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D O S S I E R

Janeiro de 2003
Uma visita à ilha maior do arquipélago de São Tomé e Príncipe. De beleza deslumbrante, trata-se de um destino ainda quase desconhecido para os portugueses. Apesar dos séculos de história que nos unem.

Texto de Cristina Pereira
Fotos de Pedro Sampaio Ribeiro
   


Piscina do Rolas Island Resort

A ordem dos factores é arbitrária. Também neste caso.

Primeiro (ou penúltimo acto): Após quatro dias de estadia no Ilhéu das Rolas, na ponta Sul do país, preparamo-nos para apanhar o barco que nos trará de volta à ilha de São Tomé. As malas já embarcaram e no pontão prolongam-se as despedidas. Ouço chamar o meu nome e alguém vem correndo agitando no ar o que deduzo ser qualquer coisa esquecida. Em mão, entregam-me meia dúzia de maços de tabaco que deixara no bungalow; em moeda santomense quase metade de um salário. Honestamente me interrogo se, em situação inversa, teria cumprido o mandamento.


Cidade de S. Tomé

Segundo (ou último acto): Véspera de partida para Portugal, dormimos num dos melhores hotéis da capital da ilha; em horas de relógio, como se diz por aqui, a menos de 15 minutos do aeroporto. No painel de azulejos da casa de banho do quarto leio o aviso colado sobre o lavatório: "Não leve este sabão líquido. Caso o faça cobraremos $6. A Direcção."

Praia Bateria, dos Tamarindos e Café

São Tomé é uma ilha de contrastes. Entre o verde da terra e o azul do mar, entre a opulência da Natureza e a pobreza dos homens, entre a candura das gentes e a nossa condição de europeus. Estamos em África, naquela que será, provavelmente, uma das ilhas mais bonitas do mundo. Apesar disso, para quem chega, rendido ao impacto de "formosura tão tamanha", não poderá deixar de acrescentar-se o incómodo do confronto com carências primárias inexplicáveis: e tanto mais inexplicáveis quanto, como dizia alguém, no caso referindo-se à fertilidade dos solos, "em São Tomé não é precisar plantar; basta atirar qualquer coisa à terra". Assim, se o tom da reportagem fugir, em intercalados parágrafos, para o "neo-realismo", será porque o assunto a tanto obriga. Mesmo se o que aqui nos traz são as belezas naturais e as potencialidades turísticas. Só essas dão pano para mangas.

Da História e da Geografia
Chegados ao pequeno aeroporto por volta das cinco da manhã (o dia começa e termina cedo), frenético com a vinda do único avião semanal que liga regularmente São Tomé à Europa, o calor é o primeiro sintoma da mudança de continente. Sobre a linha do Equador - que atravessa com exactidão o Ilhéu das Rolas onde podemos pousar um pé no Hemisfério Norte e outro no Hemisfério Sul sem qualquer risco muscular - o arquipélago apresenta um clima equatorial, quente e húmido, o que se confirma na exuberante paleta dos verdes. Porque verde mais verde não há. E esqueçam-se os Açores.

Com uma área aproximada de 836 quilómetros quadrados, São Tomé situa-se na África Central, na região do Golfo da Guiné (que partilha com as ilhas de Pagalú ou Ano Bom e Bioko ou Fernando Pó); o Príncipe, a outra ilha que integra o arquipélago, dista cerca de 150 quilómetros para Norte. Os países do continente que lhe ficam mais próximos são, a norte, a Nigéria (cerca de 300 quilómetros), a este o Gabão (cerca de 300 quilómetros) e a nordeste os Camarões e a Guiné Equatorial (aproximadamente 250 quilómetros).

De origem vulcânica - o que é bem visível, tanto nas suas elevações (o ponto mais alto situa--se a 2024 metros no Pico de São Tomé e o Cão Grande, uma pedra imensa de quase 1000 metros irrompe hirta na paisagem, marcando-a como um ex-líbris), como nas praias de rochas negras e areia, em muitos casos, escura -, São Tomé foi descoberta em 1470 por João de Santarém e Pêro de Escobar. Deserta, o povoamento da ilha tem início com a sua doação, por D. João II, a João de Paiva, que terá desembarcado na praia Ana Ambó, acontecimento devidamente assinalado por um marco no local. Em 1491, Álvaro Caminha chega com um grupo de proscritos e judeus castelhanos e durante o século XVI a nova possessão portuguesa alcançará o estatuto de maior exportador africano de cana-de-açúcar.

