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D O S S I E R

Fevereiro de 2003
Entre a Beira e o Douro, na vila de Marialva, encontramos as Casas do Côro. Em pedra construída, esta unidade de turismo de aldeia esconde na paz do seu interior, decorado com esmero, o conforto e calor de um verdadeiro lar. Fazendo-se rodear pela força e romantismo da natureza e história, oferece um ambiente único que apetece partilhar...

Texto de Sara Raquel Silva
Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   


O Castelo, no alto do monte, em companhia de uma ou outra oliveira solitária anuncia, a quem de baixo tenta adivinhar o que o aguarda, o perfeito cenário de um épico histórico. De imediato se vislumbram cavaleiros de capa esvoaçante e espada em punho, ou a azáfama de um mercado medieval.

Decorados entre o clássico e o contemporâneo, todos os quartos da Casa do Côro são diferentes
Chegados ao destino, apesar da ausência de tais personagens, em nada a realidade desilude. Apenas acrescenta: ao invés das habitações da época, esperam-nos as Casas do Côro, um empreendimento de turismo de habitação, que, no meio de uma região já habitada pelos povos lusitanos, os Aravos, oferece o conforto de uma residência bem equipada do século XXI.

Comodidades bem-vindas, já que o final de tarde, ainda que soalheiro, pressagia uma daquelas noites estreladas e frias de Inverno beirão.

O ar puro de Marialva acalma qualquer citadino frenético que, perante o silêncio e placidez da natureza envolvente, é obrigado a deixar fugir as preocupações para bem longe. Apenas se escuta o chilrear, diria que lentíssimo, dos pardais e os urros longínquos de um burro.

O Castelo de Marialva
A noção do tempo vai-se esvaindo, talvez por culpa do Castelo, do século IV ou V, mesmo ali ao lado. Imaginamos como teria sido a vida daquelas gentes, como vestiam, como se pareciam. Mais abaixo, as casas de granito e as poucas pessoas que vão passando parecem habitar nesta aldeia histórica, desde sempre. Mas, despertados pelo frio e pela noite que ameaça cair corremos rumo à lareira da sala de estar, que chama por nós.

Conforto e bom gosto

Atravessada a porta vermelho-escuro, que contrasta com a pedra da fachada da Casa do Côro, entramos no mundo de Carmen e Paulo Romão, os proprietários. Esta unidade de turismo de aldeia compreende um edifício principal - com 5 quartos, uma suite, casa de jantar e sala de estar -, três pequenas habitações independentes, onde se desfruta de total privacidade - com um ou dois quartos e suite, sala e kitchnette - e ainda o amplo Casão do Largo, onde se realizam festas e eventos. Espaços decorados ao detalhe, em que o clássico e contemporâneo convivem em perfeita harmonia. Fruto de dois anos de pesquisa cuidada, visitas a leilões, antiquá-rios e galerias de arte.
A sala comum do edifício principal - a Casa do Côro - transmite um ambiente familiar. Incita ao convívio em torno da lareira, enquanto se assiste ao anoitecer e se remexe nos toros incendiados. Ou então a leituras sossegadas ou momentos de contemplação, recostados nos sofás mais afastados.
Requinte das refeições servidas nas Casas do Côro
Os tons que povoam os edifícios são o pastel e bordeau, os favoritos de Carmen. Nenhum quarto, no entanto, é igual ao outro, nenhuma tela ou cama se repete. Tudo nesta unidade foi concebido para evitar a frieza de um hotel ou a melancolia documental de um museu: pormenores como uma estátua antiquíssima de Santo António, fotos de família, e dezenas de candeeiros de parede que pontilham com uma luz velada os compartimentos, constroem uma atmosfera intimista e reveladora do gosto e personalidade dos seus decoradores. Os quartos, embora de pequenas dimensões, são confortáveis e convidam ao recolhimento. As pinturas contemporâneas contrastam com o classicismo do mobiliário e condizem com o design minimalista das casas de banho. Os tapetes de pura lã e os lençóis de algodão bordados lembram tempos antigos. Acolhedores, contrariam a natureza invernosa e agreste, que se observa das janelas.

Lá fora, as chaminés dos vizinhos fumegam, os vidros embaciam e somos capazes de jurar que nada nos levará daqui para fora.


Viver com a Aldeia

Ainda há cinco anos, onde estão hoje edificadas as Casas do Côro, podia observar-se um amontoado de pedras pertencentes a um casario abandonado. Paulo Romão quando se deparou com as ruínas não hesitou: apesar de só uma das casas estar à venda, conseguiu nessa mesma tarde de Verão adquirir os terrenos a cinco proprietários diferentes. Convinha salvaguardar espaço de manobra para a eventual expansão do empreendimento. Em 1998 começaram as construções de raiz, dado o estado de degradação das estruturas anteriores. O projecto foi entregue ao arquitecto Pedro Brígida, que procurou a sua integração na estrutura arquitectónica da região e o
A casa foi decorada ao detalhe, fruto de visitas a leilões, antiquários e galerias
maiorconforto possível dos interiores - daí a prevalência das madeiras sobre a pedra.

