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   XLRotas & DestinosEstrada fora > Para lá do Marão

E S T R A D A    F O R A Janeiro de 2009   
   
Do Marão, que "não dá palha nem grão", sempre se ouviu que mandam os que lá estão. Assim seja, mas que ninguém se sirva do ditado antigo para acusar a região de pouco hospitaleira. De Mondim a Vila Real, de Vila Real a Chaves, encontrámos uma paisagem agreste, mas também esplendorosa, onde nunca faltou o calor transmontano.

Texto de joão miguel simões | Fotografia de Pedro Sampayo Ribeiro
   

P U B L I C I D A D E
Damos a partida para este périplo por Terras de Basto não na estrada, como seria de esperar, mas comodamente instalados. Inaugurado em Março de 2008, em Vilar de Viande, no Monte de Paradela, com vista desafogada sobre o rio Tâmega e o município minhoto de Celorico de Basto, o ÁguaHotels Mondim de Basto veio dar novo alento a uma região rural que beneficiava da proximidade do belo Parque do Alvão, todo ele densamente florestado e numa permanente sinfonia policromática devido à abundância de castanheiros, urze, azevinho ou medronheiros, e é uma surpresa para quem chega. E não falo tanto por se tratar de um segredo bem guardado, porque ao hotel, apesar de imberbe, não lhe falta já uma clientela fiel – oriunda não só de Portugal mas também da vizinha Galiza e Norte da Europa –, mas mais pela audácia da sua arquitectura, rectilínea e rectangular, e por conjugar a madeira, a pedra, o vidro e o aço com uma paleta a três tons: encarnado, preto e branco.

Com um total de 44 quartos e cinco moradias de tipologia T2, todas elas igualmente arrojadas, o Mondim Hotel dispõe ainda de spa, com serviço de um fisioterapeuta, de uma esteticista e uma nutricionista; de um “Santuário”, onde são realizadas provas de vinhos verdes e do Douro e dos produtos regionais; de um restaurante, sem dúvida um dos melhores de todo o concelho; e de uma vasta oferta de lazer, que passa por caminhadas no Parque do Alvão, prática de desportos radicais – tais como canoagem ou rafting – e pesca. Ou seja, pretende ser tão abrangente quanto possível,
ao ponto de poder ser encarado, por si só, como um destino.

CONTA-QUILÓMETROS

Dia 1 | 18 km
Mondim de Basto > Tejão > Figas de Ermelo > Ermelo
Saia de Mondim pela EN 304 em direcção a Vila Real, mas, antes de Ermelo, faça um pequeno desvio pelo Tejão através de uma estrada em terra.
De novo na EN 304, direcção Vila Real, mais um desvio, desta vez vire na placa onde se lê "Ponte Medieval". Para ir do Ermelo até às Fisgas de Ermelo é preciso utilizar uma estrada secundária.

Dia 2 | 142 km
Mondim de Basto > Lamas de Olo > Vila Real > Bisalhães > Vidago > Chaves
Seguindo pela EN 304 não são mais do que 74 km até Vila Real, mas ainda assim, e apesar de ser um percurso interessante, a nossa sugestão é que se meta primeiro pela 312-1 e em seguida pela 313, pois não vai gastar mais tempo e a paisagem compensa. De Vila Real até Chaves são 68 km. Tome a E801/A24/ IP3 em direcção a Viseu/Chaves, com saída na placa que diz Chaves. Continue até ao viaduto de Vila Pouca de Aguiar e saia em Boticas/Chaves. Apanhe a EN103, atravesse a Reboreda e está em Chaves.

Dia 3 | 0 km
Chaves
A nossa sugestão é que aproveite ao máximo o terceiro dia em Chaves, mas deve ter presente as seguintes distâncias para calcular a sua viagem de regresso: Lisboa a 466 km e Porto a 180 km.


Dia 1
Mondim de Basto > Tejão > Figas de Ermelo > Ermelo

Vila de pergaminhos antigos, encravada numa região de transição entre as paisagens minhota e transmontana, Mondim preserva uma aura de pacatez, mesmo durante os dias de semana, que lhe assenta bem. É ainda possível parar o carro e percorrer o seu dédalo de ruas a pé, já que nada do que (realmente) interessa fica muito afastado do seu pequeno centro histórico. Espreito a Matriz, passo pelos Paços do Concelho e procuro o portão da Casa do Eiró; é quanto basta para perceber que a vila está a passar por obras de requalificação, mas não faço orelhas moucas quando me sugerem que dê uma vista de olhos na Rua do Cavalo.

