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   XLRotas & DestinosDestaque > Paris > Pequim


D E S T A Q U E Janeiro de 2007   
3
Yekaterinburgo > Almaty
2492 km


Ao fim de 12 dias de viagem e cerca de 6300 km cumpridos desde a partida de Paris, a caravana dos Mercedes teve direito a um feriado em Yekaterinburgo. O dia foi passado a descansar e a passear por uma cidade que não tem muito para ver, nem sequer um comércio capaz de levar os estrangeiros a gastar dinheiro. No dia seguinte, os Mercedes E320 CDI voltaram à estrada, seguindo na direcção da fronteira do Cazaquistão.

Os Montes Urais tinham ficado para trás e a temperatura subiu ligeiramente nas planícies das “terras baixas” da Sibéria, enquanto seguimos caminho por Chelyabinsk, em plena região cossaca.
   
Mais à frente, em Troitsk, está situada a fronteira russa, onde percebemos que neste país é tão difícil entrar como sair. Contudo, do outro lado as coisas foram bem diferentes: no Cazaquistão as formalidades foram espantosamente fáceis e perdemos mais tempo a tirar fotografias com os militares do posto fronteiriço do que com os carimbos. Mais espantosa que a diferença de comportamentos, foi a alteração na paisagem. Praticamente no mesmo local onde se muda de país, a paisagem altera-se de forma radical. A fronteira física e a política confundem-se.

Ao entrarmos no Cazaquistão surge a grande estepe, que se estende até ao horizonte. É fácil perceber que este é um

P U B L I C I D A D E
país de grandes espaços, com uma área que é 7,6 vezes superior à da Alemanha, mas com uma densidade populacional reduzida. Chegados a Kostanai, descobrimos uma cidade que procura sair da ruralidade, apostando na modernização que o país pode pagar com os recursos do seu riquíssimo subsolo. Porém, as grandes surpresa estavam para chegar...

Astana fantástica
Astana é a nova capital que está a ser erigida no local onde antes apenas havia uma pequena cidade sem importância: Akmola. Em 1830 o seu nome foi alterado para Akmolinsk, por influência russa, e mais tarde passou a chamar-se Tselinograd, tendo sido alvo da política de repovoamento soviética, que passou pela instalação de deportados. Com a independência foi reassumido o nome cazaque, passando a ser a nova capital. Os governantes contrataram um arquitecto japonês para traçar o plano director, e convidaram arquitectos de renome internacional para desenhar os altos edifícios de aço e vidro que fazem com que esta cidade da Ásia Central possa ser comparada com o Dubai, e apontada por muitos como um exemplo de modernidade ao nível arquitectónico.
No Cazaquistão, o passado de igrejas como a de Balkhash continua a ser recordado pelos trajes regionais onde não falta a modernidade do telemóvel. Contudo, o ex-libris do país é a sua nova capital: Astana
No dia seguinte, uma longa tirada levou a caravana na direcção de Astana, a nova capital de um país que se tornou independente há 15 anos. A cidade impressiona pela sua modernidade, e pelo seu carácter multicultural, no qual há uma forte influência islâmica. Essa coexistência tem como imagem uma grande pirâmide de 62 metros de altura assinada por Sir Norman Foster. É a “pirâmide da paz”, sendo apontada como o novo monumento de Astana.

No 16.º dia de viagem seguimos para Balkhash. Foi o regresso à estepe, no caminho para o planalto de Betpak-Dala, conhecido como a “Estepe da Fome”, pois trata-se de uma região desabitada, tão vasta como a Hungria. Durante a Segunda Guerra Mundial, Estaline deportou para Betpak-Dala muita gente, entre os quais estavam 60 mil pessoas de origem alemã, cuja maioria não sobreviveu às difíceis condições.

