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   XLRotas & DestinosDossier > Budapeste
D O S S I E R Fevereiro de 2005   
   
Quinze anos depois da queda do muro, Budapeste recupera o orgulho imperial de outrora e sorri ao turista ocidental, que já está a pagar a factura pela entrada da Hungria na União Europeia em 2004. Os teatros, as óperas e os museus voltam a vestir traje de cerimónia, mas Budapeste não é só cultura de elite e naturezas mortas. Os restaurantes e cafés conquistam pela sua grandeza e vaidade, e a noite quando nasce é para todos

Texto de Miguel Somsen e fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   

P U B L I C I D A D E

Os guias turísticos anunciam em grande pompa que budapeste é “a paris de leste” e seria tão poético subscrever essa opinião quanto seria patético negá-la. Na verdade, Budapeste retém um velho encantamento imperial que a faz ser eternamente comparada a Paris e Viena. São grandiosas as avenidas e impressionantes os edifícios; é surpreendente a conservação intocável das fachadas e o respeito histórico pela estrutura original dos Habsburgos, não esquecendo a referência avantgarde nos mais belos pormenores de arquitectura, como o portão de ferro do Palácio Gresham, o telhado de vidro dos Banhos Gellért ou o exterior da Florista Philanthia na Rua Váci.

Custa a acreditar que o cerco de Budapeste pelos aliados em 1944 tenha dizimado a arquitectura e a Ponte das Correntes pela segunda vez na sua história (a primeira foi na guerra de 1914-18). É doloroso imaginar a soberba dos soviéticos ao entrar pela cidade em 1956 para silenciar uma das revoltas mais nobres da história da guerra-fria, executando o Primeiro-ministro húngaro Imre Nagy dois anos depois. Nos dias de hoje, a homenagem da cidade ao iconoclasta faz-se a um tiro do Parlamento, no Bairro V de Belváros, onde o pequeno entroncamento de tempos e revoluções parece segredar uma certa ironia histórica ao transeunte: afinal, a estátua de Imre Nagy observando o Parlamento, esse sepulcro da democracia por si ambicionada, fica a cerca de 50 metros do Monumento ao Exército Vermelho, que simboliza a libertação de Budapeste pelos soviéticos no fim da Segunda Guerra Mundial.

Mas estamos numa cidade que caiu e se levantou, que repetiu os erros de sempre e engoliu em seco, que olha os demónios de frente e solta os esqueletos do seu armário. Não é uma cidade de indiferença ou transversalidade; apesar da tradição nómada cigana, este é um local que se visita uma vez e se fica para sempre. Budapeste é ideal para o romance, para a conquista, é feita de paixões assolapadas e consequências vitalícias. E as grandes paixões vivem de rasgos de irracionalidade. Porque, afinal de contas, nenhum casal comprometido pode evitar apaixonar-se por Budapeste. E se isso acontecer consigo, caro leitor, será que aguenta mesmo uma situação de triângulo amoroso? É que Budapeste tornou-se subitamente uma amante exigente e dispendiosa.

Os preços subiram, a economia de mercado disparou, a Hungria aderiu à União Europeia, e os comerciantes parecem negociantes de alta competição. Por isso, não entre num táxi sem estar disposto a pagar o preço – ou seja 300 forints, cerca de 1,25 euros de bandeirada inicial. Se apanhar um taxista errante pela cidade, tente combinar o preço de antemão ou negociar a viagem antes da primeira bandeirada e manter o seu olhar bem atento no taxímetro. O mais seguro é pedir sempre – atenção: sempre – um táxi ao concierge do seu hotel, ou então ligar directamente para os números de telefone das companhias que lhe fornecemos no guia. O serviço de táxi, tal como a rede de transportes públicos, seja metropolitano ou carro eléctrico, é de primeira categoria, um modelo de eficiência verdadeiramente imperial.