É uma ruela estreita e de traçado irregular que ainda hoje serve de passagem. Pitoresca a pérgula com folhas de videira por cima das nossas cabeças, bem junto à Casa das Morôas, um turismo de habitação anterior ao novo hotel da terra.

É, contudo, na Rua Velha que acho um brasão em pedra com as armas, bem no frontispício afilado, da Casa dos Azevedos, um dos muitos solares que ficaram para recordar a abastança antiga desta porção transmontana das Terras de Basto. Não resisto a admirar as cameleiras vergadas pelo peso dos seus botões carnudos, mas é à Adega de São Tiago que rumo sem mais demoras. Mudaram-se não faz muito tempo, mas o tempero e a hospitalidade são conhecidos e não é de agora.

Sinfonia de cores do Alvão. Um legítimo presunto de Chaves, hoje difícil de encontrar, e um belo exemplar da vaca barrosã. O Mondim Hotel surpreende na paisagem pela arquitectura rectilínea e por ter apostado numa paleta de três tons, como se pode ver no lobby


A casa enche às horas da refeição, pois as porções generosas e o cardápio regional, com preços muito abaixo dos praticados na grande cidade, agradam em cheio. Quando ali chego, detenho-me por momentos na tarte de gila tostada, acabada de sair do forno, e só depois reparo nos detalhes caprichados, como os poemas bordados nas toalhas de mesa ou os painéis tingidos com as cores do Alvão (a urze, a carqueja, o musgo...), que tornam o espaço mais acolhedor.

Num meio pequeno como o de Mondim, as pessoas estão interligadas por afectos, mas também pela necessidade de, juntos, ultrapassarem os custos da interioridade. Quem bordou as toalhas e idealizou a decoração da adega foi Fátima Martins, dona da Loja do Gato Fu. Casada com Miguel, que organiza passeios pedestres no Parque do Alvão, Fátima deixou Lisboa, e o seu emprego como comercial no jornal Diário de Notícias, para abraçar uma nova vida dedicada aos lavores e ao artesanato. Vejo-a bordar os panos de linho com as mesmas cores que, mais tarde, encontrarei na paisagem.

Mais do que servir Mondim de Basto, a primeira unidade da cadeia Águahotels veio beneficiar e potenciar ainda mais toda a região do Parque Natural do Alvão

De volta ao carro, meto pela EN 304 em direcção a Vila Real, mas, antes de Ermelo, um pequeno desvio pelo açude de Tejão. A paragem impõe-se para admirar os vales do Alvão, com a folhagem incandescente dos castanheiros a alastrar-se pelo tapete verde, e fazer a foto da praxe. É um cenário soberbo. De novo na estrada para Vila Real, mais um desvio, desta vez por altura da placa onde se lê “Ponte Medieval”. O sossego do quadro bucólico quase me faz sentir um intruso. Há urze nas gretas das lajes de pedra que descem até à ribeira, em cujas águas o arco da ponte forma um círculo perfeito, um espigueiro empertigado e um rebanho de cabras que exigiu prioridade na passagem. A ponte foi recauchutada em 2005.

Passo frente à entrada de Ermelo, mas ainda não é chegado o momento de entrar. Com o final de tarde a aproximar-se, subo até às Fisgas de Ermelo, um lugar altaneiro e ventoso onde o Alvão nos reduz à escala humana. Mais do que os fiapos de água soltos pelo rio Olo, impressiono-me com as garras afiadas e os blocos imponentes de granito, com a fúria do vento e com o balir das cabras montanhesas.

E, finalmente, o Ermelo. Os últimos raios de Sol invernal permitem-me um primeiro contacto com a vida comunitária que ainda perpetua muito do que já foi, e ainda é, Trás-os-Montes. Subo até onde posso, para enxergar com desafogo os vales de lameiros e matas, mas também para pairar sobre o casario com telhados negros de ardósia. Tarda a cair o breu profundo, os lampiões acendem-se ainda antes da plenitude do lusco-fusco.

Há algo de fantasmagórico nestes lugares perdidos. Há algo de abandono. Há algo de terrivelmente poético e de inexplicavelmente belo. Assim o sinto.

Onde ficar

ÁguaHotels Mondim de Basto – Mondim de Basto, www.aguahotels.pt
Diárias a partir de €65 em quarto duplo.
Inaugurado em Março de 2008, combina hotel, spa e ainda a possibilidade de arrendar, em família e/ou grupo de amigos, uma das cinco moradias à disposição.

