L
U G A R E S C O M H I S T Ó R I A

Situada
no alto da colina da Nossa Senhora do Sardão, a Cidadela de Bragança
é um dos núcleos muralhados mais harmoniosos e bem preservados de
Portugal
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Porta
da Vila, entrada na Cidadela
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Quem
vem do centro de Bragança, a pé ou de automóvel,
precisa de atravessar duas portas flanqueadas por dois torreões
para ter acesso ao velho burgo muralhado: primeiro a Porta da Vila,
alguns metros depois a Porta de Santo António. Se em tempos
idos tal estrutura garantia uma dupla segurança contra os invasores,
agora o que se deixa para trás são os ruídos
do atarefado vaivém da urbe que continua a crescer a ocidente.
Aqui a atmosfera é de uma absoluta tranquilidade, apenas quebrada
pelos ecos de uma conversa de vizinhas, o som de um rádio que
se escapa de uma janela e a correria de uns poucos garotos que ainda
habitam o casario alvo. Nas pequenas hortas rodeadas de muros baixos
crescem figueiras, cerejeiras e legumes, mas a ânsia de verdura
dos seus moradores não parece satisfeita pelos extensos contornos
do Parque Natural de Montesinho que se avista do cimo das muralhas.
Os jardins prolongam-se nas vielas estreitas, em vasos muitas vezes
improvisados onde crescem flores de todas as cores. E, logo que chega
a Primavera, cada pedaço de solo bravio enche-se de papoilas
e malmequeres, sobrevoados por bandos agitados dae pardais.
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Rua
no interior das muralhas
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Viver
entre muralhas
Se em momentos de maior silêncio o pequeno núcleo de
cerca de sessenta habitantes parece deserto, basta procurar os recantos
soalheiros. É por aí que se reúnem os mais idosos
à conversa. Elas quase sempre de rendas no regaço, eles
com algum cão aos pés, deitando um olho às traquinices
dos netos que acabaram de chegar da escola. E todos com muitas décadas
de vida passadas dentro do núcleo muralhado - um dos mais harmoniosos
e bem conservados do país -, à sombra de vetustos monumentos,
que desde sempre se habituaram a ter como companheiros de brincadeiras.
O senhor Miguel, por exemplo, tem na memória os prolongados
invernos, com neve que chegava acima dos joelhos e o espectáculo
que era ver dali a paisagem coberta por um manto branco; mas também
os tórridos estios quando se mergulhavam os melões dentro
da água gelada da cisterna da Domus Municipalis para os manter
frescos.
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Campo
florido perto da Domus Municipalis
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Agora, em tempos de frigoríficos e para evitar actos de vandalismo,
a porta do monumento só abre a horas certas, recebendo os turistas
na sua atmosfera gelada, refrescante oásis durante o Verão
e um pesadelo nos meses frios, quando o vento se insinua constantemente
pelas janelas que enfeitam cada um dos cinco lados do edifício.
Com uma forma de pentágono irregular, a sua singularidade não
se limita à arquitectura, de que é exemplar único
em toda a Península Ibérica. De origem misteriosa, os
historiadores não conseguem datar com precisão a época
da sua construção. Enquanto alguns autores a situam
no século XII, outros defendem a teoria de que terá
sido erguido no século XV, sendo o seu estilo românico
civil tardio. Outras teses chegam a atribuir-lhe uma raiz romana ou
grega. Ao certo, sabe-se que foi sobretudo um importante reservatório
de água, com um subterrâneo composto por uma cisterna
abobadada - a "Sala d'Água" -, tendo o piso térreo
sem divisões e com uma bancada de granito ao longo das paredes
- a Casa da Câmara" - servido como lugar de reunião
dos "homens bons" do concelho, a partir do século
XVI. Poderá igualmente ter albergado os peregrinos que rumavam
a Santiago de Compostela, já que a cidade era um importante
ponto de passagem.
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A
seu lado, formando um harmonioso conjunto, fica a Igreja de Santa
Maria, de fundações românicas mas completamente
reconstruída no século XVIII, na qual se misturam os
estilos renascentista e barroco. Enquanto no seu interior se destaca
a pintura do tecto, o exterior distingue-se pela bela fachada principal,
com colunas decoradas por folhas de videiras e cachos de uvas.
Junto à fachada oeste do castelo, abrigado agora por uma alameda
de grandes plátanos, encontra-se o velho pelourinho, onde eram
castigados os criminosos da época medieval. Curiosamente, a
coluna está assente sobre uma figura suíno-mórfica,
a que os locais chamam de "Porca da Vila", e que representa
um berrão. Os berrões eram um ídolo pré-histórico,
sendo o seu culto uma prática característica dos povos
transmontanos. O monumento é encimado pelo escudo das armas
de Bragança e um capitel do qual partem quatro braços,
cujas extremidades são decoradas com carrancas.
De
Brigantia a Bragança
Da
primitiva Brigantia, fundada cerca de dois séculos antes do
nascimento de Cristo, nada resta. Guerras entre árabes e cristãos,
com os consequentes saques e destruição, arrasam por
completo a povoação que na época se dividia em
dois núcleos distintos: um situado no lugar da actual cidadela
e outro no vale onde agora se encontra a Sé. Em 1130 volta
a ser reconstruída por ordem de Fernão Mendes, cunhado
de D. Afonso Henriques. Cinco décadas mais tarde D. Sancho
I concede-lhe foral mandando erguer a fortificação,
indispensável na zona de fronteira do jovem reino. O castelo
surge então no lugar de Benquerença, pertencente aos
frades beneditinos do Mosteiro de Castro de Avelãs. Em finais
do século XIV a vila é oferecida como dote por D. Fernando
I a uma das suas cunhadas, irmã de D. Leonor Teles. Finalmente,
Bragança torna-se ducado em 1422, tendo como primeiro duque
D. Afonso, filho ilegítimo de D. João I e genro de Nuno
Álvares Pereira. Com o correr dos anos, o burgo torna-se próspero
e nove anos depois D. Afonso V eleva-o finalmente à categoria
de cidade, a pedido do segundo duque, D. Fernando. Ironicamente, nenhum
dos membros da Casa de Bragança alguma vez ali estabeleceu
residência. Enquanto o primeiro Duque preferiu construir o Paço
Ducal nas suas propriedades de Guimarães, os nobres seguintes
escolheram o clima ameno do sul, habitando o Paço de Vila Viçosa.
