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   XLRotas & DestinosDestaque > A boa vida basca


D E S T A Q U E Janeiro de 2006   
   
De carácter distinto entre si, Bilbau, San Sebastián e Vitoria-Gasteiz – as capitais das três províncias do País Basco espanhol – exibem um urbanismo e museus notáveis, obras arquitectónicas arrojadas e uma cozinha de vanguarda. Longe do cinzentismo de outros tempos, fizeram da cultura um dos motores da sua economia, e dão ao visitante uma lição sobre “as coisas boas da vida”

Texto de Sara Raquel Silva e fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   

P U B L I C I D A D E
O País Basco, região autónoma espanhola, é no mínimo enigmático. Os seus habitantes possuem características genéticas singulares, distintas de todos os povos vizinhos, sendo desconhecida a sua origem, apesar da multiplicidade de teorias divergentes que os associam tanto ao Cáucaso como ao Norte de África. A língua que falam – o Euskara – não é menos misteriosa; além de imperceptível a ouvidos forasteiros, supõe-se que seja muito anterior ao latim introduzido pelos romanos, não pertencendo ao tronco dos idiomas indo-europeus praticados no Velho Continente.

Mas não são apenas estas curiosidades antropológicas que justificam a visita ao País Basco – ou Euskadi, em Euskara. Esta é uma das paragens mais interessantes de toda a Espanha, tanto pela genuinidade do seu interior rural como pela vivacidade de Bilbau, San Sebastián e Vitoria--Gasteiz. Com uma qualidade de vida invejável, onde se come como em mais nenhum lugar no país, e se lavam as vistas com projectos de arquitectos tão conceituados quanto Norman Foster ou Frank Gehry, as capitais das províncias de Biscaia, Guipúzcoa e Álava demonstram que os tempos cinzentos da ditadura da indústria pesada – e mesmo de Franco, que castigou a região como nenhuma outra – já lá vão.

Os bascos apostam, actualmente, no sector dos serviços, na tecnologia de ponta e no embelezamento das suas urbes, tendo como objectivo atrair o maior número de turistas. Os resultados estão à vista: em 2003 o PIB per capita foi 7% superior ao da Europa dos 15 e o nível de vida na região, diz-se, é o mais apetecível de toda a Espanha, além de que a população possui um dos mais altos níveis de escolaridade do país.

O que mais poderá surpreender e, talvez, agradar a um viajante português por estas bandas, é que, se na hora de arregaçar as mangas os bascos são tão empreendedores e fleumáticos como qualquer norte--europeu, quando se sentam à mesa, quase batem o apetite dos latinos pela conversa, pelo vinho e pela boa cozinha. Não será por acaso que o nosso dito “Pão pão, queijo queijo”, tenha como equivalente, em basco: “Al pán pán, al vino como locos”!


Bilbau, cidade Cinderela
Vista geral de Bilbau
O arrojado Gran Hotel Domine, desenhado por Javier Mariscal
O Guggenheim
Renegada, ainda na década passada, pelos tons sombrios que invadiam o ar que respirava e as fachadas dos seus edifícios, Bilbau é hoje uma cidade limpa e vibrante, atraindo anualmente milhares de viajantes.

A razão de mudança tão radical deve-se à crise que assolou a capital da Biscaia, nos anos 80, fruto do esgotamento das suas minas e da mecanização e deslocalização dos estaleiros, que há mais de um século a tinham transformado na maior e mais produtiva das cidades bascas.

Só lhe restou uma solução: reinventar-se, apostando no turismo e serviços. Lavaram-se as fachadas dos edifícios, levantaram-se novos monumentos e cultivaram-se jardins onde antes proliferavam contentores e estaleiros. O resto já lá estava, mas passava despercebido no meio de tanta fuligem: bons restaurantes e centenas de bares e lojas, em edifícios memoráveis de uma cidade com características sobretudo neo-românticas, mas com graciosos vestígios românicos, góticos e art déco. Entretanto, os postais tradicionais do Arenal, da Ponte Colgante e do centro histórico foram substituídos pelos do Guggenheim de Frank Gehry, do metropolitano de Norman Foster, da ponte de Calatrava ou do Palácio Euskalduna, do madrileno Frederico Soriano.

