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   XLRotas & DestinosDossier > Budapeste
D O S S I E R Fevereiro de 2005   
Bairro VI: Terezváros ou Bairro Teresa.

Estação Ferroviária Ocidental, construída por Eiffel, onde fica o McDonalds

Saímos da zona chique da Basílica em direcção à Rua Andrássy, que é o pólo convergente da cidade, a chamada Broadway de Budapeste. A Andrássy está dividida em duas partes – uma parte que é rua, outra que é avenida, fazendo recordar os Campos Elíseos. A primeira parte é a zona comercial por excelência, onde ficam as lojas e os restaurantes (entre os quais o Goa, que nos recebeu). A Praça Franz Listz, que acolhe alguns dos cafés mais emblemáticos da cidade, como o Miró Grande, o Café Vian, o Incognito, está do seu lado direito. Não deixe de ir. A segunda parte da Rua Andrássy é mais institucional, e é aí que fica a Casa do Terror. Quem vai, nunca mais de lá sai.

A transformação da Rua Andrássy em avenida faz-se no chamado Octógono, um ponto de intersecção com as ruas Teresa, para Norte, e Elisabete, para Sul, o ponto de entrada do Bairro VII, Erzsébetváros ou Bairro Elisabete, que inclui o Bairro Judeu, onde foi outrora o gueto judaico. Parece que estou em casa a ler o mapa, mas estive lá. Num dos dias, e debaixo de uma chuva gelada, o fotógrafo e eu apanhámos a maior desilusão da nossa viagem, ao verificar que o célebre Café New York, na Avenida Elisabete, fechou as portas para sempre. Partimos em direcção contrária, percorrendo a Avenida Teresa até chegar ao McDonalds da Estação Ferroviária Ocidental, que está sempre aberto. Ao McDonalds não chega a haute cuisine, mas há milhares de curiosos que visitam o espaço apenas para conferir a integração miraculosa que a McDonalds fez do restaurante com a imponente estrutura da estação, construída por Eiffel. Se o tempo o permitir, dirija-se rapidamente ao Olho de Budapeste, um balão situado mesmo atrás da estação, que leva os mais curiosos a experimentar um dia nas alturas, com cerca de quatro subidas por hora até aos 150 metros de altitude, aproveitando a bênção de um dia de sol.
   

Rua Andrássy: O Goa Café
A descoberta do Goa Café, no início da Rua Andrássy, foi meramente acidental. Bonito por fora, encantador por dentro, “vamos entrar”. Ninguém fala Português, mas entendemo-nos bem com o cozinheiro, o americano James McClure, que tem uma rodagem invejável. McClure nasceu na Califórnia, serviu em Singapura, na Indonésia e no Havai, e foi convidado a integrar o Goa Café por um casal húngaro que gere as lojas com o mesmo nome no Bairro Judeu (se as procurar não encontra, se se perder depara com elas).

O Goa Café tem um piso térreo que faz toda a esquina do edifício e inclui uma mezzanine que aproveita o tecto da cozinha, nas traseiras.


P U B L I C I D A D E

Estátua de Imre Nagy observando o Parlamento, o Primeiro-ministro húngaro executado em 1956

As janelas abrem para a inevitável esplanada no Verão, o que nos leva a pensar se estaremos no sítio certo no momento errado. Afinal não. Basta um dia de sol para o almoço no Goa ser verdadeiramente abençoado. A Praça Ferenc Deák, magnânima a Sul, permite a entrada de uma imensidão de luz que altera os sentidos. Somos contemplados com três deliciosas experiências do chef McClure, um carpaccio de atum azul-negro servido com molho wasabi, um salmão ligeiramente grelhado com salada e uma sobremesa de frutos silvestres com gelado de baunilha e vinho do Porto. Para beber, uma taça de granizada de manga, o freezing mangoa, com trocadilho e muito gelo.

