Rituais - Circuitos Temáticos
Chegas
de Bois no Barroso
As "Chegas" de bois são uma antiga tradição das
terras do Barroso, no coração de Trás-os-Montes, onde ainda hoje
as heranças do passado são levadas muito a sério, repetidas ao longo
do tempo com o mesmo entusiasmo do passado.
Durante séculos os planaltos que estão para além
dos montes que a leste os separam do Minho estiveram como que isolados
do resto do país como o atesta o velho adágio que refere que "para
lá do Marão, mandam os que lá estão".
As
tradições culturais destas gentes, que ainda hoje denotam uma herança
celta, floresceram numa vasta região onde o próprio relevo marca
perfeitamente o contraste com a região do Alto Douro a que esteve
politicamente associada em virtude da divisão administrativa de
1936.
O clima e a morfologia do solo condicionam claramente
as actividades rurais de populações que viveram durante anos entregues
às suas tradições mais antigas que perduraram até hoje em muitas
aldeias comunitárias. É o caso das festas dos Rapazes ou a Festa
de Santo Estêvão (Rotas & Destinos de Dezembro de 2000), misturas
exóticas entre o religioso e o pagão, que evocam os deuses em favor
de colheitas fartas, ou as "Chegas de Bois" que ainda hoje perduram
nas Terras do Barroso.
As Terras do
Barroso
A região a nordeste de Trás-os-Montes delimitada pelos concelhos
de Montalegre e Boticas é uma zona de serranias e planaltos, tendo
nas serras da Altura (1279 metros) e Leiranco (1115 metros) as elevações
mais pronunciadas de uma zona sulcada pelos rios Cavado e Tâmega,
que com os seus afluentes permitiram irrigar os campos, onde surgem
vestígios da ocupação humana que remontam ao período Neolítico bem
patentes nos dólmens da região de Carrasedo do Alvão.
Os vestígios de alguns castros remetem-nos para
a cultura pré-romana. Como curiosidade, refiram-se as culturas graníticas
encontradas perto de Montalegre e que estão depositadas no Museu
Leite de Vasconcelos em Lisboa, conhecidas por "guerreiros lusitanos".
Durante
a reconquista cristã da península, Trás-os-Montes esteve integrado
na Galécia. Mais tarde, já após a fundação da nacionalidade, as
terras do Barroso cresceram em importância como o atesta o foral
que lhes foi concedido a Montalegre por D. Afonso III.
As populações das Terras do Barroso dependem
da sua actividade agro-pastoril em terras probres onde se cultiva
o centeio e a batata que juntamente com o gado ovino e caprino fazem
a "riqueza" de pequenos agricultores.
Como em toda a região de Trás-os-Montes, a vida
comunitária tem raízes muito profundas, embora hoje estas tradições
comecem a ser apenas uma recordação dos mais velhos que nos falam
das assembleias populares (conhecidas por "coutos") que dividiam
tarefas, organizavam a vida e até chegaram a administrar a justiça
local.
O mesmo acontece com os fornos comunitários,
utilizados por todos os habitantes de uma localidade, os "rebanhos
do povo", que à vez eram entregues à responsabilidade de cada membro
do povoado, os pastos comuns ou o "boi do povo".
O gado bovino da região tem características
específicas que levaram ao reconhecimento da raça barrosã, que passa
por ser a primeira a ter uma identificação de origem no nosso país.
Estes animais "de estatura meã com alturas da
ordem dos 1,20 metros" foram utilizados desde sempre como animais
de trabalho, bem como para a alimentação, fazendo por isso parte
do património comunitário das mais diversas aldeias da região.
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