Um exemplo. A nossa reportagem obrigou-nos a viajar para os arredores da cidade, bem longe do centro histórico, na tentativa de descobrir as relíquias do Mercado Público de Esceri, uma espécie de Feira da Ladra do antigo Bloco de Leste (uma experiência inesquecível, e ao preço da chuva). À saída do local, um telefone público permitiu-nos solicitar rapidamente um táxi que nos levasse de volta ao hotel. Não houve negociatas nem taxas adicionais pelo facto de o pedido para um transporte da cidade ser feito do fim do mundo (Esceri fica a meia hora de viagem do centro, mas também se pode ir de Metro). A maioria dos taxistas não fala Inglês, mas se lhe indicar o seu destino no mapa ele não inventa circuitos alternativos nem desculpas de mau pagador.

No entanto, se vai para Budapeste, não espere grandes benesses: a Hungria tem uma forte tradição no estudo das ciências exactas e isso envolve tudo que seja comércio local. Não é à toa que este país ambiciona ser o Silicon Valley da Europa de Leste e conseguiu 12 Prémios Nobel no século passado, muitos deles de Matemática e Economia. Por isso, enquanto observa sorrateiramente a pacatez silenciosa do seu taxista, imagine que também ele tem de financiar os estudos do filho, o provável próximo génio de Matemática que a Hungria se propõe criar. Seja complacente: você acaba de chegar ao país do Cubo de Rubik.


Buda Bairro I: a zona do Castelo.
A arquitectura que faz Budapeste ser eternamente comparada a Paris; museu de fotografia Casa Mai Manó (à esq.); o Monumento da Libertação e um velho Trabant, símbolos do regime comunista (em cima)
Há mil e uma maneiras de se conhecer a cidade de Budapeste e todas as maneiras são válidas, desde que não se fique em casa. Quem gosta de se perder, terá maiores dificuldades. A cidade tem uma planificação organizada que parece convergir sempre em direcção ao Danúbio, o famigerado rio que divide Buda de Peste. Em termos administrativos, Budapeste integra 23 bairros identificados pela numeração romana. Os bairros I, II, III, XI, XII e XXII ficam em Buda, os restantes ficam na zona oriental de Peste. A única excepção é o bairro XXI da ilha de Csepel.

Começamos a caminhada pelo Bairro do Castelo, uma zona privilegiada de turismo e habitação em Buda que contagia tanto o visitante como as gentes locais. Viver no Bairro do Castelo é como viver na Costa do Castelo, em Lisboa. A vista sobre a cidade é deslumbrante e digna de atitude senhorial, até de alguma sobranceria. O que é engraçado de constatar é que o Bairro do Castelo inclui o Baluarte dos Pescadores, a Igreja de São Mateus, o Museu de História de Budapeste, a Galeria Nacional, o Palácio Real, várias lojas de antiguidades, o sublime Café Miró, o Hotel Hilton, mas não inclui qualquer castelo. Aliás, a maior parte das pessoas vai apenas a Buda para vislumbrar Peste, como se fosse impossível conhecer Peste do lado certo do rio. Nesta cidade não há sítios onde estar, apenas sítios para onde se vai. E deste lado, apenas a vista do Monumento da Libertação, no topo da colina Gellért, perto da Citadela, nos permite ter a noção exacta da dimensão majestosa da cidade. O Monumento rende homenagem às tropas soviéticas que libertaram a cidade do jugo nazi em 1945, daí ter perdido algum do seu simbolismo depois de 1989, quando os soviéticos voltaram para casa e deixaram de ser soviéticos. Claro que os visitantes não pensam da mesma maneira, e trepam a colina como se fossem pequenos vagabundos, alheios a tudo.


Colina Gellért

Existem mais de 1000 piscinas termais na Hungria, 50 delas em Budapeste, das quais as de Gellért são as mais emblemáticas
Estamos no sopé da colina que dá nome ao hotel que, por sua vez, designa os banhos que fazem justiça à cidade de Budapeste como centro europeu das termas medicinais. Existem mais de 1000 piscinas termais na Hungria, 50 delas em Budapeste, das quais as Gellért, nas traseiras do Hotel Gellért, são as mais mediáticas. Meio milhão de visitantes anuais não podem estar enganados, muito menos Kofi Annan, que molhou aqui os pés em 2004 (o assento parlamentar do Conselho de Segurança da ONU provoca terríveis dores de costas).

