhe seguiram ao longo dos anos. Falamos da Ca´D´Oro.

Ninguém tem uma ideia exacta sobre a origem do nome - Palácio de Ouro. Há quem diga que no século XV partes da fachada estavam cobertas com o precioso metal. Outros referem que o edifício terá sido mandado erigir pela família Doro. Mas se do passado pouco ou nada se sabe, no presente este palácio continua a ser admirado pela sua grande elegância, feita de uma assimetria pouco comum ao estilo gótico que lhe deu origem. É um dos melhores exemplos do chamado gótico-florido que nasceu em Veneza e que influenciou a arquitectura da cidade que flutua sobre o Adriático.


A FESTA DAS máscaras
O Carnaval é talvez uma das mais conhecidas manifestações tradicionais de Veneza. Os mascarados que vogam pelas ruas labirínticas da cidade escondidos sob a sua bauta (uma pequena capa negra com um capuz) ou o tabarro (uma grande capa) com as caras veladas com as mais originais máscaras onde alguns vêem uma evolução das protecções utilizadas pelos médicos que lutaram contra a peste negra, são hoje um outro ex-líbris da cidade.

Se o objectivo das máscaras era esconder a identidade do seu utilizador ou utilizadora, as regras de cortesia ditavam que os mascarados ao cruzarem-se no meio da cidade se saudassem com deferência: "bom dia, senhora máscara", diziam.

As máscaras procuravam surpreender ou assustar. Eram essas as regras do Carnaval em Veneza, embora o requinte e o cuidado colocados no vestuário fossem os mesmos que eram exigidos para as grandes recepções nos mais requintados salões.

Fazia parte das regras do jogo nunca demonstrar que se havia reconhecido uma máscara. A identidade de quem se escondia atrás da máscara era sagrada durante todo o Carnaval.

O apogeu destas festividades verificou-se no sécuo XVIII. Nessa época era festejado de uma forma alucinante entre 15 e 25 de Dezembro. Depois havia uma pausa, mas tudo recomeçava com o mesmo vigor até à quarta-feira que inicia a Quaresma, contrastando com os escassos três dias de folguedos com que a tradição ocidental ocupa os três dias anteriores à Quarta-Feira de Cinzas.

O frenesim e a loucura que envolvia o Carnaval cresceram na proporção directa da queda do prestígio e da importância de Veneza. Curiosamente, seria a queda da cidade-Estado face às tropas napoleónicas em 1797 que veio interromper estas celebrações.

No entanto, as memórias do Carnaval não morreram, e quase dois séculos depois foram recriadas. Foi em 1980 que os venezianos recuperaram esta antiga tradição, reafirmando o seu gosto pelas festas e divertimentos.

Desde então, a tradição foi retomada, e anualmente as faustosas máscaras voltam a descer à rua na cidade que flutua sobre a laguna, invadindo a Praça de São Marcos.

A grande sala de visitas da cidade outrora governada pelos dodges torna-se demasiado pequena para acolher os foliões que ali acorrem, oriundos de paragens longínquas.

Tal como no passado, as bautas e os tabarros tomam conta das ruas e becos, surgem nas esquinas das pequenas pontes e ouve-se a saudação: "olá, senhora máscara". O objectivo dos mascarados de hoje é exactamente o mesmo dos do passado: assustar ou, pelo menos, surpreender aqueles com quem se cruzam.

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