D
O S S I E R

Uma
visita à ilha maior do arquipélago de São Tomé e Príncipe. De beleza
deslumbrante, trata-se de um destino ainda quase desconhecido para
os portugueses. Apesar dos séculos de história que nos unem.

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Piscina
do Rolas Island Resort
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A
ordem dos factores é arbitrária. Também neste
caso.
Primeiro (ou penúltimo acto): Após quatro dias de
estadia no Ilhéu das Rolas, na ponta Sul do país,
preparamo-nos para apanhar o barco que nos trará de volta
à ilha de São Tomé. As malas já embarcaram
e no pontão prolongam-se as despedidas. Ouço chamar
o meu nome e alguém vem correndo agitando no ar o que deduzo
ser qualquer coisa esquecida. Em mão, entregam-me meia dúzia
de maços de tabaco que deixara no bungalow; em moeda santomense
quase metade de um salário. Honestamente me interrogo se,
em situação inversa, teria cumprido o mandamento.
Segundo
(ou último acto): Véspera de partida para Portugal,
dormimos num dos melhores hotéis da capital da ilha; em horas
de relógio, como se diz por aqui, a menos de 15 minutos do
aeroporto. No painel de azulejos da casa de banho do quarto leio
o aviso colado sobre o lavatório: "Não leve este
sabão líquido. Caso o faça cobraremos $6. A
Direcção."
São
Tomé é uma ilha de contrastes. Entre o verde da terra
e o azul do mar, entre a opulência da Natureza e a pobreza
dos homens, entre a candura das gentes e a nossa condição
de europeus. Estamos em África, naquela que será,
provavelmente, uma das ilhas mais bonitas do mundo. Apesar disso,
para quem chega, rendido ao impacto de "formosura tão
tamanha", não poderá deixar de acrescentar-se
o incómodo do confronto com carências primárias
inexplicáveis: e tanto mais inexplicáveis quanto,
como dizia alguém, no caso referindo-se à fertilidade
dos solos, "em São Tomé não é precisar
plantar; basta atirar qualquer coisa à terra". Assim,
se o tom da reportagem fugir, em intercalados parágrafos,
para o "neo-realismo", será porque o assunto a
tanto obriga. Mesmo se o que aqui nos traz são as belezas
naturais e as potencialidades turísticas. Só essas
dão pano para mangas.
Da
História e da Geografia
Chegados ao pequeno aeroporto por volta das cinco da manhã
(o dia começa e termina cedo), frenético com a vinda
do único avião semanal que liga regularmente São
Tomé à Europa, o calor é o primeiro sintoma
da mudança de continente. Sobre a linha do Equador - que
atravessa com exactidão o Ilhéu das Rolas onde podemos
pousar um pé no Hemisfério Norte e outro no Hemisfério
Sul sem qualquer risco muscular - o arquipélago apresenta
um clima equatorial,
quente e húmido, o que se confirma na exuberante paleta dos
verdes. Porque verde mais verde não há. E esqueçam-se
os Açores.
Com uma área aproximada de 836 quilómetros quadrados,
São Tomé situa-se na África Central, na região
do Golfo da Guiné (que partilha com as ilhas de Pagalú
ou Ano Bom e Bioko ou Fernando Pó); o Príncipe, a
outra ilha que integra o arquipélago, dista cerca de 150
quilómetros para
Norte. Os países do continente que lhe ficam mais próximos
são, a norte, a Nigéria (cerca de 300 quilómetros),
a este o Gabão (cerca de 300 quilómetros) e a nordeste
os Camarões e a Guiné Equatorial (aproximadamente
250 quilómetros).
De origem vulcânica - o que é bem visível, tanto
nas suas elevações (o ponto mais alto situa--se a
2024 metros no Pico de São Tomé e o Cão Grande,
uma pedra imensa de quase 1000 metros irrompe hirta na paisagem,
marcando-a como um ex-líbris), como nas praias de rochas
negras e areia, em muitos casos, escura -, São Tomé
foi descoberta em 1470 por João de Santarém e Pêro
de Escobar. Deserta, o povoamento da ilha tem início com
a sua doação, por D. João II, a João
de Paiva, que terá desembarcado
na praia Ana Ambó, acontecimento devidamente assinalado por
um marco no local. Em 1491, Álvaro Caminha chega com um grupo
de proscritos e judeus castelhanos e durante o século XVI
a nova possessão portuguesa alcançará o estatuto
de maior exportador africano de cana-de-açúcar.
Com
trabalho assente na mão-de-obra escrava, provinda em particular
de Angola e Moçambique, São Tomé viverá
algumas revoltas importantes, tendo ficado registada para a História
a de 1595, encabeçada pelo rei Amador. Servindo como entreposto
de escravos, capturados no continente e levados depois para o Brasil,
a ilha assistiu à introdução do café
e do cacau no século XIX (chegou a ser o maior produtor mundial
de cacau), o que daria origem ao sistema das roças - unidades
agrícolas gigantescas viradas para a monocultura, verdadeiros
estados dentro do Estado - que se manteria em vigor até à
independência, proclamada a 12 de Julho de 1975.
Das
origens diversas da população resulta uma mescla de
angolares (descendentes dos escravos de Angola), forros (descendentes
dos escravos libertados), tongas (descendentes de trabalhadores
contratados originários de Angola, Moçambique e Cabo
Verde) e europeus (descendentes dos portugueses). Se no século
XVII muitos partem para o Brasil, se no século XIX se assiste
à importação de escravos das regiões
que actualmente constituem o Ghana, Togo e Benin e de contratados
vindos de Angola, Guiné e Moçambique, e se ainda nos
anos 40 do século passado se assistia à chegada de
inúmeros cabo-verdeanos para trabalhar as terras, o resultado
foi um verdadeiro mel-ting pot (Angolares, por exemplo, é
nome de povoação e os dialectos regionais continuam
vivos, apesar do português), um caldo de culturas onde fermenta
até hoje a identidade cultural desta nação
jovem.

