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   XLRotas & DestinosDestaque > Paris > Pequim


D E S T A Q U E Janeiro de 2007   
   
A Mercedes promoveu uma viagem louca entre Paris e Pequim. Foram 13.900 km percorridos ao longo de oito países, durante 28 dias. No entanto, a ideia não foi original. Realizada em 1907, uma prova entre Pequim e a capital francesa ainda hoje é recordada como a maior corrida da história do automóvel.

por Rui Faria
   

P U B L I C I D A D E

1
Paris > São Petersburgo
3550 km

A nova Europa
As chamadas Repúblicas Bálticas são países que ainda estão um pouco esquecidos, apesar da independência da Letónia, Lituânia e Estónia em 1991 e da respectiva integração na União Europeia em 2004. Desde finais da Idade Média até aos séculos XVIII e XIX, estes países foram importantes centros comerciais e culturais que deixaram palácios barrocos e neoclássicos agora recuperados. O centro histórico de Vilnius parece ter sido construído ontem, a antiga Riga convida ao passeio pelas suas ruas labirínticas com uma movida frenética, e a nova traça arquitectónica de Tallinn, que cresceu ao lado da sua cidade medieval, mostram que estes países têm um papel importante a desempenhar na Europa, tanto mais que, enquanto recuperam o passado, investem na modernidade tecnológica.
A maratona Mercedes começou em Paris, a mesma cidade que em 10 de Agosto de 1907 recebeu em delírio o conde Scipione Borghese, vencedor da corrida Pequim- -Paris. No dia 21 de Outubro, a caravana composta por 50 Mercedes E320 CDI reuniu-se no Champ de Mars, junto à Torre Eiffel, onde teve lugar a partida. O percurso seguiu por Nancy, que justificou uma paragem para visitar o seu centro histórico, classificado pela UNESCO. O primeiro dia terminou em Estugarda, junto do novo museu da Mercedes.
No dia seguinte foi marcante a passagem por Beyreuth, uma cidade de culto para os “wagnerianos” que anualmente ali se deslocam para os grandes festivais de música. O final da jornada teve lugar junto da Porta de Brandenburgo, onde a “Cortina de Ferro” dividiu a Alemanha. Hoje é o símbolo da nova capital do país reunificado, uma cidade em permanente mutação, justificando uma visita prolongada. Varsóvia, já na Polónia, foi o destino de um dia onde a paisagem começou a mudar, dando lugar às grandes florestas. Entretanto, a caravana descobriu a capital de um país em que o passado e o futuro estão de mãos dadas – cenário evidenciado nesta cidade onde os edifícios históricos surgem lado a lado com novas edificações.

Na Rússia, os circos surgem em todo o lado, num país onde as zonas rurais são muito pobres (em cima), contrastando com a monumentalidade de cidades como São Petersburgo (ao lado).
Quem sai de Varsóvia a caminho da Letónia não pode deixar de ficar surpreendido com a região de Puszcza Biala. Perdeu-se muito do património histórico da antiga Prússia, mas a paisagem faz esquecer a ausência de monumentos. Vilnius, a capital que se orgulha tanto por ser considerada a “Itália do Báltico”, como dos mais de 1500 edifícios históricos que têm vindo a ser recuperados desde a sua independência, justificou a visita, apesar do frio e da hora tardia da chegada... Depois foi a vez da Lituânia e de Riga, cidade que também aposta na renovação do seu património histórico, que os anos passados com a integração no império soviético fizeram degradar e até mesmo arruinar.

Depois de dois dias em que a caravana seguiu a chamada via Báltica, uma estrada que liga Varsóvia ao Golfo da Finlândia, no sexto dia de viagem rumámos à Letónia. O percurso para Tallinn teve por cenário uma estrada dominada pelo verde dos abetos. Desde a independência, em 1991, a recuperação dos edifícios dos grandes mercadores do século XVIII no centro histórico da cidade foi reconhecida como Património da Humanidade pela UNESCO. Ainda assim a Estónia não fica parada a contemplar o passado, sendo um dos países europeus mais evoluídos ao nível das tecnologias de informação, onde os parques de estacionamento são pagos por telemóvel e a votação nas eleições é feita pela Internet.


No caminho, a caravana passou por Berlim, seguindo pelas autobahn alemãs
A primeira grande provação desta aventura surgiu em Narva, a fronteira entre a Estónia e a Rússia. Um rio separa os dois países e um castelo em cada margem mostra que foi um local de disputas territoriais. Quem pretenda atravessar o rio é visto como um invasor, que os “defensores” combatem com resmas de papéis para preencher, assinaturas e carimbos. Assim, perdemos cerca de cinco horas antes de termos autorização para seguir. Para além da burocracia, prova de que o país continua longe da Europa, as estradas estão mal pintadas, têm mau piso e o trânsito é caótico... um cenário facilmente esquecido quando chegámos ao centro de São Petersburgo. A zona histórica da cidade parecia brilhar sob as luzes fortes que servem para sublinhar a beleza dos palácios da antiga capital dos czares. Estávamos noutro mundo.