O Metropolitano

O Metropolitano de Budapeste, construído em 1895, é o segundo mais antigo do mundo, a seguir ao inglês. Tem apenas três linhas de circulação cujo eixo central é precisamente a Praça Ferenc Deák, à saída do Goa Café. Daqui, podemos ir para todo o lado, e podemos inclusive chegar a Portugal. No âmbito da política intercultural do Metropolitano de Lisboa, existe desde 1996 uma série de painéis de cerâmica do artista transmontano João Vieira em exibição na estação central de Deák Tér, ponto de intersecção das três linhas da cidade. Confira em www.metrolisboa.pt/ofest_bud.htm se tiver dúvidas, mas é mais giro verificar no local.

O metropolitano de Budapeste é o segundo mais antigo do mundo

Tal como o resto do sistema de transportes públicos da cidade de Budapeste, o metropolitano é simples e dependente de uma generosa relação fiduciária entre a instituição e o utente. Uma vez que ninguém controla as entradas e saídas, é fácil viajar sem pagar. Embora o ritual tenha um certo gozo, pode ser contra-producente. Em Amesterdão, os eléctricos funcionavam assim até ao momento em que a rede de transportes percebeu que a opção de confiar na boa-vontade do passageiro lhe era prejudicial. Em Budapeste, este comportamento semimarginal levou ao sucesso do filme Kontroll (2004), que retrata exemplarmente o dia-a-dia de uma brigada de fiscais na rede do metropolitano da cidade (Kontroll foi o representante húngaro aos Oscares deste ano). Apesar de a ambiência do filme ser negra e violenta, não corresponde à realidade: é mais fácil encontrar seguranças confirmando a legalidade de eventuais falsos fiscais do que verdadeiros fiscais a confirmar a validade do seu bilhete. De qualquer forma, não arrisque. Cada bilhete custa cerca de 145 forints, menos de um euro, e a multa pode chegar aos dez euros, cerca de 2000 forints. O Metropolitano abre às quatro e meia da manhã e encerra um pouco depois das onze da noite. Kontroll foi filmado em menos de um mês aproveitando essa janela de oportunidade diária.

Rua Váci: noite

Russos? Alemães? São húngaros famosos
Atenção à pronúncia. O “c” húngaro lê-se como um “s” português. Ou seja, Ferenc é igual a Franz.
Bela Bartók – Compositor do século XX. Também considerado etnomusicólogo, dado o seu respeito para com as raízes da música tradicional húngara.
Brassaï – Fotógrafo de renome internacional. Nasceu em Budapeste, mas acabou por fazer carreira em França. Henry Miller dizia que Brassaï não tinha “olhos como os outros”.
Robert Capa – Um dos fundadores da Agência Magnum.
As suas imagens da Batalha do Ebro na Guerra Civil Espanhola fizeram dele o melhor fotógrafo de guerra do mundo. Morreu na Indochina, em 1954, ao pisar uma mina.
Albrecht Dürer – Mestre renascentista.
William Fox – Produtor do primeiro western sonoro e mais de cem outros filmes. Fundador dos Estúdios Fox, mais tarde 20th Century Fox. Lançou a carreira de Tom Mix mas acabou na miséria.
Dénes Gabor – Inventor da holografia. Prémio Nobel da Física.
Zsa Zsa Gabor – Actriz truculenta. Em 1990, passou 72 horas na prisão por esbofetear um polícia em Beverly Hills. Casou nove vezes. Um dos ex-maridos acabou por casar com uma das suas irmãs.
Janos Harsany – Um dos cérebros da Teoria dos Jogos. Nobel da Economia em 1994.
André Kertesz – Fotojornalista de renome. Um dos pioneiros da chamada “fotografia de rua”.
Sir Alexander Korda – Realizador de cinema. Nasceu no Império Austro-Húngaro, mas fugiu nos anos 30 para Inglaterra.
Zoltan Kodály – Compositor e etnomusicólogo.
Laszlo Kovacs – Director de fotografia de filmes como Easy Rider, Caça-Fantasmas e Sliver. Fugiu da Hungria em 1956.
Franz Liszt – Compositor.
Laszlo Moholy-Nagy – Pintor avantgarde, fotógrafo, professor da Bauhaus. Um dos fundadores do construtivismo.
Barão Nopcsa – Fundador da Paleontologia, ramo da ciência que estuda os fósseis.
Joseph Pulitzer – Editor. Fundador dos Prémios Pulitzer.
Erno Rubik – Inventor do Cubo de Rubik em 1977. Milionário aos 30.
Sylvia Sass – A nova Callas. Nasceu em 1951, perto de Budapeste.
Sir Georg Solti – Maestro.
Albert Szenty-Gyorgyi – Descobriu a vitamina C em 1937. Prémio Nobel da Química.
Viktor Vasarely – Artista. Fundador da Op-Art, a arte óptica.
Vilmos Zsigmond – Director de fotografia de filmes como Voando Sobre Um Ninho de Cucos e O Caçador. Habitual colaborador de Woody Allen.
Johnny Weissmuller – Actor celebrizado pelos papéis de Tarzan. Nasceu em 1904 em Timisoara, território da Áustria-Hungria que agora faz parte da Roménia.
Adolf Zukor – Célebre produtor de Hollywood.

