D
E S T A Q U E

Empurrado
pela necessidade e pelo destino, Fernão Mendes Pinto acaba por passar
cerca de 21 anos no Oriente. Por mar, por terra e, sobretudo, pelas
linhas da sua obra, traçou um caminho que até hoje ainda
não foi possível confirmar. A viagem de um aventureiro lusitano...

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Monges
budistas adaptam-se ao futuro em Angkor, Camboja
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A
sua história começa como muitas outras: a vida está difícil, Fernão
vai da sua terra natal
de Montemor-o-Velho para Lisboa, trabalhando aí em casa de uma família
fidalga. Sem razão conhecida, entende que a sua vida corre perigo
e decide fugir numa caravela que vai para Setúbal, mas um corsário
francês ataca-a e os tripulantes são abandonados na praia de Melides.
Acaba por conseguir chegar a Setúbal, onde fica em casa de um outro
fidalgo, desta vez durante cinco anos, até que decide que "a moradia
que então era costume dar-se na casa dos príncipes" não lhe bastava
para sua "sustentação". Correria o ano de 1537, e já seriam conhecidas
muitas histórias de sucesso de aventureiros que tentavam a sua sorte
nas Índias e chegariam ricos, ideia sedutora para um jovem entre
os 22 e os 27 anos.

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Campos
de cultivo
no Vietname
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E ei-lo que parte para a ilha portuguesa de Diu, na costa indiana,
onde apenas ficou 17 dias, continuando depois a navegação pelo Mar
Vermelho e entrando a seguir num corrupio de lugares e aventuras
que lhe valeram a alcunha de "Fernão, Mentes? Minto". A acreditar
em tudo o que nos conta, Fernão teria sido "treze vezes cativo e
dezassete vendido nas partes da Etiópia, Arábia Félix, China, Tartária,
Massacar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago
dos confins da Ásia". Entre outros lugares difíceis de situar, como
o "Calaminhão", poderíamos mencionar ainda, com os nomes actualizados,
Iémen, Malásia, Singapura, Tailândia, Japão, Vietname, Indonésia,
Camboja, Mongólia e Myanmar (antiga Birmânia). Goa e Malaca, os
lugares portugueses onde mais se alongou, são quase esquecidos nas
(raras) descrições que faz; a sua obra é uma pura narrativa de viagens
e acontecimentos, sem intenção de passar informação histórico-geográfica
ao leitor, sobre os lugares onde esteve. Apesar disso, e apesar
também de ser voz corrente que parte dos acontecimentos ter-lhe-ia
sido contada por outros aventureiros que ia encontrando, a verdade
é que, à data da publicação, o seu livro foi uma das primeiras referências
globais ao Extremo Oriente, tendo sido traduzido para Castelhano,
Francês, Alemão, Flamengo e Inglês.
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Nem
a riqueza e a diversidade cultural da Índia, subcontinente vasto
onde os portugueses negociaram e se estabeleceram durante tanto
tempo, lhe merece um pouco mais de atenção. Como seria Goa à época,
quando vemos que ainda hoje tantos bairros, igrejas e capelas continuam
de pé, funcionando agora como atracções turísticas para os próprios
indianos? Há marcas portuguesas em Damão, Diu, Cochim e Calecut,
mas Goa chegou a rivalizar com Lisboa no luxo e no bem-estar dos
representantes da coroa e do clero português, aparecendo na "Peregrinação"
como "a milhor coisa que temos na Índia".
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Igreja
em Goa
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Cidade
Proibida em Pequim
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Juncos
no Vietname
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Juncos
em Cochim
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A
integração do território numa União Indiana já independente fez-se
em 1961, mas as marcas arquitectónicas, gastronómicas e uma certa
manutenção da
língua portuguesa entre os cristãos faz da zona um caso raro na
Ásia. Malaca, por exemplo, tomada pelos holandeses em 1641, foi
arrasada, e poucas marcas ficaram da ocupação portuguesa para além
da igreja de S. Paulo e da Porta de Santiago, uma das entradas da
antiga fortaleza. Hoje é impossível imaginar como seria esta cidade
da Malásia, ou mesmo outros pontos da costa por onde os portugueses
andaram. Fernão Mendes Pinto mostra-se mais preocupado com o tempo,
dizendo que "as chuvas eram contínuas por causa do clima e a terra
em si era brejosa e alagadiça", e com a perigosa fauna selvagem,
sobretudo os "lagartos" dos rios, "com as bocas de mais de dous
palmos", que atacavam e levavam "três quatro negros" e "os engoliam
inteiros". A
posterior fixação de indianos, que convivem agora com os locais
e com os chineses, que nunca pararam de chegar, traz uma nota marcante
ao país que o tornam definitivamente diferente da Malásia que Fernão
conheceu.

