[Senegal:
E África Aqui Tão Perto...]
A
influência gaulesa é imediatamente aparente no primeiro
contacto que se tem com Dakar percorrendo as largas avenidas
centrais da capital, ladeadas de mangueiras, fica a sensação
de uma cidade francesa transplantada para África. Mas, apesar
de conservar bom número de edifícios e monumentos dos
tempos coloniais, Dakar é sobretudo uma cidade moderna, sofrendo
como tantas outras do flagelo do crescimento explosivo (com cerca
de dois milhões de almas, a capital do Senegal vive a um ritmo
que só não é frenético porque o relaxado
carácter africano funciona como eficaz contra-peso).
Jazendo três quilómetros ao largo de Dakar, a ilha de
Gorée foi o primeiro poiso dos europeus em África. Hoje,
a ilha é Património da Humanidade por razões
inversas das habituais em vez de celebrar algum triunfo do
espírito humano, ela é um monumento à infâmia
de que este é capaz. De facto, Gorée ganhou sinistra
fama por nela serem concentrados os escravos antes de serem expedidos
para o Novo Mundo, em condições tão inumanas
que, calcula-se, um terço apenas das dezenas de milhões
de africanos obrigados a embarcar para as Américas chegou com
vida ao destino.
Em
Gorée, o principal testemunho dos três séculos
e meio que durou este tráfico infame é a Casa dos
Escravos. Trata-se de um edifício do século dezoito
aliás bonito, com a sua escadaria em crescente duplo
, no piso térreo onde eram enjaulados os escravos,
enquanto no andar superior os senhores europeus tratavam placidamente
da gestão do negócio do "ouro negro".
Especialmente acabrunhante é a Porta do Não-Regresso,
que dava para o cais onde acostavam os navios negreiros, e junto
à qual, recentemente, tanto o Papa como Bill Clinton fizeram
mea culpa pelo papel desempenhado na escravatura pelas instituições
e valores que representam.
Felizmente,
tudo o resto em Gorée contribui para aliviar o nó
no estômago que causa a visita à Casa dos Escravos:
a bonita arquitectura colonial da ilha, enfeitada de coloridas buganvílias,
uma série de outros edifícios históricos (entre
os quais se conta a Igreja dos Portugueses, o edifício mais
antigo de Gorée, datando de 1482), o todo imbuído
por uma atmosfera relaxada, que faz da ilha um local muito procurado
pelos moradores de Dakar durante os fins-de-semana.
A muitos títulos, porém, a cidade mais interessante
do Senegal é Saint-Louis, que foi até à independência
a capital colonial da África Ocidental Francesa. Situada
no extremo norte do país, junto à fronteira com a
Mauritânia, Saint-Louis desenvolveu-se a partir de uma ilha
no estuário do rio Senegal, onde se instalaram as primeiras
feitorias europeias. Esta ilha, chamada NDar, constitui hoje
o encantador centro histórico da cidade, a ela se acedendo
através da histórica ponte Faidherbe, uma relíquia
da engenharia industrial.
Continua a ser um retrato fiel de Saint-Louis a descrição
que dela fez, há cem anos, o escritor-viajante francês
Pierre Loti "Uma velha cidade branca, plantada de
raras palmeiras amarelas; (
) Uma igreja, uma mesquita, uma
torre, casas à mourisca: tudo isso parece dormir sob o sol
ardente." Saint-Louis parece de facto ter decidido parar
no tempo e viver à sombra do seu antigo esplendor, impressão
que se intensifica partindo-se à sua descoberta em caleches
puxadas por burros pachorrentos.
Arquitectonicamente, a principal riqueza de Saint-Louis são
os grandes comptoirs (entrepostos) coloniais. Tipicamente com dois
pisos, varandas corridas e vastos pátios interiores, estes
edifícios cumpriam em simultâneo as funções
de armazém, estabelecimento comercial e habitação
dos negociantes europeus e seus servos. O problema da avançada
degradação de boa parte deste património único
pode, felizmente, ter fim anunciado Saint-Louis apresentou
já a sua merecida candidatura a Património Mundial
da UNESCO, com boas hipóteses de aprovação.
Falar de Saint-Louis é falar ainda do palco de momentos históricos
dos anos dourados da aviação.
De
facto, a 10 de Maio de 1927, um hidroavião sob o comando
do famoso piloto francês Jean Mermoz logrou a proeza de voar
sem escala entre Toulouse (França) e Saint-Louis do Senegal.
Inaugurava-se assim uma linha aérea postal que, no ano seguinte,
o mesmo Mermoz prolongaria até ao Brasil, voando de Saint-Louis
até à cidade de Natal, na costa brasileira. Tendo
vivido estes eventos com paixão, Saint-Louis guardou-os indelevelmente
na memória; em particular, o lendário Hotel de La
Poste, onde se instalava Jean Mermoz, é um testemunho vivo
do ambiente romântico da época.
Não lhe faltando um museu, centros culturais, galerias de
arte e artesanato, cinemas e até um festival internacional
de jazz, que se realiza anualmente em Junho, Saint-Louis é
decididamente a cidade mais cool do Senegal. Saint-Louis constitui
ainda a base de partida ideal para a descoberta de dois dos principais
tesouros da natureza senegalesa: o Parque Nacional de Djoudj, considerado
o mais importante santuário ornitológico da África
Ocidental (é Património Mundial da UNESCO) e o Parque
Nacional La Langue de Barbarie.O primeiro, situado 60 quilómetros
a nordeste de Saint-Louis, estende-se por 60 000 hectares pantanosos,
onde no Inverno se refugiam milhões de pássaros migradores
do Norte da Europa. Particu-larmente notável é a colónia
de pelicanos brancos que frequenta Djoudj, com cerca de 6000 casais,
à qual se juntam, entre Outubro e Abril, números impressionantes
de cegonhas, garças, patos e centenas de outras espécies.
Como imaginado por um ornitologista, o Paraíso não
deve diferir muito do Parque Nacional de Djoudj.
O Parque Natural La Langue de Barbarie centra-se na ponta da estreita
restinga de areia que limita a embocadura do rio Senegal, 20 quilómetros
a sul de Saint-Louis. Além da avifauna marinha local, este
santuário protege também tartarugas marinhas, centenas
das quais aí vão desovar, e ainda macacos, chacais
e outros animais terrestres, os quais podem ser observados ao palmilharem-se
os trilhos que partem das margens da reserva.
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