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A Ú D E

À
boleia de avião
Viajam
escondidos entre os outros passageiros e ninguém os quer receber
à chegada. São agentes infecciosos, causadores das chamadas
“doenças de aeroporto”
Sabia
que o mosquito causador da malária pode vir “à
boleia” de avião e resistir a um voo entre Luanda e Lisboa?
A rapidez com que hoje se viaja torna o mundo mais pequeno, mas também
mais inseguro quando o que está em causa é a saúde
pública. A Rotas & Destinos falou com o professor Jaime
Nina, subdirector do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT),
sobre a relação entre as viagens de avião e as
doenças transmissíveis e quais as precauções
a tomar. No que respeita ao viajante a mensagem é clara: a
aposta deve ser na prevenção. Turista
acidental
A hipótese de ter como companheiro de bordo um mosquito ou
uma mosca tsé-tsé está longe de ser agradável,
mas é real. Nada há que impeça um mosquito
que anda no aeroporto de Manaus de entrar num avião para
Portugal e picar quem nunca saiu do País. Embora a probabilidade
de estes insectos virem “à boleia” seja muito
próxima do zero, quando há milhares de voos o risco
multiplica-se. Um caso clássico é o de uma senhora
que foi ao aeroporto de Zurique esperar familiares. Semanas depois,
começou a ter febre e outros sintomas até que as análises
ao sangue detectaram tripanosomas, o vector da “doença
do sono”, que é exclusivamente africana. Mais tarde,
um inquérito apurou que, na mesma altura em que a doente
esteve no aeroporto, tinha chegado de Kinshasa um avião provavelmente
trazendo a mosca tsé-tsé. Neste, como no caso da malária,
estamos perante as chamadas doenças de aeroporto.
A situação mais frequente é a do passageiro
que contrai uma doença transmissível no destino de
férias e, durante o período de incubação
da mesma, regressa ao país de origem. Como a incubação
destas maleitas é, regra geral, medida em dias, semanas ou
mesmo anos, o turista só adoece “em casa”. Em
Portugal, estima-se que o número de casos de malária
importados, por exemplo, se situa entre os 1500 e os 2500 por ano,
cerca de uma dezena dos quais acaba por ser fatal. Isto num país
que erradicou esta doença há meio século. Recorda-se
da pneumonia atípica? Poucos dias após terem sido
declarados os primeiros casos no Oriente já esta doença
se tinha propagado por mais de 15 países.
Depois há casos de doenças introduzidas pela primeira
vez num país através de voos internacionais. Um dos
exemplos mais emblemáticos é a epidemia de West Nile,
que assolou Nova Iorque no Verão de 1999. Este vírus
nunca tinha existido na América (era exclusivo da África
e do Médio Oriente), o que surpreendeu as autoridades. Na
investigação que se seguiu chegou-se à conclusão
de que tinha entrado nos EUA a bordo de um voo proveniente de Israel.
E como várias espécies de mosquitos americanas têm
capacidade de transmitir o West Nile, as consequências foram
devastadoras: em 2003, a maleita já afectava 40 mil pessoas
e tinha sido fatal a 400. Aliás, é devido a casos
como este que muitos nova-iorquinos, quando viajam para os trópicos,
utilizam sprays contra mosquitos a bordo – uma desinfestação
que, de resto, é uma obrigação legal das companhias
aéreas segundo os regulamentos internacionais.
Embora em teoria existam ainda doenças que se podem propagar
dentro do avião, sobretudo se o “vizinho” tiver
tosse, os riscos são muito pequenos. Refira-se, porém,
que muitas companhias estão a tirar partido da inexistência
da secção de fumadores para reciclarem 50% do ar (em
vez de utilizar 100% de ar novo, como dantes), o que só aumenta
o perigo de contágio.
Acolhimento e prevenção
Antes de partir para um destino tropical o turista deve, sobretudo,
prevenir-se (o melhor é ir à consulta de Medicina
do Viajante). No caso de adoecer (mesmo que só com febre)
no período subsequente às férias, deve lembrar
ao médico as doenças a que pode ter estado exposto.
Embora a maioria dos casos, por exemplo, de malária se manifeste
entre as primeiras três semanas e um mês, o período
de incubação pode prolongar-se até aos três
anos.
Por
outro lado, os especialistas apelam para um maior envolvimento das
autoridades, o que já está a acontecer nos Estados
Unidos e em alguns países da Europa. O ideal seria que as
cidades com aeroportos internacionais com voos regulares para os
trópicos possuam um serviço ou um corpo de clínicos
especialistas com capacidade para diagnosticar e tratar doenças
características destas paragens. Por terras lusas, a colaboração
entre o IHMT e o Hospital Egas Moniz já se aproxima deste
modelo.
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