Isolada
pelas montanhas, barricada atrás de lagos sucessivos, abandonada pelas
vias rápidas, envolta em nevoeiro, chuva e neve. A região do Barroso
é um território de florestas misteriosas, onde os uivos do lobo não
são um mito; de bruxas e feiticeiros que se juntam em encruzilhadas
e estranhas. Não é terra para homens, mas também lá existem. É Trás-os-Montes,
e não é bem
Texto
e fotos de António Sá
Campos
de lameiros
A
região do Barroso é diferente de tudo o que conheço, e até o castelo
de Montalegre parece reforçar a atmosfera de conto medieval quando
a Torre de Menagem surge a pairar na neblina da manhã. Ou à noite,
quando das suas ameias parte o pio de um mocho solitário para as ruas
húmidas e desertas. À luz de pleno
dia, dissipada que está a névoa, tudo parece retomar o ambiente normal
de uma pacata vila de interior. Os pequenos estabelecimentos comerciais
animam-se com a chegada de clientes vindos das aldeias vizinhas, enquanto
a praça do município é cruzada por homens de chapéu de feltro, em
trânsito por causa de papeladas e outros afazeres legais. Pouco depois
é a vez de uma torrente de crianças e adolescentes desaguar nas ruas
junto às escolas, mal os primeiros autocarros abrem as portas ao ar
frio da manhã.
Tal
como no longínquo ano de 1273, altura em que obteve o seu primeiro
foral, a povoação continua a desenvolver-se a sul do castelo, no alto
de um morro com vista para o vale onde corre um Cávado ainda jovem;
é como se os seus habitantes quisessem, ainda hoje, escudar-se com
o granito da velha torre de uma qualquer iminente invasão espanhola.
A
realidade, porém, é bem diferente. As afinidades com as gentes galegas
para lá do Larouco são tão antigas quanto a própria fundação da vila
e, se recuarmos um pouco mais, vemos até que se trata do mesmo povo.
Esta é uma daquelas regiões da Península cuja soberania tardou em
definir-se e que, uma vez decidida, nos deixou casos curi osos.
Veja-se o exemplo de Tourém, a aldeia mais setentri
Vilarinho
de Negrões, junto à albufeira do Alto Rabagão
onal
do concelho: situa-se no final de um estranho apêndice formado pela
linha de fronteira; para lá chegar é preciso percorrer um
longo trajecto, subir a um planalto, passar a crista da serra (com
marcos fronteiriços de um e outro lado da estrada) e descer ao fundo
do vale; as aldeias vizinhas - Requiás, Maus de Salas, Calvos, Paradela,
Randín - são todas galegas e fazem- -lhe um cerco quase completo;
e se daqui quisermos visitar o povoado lusitano mais próximo, não
há como fazer cerca de 12 quilómetros… para trás.
Éden
transmontano
Chegaremos
então a Pitões das Júnias, isolada de vizinhos, portugueses ou espanhóis,
mas também ela cercada: de um lado pelos possantes cabeços graníticos
da Serra do Gerês, do outro pela vastidão do planalto da Mourela,
acima dos 1000 metros de altitude.
Na
região do Barroso vive-se uma atmosfera de conto medieval,
onde parece que o tempo teima em não avançar
A
história do local remonta ao século XII, época em que foi fundado
o mosteiro beneditino de Santa Maria das Júnias, hoje em ruínas. Do
conjunto ficou a igreja românica e umas quantas secções da construção
monástica, encostadas à ribeira de Campesinho e às fileiras de bétulas
que na margem a vão guiando encosta abaixo. É um sítio belíssimo,
capaz de levar à contemplação e longas meditações até o mais incrédulo
dos homens.