Com trabalho assente na mão-de-obra escrava, provinda em particular de Angola e Moçambique, São Tomé viverá algumas revoltas importantes, tendo ficado registada para a História a de 1595, encabeçada pelo rei Amador. Servindo como entreposto de escravos, capturados no continente e levados depois para o Brasil, a ilha assistiu à introdução do café e do cacau no século XIX (chegou a ser o maior produtor mundial de cacau), o que daria origem ao sistema das roças - unidades agrícolas gigantescas viradas para a monocultura, verdadeiros estados dentro do Estado - que se manteria em vigor até à independência, proclamada a 12 de Julho de 1975.

 
Murais na cidade e bugalow no Rolas Resort

Das origens diversas da população resulta uma mescla de angolares (descendentes dos escravos de Angola), forros (descendentes dos escravos libertados), tongas (descendentes de trabalhadores contratados originários de Angola, Moçambique e Cabo Verde) e europeus (descendentes dos portugueses). Se no século XVII muitos partem para o Brasil, se no século XIX se assiste à importação de escravos das regiões que actualmente constituem o Ghana, Togo e Benin e de contratados vindos de Angola, Guiné e Moçambique, e se ainda nos anos 40 do século passado se assistia à chegada de inúmeros cabo-verdeanos para trabalhar as terras, o resultado foi um verdadeiro mel-ting pot (Angolares, por exemplo, é nome de povoação e os dialectos regionais continuam vivos, apesar do português), um caldo de culturas onde fermenta até hoje a identidade cultural desta nação jovem.


Cascata de São Nicolau

O Mar que nos Rodeia
Segundo país mais pequeno de África, a seguir às Seychelles, um passeio de barco em redor da ilha (recomendado apenas a espíritos e físicos resistentes), permite-nos apreciar os seus 150 quilómetros de costa. Desde logo, pouco tempo passado de nos fazermos ao largo, um encontro previsível... e outro menos. Grupos de golfinhos residentes passam a escassos metros, antecipando o que justificará, se os golfinhos não bastassem, qualquer incómodo da viagem (a meteorologia não estava do nosso lado e o mar correspondia com a natural agitação): o avistamento de orcas, incluindo uma orca-bebé, que nadam em pequenos grupos alheios à nossa presença. Se as orcas são mamíferos improváveis em águas demasiado quentes para seu gosto, o mesmo não se poderá dizer das baleias, que, infelizmente para nós, já há cerca de duas semanas abandonaram estas paragens.


Boca do Inferno

São Tomé, conhecido como destino de pesca de alto mar, pretende tornar-se também um local de Whale Watching, actividade que o empreendimento turístico localizado no Ilhéu das Rolas está a tentar levar a cabo. E se as baleias passaram antes da nossa chegada, as tartarugas hão-de começar a desovar nas praias do Sul da ilha ainda durante a estadia, apesar de - e de novo infelizmente -, não termos podido assistir ao seu "desembarque" na areia. Chegam durante todo o mês de Dezembro, no que é uma das mais terríveis e comoventes lutas pela sobrevivência do mundo animal. As pequenas tartarugas "correndo" em direcção à água e fugindo dos inúmeros predadores que as tentam impedir de alcançá-la (o homem foi excluído desse papel, pelo menos em princípio, a partir do momento em que as tartarugas se tornaram uma espécie protegida).


Ilhéu das Rolas
As mais de cinco horas de passeio marítimo permitem-nos ficar a conhecer o recorte exacto da ilha e tomar consciência da sua diversidade. Pequenas baías rodeadas de coqueiros alternam com vertentes escarpadas e vegetação cerrada, de impossível acesso; algumas praias de areais mais extensos, apenas a nordeste (cabe dizer, em abono da verdade, que muitas delas estão hoje perigosamente ameaçadas pelo "desvio" das suas areias para a construção) rematam encostas suaves

A caminho de Angolares
que desaguam junto ao mar; povoações ribeirinhas adivinham-se por entre a vegetação; cones vulcânicos (sobretudo na zona centro e sul) destacam-se num perfil intrincado de montes e vales, e é o verde, sempre o verde, denso e luminoso, que como que embrulha a ilha em mistério, justificando o sonho de uma criança (hoje mulher) que em pequena, conta--me, vivia o pavor de se perder pelos caminhos da floresta e nunca mais ser encontrada.

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