Hotel Casino Chaves – Lugar do Extremo, Chaves, www.solverde.pt
Diárias a partir de €75 por quarto duplo.
Assume-se como um complexo turístico vocacionado para o lazer e para a diversão, conjugando espectáculos, gastronomia, salas de jogos e alojamento.


Onde comer


Adega de São Tiago – Zona Velha, Mondim de Basto, tel. 91 778 0841
Ambiente acolhedor e ementa regional onde pontuam especialidades como naco na pedra ou bacalhau com migas.

Terra de Montanha – Rua 31 de Janeiro, 18, Vila Real, tel. 259 372 075
As dornas e balseiros, usados como assentos e separadores de mesas, tornam o espaço especial. Boa cozinha e lista de vinhos cuidada.

Adega Faustino – Travessa do Olival, Chaves, tel. 376 322 142
Um edifício antigo que já foi serralharia, carpintaria e taberna, mas que funciona como restaurante de deliciosa comida regional. A D. Odete é a grande anfitriã da casa.



Dia 2
Mondim de Basto > Lamas de Olo > Vila Real > Bisalhães > Vidago > Chaves

“E aqui estou, envolto em nevoeiro, preservado, só. Rondam lobos no escuro, mas que importa! Quando a alma chega à sua fortaleza verdadeira, ao Nihil Sibi das fontes, que mais poderão querer dela os inimigos?” (Miguel Torga, quarto 204).

Acordo, vou à janela e afasto, de um arremesso só, as pesadas cortinas. Há nuvens, mas o Sol, teimoso, ameaça perfurar os maciços de nuvens e tudo pode acontecer. Tomo o pequeno-almoço quase colado às enormes vidraças, hipnotizado pelo contraste entre o verde da serra solitária, o azul da piscina deserta e o amarelo das espreguiçadeiras alinhadas, mas vazias. Há um riacho que cavou o seu leito no granito. É hora de dizer adeus ao Mondim Hotel e de me fazer, mais uma vez, à estrada.

Traço um caminho menos óbvio até Vila Real, primeiro pela 312-1, em seguida pela 313, que me há-de permitir desfrutar de uma paisagem atávica, com planaltos a maior altitude, onde tudo, ou quase tudo, é ainda rústico, simples, silencioso e duro. Rodo por lugares como Bobal ou Lamas de Olo, onde muitos praticam uma agricultura de subsistência e se ocupam do gado.

Uma chuva miudinha recebe-me em Vila Real. Ancorada entre as serras do Marão e do Mesio, na encruzilhada trasmontana, esta cidade maronesa tem crescido a bom ritmo, em grande parte acelerada pelo pólo universitário e pelos imperativos económicos, mas conserva uma graça que lhe vem de construções como as casas antigas, com as típicas adufas (balcões ou sacadas) em madeira, que podem ainda ser apreciadas na Rua dos Ferreiros, ou a Capela Nova, cuja fachada ornamental se deve a Nicolau Nasoni (o arquitecto italiano do Palácio Mateus – edição de Outubro de 2008).

Terras de clima agreste, este é o tipo de escapada onde o frio pode servir de desculpa para se deixar tentar e levar pela saborosa gastronomia transmontana

É numa rua contígua à capela que encontro o restaurante Terra de Montanha. Pouso aconchegante, revela-se uma escolha acertada para o almoço, pois não só pratica uma cozinha esmerada como possui ainda a originalidade de ter convertido adornas e balseiros em assentos. Quando deixo Vila Real, já um feixe tímido, mas insistente, ilumina a tarde. À saída, e além de Mateus, merece um desvio rápido a povoação de Bisalhães, onde há várias décadas mestres oleiros tentam perpetuar a tradição do barro negro, oriundo de Parada de Cunhos.

Doce y Salgado, em Chaves; casario de Ermelo; ponte medieval; e restaurante do Águahotels Mondim. Verdadeiro ex-líbris de Chaves, a Ponte Trajano é também, ainda hoje, uma porta de entrada e de saída da chamada capital do alto Tâmega


O resto da rota até Chaves há-de ser feito sem sobressaltos. Pelo caminho pode parar em Vila Pouca de Aguiar, onde fica a capela e miradouro de Nossa Senhora da Conceição, em Pedras Salgadas ou no Vidago, sendo certo que nestas duas últimas, se as termas ainda não estiverem abertas, não encontrará muito que fazer ou ver. Chego à cidade flaviense, também aclamada como capital do alto Tâmega, um pouco antes do lusco-fusco. Nem de propósito, é esta a hora mágica para aguardar na mais antiga das suas pontes – a de Trajano, que liga o centro antigo à freguesia mais recente da Madalena –, que os lampiões se acendam vagarosamente. Não sei se é da bruma, que entretanto baixa, se do ar frio e espesso impregnado de um odor adocicado a madeira ardida ou se da donzela de olhar absorto nas margens, mas logo ali, naquele preciso instante, me perco de amores por Chaves.