Café Miró

A Rua Váci é a Rua Direita de Budapeste, o local para onde a multidão regrada se dirige quando não tem outro sítio para onde ir. Há zonas da cidade onde o comércio é mais interessante, como a Rua Radáy, a que apelidam de Soho de Budapeste (mais à frente). E há melhores sítios para se tomar um bom café, como a Praça Franz Liszt, na Rua Andrássy, perto do Octógono, onde o Miró Grande, o Café Vian ou o Leroy servem até altas horas. De uma forma ou de outra, a Rua Váci é sempre incontornável. O centro do comércio de referência e o próprio nome da rua parecem incitar ao movimento do corpo, da alma e do cartão de crédito, mas esteja atento ao pôr-do-sol e às aventuras que se seguem quando a noite chega. Na Rua Váci, as lojas fecham cedo e abre-se o comércio nocturno, com a mais velha profissão do mundo (obviamente, não é a de carpinteiro).

Lobby do luxuoso Palácio Gresham Four Seasons, um edifício Art Nouveau construído em 1907. Mercado Ecseri

Um passeio distraído para aquecer as mãos e rapidamente se é interpelado por duas senhoras simpáticas que precisam de companhia para um bar onde se oiça boa música. Bares não faltam e meninas solícitas também. A prostituição faz parte da cultura húngara (como faz parte de qualquer cultura, afinal de contas), mas a beleza insuperável das meninas locais leva a que muitos visitantes percam a cabeça pela melodia oxigenada da canção do bandido. Acontece que muitas delas, as belas de dia, acabam por ser exportadas para a Rússia. As que ficam para trás são menos belas, e as mais belas não são meninas da noite. Mas todas as regras têm a sua excepção: não é difícil encontrar belíssimas escort girls fazendo companhia ao miserável mafioso de esquina que não tem quaisquer problemas em pagar a despesa daquele restaurante de luxo onde ficámos a lavar a loiça.

Na Rua Váci, naquela noite daquele dia, a proposta indecente que nos fizeram tinha o seu quê de inocente também. Os guias turísticos da Hungria não deixam de avisar o visitante para a chamada Rapariga de Consumo, que se limita a cativar o turista para um café ou restaurante onde depois possa aproveitar para abusar um pouco no consumo do bar.

Sabem de algum bar onde se oiça boa música?
Como somos turistas decentes, sacámos do mapa para indicar o melhor destino às senhoras, que foram à sua vida, fossem elas da boa ou da má.


Rua Váci: dia

Feira da ladra nos arredores

A Rua Váci está dividida em duas partes – antes e depois da Ponte Elisabete. A primeira inicia-se na Praça Vörösm, onde sobrevive a nostalgia magnificente do Café Gerbeaud (uma espécie de Café Majestic, mas com pior serviço), e depois a rua avança para uma zona de comércio internacional, com presença habitual das lojas que encontramos em qualquer parte do mundo. É irrelevante entrar para comparar preços, mas se acha que a sua vida em Portugal está com o colesterol controlado, faça favor.