Poucas dezenas de metros e uma cascata a jusante, quando a esta ribeira
se junta uma outra chamada de Beredo, mergulhamos num carvalhal antigo
onde deambulam alguns dos corços e lobos que existem na região; mas
vê- -los exige alguma sorte e muita persistência. Neste lugar, digno
da imaginação dos irmãos Grimm, ergueram-se em tempos as casas da
Aldeia Velha do Juriz - Sancti Vicencii de Gerez, para usar a terminologia
medieval - que certamente testemunharam a passagem e descanso de muitos
peregrinos com destino a Santiago de Compostela. A rede de abrigos
para os que rumavam àquele santuário era tão eficaz que não deixa
de ser curioso verificar que o mosteiro de Júnias, sobranceiro à primitiva
aldeia, se encontrava à mesma distância do de Santa Maria de Bouro
e ao de Celanova, já na Galiza: uma jornada de 35 quilómetros.
A
Serra do Barroso tem uma força tremenda, de paisagens
insólitas, de fragas e florestas que se transformam
a cada estação
As
agrestes giestas e carquejas do planalto dão lugar a uma paisagem
mais verdejante, à medida que a altitude amansa para valores mais
baixos. Quem segue a estrada até Covelães irá deparar-se com um cenário
bem diferente, de vales verdejantes que pendem invariavelmente para
o leito de riachos e destes para rios cada vez mais encorpados. Os
lameiros são o produto da engenharia hidráulica rural, fruto de anos
de experiência e da necessidade de alimentar o gado - base da economia
barrosã - durante os meses de Inverno. Julgo que em nenhuma outra
parte de Portugal haverá tantos e tão bem concebidos como estes que
agora desfilam diante dos meus olhos: são quilómetros e quilómetros
de rectângulos viçosos, em socalcos suaves debruados a carvalhos e
vidoeiros, milhares de regos de água fresca habilidosamente desviada
e conduzida ao local pretendido. E, embora seja o resultado da manipulação
humana, é surpreendente observar a diversidade de vida silvestre que
este tipo de paisagem consegue sustentar.
Mesmo as albufeiras de algumas barragens, que nesta parte do país
existem em número inigualável, parecem concorrer para a improvável
simbiose homem/natureza, criando um habitat especialmente apetecível
para espécies como a lontra. Um caso particularmente feliz, pela sua
localização, mas também pelo seu reduzido tamanho e impacto, é o da
barragem de Sezelhe, próxima da aldeia com o mesmo nome. O espelho
de água resultante da retenção do rio Cávado desenha-se em curvas
tão suaves e integradas na paisagem que mais se assemelha a um lago
natural, daqueles que imaginamos mais facilmente num país escandinavo.
Os vidoeiros, no seu inconfundível tronco branco e ramos avermelhados,
ajudam à ideia, mas os carvalhos e a silhueta distante da Serra do
Larouco devolvem-nos o devaneio a terras bem portuguesas.
Terra de bruxas
Mosteiro
de Santa Maria das Júnias, fundado no século XII
Cambezes
do Rio é uma aldeia que fica um pouco mais a montante, na margem esquerda
do curso de água, que nesta zona leva ainda muita corrente. As suas
casas já perderam o aspecto profundamente rústico, de paredes de pedra
sobreposta e telhados de colmo, mas ainda lhe sobram alguns exemplares
de arquitectura tradicional, como o grande curral que se encontra
no largo da fonte. À volta, contudo, parece que o tempo teima em não
avançar. Os lameiros continuam a receber a visita diária das características
vacas de cornos enormes, acompanhadas pelos donos e um ou outro cão
atrevido. Em dias de Inverno é frequente ver os pastores munidos das
resistentes capas de burel, feitas numa lã quente e escura, que os
protege não só do frio como também dos aguaceiros mais persistentes.
Enquanto o gado pasta, mata-se o tempo a tricotar uma peça de lã ou
procurando míscaros e outros cogumelos, que por estas bandas são vistos
como uma cobiçada iguaria; para os que vivem na vila representam também
uma forma de diversão de fim-de-semana, uma espécie de vício incontrolável
que começa num carvalhal, de cesto na mão, e acaba quase sempre à
volta da mesa com a família e amigos.