A água natural de Gellért vem de um poço a 30 metros de profundidade e chega ao solo numa efervescência de 43 graus centígrados, sendo atenuada pela água da piscina principal, permitindo ao banhista uma imersão tranquila a 26ºC. Para além da piscina central, que é património comum unissexo, existem mais seis piscinas termais, duas delas com banhos masculinos e femininos em regime de separação de bens, onde o fotógrafo não pode entrar. Não teria muita sorte com o retrato, uma vez que a temperatura de 38ºC dificulta a respiração do jornalista e o foco de qualquer lente. Mas é precisamente na zona restrita dos banhos turcos que melhor se sente a tradição secular do povo húngaro, e como a terapia das águas pode ser um ritual de intimidade a defender. Eu trazia a roupa da rua, onde começava a nevar, e cá dentro o mercúrio subia aos 40 graus. É normal que os homens, vestidos por escassa tanguinha branca, olhassem para o visitante de cachecol com alguma desconfiança. Afinal, eu era o turista a beber Coca-Cola numa sala chinesa onde toda a gente fuma ópio.

“borboletas” do artista Donald Sultan no restaurante do Art’otel

A água de Gellért é rica em cálcio e pobre em enxofre, o que significa que não tem aquele odor a ovos podres que se pode encontrar em cidades termais do Norte da Europa como Aachen, na Alemanha. Será que os banhistas têm a tentação de beber a água da piscina? “Não é aconselhável, mas nunca experimentámos”, diz o nosso guia improvisado, o Engº Loránt Balás. Dos visitantes habituais dos Banhos Gellért, 80% são húngaros e deslocam-se para um tratamento que exige três semanas de duração, com financiamento suportado pela segurança social. O tempo limita a participação dos turistas que, além disso, são obrigados a pagar um bilhete diário de 3000 forints, cerca de 12 euros, o que dissuade também as gerações mais novas. Mas Gellért inclui uma piscina exterior, aberta de Abril a Outubro para outro tipo de público, com ondas artificiais, de maneira a satisfazer todos aqueles que não se podem deslocar directamente da cidade para o Lago Balaton, a Sudoeste da cidade, local de férias habitual no Verão.

A Cidade da Água
Budapeste sempre foi uma cidade de águas naturais e de águas menos previsíveis. Na Idade Média, a margem de Buda, habitada pela população mais pobre, sofria anualmente com as cheias de um Danúbio temperamental, acabando a rive gauche local por ganhar o nome de Cidade da Água. Nos dias de hoje, a fama tem muito pouco proveito e os danos são imperceptíveis. A marginal de Viziváros, ou Cidade da Água, é agora um recanto tranquilo que desabrocha com a chegada da Primavera e do Verão, aproveitando o sol que inunda a cidade com uma luminosidade abençoada. Deve ser belo imaginar a romaria pelos cafés e pelas esplanadas, a exposição sedutora das húngaras ao brilho solar, os festivais de Verão que fazem os dias entrar sossegadamente na noite. Deve ser belo imaginar e não nos resta outra alternativa, uma vez que a Rotas & Destinos visitou Budapeste no pico do Inverno, altura em que a luz do Sol é testemunho insignificante de energia, uma força tímida que se recusa a participar na rotina diária, com uma incidência solar tão reduzida como a temperatura do ar. Os mais histéricos falam de temperaturas tão baixas como “menos quatro graus negativos!” e o exagero acaba por ter até uma certa poética. No zénite do solstício de Inverno, o Sol em Budapeste surge por detrás do Danúbio, a Leste, aquece as frágeis costas do Monumento da Libertação na Citadela e desaparece sem dizer água vai antes das quatro da tarde. Serão menos de seis horas de sol por dia, por isso toca a aproveitar antes que neve.