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Entre a Malásia e o Sião, as fronteiras variavam constantemente
devido a guerras entre os vários reinos locais. A capital do que
é hoje o reino da Tailândia, "um dos milhores reinos que há em todo
o mundo", era então a histórica Odiá, hoje Ayuthaya, onde ainda
podemos visitar as ruínas de dezenas de templos, entretanto destruídos
por exércitos vindos de territórios a Norte, onde fica a actual
União de Myanmar (Birmânia). Em relação ao Sião, talvez mais do
que em relação a qualquer outro reino, Fernão mostra bem a sua visão
de "emigrante quinhentista" com uma apreciação prática e economicista,
comentando sobre os fabulosos templos budistas tailandeses, os seus
"ídolos mui grandes e mui cheos de ouro" e as florestas de madeiras
preciosas, ao ponto de calcular a quantidade de metal e pedras preciosas
utilizados e a facilidade com que poderíamos arrebatar-lhes toda
aquela riqueza, uma vez que se trata de "gente muito fraca, não
costumam ter armas defensivas"!
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Interior
de templo chinês
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Muralha
da China
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Claro
que a noção de turismo que hoje leva milhares de europeus à Tailândia
era coisa inexistente na época, pelo menos em relação a um continente
tão desconhecido e cheio de riscos. Só no último século é que as
suas paisagens paradisíacas, o seu povo gentil e as suas praias
de mar azul-turquesa se tornaram num motivo de visita, agora já
sem riscos, uma vez que a "muita soma de tigres e cobras, e outras
muitas maneiras de animais silvestres" se encontram restritas a
pequenas áreas protegidas. Até os famosos elefantes do exército
dos reis do Sião, nas presas dos quais muitos inimigos perdiam a
vida, são agora cada vez menos utilizados nos trabalhos rurais.
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Grande
Muralha da China
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Monges
budistas na Tailândia
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Fernão
fez de tudo um pouco, desde ser soldado das esquadras d'el-rei,
homem de mão de capitães mais ou menos "piratas", até recolher informações
sobre o real poderio de soberanos locais e sítios ainda desconhecidos,
de onde traz "costa, portos e rios (...) por graduação, arrumados
em suas alturas, com seus nomes e medição dos fundos". Mas ao contar-nos
as suas aventuras não esconde também as desventuras, aproximando-se
do herói pícaro quando exibe as suas misérias sem nunca se levar
muito a sério. Como, por exemplo, quando pede misericórdia ao rei
de Quedá, algures na costa malaica, ao ver que este tinha mandado
serrar "vivos pelos pés, pelas mãos e pelos pescoços, e por derradeiro
pelos peitos até ao fio do lombo" alguns locais e também um mouro
que viajava consigo. Ou quando é preso na China com os seus colegas
de infortúnio, depois de um naufrágio, por andar a mendigar. Segundo
nos conta, chega mesmo a ser obrigado a trabalhos forçados na Grande
Muralha, "trezentas e quinze léguas" de muro que separa a China
da Tartária, "na qual obra dizem que trabalharam contínuo setecentos
e cinquenta mil homens", "durante vinte e sete anos".
A par e passo
O Oriente de Fernão Mendes Pinto
Tal como em todas as viagens deste calibre, feitas ao longo
de anos - neste caso, 21 - e com mil perigos à espreita, as
dificuldades centram-se, nos dias de hoje, sobretudo nas burocracias
e nas novas fronteiras que surgiram depois da passagem de Fernão
pelo Oriente. Na actualidade, até os mares estão divididos por
áreas territoriais, tudo pertence a alguém, e antes de circular
livremente de uma área para outra temos de nos certificar de
que a papelada está em ordem e o seguimento da viagem garantido.
As exigências variam de país para país, os perigos de zona para
zona, mas não há dúvida de que, apesar das acrescidas facilidades
de transporte do último século, há percursos, sobretudo marítimos,
impossíveis de repetir... Apenas como orientação, citamos alguns
dos requisitos exigidos pelos principais países onde Fernão
Mendes Pinto permaneceu: em Myanmar, visto prévio e troca obrigatória
de divisas na fronteira; para a China, o Vietname, a Índia e
o Camboja, exige-se também um visto prévio; para entrar na Malásia
e na Tailândia, o visto é dado à chegada. Outros como a Etiópia
e o Iémen têm vindo a sofrer de convulsões políticas e guerras
ocasionais, que os fazem abrir e fechar fronteiras ao turismo.
Apesar de as curvas da história determinarem por vezes a impossibilidade
de certas viagens, vale sempre a pena procurar, na riqueza cultural
do Sudoeste Asiático e do Extremo Oriente, os encantos e predicados
tão apregoados por Fernão Mendes Pinto na sua obra - quem sabe
ainda somos capazes de encontrar templos, paisagens e gentes
que parecem acabadas de sair da sua "peregrinação". Para conhecer
toda a história deve ler, por exemplo, a "Peregrinação e Outras
Obras" da Editora Sá da Costa, quatro volumes que contam as
peripécias do nosso herói. |