2
São Petersburgo > Yekaterinburgo
2708 km

A caça ao euro
Conseguir um visto para a Rússia continua a ser semelhante a comprar um “segredo militar”. É necessário um “convite” do hotel pago à partida, e a burocracia não termina com o autocolante no passaporte. Chegar ao país de carro é visto como um acto de espionagem. Os funcionários do senhor Putin assumem toda a burocracia do mundo: papéis para preencher, carimbos fundamentais, perguntas e mais perguntas... Chatear o condutor acaba por ser uma forma de passar o tempo. No entanto, nas estradas, os polícias são mais expeditos. Omnipresentes, controlam tudo, e os excessos de velocidade são apetecíveis – se o condutor for estrangeiro, paga 10 euros e fica tudo arrumado...
Seguindo ao longo do rio Volga (em baixo), chegámos ao Kremlin de Kazan (na foto), onde a imponente mesquita destruída pelos sovietes é uma imagem da recuperação do património de uma nova cidade
A segunda etapa começou com a ligação entre São Petersburgo e Moscovo. O oitavo dia de viagem passou por Veliky Novgorod, uma das mais antigas cidades da Rússia, orgulhosa das suas igrejas, mosteiros e do Kremlin (cidadela), classificados pela UNESCO. As zonas rurais que cruzámos são muito pobres, contrastando com Moscovo e, sobretudo, com a magnificência da zona circundante da Praça Vermelha, onde hoje, frente ao Kremlin, surgem das mais luxuosas galerias comerciais que se podem conhecer.

Na manhã seguinte, infelizmente sem tempo para descobrir a cada vez mais cosmopolita capital russa, a caravana rumou para Oriente, seguindo pela região de Vladimir. A beleza da paisagem, onde o rio Volga é um protagonista, confunde-se com a história de uma região rica culturalmente. O nosso destino era Nizhny Novgorod, uma cidade que se chamou Gorki quando o escritor Máximo Gorki foi convidado por Estaline a regressar à União Soviética (1932). Nessa altura era um local vedado aos estrangeiros, já que era ali desenvolvido muito do armamento nos tempos da “guerra fria”. Aproveitando este afastamento do mundo, foi ali que os soviéticos exilaram durante anos o físico Andrei Shakarov. Mas, se a cidade foi aberta ao mundo em 1991, os habitantes de Nizhny Novgorod continuam exilados numa cidade fora do tempo.

Kazan era o destino do décimo dia de uma viagem que prosseguiu pela República da Chuvásquia. Perto de Cheboksary, o rio Volga alimenta um enorme lago com 2274 quilómetros quadrados. Com a entrada na República da Tartária a qualidade das estradas melhorou radicalmente, apesar de a planície dar lugar a um terreno mais acidentado, mas a grande surpresa do dia estava reservada para a chegada a Kazan. Os Mercedes E320 CDI foram estacionando junto às portas do Kremlin, pelo que se impunha uma visita à cidadela. No interior, fomos surpreendidos pelo aspecto imaculado do restauro dos edifícios, mas também pela nova mesquita, reconstruída sob as ruínas da que havia sido destruída pelos sovietes, bem perto da igreja da Anunciação (património da UNESCO) com frescos fantásticos, apesar de a maioria ser cópia dos que foram vandalizados pelos soviéticos depois da tomada da cidade aos últimos fiéis da monarquia.

Entre Moscovo e os Montes Urais continuam a viver pessoas que parece não terem ouvido falar na queda do Muro de Berlim. Se ouviram, a sua qualidade de vida não se alterou muito
A história da cidade é muito rica, como se pode ver pelos sítios arqueológicos que recuperam a passagem dos mongóis de Gengis Khan no seu caminho para a Europa. A cidade está a ser totalmente reabilitada e é um prazer passear por ruas comerciais reservadas a peões e observar a variedade étnica da população.

Durante a manhã do dia seguinte prosseguimos para Oriente. As condições meteorológicas degradaram-se e, para além do vento forte, surgiu a neve em grande abundância. Não foi fácil chegar a Perm, uma cidade que não se libertou da imagem soviética, apesar de estar aberta ao mundo graças ao Transiberiano, a maior linha férrea do planeta, que liga Moscovo a Pequim desde o início do século XX. A noite não alterou a meteorologia, por isso ultrapassar os Montes Urais, que marcam a fronteira entre a Europa e a Ásia, foi tarefa complicada. Estávamos na Sibéria, e pouco mais à frente chegávamos a Yekaterinburgo, onde, em 1918, os bolcheviques mataram o czar e toda a sua família. Actualmente, o local da chacina é a atracção turística de uma cidade onde os sovietes esconderam as maiores preciosidades do Hermitage durante a Segunda Guerra Mundial.

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