Sala da “Royal Suite” do Palácio Gresham Four Seasons

O Art’otel instalou-se sem qualquer receio diluviano, confiante no domínio que a engenharia exerceu sobre a instabilidade sazonal do rio, elevando a Cidade da Água acima da súbdita marginal Bem Rakpart, que acompanha o Danúbio da Ponte das Correntes até à Ponte Margarida, unida à ilha do mesmo nome (não se esqueça do seu mapa). O Art’otel é o quarto edifício de uma rede germânica iniciada em 1997 em Berlim com o objectivo de aliar a suprema arte da hotelaria ao carisma individualizado das artes plásticas. Em duas linhas, isto significa que cada Art’otel é como uma galeria decorada e assinada por um artista contemporâneo de renome (para não dizer falecido): Warhol serviu de mote a Berlim, Georg Baselitz inspirou a abertura do segundo Art’otel na capital alemã e A.R. Penck assumiu a responsabilidade do design interior do novo hotel em Dresden. O americano Donald Sultan foi convidado a rechear as paredes dos 165 quartos e suites do Art’otel Budapeste com mais de 600 obras originais proeminentes, criando um patchwork de pintura, escultura, decoração e arranjo floral que é ilusão de movimento e babel de artes em simultâneo. No caso de Budapeste, é como se o viajante acordasse na Legolândia, ou como se nunca tivesse regressado da Terra do Nunca. Há um encantamento infantil que contagia o ambiente e fabrica um universo plástico quase fabulesco, seja através das peças de dominó ou dos botões desenhados com uma certa despreocupação pelas alcatifas, ou o simples pormenor quase surreal de os produtos higiénicos da Neutrogena nos quartos de banho serem “os mesmos utilizados pela NASA”. Recupero uma frase de Sultan e tento imaginar aquilo a que ele se propôs quando decidiu expor as suas borboletas na sala principal do Chelsea Restaurant, dentro do Art’otel: “Espero que os visitantes saiam daqui a pensar que é possível partilhar o espaço com a arte. Quando visitamos um museu, deparamo-nos com um ambiente em que o artista parece confrontar o espectador. Regressar aqui, ao Art’otel, é como regressar a casa.”

CÁBULA EM 10 LIÇÕES
Antes da viagem, um digest rápido sobre a cidade de Budapeste e a Hungria, para não ficar mal visto perante os amigos.
1. Budapeste é a capital da Hungria.
2. A cidade de Budapeste é atravessada pelo Rio Danúbio, que divide Buda de Peste.
3. O Danúbio na verdade não é azul, mas às vezes o céu de Inverno consegue surpreender-nos e alterar a nossa percepção de cor.
4. Buda juntou-se a Peste em 1872, enquanto a Hungria ainda fazia parte do Império Austro-Húngaro.
5. A Primeira Guerra Mundial acabou com as veleidades imperiais magiares, isto é húngaras, e derrubou igualmente a Ponte das Correntes que era símbolo de união entre as duas margens desde 1849.
6. A Ponte das Correntes é a mais importante das sete pontes que actualmente ligam a parte ocidental e requintada de Buda à oriental cosmopolita de Peste, onde as boas vindas parecem ser um obséquio muito particular do Palácio Gresham, actualmente transformado no Gresham Four Seasons.
7. A Hungria perdeu na Primeira Guerra Mundial e perdeu na Segunda Guerra Mundial. É o que dá ter más companhias: a Áustria capitulou na Primeira Guerra Mundial, os nazis na Segunda. A Hungria achou que podia recuperar muito do território perdido na Primeira Guerra Mundial aliando-se a Hitler, mas saiu-lhe o tiro pela culatra. A cidade de Budapeste nada teve a ganhar com isso.
8. Em 1948, a União Soviética tomou conta da Hungria.
9. As tropas soviéticas invadiram a Hungria em 1956, para evitar que os ventos da democracia chegassem ao quintal do comunismo. O Primeiro-ministro Imre Nagy foi executado.
10. O muro caiu em 1989. A Hungria aderiu à União Europeia em Maio de 2004. A moeda é o forint, que vale mais que o (antigo) escudo português, e será substituída pelo euro quando o país cumprir os chamados “critérios de adesão”.