De qualquer forma, a divisão das duas Váci faz-se pelo Restaurante Matyas Prince, onde se reunia a elite comunista nos tempos idos. Apetece visitar para contar a história aos amigos e falar dos velhos tempos. E se ousar passar por debaixo da entrada da Ponte Elisabete, será recompensado. Subitamente, os turistas desapareceram. A Rua Váci começa a tornar-se interessante. Tem bons antiquários e velharias, com berloques de todo o gosto, recordações de um passado recente com ordem para regatear. Decidi comprar um metrónomo de origem austríaca, um Maelzel, cujo preço subiu de um dia para o outro. Estávamos bem longe do Bairro Judeu, mas o raio do comerciante insistiu no preço inflacionado e juntou-lhe mais uma dose de jogo psicológico.

- Ontem disse-me que eram 8000 forints.
- Não disse, não. Custa 10 000 forints.
Na verdade, o preço marcado na peça era de 14 000 forints, cerca de 60 euros, mas dessa farsa eu não fui protagonista. Limitei-me a seguir a narrativa, e fazer de profissional.
- Não é justo, fez-me andar este caminho todo e não me vai vender a peça?
- 9000 forints.
- Ontem custava 9000!
- Vai deixar de levar a peça por causa de 1000 forints?, perguntou-me o judeu.

Imenso mural com retratos das vítimas da revolução, no hall da Casa do Terror

Claro que não deixei de levar a peça. Mas se alguma lição aprendi na Rua Váci foi a capacidade de regatear e lutar por aquilo em que se acredita – mesmo entendendo que o objectivo primordial dos húngaros na Europa é roubar os jornalistas portugueses (não é, eles preferem roubar aos americanos). Na verdade, os preços em Budapeste subiram tanto nos últimos dez anos que deixou de haver necessidade de o turista recear qualquer tipo de roubo ilegal. De certa forma, os preços praticados são quase o roubo legal com que a economia de mercado decidiu presentear o turista acidental.

Para entrar no jogo é preciso saber-se jogar. Muitas vezes trata-se de fazer descer o preço enquanto se levanta a voz. Outras vezes, é uma questão de persistência. A maioria dos vendedores em Budapeste não fala Inglês, embora gesticule muitos “yes, yes!”. No aproveitar é que está o ganho. O mercado de Esceri, a Feira da Ladra situada nos arrabaldes da cidade, foi o melhor local para exercitar com esmero esta fina arte da contra-argumentação comercial. Claro que saímos a ganhar: depois de muita conversa, e alguma troca de euros, trouxemos uma câmara super 8, uma máquina de projectar de origem soviética, um trompete, uma máscara antigás, um clarinete, uma gabardina da polícia secreta húngara, um lenço azul comemorativo dos 35 anos da antiga RDA e outro amarelo dos 30 anos do Clube Motorizado de Jena. Foi caro? Deu ainda para pagar o táxi de volta para a cidade.


O bairro IX de Ferencváros: a Rua Ráday

Pista de gelo de Varosliget

A Rua Váci termina a sua lenta agonia no Fóvam Tér, a praça que acolhe a Ponte da Liberdade, cujo desenho original de 1849 sobreviveu miraculosamente à Segunda Guerra Mundial. Do outro lado da rua, o Mercado Municipal assinala a porta de entrada no Bairro de Ferencváros e a última fronteira da baixa de Budapeste. O primeiro andar do mercado é um óptimo local para se almoçar. Peça uma sopa gulash, acompanhe ao balcão com um copo de vinho Tokaj, very typical, e esqueça as latas de pasta de fígado de ganso Rex Ciborum que deixou por comprar no piso térreo. Haverá sempre uma segunda oportunidade para o fazer, agora que o apetite deu lugar à razão (afinal, nada se deve comprar de estômago vazio).