Vila de Zarautz, perto de San Sebastián
A mudança foi tão rápida e radical que, conta Mariano, o nosso guia, “nós que vivíamos aqui há décadas, nem tomámos consciência”. Quem vinha de fora é que não parava de exclamar a beleza dos monumentos, do centro histórico, dos museus… “E um dia”, confessa orgulhoso “acabámos por perceber que Bilbau se tinha transformado numa cidade efectivamente bela”.

Triângulo das artes
Foi a construção do Guggenheim, em 1997, o primeiro passo, ou antes, a primeira medida de política concertada para transformar a cultura no motor da economia da cidade. E funcionou: só no primeiro ano atraiu três vezes mais visitantes do que o esperado e, há que admitir, catapultou Bilbau de novo para a ribalta – no que é chamado actualmente “efeito Guggenheim”.


Vários detalhes da cidade, da tradicional Ponte Colgante às animadas ruas do centro histórico


O edifício, uma sinfonia ondulante de titânio, cujas tonalidades variam a todos os instantes consoante a luminosidade do dia, merece uma visita por si só. Encerra, no entanto, admiráveis colecções de arte contemporânea e um dos mais conceituados restaurantes da cidade. Por outro lado, atraiu à zona ribeirinha onde foi construído – a Abandoibarra –, um sem-número de bares, hotéis, restaurantes e até novos equipamentos culturais. De todos, o Palácio Euskalduna, galardoado com o prémio Enric Miralles, é o mais marcante. Foi inaugurado em 1999 para acolher grandes congressos e os melhores bailados e concertos graças à sua excelente acústica, quase competindo na sumptuosidade com a obra de Gehry. Incentivado pela nova e crescente concorrência, até o antiquíssimo Museu de Belas-Artes, situado a poucos metros (com um espólio vasto que vai do românico à arte contemporânea) foi ampliado, tendo reaberto ao público em 2001.


Mas a lista de inaugurações e novas construções não se fica por aqui – a ponte pedonal concebida por Santiago Calatrava (chamada de Zubizuri, ou Ponte Branca) situa-se precisamente nesta área. Como uma teia cintilante de cimento armado, liga as margens da ria que atravessa a cidade, por sua vez percorridas por dois grandes passeios fechados ao trânsito. Aliás, toda a zona ribeirinha que acompanha o Eskalduna e o Guggenheim foi ajardinada e adornada com esculturas de Eduardo Chillida, Ángel Garraza e José e Zugasti, que usaram nas suas obras apenas o ferro, o bronze, a pedra e o aço, no intuito de estabelecerem a ligação entre o presente e o passado industrial de Bilbau.

Próximo do local encontram-se, ainda em fase de construção, o Auditório Principal da Universidade do País Basco e a Biblioteca da Universidade de Deusto, ambos desenhados por Rafael Moneo. Definitivamente, a zona industrial do século passado transformou-se no pulsar cultural da cidade actual.


A arte e luxo de bem dormir

A acompanhar a reestruturação urbana da cidade e a afluência de um novo tipo de viajante mais sensível à estética e às tendências da moda, a oferta hoteleira de Bilbau – na sua maioria sóbrios hotéis de negócios – sofreu transformações significativas. Pela primeira vez começou-se a falar em design, e, até, em cinco estrelas (sem contar obviamente com o Carlton, um clássico de Bilbau, desde o início do século XX). A maioria encontra-se, claro está, nas imediações de Abandoibarra.

O Gran Hotel Domine, um cinco estrelas da cadeia Silken, inteiramente desenhado por Javier Mariscal (desde o projecto de arquitectura ao mobiliário, passando pelos quadros das paredes e demais pormenores decorativos), foi um dos pioneiros. A funcionar desde 2002, situa-se mesmo em frente ao mais famoso edifício da cidade, proporcionando, quer de parte dos seus 131 quartos, quer da biblioteca ou do terraço, uma panorâmica privilegiada sobre o Guggenheim.