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O
Mar que nos Rodeia
Segundo país mais pequeno de África, a seguir às
Seychelles, um passeio de barco em redor da ilha (recomendado apenas
a espíritos e físicos resistentes), permite-nos apreciar
os seus 150 quilómetros de costa. Desde logo, pouco tempo
passado de nos fazermos ao largo, um encontro previsível...
e outro menos. Grupos de golfinhos residentes passam a escassos
metros, antecipando o que justificará, se os golfinhos não
bastassem, qualquer incómodo da viagem (a meteorologia não
estava do nosso lado e o mar correspondia com a natural agitação):
o avistamento de orcas, incluindo uma orca-bebé, que nadam
em pequenos grupos alheios à nossa presença. Se as
orcas são mamíferos improváveis em águas
demasiado quentes para seu gosto, o mesmo não se poderá
dizer das baleias, que, infelizmente para nós, já
há cerca de duas semanas abandonaram estas paragens.

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São
Tomé, conhecido como destino de pesca de alto mar, pretende
tornar-se também um local de Whale Watching, actividade que
o empreendimento turístico localizado no Ilhéu das
Rolas está a tentar levar a cabo. E se as baleias passaram
antes da nossa chegada, as tartarugas hão-de começar
a desovar nas praias do Sul da ilha ainda durante a estadia, apesar
de - e de novo infelizmente -, não termos podido assistir
ao seu "desembarque" na areia. Chegam
durante todo o mês de Dezembro, no que é uma das mais
terríveis e comoventes lutas pela sobrevivência do
mundo animal. As pequenas tartarugas "correndo" em direcção
à água e fugindo dos inúmeros predadores que
as tentam impedir de alcançá-la (o homem foi excluído
desse papel, pelo menos em princípio, a partir do momento
em que as tartarugas se tornaram uma espécie protegida).

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As
mais de cinco horas de passeio marítimo permitem-nos ficar
a conhecer o recorte exacto da ilha e tomar consciência da sua
diversidade. Pequenas baías rodeadas de coqueiros alternam
com vertentes escarpadas e vegetação cerrada, de impossível
acesso; algumas praias de areais mais extensos, apenas a nordeste
(cabe dizer, em abono da verdade, que muitas delas estão hoje
perigosamente ameaçadas pelo "desvio" das suas areias
para a construção) rematam encostas suaves
que
desaguam junto ao mar; povoações ribeirinhas adivinham-se
por entre a vegetação;
cones vulcânicos (sobretudo na zona centro e sul) destacam-se
num perfil intrincado de montes e vales, e é o verde, sempre
o verde, denso e luminoso, que como que embrulha a ilha em mistério,
justificando o sonho de uma criança (hoje mulher) que em pequena,
conta--me, vivia o pavor de se perder pelos caminhos da floresta e
nunca mais ser encontrada.
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