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XL
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| D O S S I E R |
Fevereiro
de 2005 |
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Bairro
VI: Terezváros ou Bairro Teresa.
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Estação
Ferroviária Ocidental,
construída por Eiffel,
onde fica o McDonalds
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Saímos da zona chique
da Basílica em direcção à
Rua Andrássy, que é o pólo
convergente da cidade, a chamada Broadway de Budapeste.
A Andrássy está dividida em duas
partes – uma parte que é rua, outra
que é avenida, fazendo recordar os Campos
Elíseos. A primeira parte é a zona
comercial por excelência, onde ficam as
lojas e os restaurantes (entre os quais o Goa,
que nos recebeu). A Praça Franz Listz,
que acolhe alguns dos cafés mais emblemáticos
da cidade, como o Miró Grande, o Café
Vian, o Incognito, está do seu lado direito.
Não deixe de ir. A segunda parte da Rua
Andrássy é mais institucional, e
é aí que fica a Casa do Terror.
Quem vai, nunca mais de lá sai.
A transformação da Rua Andrássy
em avenida faz-se no chamado Octógono,
um ponto de intersecção com as ruas
Teresa, para Norte, e Elisabete, para Sul, o ponto
de entrada do Bairro VII, Erzsébetváros
ou Bairro Elisabete, que inclui o Bairro Judeu,
onde foi outrora o gueto judaico. Parece que estou
em casa a ler o mapa, mas estive lá. Num
dos dias, e debaixo de uma chuva gelada, o fotógrafo
e eu apanhámos a maior desilusão
da nossa viagem, ao verificar que o célebre
Café New York, na Avenida Elisabete, fechou
as portas para sempre. Partimos em direcção
contrária, percorrendo a Avenida Teresa
até chegar ao McDonalds da Estação
Ferroviária Ocidental, que está
sempre aberto. Ao McDonalds não chega a
haute cuisine, mas há milhares de curiosos
que visitam o espaço apenas para conferir
a integração miraculosa que a McDonalds
fez do restaurante com a imponente estrutura da
estação, construída por Eiffel.
Se o tempo o permitir, dirija-se rapidamente ao
Olho de Budapeste, um balão situado mesmo
atrás da estação, que leva
os mais curiosos a experimentar um dia nas alturas,
com cerca de quatro subidas por hora até
aos 150 metros de altitude, aproveitando a bênção
de um dia de sol.
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Rua
Andrássy: O Goa Café
A
descoberta do Goa Café, no início
da Rua Andrássy, foi meramente acidental.
Bonito por fora, encantador por dentro,
“vamos entrar”. Ninguém
fala Português, mas entendemo-nos
bem com o cozinheiro, o americano James
McClure, que tem uma rodagem invejável.
McClure nasceu na Califórnia, serviu
em Singapura, na Indonésia e no Havai,
e foi convidado a integrar o Goa Café
por um casal húngaro que gere as
lojas com o mesmo nome no Bairro Judeu (se
as procurar não encontra, se se perder
depara com elas).
O Goa Café tem um piso térreo
que faz toda a esquina do edifício
e inclui uma mezzanine que aproveita o tecto
da cozinha, nas traseiras.
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Estátua de
Imre Nagy observando o Parlamento, o
Primeiro-ministro húngaro executado
em 1956
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As janelas abrem para a inevitável
esplanada no Verão, o que nos leva a pensar se
estaremos no sítio certo no momento errado. Afinal
não. Basta um dia de sol para o almoço
no Goa ser verdadeiramente abençoado. A Praça
Ferenc Deák, magnânima a Sul, permite a
entrada de uma imensidão de luz que altera os
sentidos. Somos contemplados com três deliciosas
experiências do chef McClure, um carpaccio de
atum azul-negro servido com molho wasabi, um salmão
ligeiramente grelhado com salada e uma sobremesa de
frutos silvestres com gelado de baunilha e vinho do
Porto. Para beber, uma taça de granizada de manga,
o freezing mangoa, com trocadilho e muito gelo.
O Metropolitano
O Metropolitano de Budapeste,
construído em 1895, é o segundo mais antigo
do mundo, a seguir ao inglês. Tem apenas três
linhas de circulação cujo eixo central
é precisamente a Praça Ferenc Deák,
à saída do Goa Café. Daqui, podemos
ir para todo o lado, e podemos inclusive chegar a Portugal.