Dia 3
Chaves
A localização do ainda recente Hotel Casino, junto à saída da A24 para Chaves e apenas a oito quilómetros da fronteira, não foi fruto do acaso. Estamos perante um complexo turístico polivalente, que impressiona pelo seu gigantismo e pela tamanha capacidade e ofertas.


Os espigueiros, em melhor ou pior estado de conservação, continuam a pontuar a paisagem transmontana e são agora alvo de uma maior atenção
A arquitectura “fria” de Rui Lacerda tem um contraponto bastante interessante, e até inesperado, na decoração concebida por Fernando Marques de Oliveira, que não hesitou em recorrer a cores arrojadas como o laranja, o encarnado ou o preto. Este é, portanto, um hotel policromático, mas sóbrio q.b., com pormenores interessantes que nos remetem para o jogo – até mesmo nos 72 generosos quartos e seis suites, com vista para a cidade ou para a montanha.

A Solverde tem a concessão do casino por 25 anos, com direito a 50% das receitas, e é óbvio que essa é uma aposta nada aleatória no que distingue este hotel, mas, quem assim o desejar, pode fazer a sua vida sem se deixar tentar pelas máquinas e mesas de jogo, pois não faltam recantos simpáticos como o bar-esplanada panorâmico, uma sala de estar com uma biblioteca trompe-l'oeil e, para os dias de calor que hão-de vir, uma vasta área ajardinada com piscina exterior.

Quando está a todo o vapor, o que acontece durante os fins-de-semana, o Hotel Casino Chaves pretende ser uma alternativa credível de animação nocturna, com espectáculos, bares e um pólo gastronómico. Aliás, neste capítulo o buffet de pequeno-almoço acrescenta uma nota muito positiva ao saber integrar especialidades locais como os deliciosos pastéis recheados de carne. De toda a forma, há vida lá fora e Chaves não é cidade para ser vista a correr.

O conjunto das suas termas continua a ser uma atracção e tanto; não só pela antiguidade das mesmas, como pode ser atestado nas escavações no Largo de Chaves (permitindo comparar a sua imponência às de Bath, em Inglaterra), como também pela sua qualidade.

As termas, que figuram entre as melhores da Europa, permanecem
um cartão de visita importante de Chaves, mas a cidade não quer ficar
adormecida à sombra do passado

Rica em monumentos e paisagens, Chaves preserva núcleos históricos como o bairro à volta do castelo, que nos traz à lembrança a Alfama lisboeta, ou como as ruas Direita e de Santo António. Paralelas, estas duas artérias são das mais castiças e movimentadas, sendo que na primeira se encontram várias casas que ostentam ainda as varandas originais em madeira.

E é precisamente numa travessa à Rua de Santo António que fica a Adega Faustino. Na mesma família há mais de 90 anos, o que é hoje uma tasca típica não passa despercebida. O pé alto da casa não engana, pois o amplo espaço já fez as vezes de armazém de pipas e o senhor Faustino não só abastecia as adegas locais como passou a vender vinho a copo ao balcão. O mesmo balcão entretanto convertido em pièce de resistence, a par do chão calcetado e das mesas com toalhas axadrezadas, onde D. Odete faz as honras do estabelecimento. É também graças a ela que as batatas caseiras chegam crocantes, bem como os pastéis de bacalhau fritos na hora, a farinheira e o chouriço a rebentar de sabor na boca e a costeleta de vitela barrosã a desfazer-se de tão tenra. Para rematar, o inevitável toucinho-do-céu ou a aletria.

Sala do Hotel Casino de Chaves; Loja do Gato Fu; castanha “made in” Trás-os-Montes; Casa dos Azevedos, Mondim. Trás-os-Montes é um dos maiores produtores de castanha, pelo que as suas árvores, sobretudo no Outono, incendeiam o Alvão de cores flamejantes


Uma nota de nostalgia a encerra: quem trouxer na cabeça a imagem dos presuntos de Chaves, às dezenas, dependurados nos tectos, vai partir com uma amarga desilusão. Não está em vias de extinção, mas as normas comunitárias, e outras vicissitudes económicas, ditaram o fim desta prática e tornaram missão quase impossível regressar com um presunto inteiro na mala.


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