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S A Ú D E


À boleia de avião

Viajam escondidos entre os outros passageiros e ninguém os quer receber à chegada. São agentes infecciosos, causadores das chamadas “doenças de aeroporto”

Fevereiro de 2004




Texto de Simone Rocha
Ilustração de André Kano
   

Sabia que o mosquito causador da malária pode vir “à boleia” de avião e resistir a um voo entre Luanda e Lisboa? A rapidez com que hoje se viaja torna o mundo mais pequeno, mas também mais inseguro quando o que está em causa é a saúde pública. A Rotas & Destinos falou com o professor Jaime Nina, subdirector do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), sobre a relação entre as viagens de avião e as doenças transmissíveis e quais as precauções a tomar. No que respeita ao viajante a mensagem é clara: a aposta deve ser na prevenção.

Turista acidental
A hipótese de ter como companheiro de bordo um mosquito ou uma mosca tsé-tsé está longe de ser agradável, mas é real. Nada há que impeça um mosquito que anda no aeroporto de Manaus de entrar num avião para Portugal e picar quem nunca saiu do País. Embora a probabilidade de estes insectos virem “à boleia” seja muito próxima do zero, quando há milhares de voos o risco multiplica-se. Um caso clássico é o de uma senhora que foi ao aeroporto de Zurique esperar familiares. Semanas depois, começou a ter febre e outros sintomas até que as análises ao sangue detectaram tripanosomas, o vector da “doença do sono”, que é exclusivamente africana. Mais tarde, um inquérito apurou que, na mesma altura em que a doente esteve no aeroporto, tinha chegado de Kinshasa um avião provavelmente trazendo a mosca tsé-tsé. Neste, como no caso da malária, estamos perante as chamadas doenças de aeroporto.

A situação mais frequente é a do passageiro que contrai uma doença transmissível no destino de férias e, durante o período de incubação da mesma, regressa ao país de origem. Como a incubação destas maleitas é, regra geral, medida em dias, semanas ou mesmo anos, o turista só adoece “em casa”. Em Portugal, estima-se que o número de casos de malária importados, por exemplo, se situa entre os 1500 e os 2500 por ano, cerca de uma dezena dos quais acaba por ser fatal. Isto num país que erradicou esta doença há meio século. Recorda-se da pneumonia atípica? Poucos dias após terem sido declarados os primeiros casos no Oriente já esta doença se tinha propagado por mais de 15 países.

Depois há casos de doenças introduzidas pela primeira vez num país através de voos internacionais. Um dos exemplos mais emblemáticos é a epidemia de West Nile, que assolou Nova Iorque no Verão de 1999. Este vírus nunca tinha existido na América (era exclusivo da África e do Médio Oriente), o que surpreendeu as autoridades. Na investigação que se seguiu chegou-se à conclusão de que tinha entrado nos EUA a bordo de um voo proveniente de Israel. E como várias espécies de mosquitos americanas têm capacidade de transmitir o West Nile, as consequências foram devastadoras: em 2003, a maleita já afectava 40 mil pessoas e tinha sido fatal a 400. Aliás, é devido a casos como este que muitos nova-iorquinos, quando viajam para os trópicos, utilizam sprays contra mosquitos a bordo – uma desinfestação que, de resto, é uma obrigação legal das companhias aéreas segundo os regulamentos internacionais.

Embora em teoria existam ainda doenças que se podem propagar dentro do avião, sobretudo se o “vizinho” tiver tosse, os riscos são muito pequenos. Refira-se, porém, que muitas companhias estão a tirar partido da inexistência da secção de fumadores para reciclarem 50% do ar (em vez de utilizar 100% de ar novo, como dantes), o que só aumenta o perigo de contágio.

Acolhimento e prevenção
Antes de partir para um destino tropical o turista deve, sobretudo, prevenir-se (o melhor é ir à consulta de Medicina do Viajante). No caso de adoecer (mesmo que só com febre) no período subsequente às férias, deve lembrar ao médico as doenças a que pode ter estado exposto. Embora a maioria dos casos, por exemplo, de malária se manifeste entre as primeiras três semanas e um mês, o período de incubação pode prolongar-se até aos três anos.

Por outro lado, os especialistas apelam para um maior envolvimento das autoridades, o que já está a acontecer nos Estados Unidos e em alguns países da Europa. O ideal seria que as cidades com aeroportos internacionais com voos regulares para os trópicos possuam um serviço ou um corpo de clínicos especialistas com capacidade para diagnosticar e tratar doenças características destas paragens. Por terras lusas, a colaboração entre o IHMT e o Hospital Egas Moniz já se aproxima deste modelo.


 

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