No âmbito da política intercultural do
Metropolitano de Lisboa, existe desde 1996 uma série
de painéis de cerâmica do artista transmontano
João Vieira em exibição na estação
central de Deák Tér, ponto de intersecção
das três linhas da cidade. Confira em www.metrolisboa.pt/ofest_bud.htm
se tiver dúvidas, mas é mais giro verificar
no local.
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O metropolitano de
Budapeste é o segundo mais antigo
do mundo
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Tal como o resto do sistema de
transportes públicos da cidade de Budapeste,
o metropolitano é simples e dependente de uma
generosa relação fiduciária entre
a instituição e o utente. Uma vez que
ninguém controla as entradas e saídas,
é fácil viajar sem pagar. Embora o ritual
tenha um certo gozo, pode ser contra-producente. Em
Amesterdão, os eléctricos funcionavam
assim até ao momento em que a rede de transportes
percebeu que a opção de confiar na boa-vontade
do passageiro lhe era prejudicial. Em Budapeste, este
comportamento semimarginal levou ao sucesso do filme
Kontroll (2004), que retrata exemplarmente
o dia-a-dia de uma brigada de fiscais na rede do metropolitano
da cidade (Kontroll foi o representante húngaro
aos Oscares deste ano). Apesar de a ambiência
do filme ser negra e violenta, não corresponde
à realidade: é mais fácil encontrar
seguranças confirmando a legalidade de eventuais
falsos fiscais do que verdadeiros fiscais a confirmar
a validade do seu bilhete.
De qualquer forma, não arrisque. Cada bilhete
custa cerca de 145 forints, menos de um euro, e a multa
pode chegar aos dez euros, cerca de 2000 forints. O
Metropolitano abre às quatro e meia da manhã
e encerra um pouco depois das onze da noite. Kontroll
foi filmado em menos de um mês aproveitando essa
janela de oportunidade diária.
Rua Váci: noite
Russos?
Alemães? São húngaros famosos
Atenção
à pronúncia. O “c” húngaro
lê-se como um “s” português.
Ou seja, Ferenc é igual a Franz.
Bela Bartók
– Compositor do século XX. Também
considerado etnomusicólogo, dado o seu
respeito para com as raízes da música
tradicional húngara.
Brassaï
– Fotógrafo de renome internacional.
Nasceu em Budapeste, mas acabou por fazer carreira
em França. Henry Miller dizia que Brassaï
não tinha “olhos como os outros”.
Robert Capa
– Um dos fundadores da Agência Magnum.
As suas imagens da Batalha do Ebro na Guerra Civil
Espanhola fizeram dele o melhor fotógrafo
de guerra do mundo. Morreu na Indochina, em 1954,
ao pisar uma mina.
Albrecht Dürer
– Mestre renascentista.
William Fox
– Produtor do primeiro western sonoro e
mais de cem outros filmes. Fundador dos Estúdios
Fox, mais tarde 20th Century Fox. Lançou
a carreira de Tom Mix mas acabou na miséria.
Dénes
Gabor – Inventor
da holografia. Prémio Nobel da Física.
Zsa Zsa Gabor
– Actriz truculenta. Em 1990, passou 72
horas na prisão por esbofetear um polícia
em Beverly Hills. Casou nove vezes. Um dos ex-maridos
acabou por casar com uma das suas irmãs.
Janos Harsany
– Um dos cérebros da Teoria dos Jogos.
Nobel da Economia em 1994.
André
Kertesz –
Fotojornalista de renome. Um dos pioneiros da
chamada “fotografia de rua”.
Sir Alexander
Korda – Realizador
de cinema. Nasceu no Império Austro-Húngaro,
mas fugiu nos anos 30 para Inglaterra.
Zoltan Kodály
– Compositor e etnomusicólogo.
Laszlo Kovacs
– Director de fotografia de filmes como
Easy Rider, Caça-Fantasmas e Sliver. Fugiu
da Hungria em 1956.
Franz Liszt
– Compositor.
Laszlo Moholy-Nagy
– Pintor avantgarde, fotógrafo, professor
da Bauhaus. Um dos fundadores do construtivismo.