Peste

Bairro V: Belváros

O Parlamento de Budapeste é o edifício mais belo da cidade

Estamos no centro cosmopolita de Budapeste. Agora, a oferta aumenta, o tempo diminui e é preciso saber distinguir o essencial do acessório. É para isso que aqui estamos. Em média, um viajante tem entre três e cinco dias para descobrir uma cidade e interpretá-la razoavelmente. O passeio começa com um dia GPS, de familiaridade cultural e orientação geográfica. Um dia para nos adaptarmos ao mapa e à linguagem das ruas. Um dia para eliminar os preconceitos e ajustar os anticorpos. Vamos partir do princípio que um dos dias em Budapeste foi desperdiçado a subir a Colina de Gellért ao pé-coxinho. Um disparate altamente desafiador mas ainda assim um disparate. Agora todos os minutos contam. No lado Peste, na margem direita do Danúbio, não há tempo a perder. Mais uma vez, é da responsabilidade do jornalista saber distinguir o essencial do acessório e transmitir essa urgência ao leitor.

Escolha um monumento ou edifício de interesse público. Escolha um hotel. Um restaurante. Um café. Um museu. Uma rua comercial. Um circuito alternativo. E depois vá gerindo bem o seu tempo. As nossas sugestões são: o Parlamento. O Hotel Four Seasons no Palácio Gresham. O restaurante Tom George (mais dois suplentes). O Café Kör. A Casa do Terror. A Rua Váci. A Rua Radáy. Não se queixe com a oferta. Felizmente, em Budapeste só há um exemplar de cada.


O Parlamento

Uma das especialidades do Pava

O Parlamento de Budapeste é o edifício público mais belo da cidade. Por mais insistências que se façam para visitar a cúpula da Basílica de Santo Estêvão, aberta apenas durante o Verão, ou o Teatro Nacional de Budapeste, um edifício moderno cuja construção no distante bairro IX de Ferencváros dividiu a opinião pública, o olhar acaba invariavelmente por apontar para o Parlamento. Mas nada há para lamentar. Além de ser espantoso por fora, o Parlamento é de uma beleza interior gloriosa. As visitas guiadas são grátis para todos os cidadãos da União Europeia, mas às segundas-feiras os trabalhos no hemiciclo impedem a incursão venturosa dos turistas. E quando é assim, a guarda militar no exterior repele tudo o que seja visita indesejada, num excesso de zelo que chega a roçar a violência e o mau-gosto (com a agravante de os militares só falarem Alemão). As visitas guiadas duram apenas meia hora e estão limitadas a 50 pessoas por grupo, em duas incursões diárias (às 10 e às 14 horas no Inverno). Mas facilmente se perde meia tarde de Verão para garantir a entrada no edifício. Por isso, se quer chegar antes dos japoneses, acorde antes das galinhas.

O Tom George

Aos turistas, é aberto um acesso para percorrer a magnífica escadaria principal do edifício neogótico, ouvir os mitos históricos sobre a disputa católica da Coroa, visitar duas antecâmaras sumptuosas com decorações a folha de ouro e conhecer o fait divers sobre a construção de uma réplica do Parlamento em miniatura levada a cabo por uma família modesta de Budapeste. Quando o modelo da obra foi terminado, a família percebeu que a porta de casa não dispunha das dimensões necessárias para assegurar a passagem segura da estrutura. Não sei como acabou a história, mas a miniatura do Parlamento lá está exposta, no seu pequeno esplendor, no monumento que lhe serviu de inspiração. A sessão termina no elegante Átrio da Assembleia Nacional, onde foi instalado um dos primeiros sistemas de ar condicionado do mundo.