O dia terminou junto ao enorme Lago Balkhash (620 km de comprimento) que, devido à morfologia do seu fundo, faz com que seja o único do mundo que tem metade da água doce e a outra metade salgada. A cidade, que tem o mesmo nome do seu lago, está como que isolada do mundo, vive das minas de cobre que estão à sua volta e para a indústria mineira.
Num país com um subsolo muito rico, a agricultura continua a ser o principal modo de vida para as populações das estepes, onde surgem novas igrejas com menos de dez anos
Quase ninguém aqui vem, pelo que a chegada da caravana da Mercedes foi um verdadeiro acontecimento. O pior é que, sem visitantes, Balkhash não tinha condições para nos receber. Deste modo, acabámos por ficar instalados em casas particulares, numa região onde o inglês é uma língua equivalente ao marciano, pelo que todas as tentativas de conversa terminavam em gargalhadas. Depois de uma viagem ao passado, a caravana regressou ao futuro na ligação para Almaty, uma metrópole moderna que foi a antiga capital e uma das maiores cidades da antiga União Soviética.

De Hami para Jiayuguan Pequim Urumaqi
Balkhash Korgas De Almaty a Yining
Moscovo Controle de velocidade Cordilheira de Tian Shan
  13.900 km foi a distância percorrida entre Paris e Pequim, na grande maratona da caravana dos Mercedes E320 CDI.

28 dias de viagem, dos quais três de descanso em Yekaterinburgo (Rússia), Almaty (Cazaquistão) e Lanzhou (China), contrastam com os 62 dias da corrida Pequim-Paris, realizada em 1907.

172h23m foi o tempo que vivemos no habitáculo do nosso Mercedes durante a viagem, o que equivale a mais de sete dias.
  Vistos Mais difícil do que percorrer a distância entre Paris e Pequim, foi garantir os vistos de entrada na Rússia, Cazaquistão e China. A burocracia começou antes da partida.

10 Euros parece ser uma taxa fixa para os estrangeiros apanhados em excesso de velocidade pelos muitos polícias presentes na estrada. Paga-se, não há papeis e fica tudo resolvido...

Países atravessados pela caravana foram oito: França, Alemanha, Polónia, Letónia, Lituânia, Estónia, Rússia, Cazaquistão e China
  27 furos foram os únicos problemas relevantes registados pelos 50 Mercedes E320 CDI que formaram a caravana. A fiabilidade mecânica foi notável numa viagem tão longa.

9600 garrafas de água foram consumidas pela caravana ao longo da viagem. Geralmente o almoço tinha lugar na estrada. Por isso, foram consumidas 8200 sanduíches e 8300 bananas.

Fronteiras foram sete ao longo da viagem. A pior foi a de entrada na Rússia. Tudo estava acordado com as autoridades, mas perdemos mais de cinco horas depois de sair da Estónia.
 

4
Almaty > Lanzhou
3115 Km

Pela rota da seda
Entre Korgas e Lanzhou, a viagem seguiu por caminhos da velha Rota da Seda, que, ao longo de milhares de anos, assegurou o comércio entre o Oriente e o Ocidente – e cujo principal ícone é Marco Pólo. É claro que esta estrada perdeu muito da sua importância quando Vasco da Gama assegurou o caminho marítimo para a Índia, garantindo uma via mais rápida para os mercadores. No entanto, as pistas da Ásia Central sobreviveram até 1916, altura em que foi inaugurado o Transiberiano, a linha férrea que uniu Moscovo e Pequim. Hoje, os comboios continuam a fazer o seu trabalho, mas as recordações do passado estão vivas em Korgas, o posto fronteiriço que foi um ponto de paragem no século VI. O mesmo acontece na fortaleza de Jiayunguan, ou na cidade de Lanzhou, que foi um cruzamento, com ligações para a Mongólia, para o Tibete e para a Índia.
Com 16 dias de condução e um só dia de paragem, a caravana teve direito a uma nova “folga”, que permitiu descobrir Almaty. Um descanso merecido, pois para aqui chegar percorremos oito países e quase 9000 km.