Barão
Nopcsa – Fundador
da Paleontologia, ramo da ciência que estuda
os fósseis.
Joseph Pulitzer
– Editor. Fundador dos Prémios Pulitzer.
Erno Rubik
– Inventor do Cubo de Rubik em 1977. Milionário
aos 30.
Sylvia Sass
– A nova Callas. Nasceu em 1951, perto de
Budapeste.
Sir Georg Solti
– Maestro.
Albert Szenty-Gyorgyi
– Descobriu a vitamina C em 1937. Prémio
Nobel da Química.
Viktor Vasarely
– Artista. Fundador da Op-Art, a arte óptica.
Vilmos Zsigmond
– Director de fotografia de filmes como
Voando Sobre Um Ninho de Cucos e O Caçador.
Habitual colaborador de Woody Allen.
Johnny Weissmuller
– Actor celebrizado pelos papéis
de Tarzan. Nasceu em 1904 em Timisoara, território
da Áustria-Hungria que agora faz parte
da Roménia.
Adolf Zukor
– Célebre
produtor de Hollywood. |
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A Rua Váci é a
Rua Direita de Budapeste, o local para onde a multidão
regrada se dirige quando não tem outro sítio
para onde ir. Há zonas da cidade onde o comércio
é mais interessante, como a Rua Radáy,
a que apelidam de Soho de Budapeste (mais à frente).
E há melhores sítios para se tomar um
bom café, como a Praça Franz Liszt, na
Rua Andrássy, perto do Octógono, onde
o Miró Grande, o Café Vian ou o Leroy
servem até altas horas. De uma forma ou de outra,
a Rua Váci é sempre incontornável.
O centro do comércio de referência e o
próprio nome da rua parecem incitar ao movimento
do corpo, da alma e do cartão de crédito,
mas esteja atento ao pôr-do-sol e às aventuras
que se seguem quando a noite chega. Na Rua Váci,
as lojas fecham cedo e abre-se o comércio nocturno,
com a mais velha profissão do mundo (obviamente,
não é a de carpinteiro).
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Lobby do luxuoso Palácio
Gresham Four Seasons, um edifício
Art Nouveau construído em 1907.
Mercado Ecseri
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Um passeio distraído para
aquecer as mãos e rapidamente se é interpelado
por duas senhoras simpáticas que precisam de
companhia para um bar onde se oiça boa música.
Bares não faltam e meninas solícitas também.
A prostituição faz parte da cultura húngara
(como faz parte de qualquer cultura, afinal de contas),
mas a beleza insuperável das meninas locais leva
a que muitos visitantes percam a cabeça pela
melodia oxigenada da canção do bandido.
Acontece que muitas delas, as belas de dia, acabam por
ser exportadas para a Rússia. As que ficam para
trás são menos belas, e as mais belas
não são meninas da noite. Mas todas as
regras têm a sua excepção: não
é difícil encontrar belíssimas
escort girls fazendo companhia ao miserável mafioso
de esquina que não tem quaisquer problemas em
pagar a despesa daquele restaurante de luxo onde ficámos
a lavar a loiça.
Na Rua Váci, naquela noite daquele dia, a proposta
indecente que nos fizeram tinha o seu quê de inocente
também. Os guias turísticos da Hungria
não deixam de avisar o visitante para a chamada
Rapariga de Consumo, que se limita a cativar o turista
para um café ou restaurante onde depois possa
aproveitar para abusar um pouco no consumo do bar.
Sabem de algum bar onde se oiça boa música?
Como somos turistas decentes, sacámos do mapa
para indicar o melhor destino às senhoras, que
foram à sua vida, fossem elas da boa ou da má.
Rua Váci: dia
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Feira da ladra nos
arredores
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A Rua Váci está
dividida em duas partes – antes e depois da Ponte
Elisabete. A primeira inicia-se na Praça Vörösm,
onde sobrevive a nostalgia magnificente do Café
Gerbeaud (uma espécie de Café Majestic,
mas com pior serviço), e depois a rua avança
para uma zona de comércio internacional, com
presença habitual das lojas que encontramos em
qualquer parte do mundo. É irrelevante entrar
para comparar preços, mas se acha que a sua vida
em Portugal está com o colesterol controlado,
faça favor.