A funcionar desde Maio de 2000, o projecto já faz parte do quotidiano deste pequeno lugar. Emprega alguns dos seus habitantes, utiliza os produtos hortícolas aí cultivados e ajuda a dinamizar a vila, onde faltava lugar à altura para pernoitar. Ou para tomar uma refeição condigna. É que na Casa do Côro são também servidas refeições, mediante pedido prévio. Os pratos, deliciosos, são idealizados e confeccionados por Carmen, que reúne o que há de mais genuíno na gastronomia portuguesa com o requinte e toque de quem tem um dom especial. O bacalhau no forno, vitela no barro, grelos à pobre, compotas e um sem-número de doces e bolos à base de amêndoa, ovos, figo e requeijão são exemplos das iguarias irresistíveis, que aqui se podem degustar. Dietas à parte.
As Casas do Côro integram na perfeição a estrutura arquitectónica da região
A Loja do Côro, recentemente inaugurada, também ajuda a atrair turistas - este não é um local de passagem - e a escoar os produtos da região. Aí são comercializadas as compotas e doces feitos na Casa, amêndoas e vários tipos de mel da zona, vinagres aromáticos, vinho e azeite de primeira qualidade.
Para completar o empreendimento, está a ser construída uma última unidade - a casa da Pipa - onde funcionarão três quartos, duas suites, um Spa, sauna e piscina exterior aquecida.

No próximo Verão, as Casas prometem ser, além de um recanto acolhedor, um ponto refrescante em terras a que o tempo e história imprimiram o seu cunho de mistério. Perfeito para os que amam as coisas boas da vida.

Marialva

De visita à aldeia

Marialva é uma das dez aldeias históricas de Portugal, recentemente recuperadas (entretanto elevada a vila). Povoada pelos Aravos, povo lusitano, foi posteriormente conquistada pelos romanos, a que se seguiram os árabes, até à vitória final de D. Fernando Magno, em 1063. Em 1179 recebe a carta de foral de D. Afonso Henriques, tendo mantido uma actividade intensa- graças às feiras que aí se realizavam - até finais do séc. XVIII. Em 1855 foi extinta como concelho, tendo sido integrada dezassete anos depois no concelho de Mêda. Nesta povoação marcada pela guerra, devido à sua localização estratégica, é incontornável uma ida até ao Castelo, com as suas quatro torres. No interior das muralhas são visíveis, ainda, uma cisterna, o pelourinho e ruínas da antiga Casa da Câmara, cadeia e tribunal. A Igreja de São Tiago com o seu magnífico tecto pintado e a Capela da Misericórdia, apreciada pelo retábulo em talha, são verdadeiros tesouros construídos dentro do recinto muralhado. Depois, aprecie as vistas e passeie por esta pequena vila, de ruas estreitas e gentes hospitaleiras.

Actividades e sugestões

Para os espíritos mais activos há diversas actividades que complementam os passeios obrigatórios por Foz Côa, Museu da Ervamoira e aldeias históricas mais próximas (Castelo de Rodrigo, Almeida, Castelo Mendo, entre outras). As opções incluem vários circuitos pedonais e de bicicletas (alugadas na Casa), canoagem, rappel, slide e subida em balão de ar quente (actividades organizadas em conjunto com empresas de desportos radicais). Se solicitar com a devida antecedência, pode desfrutar de um passeio no Douro, preparado pela Casa, que propõe também fins-de-semana temáticos relacionados com a vida da aldeia, tais como as vindimas e apanha da azeitona, em que os hóspedes são chamados a participar nas tarefas. Quem partilhar do gosto pela caça, poderá fazê-lo numa reserva próxima, de que este empreendimento é sócio.


Guia de Viagem

Como ir

Do Porto: Apanhe a A1 até Albergaria, onde se toma a IP5 rumo a Viseu/Celorico da Beira. Atravesse esta última povoação até à EN 102, em direcção a Trancoso/Foz Côa. 20 kms à frente encontra um cruzamento, onde deve virar à esquerda para Marialva. Depois é só seguir as indicações para as Casas do Côro. De Lisboa: Apanhe a A1 até Torres Novas. Aí, saia para o IP6 em direcção a Abrantes/Castelo Branco, onde deve seguir pela A23 rumo ao Fundão/Covilhã/Guarda. Na Guarda apanhe a IP5 até Celorico da Beira e siga as indicações para Trancoso/Foz Côa. 20 km à frente encontra um cruzamento, onde deve virar à esquerda para Marialva. Depois é só seguir as indicações para as Casas do Côro.


Onde comer
Nas Casas do Côro, mediante pedido prévio, são servidas refeições deliciosas, que incluem uma entrada, sopa, prato principal e sobremesa. O preço de cada menu completo é de æ 30 mais as bebidas. Em Mêda recomendamos o Restaurante 7 e meio (tel. 279 883 272), onde se encontram diversos pratos de carne e peixe a æ7/8 a dose. Em Trancoso, destacamos o restaurante Área Benta (tel. 271 817 180), um espaço sofisticado, com algumas especialidades da região, também a æ 7/8 a dose.

Preços e contactos
O preço de um quarto duplo varia entre os 75 e 110 euros. O das casas entre os 125 euros e os 340, mediante o número de pessoas, dia da semana e época do ano. As suites oscilam entre os 125 e 280 euros, por noite. O pequeno-almoço está incluído em todas as tarifas. Aconselha-se a efectuar as reservar com um mínimo de dez dias de antecedência durante o ano e com três meses de antecedência em épocas especiais. Pode contactar as Casas do Côro através do telemóvel: 91 7552020, fax: 271 590 003 ou mail: casa-do-coro@assec.pt. Para mais informações consulte www.assec.pt/casa-do-coro.

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