Se optar por subir a Vamház Korut em direcção à Kálvin Ter, onde está a Igreja Calvinista, aproveite para se lançar à direita no desafio alternativo da Rua Ráday, a quem os locais chamam de Soho de Budapeste. É difícil imaginar numa tarde gélida de Inverno a vida que pode existir quando o sol de Verão abre as esplanadas e irradia os humores da Rua Ráday. Mas se a rua se tornou trendy, isso implica uma sobrevivência para além da mera fasquia solar diária. O Soho de Budapeste aguenta o frio do Inverno e as armadilhas da noite. Há galerias de arte contemporânea, lojas de pop art, art déco à discrição, circuitos fora de horas, e, claro, o incomparável Café Costes, que aproveita o beneplácito da casa-mãe parisiense, o Hotel Costes, e agarra o incentivo rítmico das compilações musicais de Stéphane Pompougnac. Como curiosidade, fique a saber que o último disco do Hotel Costes estava à venda numa loja por detrás da Basílica a um preço verdadeiramente proibitivo. Sendo assim, é preferível ir jantar directamente sem passar pela casa da partida.

Teatro Nacional um edifício moderno cuja construção dividiu a opinião pública

Quando o Café Costes abriu em Paris em 1984, Philippe Starck, que era autor do projecto, disse que a inspiração para o design remetia para “uma sala de espera de terceira categoria numa estação de comboios em Budapeste por altura dos anos 50”. Quis o destino que o Café Costes de Paris tenha fechado as portas e Budapeste subido de patamar na categoria internacional. O Café Costes Budapeste abriu há apenas dois anos, e é único na cidade. Não há espaço para as cadeiras de três pés que Starck imaginou em 1984 de forma a evitar que os empregados tropeçassem durante o seu circuito laboral, mas há uma arrumação inteligente que parece criar brechas e proporciona uma respiração de modernidade na pequena sala art déco. Os três únicos empregados são responsáveis pelo serviço da casa durante 12 horas seguidas durante sete dias da semana. Aos domingos, os húngaros também sabem viver.

Cúpula da Basílica de Santo Estevão

Não muito longe, mas já a caminho do centro, funciona o Café Central, que reúne a intelligentsia de Budapeste desde 1887. O espaço são dois andares sumptuosos que desenham uma esquina valente, e ainda hoje é possível imaginar os jornalistas com as suas máquinas de escrever dedilhando as palavras de provocação num som que ficou para sempre a ecoar naquelas paredes.

A História e os museus

Lembra-se da nossa sugestão inicial à entrada para Buda? Um monumento, um hotel, uma rua comercial, um circuito alternativo, mas apenas uma escolha de cada vez? Pois bem, a cidade de Budapeste tem mais de 50 museus à escolha, para não falar das galerias de arte da Rua Radáy. Mas chegou a altura de optar entre dois museus que escolhemos para si. Pessoalmente, não terei dúvidas em sugerir a Casa do Terror. Mas uma vez que Budapeste

Sobremesa de frutos silvestres com gelado e vinho do Porto, preparada por James McClure, o chef do Goa Café

tem uma forte tradição na arte fotográfica (Robert Capa, um dos fundadores da Agência Magnum, nasceu aqui em 1913) não ficaria mal perder meia horita no Museu da Fotografia, a chamada Casa Mai Manó, que albergou o fotógrafo do império austro-húngaro durante a sua vida, na segunda metade do século XIX (Mai Manó morreu em 1917, com a queda do Império).

O edifício fica na Nagymezo Utca, uma rua paralela à Avenida Teresa, e funcionou como estúdio de Mai Manó até ao momento em que foi vendido a um casal do showbiz, nos anos 20. Ela era Maria Senger, mais tarde eternizada como Miss Arizona. Foi aqui, neste espaço de três andares em remodelação, que a dupla desenvolveu o projecto de fazer um dos mais espantosos cabarets da Europa Central. Um sonho que morreu em 1944 quando o casal foi deportado e morto por nazis (húngaros ou alemães, ninguém sabe). Hoje, o edifício funciona como biblioteca, associação, galeria e estúdio, sendo uma instituição-museu sem fins lucrativos. Está sob a alçada administrativa do Bairro VI, ao qual são obrigados a pagar uma renda simbólica de 1 forint anual.