De qualquer forma, a divisão das duas Váci
faz-se pelo Restaurante Matyas Prince, onde se reunia
a elite comunista nos tempos idos. Apetece visitar para
contar a história aos amigos e falar dos velhos
tempos. E se ousar passar por debaixo da entrada da
Ponte Elisabete, será recompensado. Subitamente,
os turistas desapareceram. A Rua Váci começa
a tornar-se interessante. Tem bons antiquários
e velharias, com berloques de todo o gosto, recordações
de um passado recente com ordem para regatear. Decidi
comprar um metrónomo de origem austríaca,
um Maelzel, cujo preço subiu de um dia para o
outro. Estávamos bem longe do Bairro Judeu, mas
o raio do comerciante insistiu no preço inflacionado
e juntou-lhe mais uma dose de jogo psicológico.
- Ontem disse-me que eram 8000 forints.
- Não disse, não. Custa 10 000 forints.
Na verdade, o preço marcado na peça era
de 14 000 forints, cerca de 60 euros, mas dessa farsa
eu não fui protagonista. Limitei-me a seguir
a narrativa, e fazer de profissional.
- Não é justo, fez-me andar este caminho
todo e não me vai vender a peça?
- 9000 forints.
- Ontem custava 9000!
- Vai deixar de levar a peça por causa de 1000
forints?, perguntou-me o judeu.
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Imenso mural com retratos
das vítimas da revolução,
no hall da Casa do Terror
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Claro que não deixei de
levar a peça. Mas se alguma lição
aprendi na Rua Váci foi a capacidade de regatear
e lutar por aquilo em que se acredita – mesmo
entendendo que o objectivo primordial dos húngaros
na Europa é roubar os jornalistas portugueses
(não é, eles preferem roubar aos americanos).
Na verdade, os preços em Budapeste subiram tanto
nos últimos dez anos que deixou de haver necessidade
de o turista recear qualquer tipo de roubo ilegal. De
certa forma, os preços praticados são
quase o roubo legal com que a economia de mercado decidiu
presentear o turista acidental.
Para entrar no jogo é preciso saber-se jogar.
Muitas vezes trata-se de fazer descer o preço
enquanto se levanta a voz. Outras vezes, é uma
questão de persistência. A maioria dos
vendedores em Budapeste não fala Inglês,
embora gesticule muitos “yes, yes!”. No
aproveitar é que está o ganho. O mercado
de Esceri, a Feira da Ladra situada nos arrabaldes da
cidade, foi o melhor local para exercitar com esmero
esta fina arte da contra-argumentação
comercial. Claro que saímos a ganhar: depois
de muita conversa, e alguma troca de euros, trouxemos
uma câmara super 8, uma máquina de projectar
de origem soviética, um trompete, uma máscara
antigás, um clarinete, uma gabardina da polícia
secreta húngara, um lenço azul comemorativo
dos 35 anos da antiga RDA e outro amarelo dos 30 anos
do Clube Motorizado de Jena. Foi caro? Deu ainda para
pagar o táxi de volta para a cidade.
O bairro IX de Ferencváros:
a Rua Ráday
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Pista de gelo de Varosliget
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A Rua Váci termina a sua
lenta agonia no Fóvam Tér, a praça
que acolhe a Ponte da Liberdade, cujo desenho original
de 1849 sobreviveu miraculosamente à Segunda
Guerra Mundial. Do outro lado da rua, o Mercado Municipal
assinala a porta de entrada no Bairro de Ferencváros
e a última fronteira da baixa de Budapeste. O
primeiro andar do mercado é um óptimo
local para se almoçar. Peça uma sopa gulash,
acompanhe ao balcão com um copo de vinho Tokaj,
very typical, e esqueça as latas de pasta de
fígado de ganso Rex Ciborum que deixou por comprar
no piso térreo. Haverá sempre uma segunda
oportunidade para o fazer, agora que o apetite deu lugar
à razão (afinal, nada se deve comprar
de estômago vazio).
Se optar por subir a Vamház Korut em direcção
à Kálvin Ter, onde está a Igreja
Calvinista, aproveite para se lançar à
direita no desafio alternativo da Rua Ráday,
a quem os locais chamam de Soho de Budapeste. É
difícil imaginar numa tarde gélida de
Inverno a vida que pode existir quando o sol de Verão
abre as esplanadas e irradia os humores da Rua Ráday.