Na manhã seguinte, tomámos a direcção da cordilheira de Tian Shan, onde o desfiladeiro de Sharyn, com os seus 150 km de largura, é a grande porta de entrada na China. A paisagem é majestosa e a floresta tem uma fauna e uma flora muito variadas (depois da abertura da República Popular da China, a montanha passou a ser visitada por esquiadores e alpinistas). No caminho para a fronteira houve tempo para descobrir o lago Issy Kul, que, com 182 km de comprimento e 58 km de largura, é o segundo maior reservatório de água em alta montanha, depois do lago Titicaca, na América do Sul.


Korgas é o ponto seguinte na nossa rota. Trata-se de uma cidade fronteiriça, cujas primeiras referências remontam ao século VI, havendo muitos relatos do tempo em que surgia como um ponto de paragem na Rota da Seda. Na fronteira, a burocracia nem faz perder muito tempo, já que os passaportes até foram carimbados rapidamente, mas as exigências são tremendas. Os chineses obrigam os condutores a possuir uma carta de condução local – tudo estava tratado, mas era necessário recebê-las. Ao mesmo tempo, é obrigatório trocar as chapas de matrículas de todos os veículos por placas chinesas. Por isso, já era noite cerrada quando chegámos a Uyghur, uma cidade que é como que um grande centro comercial, e ainda estávamos a 80 km de Yining...

A poluição não deixa vez o azul do céu na maioria das cidades chinesas. É o caso de Urumaqi, rodeada por minas (à esq.), e de Lanzhou, nas margens do rio Amarelo (na foto)
A primeira jornada de viagem em território chinês levou--nos até Urmuki. Na província de Xinjiang, que tem uma área superior à da França, Itália e Alemanha juntas, a planura da estepe do Cazaquistão dá lugar à montanha. No 21.º dia de viagem, a Expedição Paris-Pequim seguiu por Dabancheng, onde surgem verdadeiras florestas de moinhos destinados à produção de energia eléctrica. Avançamos ao longo do imenso deserto de Taklamakan, onde a área de Portugal caberia por quatro vezes. No caminho, a caravana dos Mercedes E320 CDI passou pela depressão de Turfan, que está 150 metros abaixo do nível do mar. É uma região em que as temperaturas são altíssimas no Verão e a precipitação média não ultrapassa os 17 milímetros por ano, mas onde a população consegue produzir uvas e fazer vinho.

A cordilheira de Tian Shan (na foto) separa o Cazaquistão da China, um país que começa a recuperar sinais do passado como acontece em Bezelik, onde sobreviveram estátuas do Buda (em baixo). Muito próximo ficam pagodes chineses da dinastia Ming
As ruínas das antigas cidades de Gaochang e Jiaohe, destruídas pelas hordas mongóis no século XIII, e as grutas de Bezelik, onde sobreviveram as estátuas de Buda e os frescos da dinastia Tang (618-907 d.C.) surgem ao longo de uma estrada que também passa pelas “montanhas flamejantes” (Huoyan Shan), assim chamadas por a terra crestada pelo Sol abrasador assumir cor de fogo. No final da jornada chegámos a Hami, uma pequena cidade de 160.000 habitantes, popular pelos seus melões, alguns dos quais chegam a pesar mais de 15 quilos. Ao amanhecer seguimos o deserto de Alasham em direcção Jiayunguan, a antiga fortaleza que marca o ponto mais ocidental da grande Muralha da China, que acompanhámos durante o 23.º dia de viagem.

Com o passar dos quilómetros o deserto deu lugar a uma nova paisagem, mas tudo parece indiferente à passagem do tempo, embora a natureza tente aproveitar a erosão para apagar os mais antigos sinais da passagem do Homem. Mesmo assim, ainda é possível ver as ruínas da Grande Muralha no caminho para Lanzhou. Esta cidade é hoje como que um oásis de civilização para quem chega do Ocidente, pois em apenas 50 anos transformou-se numa metrópole de grandes torres, que se estende ao longo do rio Amarelo. No entanto, nas redondezas, ainda há quem habite casas escavadas na rocha das montanhas.

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