A Casa do Terror

Nada a declarar?
Lista de produtos indispensáveis para trazer de Budapeste
Xarope Unicum – Unicum Zwack é um digestivo medicinal feito à base de ervas, com uma receita secreta que existe há gerações na família dos Zwack. Como quase todas as bebidas modernas, começou por ser um produto farmacêutico. Hoje é um xarope e bebe-se fresco. A fórmula secreta do Unicum foi guardada pelos dois irmãos Zwack durante a Segunda Guerra Mundial e resistiu até à separação, quando um deles emigrou para a América. Esta foi das poucas famílias húngaras que conseguiram recuperar o património e o negócio das mãos do regime comunista. Consulte www.zwackhu
Rex Ciborum – Pasta de fígado de ganso ou pato Rex Ciborium, que no original significa “manjar dos reis”.
Uma embalagem de cem gramas custa cerca de 15 euros, com venda garantida no Mercado Municipal de Fóvam Tér.
O preço é significativo, daí alguns mercados aceitarem cartão de crédito. A embalagem é uma obra de arte e já ganhou prémios internacionais de design. A tradição remonta a 1896.
Paprika ou Fuszerpaprika – Pimenta de origem sérvia, a paprika conhece em Portugal as duas versões de pimentão-doce, ou colorau, e pimentão vermelho, este para paladares mais exaltados. Apesar de ser uma especiaria, a paprika inclui uma quantidade assinalável de Vitamina C, cuja descoberta deu o Nobel a Albert Szenty-Gyorgy em 1937. Na Hungria, a paprika está à mesa de qualquer refeição que inclua o gulash de carne e vegetais, e pode comprar-se em qualquer lado.
Os mercados oferecem uma colher de pau simpática.
Palinka – Espirituoso forte e frutado do tipo aguardente que tem criado nova discussão entre a Hungria e a Roménia, para saber qual deles ficará com os direitos sobre o título.
Os romenos alegam a secularidade, os húngaros a manufactura. A Palinka húngara é destilada exclusivamente da fruta, daí as garrafas incluírem a origem, seja ela alperce, cereja ou ameixa. Os argumentos magiares pretendem garantir que um produto tão genuíno e singular como a Palinka seja defendido da mesma forma como a Grappa é pela Itália e o Ouzo pelos gregos.
Vinho Tokaj – Tal como em Portugal, o sector vinícola é dos mais importantes da indústria húngara. Um dos vinhos mais conhecidos da Hungria é o Tokaj, um generoso que parece uma mistura de moscatel com xerez, originário da região de Tokaj-Hegyalja, no Nordeste do país. Uma garrafa custa cerca de 10 euros. O Tokaj utiliza essencialmente as castas Furmint, Hárslevelu e Muscat. Escolha o doce que mais lhe aprouver e não conduza nessa noite.
Ao contrário do que o título indicia, a Casa do Terror, na Rua Andrássy, não é um circuito infantil de Feira Popular. Bem pelo contrário. O espaço foi casa-mãe do Partido Nazi Húngaro até 1944 e albergou a polícia secreta do Partido Comunista depois da Segunda Guerra Mundial, de 1945 a 56, antes da revolução que custou a vida a Imre

Detalhes do exterior e do interior da Casa do Terror, um museu cujas temáticas são a tirania e o terror – nazi e soviético – e que impressiona pela experiência sensorial que proporciona, uma “descida aos infernos”

Nagy. Para que serve a casa agora? Serve como memorial, para fazer lembrar o que foi viver na Hungria durante 50 anos. Para obrigar as pessoas a compreender o mundo. Para evitar que os habitantes da União Europeia profiram banalidades sobre a Europa do século XX. Para os familiares das vítimas e as novas gerações, do Atlântico aos Urais. Todos os países que sofreram com o Tratado de Versailles, todos os países que sobreviveram aos Acordos de Ialta, que viveram sob o manto escuro do comunismo, deveriam ter a coragem de erguer um museu tão elucidativo e eloquente como a Casa do Terror, em Budapeste.