Mas se a rua se tornou trendy, isso implica uma sobrevivência
para além da mera fasquia solar diária.
O Soho de Budapeste aguenta o frio do Inverno e as armadilhas
da noite. Há galerias de arte contemporânea,
lojas de pop art, art déco à discrição,
circuitos fora de horas, e, claro, o incomparável
Café Costes, que aproveita o beneplácito
da casa-mãe parisiense, o Hotel Costes, e agarra
o incentivo rítmico das compilações
musicais de Stéphane Pompougnac. Como curiosidade,
fique a saber que o último disco do Hotel Costes
estava à venda numa loja por detrás da
Basílica a um preço verdadeiramente proibitivo.
Sendo assim, é preferível ir jantar directamente
sem passar pela casa da partida.
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Teatro Nacional um
edifício moderno cuja construção
dividiu a opinião pública
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Quando o Café Costes abriu
em Paris em 1984, Philippe Starck, que era autor do
projecto, disse que a inspiração para
o design remetia para “uma sala de espera de terceira
categoria numa estação de comboios em
Budapeste por altura dos anos 50”. Quis o destino
que o Café Costes de Paris tenha fechado as portas
e Budapeste subido de patamar na categoria internacional.
O Café Costes Budapeste abriu há apenas
dois anos, e é único na cidade. Não
há espaço para as cadeiras de três
pés que Starck imaginou em 1984 de forma a evitar
que os empregados tropeçassem durante o seu circuito
laboral, mas há uma arrumação inteligente
que parece criar brechas e proporciona uma respiração
de modernidade na pequena sala art déco. Os três
únicos empregados são responsáveis
pelo serviço da casa durante 12 horas seguidas
durante sete dias da semana. Aos domingos, os húngaros
também sabem viver.
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Cúpula da Basílica
de Santo Estevão
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Não muito longe, mas
já a caminho do centro, funciona o Café
Central, que reúne a intelligentsia de Budapeste
desde 1887. O espaço são dois andares
sumptuosos que desenham uma esquina valente, e ainda
hoje é possível imaginar os jornalistas
com as suas máquinas de escrever dedilhando as
palavras de provocação num som que ficou
para sempre a ecoar naquelas paredes.
A História e os museus
Lembra-se da nossa sugestão
inicial à entrada para Buda? Um monumento, um
hotel, uma rua comercial, um circuito alternativo, mas
apenas uma escolha de cada vez? Pois bem, a cidade de
Budapeste tem mais de 50 museus à escolha, para
não falar das galerias de arte da Rua Radáy.
Mas chegou a altura de optar entre dois museus que escolhemos
para si. Pessoalmente, não terei dúvidas
em sugerir a Casa do Terror. Mas uma vez que Budapeste
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Sobremesa de frutos
silvestres com gelado e vinho do Porto,
preparada por James McClure, o chef
do Goa Café
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tem uma forte tradição
na arte fotográfica (Robert Capa, um dos fundadores
da Agência Magnum, nasceu aqui em 1913) não
ficaria mal perder meia horita no Museu da Fotografia,
a chamada Casa Mai Manó, que albergou o fotógrafo
do império austro-húngaro durante a sua
vida, na segunda metade do século XIX (Mai Manó
morreu em 1917, com a queda do Império).
O edifício fica na Nagymezo Utca, uma rua paralela
à Avenida Teresa, e funcionou como estúdio
de Mai Manó até ao momento em que foi
vendido a um casal do showbiz, nos anos 20. Ela era
Maria Senger, mais tarde eternizada como Miss Arizona.
Foi aqui, neste espaço de três andares
em remodelação, que a dupla desenvolveu
o projecto de fazer um dos mais espantosos cabarets
da Europa Central. Um sonho que morreu em 1944 quando
o casal foi deportado e morto por nazis (húngaros
ou alemães, ninguém sabe). Hoje, o edifício
funciona como biblioteca, associação,
galeria e estúdio, sendo uma instituição-museu
sem fins lucrativos. Está sob a alçada
administrativa do Bairro VI, ao qual são obrigados
a pagar uma renda simbólica de 1 forint anual.