Detalhe do lobby do Gran Hotel Domine, integralmente desenhado por Javier Mariscal. Situa-se mesmo em frente ao Guggenheim e foi o primeiro hotel de design de Bilbau, concebido em homenagem ao engenho de Frank Gehry
Os seus cinco pisos foram concebidos em homenagem ao engenho de Frank Gehry, pelo que no interior dominam as linhas curvas e, nos exteriores, grandes janelas espelhadas reflectem os inconfundíveis contornos de titânio. Elegante e sofisticado, foi, no ano de abertura, a coqueluche da cidade, eleito por celebridades como Sophia Loren e Diana Ross.

Menos sumptuoso, mas igualmente bem cotado é o Hotel Miró, membro da associação Design Hotels, inaugurado um ano mais tarde, mesmo no quarteirão ao lado. Com traço da arquitecta Cármen Abad e design de interiores do estilista António Miró e da decoradora Pilar Líbano, este quatro estrelas possui a sua própria colecção de fotografia de artistas consagrados, integrando-se perfeitamente no novo espírito da cidade. Destinado a agradar a uma clientela cosmopolita e descontraída, os seus cerca de 50 quartos em tons de branco e negro, apesar despojados, revelam-se extremamente funcionais e confortáveis. Como seria de esperar não lhes falta o leitor de DVD, a televisão com écran plasma e ligação wireless à Internet grátis. Os espaços públicos – o bar, a sala de pequenos-almoços e a biblioteca – possuem igualmente mobiliário minimalista de autor e recantos intimistas, proporcionando o convívio entre os hóspedes, característica que o distingue agradavelmente de outros hotéis, tão luxuosos quanto impessoais.

Café do Hotel Miró
Porto da povoação piscatória de Getaria

Carmelo Gorrotxategi, chef do restaurante Garrotxa, com uma estrela Michelin
No ano passado, foi a vez da cadeia Sheraton inaugurar mais um hotel de luxo – o Sheraton Bilbau. Desenhado pelo arquitecto Ricardo Legorreta e inspirado nos trabalhos do escultor basco Eduardo Chillida, este cinco estrelas encontra-se recheado de obras de arte contemporânea e modelos de barcos antigos espanhóis. Os quartos amplos e confortáveis privilegiam o vidro, a madeira e a pedra, e o edifício, apesar de parecer demasiadamente maciço a partir do exterior (possui 220 quartos e 15 suites), proporciona vistas soberbas a partir dos quartos situados nos últimos andares. Outro dos pontos fortes do Sheraton é o restaurante, o Aizian. Serve cozinha basca contemporânea, sob a orientação do chef José Miguel Olazabalaga, cujo restaurante Andra Mari, em Galdácano, conta com uma estrela Michelin desde 1982.

Aromática Plaza Nueva
Ao contrário das congéneres cidades industriais britânicas, os bilbaínos não se esqueceram de como se cozinha. E, apesar de não arrecadarem tantas estrelas Michelin quanto os gourmets de San Sebastián, garantem uma oferta de restaurantes significativa.

Escultura que marca a entrada no renovado Museu de Belas-Artes de Bilbau
Praça do centro histórico
Desde os vanguardistas como o do Guggenheim, o Zortziko e o Arbolagana, aos mais tradicionais como o Guria e o Gorrotxa – e isto só para nomear os favoritos da alta cozinha de Bilbau –, a escolha é farta. Nós experimentámos o último, um clássico entre os clássicos, dirigido pelo experiente chef Carmelo Gorrotxategi, galardoado com uma estrela Michelin. O lagostim, tenro e suculento, a delicada pescada no forno com gambas, e o aromático linguado recheado com fois e molho de trufas transformaram as refeições das semanas seguintes nos mais entediantes actos de sobrevivência.

