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 FBNet > Rotas & Destinos > De Maputo a Bazaruto

Reportagem - Moçambique

De Maputo a Bazaruto

Terra de contrastes, Moçambique mostra-nos
o melhor e o mais terrível de África. Paraísos naturais, olhares de orgulho e sorrisos rasgados são
o pano de fundo de um país que, apesar das situações de carência, é um destino turístico em alta.



A narração começa, pausada e sem emoção.
Paulo Tomás recorda a cobra que um dia ao lusco-fusco se passeou pela aldeia, "grande como uma jibóia, com dois metros de largura e quatro de comprimento, quase pré-histórica". Ninguém sabe dizer de onde veio o bicho mas, do que ninguém duvida, é que se trata de uma encarnação das forças do mal.

Nakatembo interrompe, diz qualquer coisa em shangana - um dos dialectos da região -, e Paulo Tomás lembra a outra aparição. Dois dias antes de a cobra se ter passeado pela aldeia tinha aparecido um "homem com cabeça de leão". Paulo Samuel Kankhomba é o nome da aldeia onde nos contam esta história. Nakatembo Bernardo é o jornalista moçambicano de 28 anos que nos acompanha na visita, Paulo Tomás um dos anciãos.

José Tomás Maquidade, o curandeiro da terra, era o homem com quem vínhamos falar.
Há uma hora que o esperamos, sentadas nas cadeiras que nos foram buscar e colocaram debaixo de uma árvore. Os habitantes da aldeia estranham as duas mulheres brancas e demoram a aproximar-se, também porque assim o mandam as regras. Marcos Saté é o primeiro a fazê-lo, com a sua camisa branca velha e gasta. O lábio fendido, com uma ferida feia, arranjou-o numa queda. "Olá, bom dia. Como está?", digo-lhe. "Kanimambo. Normal, não sei por aí." A resposta traduz-se: "Obrigado, vai-se andando."

Já estávamos a andar há mais de uma hora quando, escondidas por trás de umas arruinadas construções de pedra e cal, avistámos as palhotas da Paulo Samuel Kankhomba. O nome foram-no buscar ao de um antigo combatente da Frelimo, figura histórica da luta de libertação nacional. Não podia ser mais adequado: os homens mais velhos que aqui vivem são todos antigos militantes da Frelimo, ex-combatentes da guerra da Independência.

Apesar de ficar a apenas cerca de trinta e cinco quilómetros de Maputo demorámos quase quatro horas a lá chegar. De manhã, muito cedo, tínhamo-nos dirigido para a baixa da capital moçambicana para aí apanharmos o machimbombo (nome local das camionetas) para Boane, uma pequena vila situada a trinta quilómetros. Os outros cinco fizemo-los a pé, os primeiros quinhentos metros em alcatrão, depois por uma picada tão larga quanto uma via rápida.

À medida que nos íamos aproximando, Nakatembo começava a ficar tenso. Fora ele quem divulgara os estranhos acontecimentos por que esta aldeia tem passado nos últimos quatro meses e vem agora confirmar novas informações, fornecidas pelos seus familiares que aqui residem. A história está enredada em magia negra.

As velhas construções de pedra e cal pertenceram, antes da guerra, a uma empresa de produção agro-pecuária. Havia animais domésticos, produzia-se milho e a população vivia bem. Com o início da guerra civil a empresa foi à falência e as instalações ficaram ao abandono.
Agora, os empresários italianos que querem explorar os trezentos e setenta hectares que rodeiam a aldeia estão a deparar com estranhos obstáculos.

Maquidade chega finalmente de Maputo, onde tinha ido tratar de uns assuntos, mas não deixou a capital sem beber mais um copo para o caminho. Veste uma camisa azul, que usa por fora das calças, e nos pés tem apenas umas meias cheias de pó. Depois da longa espera, acaba por ser Paulo Tomás quem nos conta a história num português intercalado com shangana: Maquidade não está suficientemente sóbrio.


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