A Casa do Terror
Nada
a declarar? Lista
de produtos indispensáveis para trazer
de Budapeste
Xarope Unicum
– Unicum Zwack é um digestivo medicinal
feito à base de ervas, com uma receita
secreta que existe há gerações
na família dos Zwack. Como quase todas
as bebidas modernas, começou por ser um
produto farmacêutico. Hoje é um xarope
e bebe-se fresco. A fórmula secreta do
Unicum foi guardada pelos dois irmãos Zwack
durante a Segunda Guerra Mundial e resistiu até
à separação, quando um deles
emigrou para a América. Esta foi das poucas
famílias húngaras que conseguiram
recuperar o património e o negócio
das mãos do regime comunista. Consulte
www.zwackhu
Rex Ciborum
– Pasta de fígado de ganso ou pato
Rex Ciborium, que no original significa “manjar
dos reis”.
Uma embalagem de cem gramas custa cerca de 15
euros, com venda garantida no Mercado Municipal
de Fóvam Tér.
O preço é significativo, daí
alguns mercados aceitarem cartão de crédito.
A embalagem é uma obra de arte e já
ganhou prémios internacionais de design.
A tradição remonta a 1896.
Paprika ou Fuszerpaprika
– Pimenta de origem sérvia, a paprika
conhece em Portugal as duas versões de
pimentão-doce, ou colorau, e pimentão
vermelho, este para paladares mais exaltados.
Apesar de ser uma especiaria, a paprika inclui
uma quantidade assinalável de Vitamina
C, cuja descoberta deu o Nobel a Albert Szenty-Gyorgy
em 1937. Na Hungria, a paprika está à
mesa de qualquer refeição que inclua
o gulash de carne e vegetais, e pode comprar-se
em qualquer lado.
Os mercados oferecem uma colher de pau simpática.
Palinka
– Espirituoso forte e frutado do tipo aguardente
que tem criado nova discussão entre a Hungria
e a Roménia, para saber qual deles ficará
com os direitos sobre o título.
Os romenos alegam a secularidade, os húngaros
a manufactura. A Palinka húngara é
destilada exclusivamente da fruta, daí
as garrafas incluírem a origem, seja ela
alperce, cereja ou ameixa. Os argumentos magiares
pretendem garantir que um produto tão genuíno
e singular como a Palinka seja defendido da mesma
forma como a Grappa é pela Itália
e o Ouzo pelos gregos.
Vinho Tokaj
– Tal como em Portugal, o sector vinícola
é dos mais importantes da indústria
húngara. Um dos vinhos mais conhecidos
da Hungria é o Tokaj, um generoso que parece
uma mistura de moscatel com xerez, originário
da região de Tokaj-Hegyalja, no Nordeste
do país. Uma garrafa custa cerca de 10
euros. O Tokaj utiliza essencialmente as castas
Furmint, Hárslevelu e Muscat. Escolha o
doce que mais lhe aprouver e não conduza
nessa noite. |
Ao
contrário do que o título indicia, a Casa
do Terror, na Rua Andrássy, não é
um circuito infantil de Feira Popular. Bem pelo contrário.
O espaço foi casa-mãe do Partido Nazi
Húngaro até 1944 e albergou a polícia
secreta do Partido Comunista depois da Segunda Guerra
Mundial, de 1945 a 56, antes da revolução
que custou a vida a Imre
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Detalhes do exterior
e do interior da Casa do Terror, um
museu cujas temáticas são
a tirania e o terror – nazi e
soviético – e que impressiona
pela experiência sensorial que
proporciona, uma “descida aos
infernos”
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Nagy. Para que serve a casa agora?
Serve como memorial,
para fazer lembrar o que foi viver na Hungria durante
50 anos. Para obrigar as pessoas a compreender o mundo.
Para evitar que os habitantes da União Europeia
profiram banalidades sobre a Europa do século
XX. Para os familiares das vítimas e as novas
gerações, do Atlântico aos Urais.
Todos os países que sofreram com o Tratado de
Versailles, todos os países que sobreviveram
aos Acordos de Ialta, que viveram sob o manto escuro
do comunismo, deveriam ter a coragem de erguer um museu
tão elucidativo e eloquente como a Casa do Terror,
em Budapeste.
O que faz o museu ser
original é o modo como ilustra a realidade –
não basta mostrar, é preciso saber contar.