Mas se os restaurantes da cidade são uma instituição, os bares não ficam atrás. É que os bilbaínos partilham de um prazer comum a todos os bascos, pelo que observámos – o de txikitear. Ritual praticamente diário, consiste na arte de ir saboreando pequenas doses de petiscos – os pintxos – de bar em bar, na companhia de amigos. É frequente que cada grupo tenha uma rota definida, para que cada um dos convivas saiba do paradeiro dos companheiros e se possa juntar ao grupo, consoante a disponibilidade do dia. Só após este sagrado momento de convívio é que cada um se dirige a casa para… jantar (nós abdicámos de semelhante prazer à “terceira rodada”)!
Boulevard, um dos cafés onde os bilbaínos se reúnem para saborear pequenas doses de pintxos ou petiscos

Por toda a cidade se pode degustar esta cozinha em miniatura, existindo até roteiros de pintxos, estabelecidos mediante o seu tipo de confecção e ingredientes: os clássicos, os modernos, os de vanguarda, os de produtos do mar, os de enchidos...

Um dos lugares mais procurados nesta odisseia gastronómica é a Plaza Nueva, belíssima porta de entrada no centro histórico da cidade, recentemente requalificado. Homens idosos e de meia-idade com a boina característica, mães de família, jovens executivos ou mesmo estudantes tatuados, todos se reúnem aí ao entardecer de copo de rioja, cidra ou txakoli (vinho branco regional, muito leve e ligeiramente ácido) na mão. Os bares variam no estilo da decoração mas, mais quadro, menos candeeiro, não passam, na maioria dos casos, de velhas tasquinhas, onde os lugares sentados nunca são suficientes e o balcão parece o melhor lugar para cruzar conversas e escolher os petiscos mais suculentos.

Um dos muitos jardins de Vitoria-Gasteiz, a capital política do País Basco, distinguida com frequência pelas suas políticas ambientais
Uma das paragens mais populares, a casa Victor Montes, situa-se precisamente nesta praça. Com vários pisos, onde se encontram distribuídos o bar, o restaurante, a charcutaria e a adega, é uma verdadeira instituição em Bilbau, com uma lista de espera que ronda os dois anos. A fama ganhou-a nos anos que antecederam a inauguração do Guggenheim, graças à presença assídua de Frank Gehry. A cozinha clássica e caseira do Montes, inicialmente liderada pela mulher, antiga peixeira no Mercado da Ribeira e exímia cozinheira, é, de facto, excelente, mas consta que eram outras as especialidades cobiçadas pelo arquitecto: a cave possui milhares de garrafas, entre as quais alguns tintos de 1925, ano de nascimento de Gehry – e, dizem as más-línguas, que um dos hobbies favoritos deste senhor consistia precisamente em encontrar essas preciosidades e… esvaziá-las.

Vitória da vida boa
Ao contrário de Bilbau, desde há séculos uma cidade industrial, Vitoria--Gasteiz, a capital da província de Álava e capital política do País Basco, desde sempre foi lar de uma burguesia enriquecida pelos negócios das então Índias Espanholas. Nos últimos anos proletarizou-se, cresceu exponencialmente, e passou a acolher o parlamento da Comunidade Autónoma Basca. Contra as expectativas (ou más-línguas) soube não só guardar o encanto do passado – graças a um meticuloso planeamento urbanístico – como transformar-se numa das cidades espanholas com melhor qualidade de vida, onde 12% do erário anual se destina a financiar programas de desenvolvimento social.

Centro medieval
Exemplar de um baralho de cartas do curioso Museu Fournier de Naipes
Este ambiente de optimismo que se vive em toda a cidade reflecte--se no número crescente de estabelecimentos comerciais, concorridos por gente bem-disposta. Uma das ruas mais animadas é a Eduardo Dato, uma espécie de sala de estar ao ar livre dos vitorianos. Fechada ao trânsito e engalanada por dezenas de esculturas, reúne as melhores lojas, galerias de arte, bares, restaurantes e pastelarias da cidade, onde toda a gente parece “desaguar” ao entardecer.

Mas nem só de prazeres consumistas se faz o bem-estar dos 220 000 habitantes de Vitoria. A cidade é distinguida com frequência pelas suas políticas ambientais, possuindo 42m2 de espaços verdes por habitante (o que a torna numa das cidades mais verdes de toda a Europa), com cerca de 27 000 árvores espalhadas pelas ruas e outras 100 000 integradas em parques. Por outro lado, parte do centro é pedonal ou apenas acessível a velocípedes, disponibilizados gratuitamente no posto de turismo. Uma bênção para quem gosta de passear.


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