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Vendedora
de pão,
no Vietname
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Apesar
de a sua viagem se desenrolar tanto por mar como por terra e o trajecto
ser impossível de seguir passo a passo, um dos territórios que melhor
conheceu e apreciou foi este, o do império chinês, de "grandíssima
ordem e maravilhoso governo". O ambiente das grandes cidades chinesas,
como Pequim, "metrópoli com razão e com verdade, de todas as do
mundo, na grandeza, na polícia, na abastança, na riqueza e em tudo
mais quanto se pode dizer ou cuidar" mantém aspectos parecidos com
os actuais, como os bairros e mercados fervilhando de compradores
e vendedores que oferecem de tudo um pouco, de cobras a objectos
de uso doméstico, sedas e especiarias, ou como as multidões de gente
nas ruas que, tal como verifica o nosso viajante, "se não fosse
a grande ordem e governo...sem dúvida se comeria uma com a outra".
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Mulheres
Mong em Laos
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Rua
em Luang Prabang, Laos
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A
Cidade Imperial de Pequim é agora um museu desabitado, mas na altura
era a residência do Imperador, nunca visto pela população mas servido
por "cem mil homens capados, e trinta mil mulheres, e doze mil homens
da guarda". O mais curioso é o ambiente de grande justiça social
que este senhor todo-poderoso proporciona ao seu povo, provendo
trabalho para todos e subsídios para "aleijados e gente desamparada",
justiça gratuita e lares para idosos a todos os que já não podem
trabalhar, incluindo prostitutas. Apesar de um interior ainda selvagem,
onde abundam os tigres e "gente muito rústica e agreste", Fernão
diz-nos que este imperador exemplar se preocupa em "prover o seu
Reino de mantimentos para que a gente pobre não padeça necessidades"...

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A
viagem apresenta-se como um verdadeiro novelo de percursos, com
vários regressos a Goa e a Malaca. Pelo caminho ficam histórias
extraordinárias de encontros com piratas, naufrágios, guerras entre
reinos locais. Um dos territórios que mais aparece marcado pela
violenta luta pelo poder é Myanmar, onde as lutas entre os reinos
de Pegu, Bramaa e os vizinhos do Sião são marcadas por morticínios
sangrentos e requintes de crueldade difíceis de imaginar quando
se viaja hoje por aí, e nos confrontamos com povos extremamente
pacíficos e de uma afabilidade comovente. A abundância de templos
dourados e Budas reclinados, a que o escritor chama "deos do dormir",
mostram-nos agora uma cultura muito marcada pelo budismo, que também
está presente na Cochinchina (Laos, Camboja e Vietname). Nesta área,
a viagem é realmente muito difícil de seguir, mas um dos locais
onde se sabe ter havido comércio com os portugueses é a pequena
cidade de Hoi An, no Vietname; do reino Champa de que nos fala sobram
apenas umas torres da época, e pouco mais.

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As
paisagens, essas, são de uma beleza fantástica, e a abundância de
culturas já é de relevo na época, aparecendo descritas como "campinas
rasas e grandíssimas de trigos, arrozes, cevadas, milhos e muitos
legumes de muitas maneiras" que, por vezes, descem em socalcos até
ao mar. Ainda há juncos no golfo de Tonquim, e agora alguns dedicam-se
mesmo a passear turistas na baía de Halong.

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Fernão
Mendes Pinto regressa a Portugal em 1557 e dedica-se à sua obra,
"Peregrinação", na sua quinta perto de Almada. A tença que pediu,
como recompensa pelos serviços à coroa prestados no Oriente, só
lhe chegou em 1583 ... o ano da sua morte. Fica-nos o retrato parcial
do continente asiático no século XVI, visto por um europeu, e a
obra memorável de um dos muitos aventureiros que o país produziu
na época. Aliás, o espanto de encontrar gente tão longe da sua terra
leva mesmo "El-Rei dos Tártaros" a questionar-se, intrigado, sobre
as razões que ali trazem os portugueses. E o seu parecer é o de
que "conquistar esta gente terra tão alongada da sua pátria dá claramente
a entender que deve de haver entre eles muita cobiça e pouca justiça"...
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