E todas aquelas paredes têm mil histórias
para contar. São três pisos superiores,
dedicados a exposições temporárias
que deveriam ficar para sempre, e dois pisos inferiores,
para melhor aplicar o cliché da “descida
aos infernos”. Mas a experiência sensorial
começa no exterior, onde a esquina é uma
rede de campo de concentração, ocultando
um conjunto de janelas cujos painéis com recordações
de guerra impedem a devida transparência. Uma
vez lá dentro, para sempre lá dentro.
As temáticas do
museu são a tirania e o terror – de origem
nazi e soviética. Mas, em vez de imagens de arquivo,
temos the real thing. Um carro de combate da Segunda
Guerra Mundial colocado no hall principal, testemunhado
por um imenso mural com retratos de vítimas da
revolução. Um protótipo da limusina
de seis lugares ZIM, construída durante a guerra-fria
pela fábrica soviética Gaz Volga, que
entretanto mudou de nome para ZIM, ou Zavodi Imeni Molotova,
como homenagem ao ministro dos Negócios Estrangeiros
soviético, Molotov. Um labirinto iluminado por
blocos de sabão, recordando a indústria
crematória do Holocausto. Uma sala de aula cromaticamente
decorada com elementos de propaganda soviética.
E por aí fora. As exposições manipulam
o excesso, estimulam a alma e a memória, são
poesia e arma de arremesso. Funcionam como modelos de
arte pop e multimédia, criando sinestesias na
imaginação e alguma chuva no nosso coração.
Bairro VI: a Praça dos Heróis
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Monumento da Praça
dos Heróis
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Budapeste tem duas zonas privilegiadas
de espaços verdes. Uma é a Ilha Margarida,
no meio do Danúbio, uma área vedada ao
trânsito, onde a cidade organiza fantásticos
festivais de música no Verão. Outra é
a Varosliget, ou Parque da Cidade, situada no fim da
Rua Andrássy, logo depois da Praça dos
Heróis. É aí, numa antiga região
pantanosa, que podemos encontrar o Museu das Belas Artes
(se prefere o clássico, não hesite), o
Jardim Zoológico, as Termas Széchenyi,
onde as piscinas de água termal são originárias
de uma nascente a 900 metros de profundidade, o fabuloso
castelo Vajdahunyad, uma pista no gelo, ideal para a
criançada, e o incontornável Gundel, para
um brunch de eleição.
O Gundel
O Gundel tem 110 anos de serviço
e um odor a tradição que transita da cozinha
até ao foyer de entrada. Em Portugal isso significa
uma coisa: casamentos e baptizados. Em Budapeste, nem
pensar. É verdade que o mostruário da
entrada está repleto de fotografias da aristocracia
em pose cerimoniosa, com imagens amarelecidas de chanceleres
ultrapassados e nobreza decadente. Mas o restaurante
continua a recuperar o esplendor que havia perdido no
final da Segunda Guerra Mundial, quando o Partido Comunista
decidiu nacionalizar o Gundel.
Em
1992, o antigo palácio foi reaberto com nova
gerência, e a responsabilidade da cozinha passou
para as mãos de Kálman Kálla, o
chef que transformara a cozinha da Embaixada Húngara
em Washington no mais celebrizado hot spot da cidade.
Kálla começou aos 15 anos a trabalhar
no ofício, e passou por Tóquio antes de
chegar a Washington. O seu maior desafio no Gundel foi
manter a excelência e a singularidade da mais
famosa panqueca do país, que decidiu aperfeiçoar.
Trata-se de uma panqueca aromatizada em limão
que é dobrada sobre um creme de avelãs,
passas e laranja, sendo acompanhada por um molho de
chocolate no ponto. Ao contrário dos mitos urbanos,
a panqueca do Gundel não é flamejada.
Mas há tradições que nunca morrem:
no dia em que visitámos o restaurante, um Domingo
de manhã, havia uma reserva garantida para 164
pessoas, o que pressupõe alguma flexibilidade
de serviço e engenhosa produção
de pequenos-almoços com panquecas Gundel.
Esta pode muito bem ser a sua primeira refeição
do dia.
Agradecemos a colaboração
da TAP-Air Portugal, do Four Seasons e do Art’otel

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