O que faz o museu ser original é o modo como ilustra a realidade – não basta mostrar, é preciso saber contar. E todas aquelas paredes têm mil histórias para contar. São três pisos superiores, dedicados a exposições temporárias que deveriam ficar para sempre, e dois pisos inferiores, para melhor aplicar o cliché da “descida aos infernos”. Mas a experiência sensorial começa no exterior, onde a esquina é uma rede de campo de concentração, ocultando um conjunto de janelas cujos painéis com recordações de guerra impedem a devida transparência. Uma vez lá dentro, para sempre lá dentro.

As temáticas do museu são a tirania e o terror – de origem nazi e soviética. Mas, em vez de imagens de arquivo, temos the real thing. Um carro de combate da Segunda Guerra Mundial colocado no hall principal, testemunhado por um imenso mural com retratos de vítimas da revolução. Um protótipo da limusina de seis lugares ZIM, construída durante a guerra-fria pela fábrica soviética Gaz Volga, que entretanto mudou de nome para ZIM, ou Zavodi Imeni Molotova, como homenagem ao ministro dos Negócios Estrangeiros soviético, Molotov. Um labirinto iluminado por blocos de sabão, recordando a indústria crematória do Holocausto. Uma sala de aula cromaticamente decorada com elementos de propaganda soviética. E por aí fora. As exposições manipulam o excesso, estimulam a alma e a memória, são poesia e arma de arremesso. Funcionam como modelos de arte pop e multimédia, criando sinestesias na imaginação e alguma chuva no nosso coração.

Bairro VI: a Praça dos Heróis

Monumento da Praça dos Heróis

Budapeste tem duas zonas privilegiadas de espaços verdes. Uma é a Ilha Margarida, no meio do Danúbio, uma área vedada ao trânsito, onde a cidade organiza fantásticos festivais de música no Verão. Outra é a Varosliget, ou Parque da Cidade, situada no fim da Rua Andrássy, logo depois da Praça dos Heróis. É aí, numa antiga região pantanosa, que podemos encontrar o Museu das Belas Artes (se prefere o clássico, não hesite), o Jardim Zoológico, as Termas Széchenyi, onde as piscinas de água termal são originárias de uma nascente a 900 metros de profundidade, o fabuloso castelo Vajdahunyad, uma pista no gelo, ideal para a criançada, e o incontornável Gundel, para um brunch de eleição.

O Gundel

O Gundel tem 110 anos de serviço e um odor a tradição que transita da cozinha até ao foyer de entrada. Em Portugal isso significa uma coisa: casamentos e baptizados. Em Budapeste, nem pensar. É verdade que o mostruário da entrada está repleto de fotografias da aristocracia em pose cerimoniosa, com imagens amarelecidas de chanceleres ultrapassados e nobreza decadente. Mas o restaurante continua a recuperar o esplendor que havia perdido no final da Segunda Guerra Mundial, quando o Partido Comunista decidiu nacionalizar o Gundel.

Em 1992, o antigo palácio foi reaberto com nova gerência, e a responsabilidade da cozinha passou para as mãos de Kálman Kálla, o chef que transformara a cozinha da Embaixada Húngara em Washington no mais celebrizado hot spot da cidade. Kálla começou aos 15 anos a trabalhar no ofício, e passou por Tóquio antes de chegar a Washington. O seu maior desafio no Gundel foi manter a excelência e a singularidade da mais famosa panqueca do país, que decidiu aperfeiçoar. Trata-se de uma panqueca aromatizada em limão que é dobrada sobre um creme de avelãs, passas e laranja, sendo acompanhada por um molho de chocolate no ponto. Ao contrário dos mitos urbanos, a panqueca do Gundel não é flamejada. Mas há tradições que nunca morrem: no dia em que visitámos o restaurante, um Domingo de manhã, havia uma reserva garantida para 164 pessoas, o que pressupõe alguma flexibilidade de serviço e engenhosa produção de pequenos-almoços com panquecas Gundel.

Esta pode muito bem ser a sua primeira refeição do dia.

Agradecemos a colaboração da TAP-Air Portugal, do Four Seasons e do Art’otel



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