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Domus
Municipalis e Igreja de Sta. Maria
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Entretanto,
os séculos XV e XVI vêem surgir na cidade um importante
centro de manufactura de tecidos de luxo como veludos e damascos.
A sua fama era tal que se comparava "a doçura das carícias
femininas ao toque dos veludos de Bragança". Simultaneamente,
a fortaleza situada no alto da colina da Nossa Senhora do Sardão,
ia sofrendo constantes restauros. No reinado de D. Afonso IV (1325-57),
são atribuídas à vila as terças das igrejas
da região "para repairamento dos muros". Este facto
é confirmado numa carta escrita por D. Fernando, onde afirma
que a cerca está deteriorada e a requerer muitos trabalhos,
finalmente levados a cabo em finais desse século. A Torre de
Menagem é então construída, numa obra que demora
30 anos a concluir. De arquitectura gótica, distinguindo-se
pela elegância as janelas em ogiva, ameias e seteiras, as suas
linhas apresentam semelhanças com alguns castelos ingleses,
do mesmo período.
Histórias de guerreiros e princesas
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Sala
da 1ª Grande Guerra, no castelo
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Ainda
dentro do recinto da fortaleza, mas encostada ao pano de muralha,
ergue-se a enigmática Torre da Princesa, de base quadrangular
e linhas simples. Era aí que habitavam os governadores e alcaides
do castelo, não sendo utilizada para fins militares. O seu
nome, de origem desconhecida, deu azo a diversas lendas e histórias
populares. Os relatos estendem-se no tempo, tendo como protagonistas
as personagens históricas de Dona Brites, Dona Sancha e a bela
Leonor, infelizes vítimas de amores não correspondidos,
maridos ciumentos ou intrigas da corte. Talvez por ter um final feliz,
a mais conhecida é a que relata o amor secreto entre Diana,
sobrinha do senhor do castelo, e Ricardo, cavaleiro que partiu para
as cruzadas em busca de glórias que o tornassem digno de esposar
a jovem. Dez anos se passaram e vendo que a sobrinha recusava todos
os pretendentes e que nenhum argumento a demovia de esperar, toda
a vida se necessário fosse, D. Hermenegildo resolve utilizar
um último estratagema. Disfarçando--se de fantasma,
aparece uma noite no quarto dizendo que é a alma de Ricardo,
morto em combate, e que a liberta da sua promessa. No mesmo instante
uma luz intensa ilumina a alcova, assustando o pretenso espírito
que desiste dos seus intentos. Dias depois, Ricardo regressa vitorioso
e o casamento realiza-se.
O
castelo que assistiu a ferozes batalhas, se insurgiu ao lado do povo
contra o domínio filipino, viu chegar bravos soldados empunhando
a primeira águia napoleónica que os franceses perderam
em território peninsular, vive agora em merecido descanso.
Extinto em 1958 o Batalhão de Caçadores n.º 3 que
o ocupava, alberga actualmente o Museu Militar, nos cinco pisos da
Torre de Menagem. Percorrê-los é ficar a co-nhecer um
pouco mais da nossa História e ter oportunidade de reflectir
como todo o equipamento bélico usado era afinal tão
inofensivo, se comparado com as novas armas de destruição
maciça. Vale a pena começar pela cripta para descer
a acanhada escada de caracol até às antigas masmorras.
O primeiro piso, além da cisterna, apresenta, na Sala do Gungunhana,
interessantes artefactos utilizados por diversos povos africanos e
a história do célebre chefe tribal que ousou desafiar
o poder colonial em África. A partir do segundo piso, as exposições
sucedem-se por ordem cronológica, num total de 14 divisões,
desde a Sala D. Afonso Henriques até à Sala da Primeira
Guerra, estando patente em cada uma delas o armamento utilizado na
época correspondente. Assim, às cotas de malha medievais
seguem-se as bestas e armaduras quinhentistas, as espadas e mosquetes
do século XVII, as carabinas e sabres do século seguinte.
O primeiro conflito mundial termina a extensa colecção,
com uma série de fotografias e postais mostrando soldados portugueses
na frente da batalha.
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A
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A
Torre de Menagem, gótica, distingue-se pela elegância das janelas
em ogiva, ameias e seteiras. As suas linhas apresentam semelhanças
com castelos ingleses |
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B
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A
muralha que cerca a Cidadela é recortada por ameias e acompanhada
pelo caminho da ronda, possui 15 torreões em forma de cubo e
duas portas |
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C
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Fachada
da Igreja de Santa Maria, cujo portal barroco é ladeado por
colunas salomónicas e quatro nichos |
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D
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A
Domus Municipalis, exemplar único da arquitectura civil em toda
a Península, foi utilizada como cisterna, lugar de reunião e
abrigo de peregrinos |
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E
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O
pelourinho medieval assenta sobre uma escultura pré-histórica
a que os locais chamam de Porca da Vila. Além das Armas de Bragança,
é enfeitado por quatro carrancas com uma figura humana, um cão
e uma ave |
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