Descarregar
abóboras em Montalegre
Talvez
seja a abundância de cogumelos e outros ingredientes naturais, mais
a pitada mística da atmosfera nestas paragens, que leva à reunião
de bruxas, curandeiros e outros praticantes das medicinas populares
em Vilar de Perdizes. Ou a existência, ali bem perto, de gravuras
rupestres e vestígios de cidades romanas, como se sabe, pretexto inesgotável
para todo o tipo de crenças e lendas.
Indiferentes
à agitação anual do congresso, as terras circundantes, para os lados
de Meixedo, são de uma calma imensa e relevo suave, de campos em pousio
e longos muros de pedra. A estrada é estreita e o seu traçado doce
parece brincar nas colinas, abrindo aos olhos renovadas surpresas,
a cada curva, a cada lomba. De vez em quando acaba-se o asfalto e
entra--se subitamente na calçada em granito de mais um povoado. E
lá voltamos a recuar no te mpo:
uma junta de bois a ranger em direcção às hortas, um velho cruzeiro
conquistado por líquenes, a água gelada que brota da fonte secular,
o ténue zumb
ir
de currais às moscas, porque o gado saiu logo pela manhã. Serraquinhos
é um pouco assim, tal como Arcos e Cervos - as aldeias que se seguem
nesta bucólica rota. A unilas, como ladrilhos de um mosaico gigante,
vêem-se rectângulos de terra, ora cultivados, ora abandonados, amarelos
do cereal seco, ou verde vivo das pastagens, mas sempre demarcados
por intermináveis fileiras de calhaus empilhados. Lá no meio, quase
invisível, circula também um labirinto de caminhos em terra ligando
as casas ao bosque de castanheiros, passando pelo cemitério isolado,
depois pelo ribeiro até se perder no monte junto a uma qualquer ermida
que só vê gente uma vez ao ano.
Tão longe, tão perto
Igreja
da aldeia dos Arcos
Mas
o que dá sentido e empresta o próprio nome a toda esta região é algo
de que ainda não se falou. A Serra do Barroso não chega aos 1525 metros,
nem tem o perfil bem delineado do Larouco; é pouco conhecida e apenas
a atravessam umas quantas estradas secundárias, quase sempre desertas,
e caminhos que hoje poucos estão para fazer a pé, no entanto, tem
uma força tremenda, de paisagens insólitas, de fragas e florestas
que se transformam a cada estação, a cada dia, quando mal se vislumbram
entre a densa humidade das nuvens ou acordam de branco da noite para
o dia; onde correm ribeiros nervosos, que rasgam a encosta em direcções
diferentes para acabarem, exaustos, nas águas plácidas da imensa albufeira
do Alto Rabagão. Na margem sul deste outro lago artificial encontra-se
Vilarinho de Negrões, uma das aldeias mais pitorescas de toda a região,
pelo seu casario ainda relativamente preservado e, acima de tudo,
por se encontrar sobre uma estreita e bela península - um pedacinho
de terra poupado à subida das águas; Vilarinho é assim uma terra que
se vê diariamente ao espelho e se distingue à distância pela sua perfeita
simetria.
Cemitério
do Mosteiro de Santa Maria das Júnias
Na
calma da manhã é possível observar alguns mergulhões de crista e outras
aves aquáticas que aqui costumam passar o Inverno, fugindo aos rigores
das latitudes mais a norte; à medida que os primeiros raios de sol
vão levantando, o nevoeiro e os vizinhos humanos começam a acordar,
afastam-se para uma pequena ilhota deserta formada por u m
enorme penedo. Mais uma vez teço comparações um pouco descabidas mas
inevitáveis, quando me vêem à memória imagens de lagos nas terras
altas da Escócia - onde tam bém
nadam estas aves, onde também se erguem ilhas das águas quietas, onde
também há montanhas frias, de contornos suaves. Mas não vale a pena
cortar asas à imaginação; afinal, esta é também uma peculiar virtude
das terras de Barroso: levar-nos para bem longe sem sairmos daqui
tão perto.