O Palácio Gresham Four Seasons

Café Kör, restaurante versátil e económico

O segundo edifício público mais belo de Budapeste era o Palácio Gresham, mas passou para o domínio privado da Four Seasons, que o transformou num hotel, inaugurado há seis meses. Daí que seja agora o mais belo edifício privado de Budapeste. Nada se paga à entrada do Gresham, portanto não fique surpreendido se o porteiro que lhe abre as portas de uma estrutura de ferro do estilo Secessão parece conhecê-lo. A política do Four Seasons é precisamente essa: quem entra no edifício deixou de ser estranho, passou a fazer parte da família Four Seasons, com garantias vitalícias de conforto e serviço absolutamente inesquecíveis. Tal como nos disse a responsável de marketing, a holandesa Tanja Pijfers, cujos pais moram em Sagres, “quando é uma boa experiência, nunca é caro; quando é má, parece ser sempre caro”. Tanja sabe o que diz e di-lo com convicção, mesmo que a diária da Royal Suite custe 3500 euros. Trata-se de uma interpretação racional, precipitada, decerto, pelo facto de o Palácio Gresham ter sido fundado pelo autor da Lei de Gresham: “A má moeda expulsa sempre a boa moeda” (uma lei recentemente adaptada por Cavaco Silva na sua farpa dirigida à política nacional).

Vista geral do Danúbio, rio que divide Buda de Peste

É sempre recompensador entrar no Four Seasons. O difícil é ficar de um dia para o outro sem que alguém dê por isso. Se decidir conhecer algum dos quartos, faça uma reserva e aproveite para se deitar e deleitar na vasta estepe do colchão Four Seasons, cuja fama não tem fronteiras.

O Four Seasons tem um lobby de entrada em forma de T que facilmente se percorreria de riquexó. Numa das alas, há um pianista que começa a tocar impreterivelmente às seis da tarde, recebendo a companhia de um quarteto de cordas quando a situação é a rigor. A verdade, no entanto, é que não há dias menos especiais no Four Seasons. A eficiência do concierge faz inveja a qualquer produtor de cinema, conseguindo facilmente uma reserva para o melhor restaurante da cidade (se dissermos Tom George é publicidade?). Claro que uma das recomendações do concierge terá de ser a do Páva, o restaurante de serviço do hotel, que funciona mesmo à entrada do palácio. Gerido pela mestria do chef tunisino Abdessattar Zitouni (que veio com Tanja do Four Seasons de Caracas), a qualidade é insuperável. A revista Tatler deu-lhe o título de “rei do foie gras”, por isso parece justo desafiar a ordem nobiliárquica, solicitando a entrada de foie gras natural com manga e caramelo baunilhado. As alternativas aconselhadas serão a sopa de peixe com açafrão e o carpaccio de espadarte e salmão com pesto. Já está a salivar? Nunca leia um artigo da Rotas & Destinos antes da refeição.

Baluarte dos Pescadores no Bairro do Castelo, uma zona privilegiada de turismo e habitação, em Buda

O chef Zitouni trabalha na Four Seasons com uma equipa de 46 profissionais, incluindo o responsável do serviço de abastecimentos, o português Mário Magalhães, e o pasteleiro Damien Piscioneri, um francês de 25 anos e de origens italianas nascido em Cannes, que acompanhou a nossa sessão fotográfica. A família do Four Seasons começa no foyer e termina na cozinha, ao fim de um dia iniciado às cinco da manhã por Zitouni: “Se for preciso, eles trabalham comigo de borla. Dizem que sou o pai deles.” Zitouni vive sozinho em Budapeste, onde passa habitualmente o Natal e o Ano Novo. No primeiro dia de Janeiro, apanha o avião para Montreal, no Canadá, onde vivem a sua mulher e as duas filhas.

O Tom George

Discoteca Moulin Rouge

A história é simples. Thomas e Jorg abriram um franchise de cafés em Budapeste, o Leroys, há 11 anos, mas não ficaram satisfeitos. Passados uns anos, decidiram arriscar um pouco mais, inaugurando com requinte o restaurante Tom George. A experiência foi um sucesso. Nos dias de hoje, o Tom George, ali bem perto da Basílica, é o spot de excelência, o local para se ir, a sala-de-estar da cidade e o sítio onde se vai ficando pela noite fora – ou antes de transitar para o vizinho Café Negro.

