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Rituais - Circuitos Temáticos

O "boi do povo"
São os "bois do povo" porque são um bem comunal, já que se alimentam em pastos que pertencem a todos, recebem feno, centeio e água que são de todos, e pernoitam numa casa ("corte") que faz parte do património de todos os aldeões.

Anualmente, um pastor "arrematava" o boi que cuidava durante um ano. Quando o animal chegava à idade adulta (cinco ou seis anos) tornava-se no orgulho dos seus proprietários e, por isso, motivo de discussões entre povoações vizinhas com cada uma a defender a maior pujança do seu animal. Estas disputas terminam irremediavelmente numa luta entre os animais - as "Chegas" - que visavam distinguir o campeão. No entanto, muitas vezes antes de uma "Chega" há um confronto preliminar entre os dois contendores que é realizado às escondidas. Para que isso aconteça, o "boi do povo" de uma aldeia é por vezes raptado, uma tarefa que nem sempre é fácil, quer pelos cuidados que cada pastor coloca na guarda do seu animal, quer pela bravura do próprio animal, que geralmente é agressivo face a desconhecidos. Mas, em alguns casos, há a conivência entre as duas aldeias que decidem confrontar dois animais para atestarem se estão prontos para poderem realizar a "Chega" pública. Caso o resultado seja positivo, estão reunidas as condições para a realização do confronto, o que deve ser acordado seguindo um certo ritual: os "rapazes" de uma aldeia dirigem-se, geralmente ao domingo, à aldeia que pretendem desafiar.

As "regras do jogo" exigem que o desafio não seja directo. Os visitantes devem referir, de uma forma evasiva, a possibilidade da "Chega", ao que os outros devem responder da mesma forma, mesmo que o seu "boi do povo" seja o campeão coroado em outros confrontos.

O passo seguinte depende da aldeia que foi desafiada, uma vez que a decisão faz parte da tradição comunitária. Tem de haver um escrutínio em que é exigida uma maioria absoluta para que a decisão seja tomada. Caso contrário, gora-se a hipótese de realização da "Chega".

Se o desafio é aceite, os responsáveis das duas aldeias iniciam os planos para a realização da festa, que se deve acontecer a meio caminho entre as duas povoações.

A escolha do terreno também é motivo de discussão, já que apesar da "Chega" ter obrigatoriamente que se realizar em "terreno neutro", a meio caminho entre as duas localidades, o tipo de piso é muito importante para o desenrolar do confronto.

Os proprietários de um animal jovem tentam que a escolha recaia sobre um piso duro, enquanto que os donos de um animal mais velho tentam assegurar um piso mole, menos desgastante para o seu boi, que geralmente é mais pesado.

Definido o local da "Chega" é necessário tratar das autorizações junto das autoridades que são pagas a meias por cada uma das aldeias.


A "Chega"
Chegado o dia aprazado, os dois bois são conduzidos ao local onde são colocados frente a frente. Invariavelmente, o campo da "Chega" estará a abarrotar de gente, quer sejam os proprietário dos animais em liça, quer simples curiosos de outros lugares das cercanias que acorrem ao chamamento de uma festa que a todos faz vibrar.

Os animais em presença medem-se sob o olhar atento dos curiosos e os incitamentos das duas comunidades que se revêem nos "bois do povo". Os dois possantes machos rapidamente se enfrentam. Investem, afastam-se voltam a lutar, entrelaçando os seus enormes chifres, empurrando-se com violência, mostrando a sua força e a sua bravura.

A "Chega" pode ser rápida ou prolongada, caso os contendores sejam do mesmo gabarito. Em qualquer dos casos, o entusiasmo dos assistentes é indiscritível.

O final da "Chega" pode acontecer quando um dos bois foge, assumindo a derrota ou quando um dos animais é ferido pelas investidas do seu opositor. Para os seus proprietários são momentos de euforia, quase de glória. O animal vencedor passa a ser quase venerado pelos seus proprietários. Há exemplos de aldeias que veneraram de tal forma o seu campeão que lhe erigiram estátuas no belo granito da região, como aquela que chegou a surgir no frontispício do campanário de Travassos do Rio.

Um animal vencedor é igualmente cobiçado pelas aldeias vizinhas, tornando-se num cobridor que irá render alguns lucros suplementares aos seus donos.

Se também esta tradição já não é hoje o que era, os homens das Terras do Barroso continuam a vibrar com o mesmo entusiasmo face a qualquer uma das "Chegas" que se vão realizando por ocasião das festas anuais de cada povoação, sendo actualmente uma evocação folclórica que logrou subsistir à passagem dos anos e ao esquecimento do dia-a-dia comunitário das gentes do interior transmontano.

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