A maioria dos húngaros com quem falámos acha que estes cafés-restaurantes ultrachic são para inglês ver. De facto, estes locais são ligeiramente mais caros do que o normal para qualquer cidadão húngaro de classe média (os níveis são comparáveis aos de um bom restaurante em Portugal cujos preços sejam incomportáveis para um cidadão português).

Apesar das críticas, ninguém pode censurar a gastronomia. O serviço deluxe não se afasta da tradição local, limita-se apenas a aperfeiçoá-la com ligeiros truques orientais (os turcos continuam por aí) e algum savoir faire gaulês (o chef do Goa Café é um americano que aprendeu a cozinhar na Indochina francesa). Nenhum dos muitos pratos que provámos no Tom George ou no vizinho Café Kör ou sequer no Goa, na Rua Andrássy, chegou a ser prejudicado pela tentativa frustrada de fundir as culturas e os condimentos por parte de um cozinheiro inexperiente.

A célebre Ponte das Correntes, destruída na Primeira e na Segunda Grande Guerra

O que é verdadeiramente invulgar em Budapeste é o ethos deste povo, a tradição de os cafés onde se lancha serem os locais onde se janta para depois se transformarem nos bares onde se fica para conversar ou beber o Unicum bem fresco, de forma a atenuar a revolução no estômago. O que é maravilhoso em Budapeste é esta tranquilidade com os horários, a condescendência para com as regras de abertura e fecho, a liberdade para se ir ficando. Quantas vezes somos corridos de um restaurante em Portugal apenas porque chegamos para jantar às dez e meia da noite? “A cozinha já fechou!”, gritam-nos. Pois bem, em Budapeste a cozinha nunca fecha – os cafés-restaurantes abrem ao meio-dia e só fecham quando o último cliente atravessa a porta. O país tem cerca de 10 milhões de habitantes, uma indústria assente na produção vinícola, e acaba de entrar na União Europeia. Alguém aqui se sente um tudo-nada ameaçado?

O Tom George “praticamente não faz publicidade”, diz-nos Norbert Eberlein, filho de vienenses e manager do restaurante. A informação que interessa sobre as qualidades do serviço e as virtudes do espaço passa de “boca em boca” até chegar ao pátio da fama – Oliver Stone e David Copperfield não se queixaram. Aquele grupo de mafiosos húngaros acompanhados das loiras decotadas com cinto de ligas preto também não parece ter razões para sair mais cedo.


O Café Kör

A noite no café Negro

No Café Kör o menu muda todos os dias, e todos os dias há duas sopas, com oito pratos principais de uma ementa que é escrita numa ardósia na parede. O Kör tem várias horas de jantar: às seis da tarde já se pode comer e à meia-noite ainda é dia. É grande a vantagem de um restaurante ser também café e poder desmultiplicar-se numa operação contínua de serviços e prestabilidade. Nunca é cedo ou tarde demais em Budapeste e no Café Kör isso sente-se: não há opulência nem cosmética, apenas uma combinação de eficiência, conforto e generosidade – o arroz do meu prato parecia a colina de Gellért, portanto respeitei a obra local e comi apenas a carne.

O restaurante tem oito anos e o chefe de sala é Peter Mészáros, que lidera uma equipa de cinco pessoas. Mészáros parece um nadador olímpico (os pratos de arroz são como halteres) e por isso respira tranquilidade e ponderação: “Tivemos cá a princesa Vitória, da Suécia, e o Sting. O seleccionador nacional húngaro Matthäeus também cá vem. Laura Bush esteve cá há dois anos. John Cusack veio trazido pelo produtor Andrew Vajna, que é húngaro. Jeremy Irons também jantou cá.” E porque vêm eles a este restaurante e não a outros? “Preço acessível, boa cozinha, ambiente acolhedor”, rematou Mészáros. Tem razão: dificilmente se pagará mais de 15 euros por uma refeição no Café Kör. À saída, o colega Nagy László convida-nos para um show erótico. “Estamos na revista errada!”


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