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XL
> Rotas & Destinos
> Dossier
> 3 Destinos para namorar - Munique


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| D O S S I E R |
Fevereiro
de 2006 |
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A
capital da Baviera tem de ser descoberta passo
a passo, com uma paciência de viajante
com tempo. Apaixone-se sem pressas por esta
cidade desde há séculos mergulhada
na arte
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Texto
de Miguel Satúrio Pires e fotos
de Pedro Sampayo Ribeiro |
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O
dia acorda com um sol radiante, reflectido nos telhados
esbranquiçados pela neve que caiu na noite anterior.
Através da janela, tiramos a primeira radiografia
a Munique. Lá fora, apesar do visível frio,
contrariado pelas camadas de roupa que agasalham os transeuntes,
ninguém se faz rogado. Desde cedo que as gentes
cirandam de um lado para o outro – ora em passo
descontraído, ora ao ritmo da pedalada das bicicletas
– em direcção ao emprego ou ao café
para um chocolate quente e um tradicional pretzel.
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Distraídos pelo ambiente
tranquilo que se vive nesta cidade com cerca de 1,3 milhões
de habitantes (só na área metropolitana),
mal damos pela passagem de um apressado jovem executivo
que, adivinhamos, não quer perder o metropolitano
prestes a chegar à estação mais próxima;
quase em simultâneo, vemos um casal em preparativos
para inserir o filho no “casulo” hermético
com rodas, para seguir com ele atrelado a uma das bicicletas;
mais à frente um pequeno grupo de peões
aguarda disciplinadamente pelo sinal verde para atravessar
a rua. Aderimos à maioria e aguardamos a nossa
vez, mesmo sem avistar qualquer veículo nas imediações.
As “más tradições” lusas
de comportamento social, como atravessar as vias fora
das passadeiras ou quando o semáforo para peões
está encarnado, são rapidamente esquecidas.
Diga-se que, aqui, as regras – estas e outras –
são assumidas como obrigação.
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Uma autêntica parada
de leões invade
as ruas de Munique (www.leo-parade.de).
São mais de 150 estátuas pintadas
por artistas e crianças, em homagem
a “Henry the Lion”, fundador da
cidade em 1180. Centro histórico; Virtualienmarkt;
o jardim Hofgarten e a Odeonsplatz; o rio
Isar e pantufas de Pia Rennt, à venda
no mercado Schrannenhalle |
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O trânsito, esse, não é de todo intenso.
Talvez ganhe mais movimento nas horas de ponta –
se é que as podemos considerar como tal –,
mas quase é difícil acreditar que estamos
na terceira maior cidade da Alemanha... Fica no ar a suspeita
de que a viatura particular de quatro rodas é o
último recurso dos habitantes de Munique. A tranquilidade
que aqui se respira é um facto curioso se pensarmos
que a Baviera e a sua capital ostentam expansão
e prosperidade com as suas industrias high-tech em áreas
tão diversificadas como a automóvel, a química,
a aeronáutica e a electrónica. Na verdade,
o que parece ser o grande segredo de Munique é
a forma como conjuga o cosmopolitismo de uma grande metrópole
com uma atmosfera que se mantém tradicional (e
quase rural).
O hábito faz
o monge
Desfrutar uma semana inteira entrosado com a vida de uma
cidade é um luxo que poucos têm. Ainda mais
se não recorremos aos habituais pacotes excursionistas
de fim-de-semana e preferirmos ficar à nossa mercê,
prontos para a descoberta sem horários ou meta
certa. No entanto, esta possibilidade também comporta
os seus riscos. É que, passada a barreira psicológica
dos três ou quatro dias, acabamos por adoptar rotinas,
circuitos e manhas (ou manias) e acabamos por desviar
as atenções para outros pormenores mais
corriqueiros, do dia-a-dia, quase esquecendo o nosso papel
de visitante e mais ainda o de cicerone.
Lançado o aviso
à navegação, foi assim que, durante
uma semana aproveitada ao minuto, acompanhámos
os joggers nos trilhos do imenso Jardim Inglês (Englischer
Garten), pronunciámos – a custo, é
verdade – a língua alemã, entrámos
nos mesmos cafés, fomos à mercearia do bairro,
partilhámos as carruagens do metropolitano ou do
tram, descobrimos atalhos para encurtar distâncias
e conhecemos os spots que estão na moda.
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Allianz Arena, o novo estádio
construído para o Mundial de Futebol;
a Neues Rathaus
que marca a célebre Marienplatz; instalação
dedicada a Mozart; e a Altes Rathaus, a antiga
câmara, que hoje alberga um museu. Uma
das mais recentes referências da arquitectura
de Munique é o novo estádio,
o futurista Allianz Arena, inaugurado há
seis meses |
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Primeiro pelas grandes e longas avenidas, como a elegante
Maximilianstrasse, a austera Ludwigstrasse ou a animada
Leopoldstrasse, e depois, já mais familiarizados,
pelas ruas e praças do centro histórico
e imediações – invariavelmente animadas
pelos seus célebres mercados de rua –, onde
a arquitectura, menos ostensiva, não deixa de ser
rica em pequenos detalhes e curiosidades audazes.
| Englischer Garten, o maior
parque urbano da Alemanha e o pulmão
de Munique |
|
Apesar de a cidade ter
sido quase totalmente destruída durante a Segunda
Guerra Mundial, um passeio em Munique é o mesmo
que comprar bilhete e embarcar numa viagem pela história
da arquitectura. Passo a passo, entramos neste museu a
céu aberto, onde os traços dos mestres do
barroco, do gótico, do maneirismo e muitos outros
compõem a paisagem. Edifícios neo-clássicos
como o palácio de Ludwig I, Wittelsbacholatz (Odeonsplatz),
misturam-se com outros de linhas Arte Nova como a fachada
do Pacelli Palais (Georgenstrasse, 8-10), e não
param de nos surpreender.
Um bom exemplo desta constante sensação
de espanto é a forma quase perfeita como a arquitectura
secular se desconstrói em peças contemporâneas,
umas vezes fechando pequenas ruas e pracetas com estruturas
envidraçadas, refúgios quase imprevistos
que nos arrastam para o consumo, e outras tantas com edifícios
históricos reconvertidos em obras-primas do design.
É o caso da galeria
comercial Fünf Höfe, desenhada por Herzog &
de Meuron, os mesmos arquitectos que conceberam o original
Allianz Arena. Localizada entre a Odeonsplatz e a Promenadeplatz,
abriga espaços como o day time bar do Schumann’s;
o romântico Café Kunsthalle; a enorme livraria
Hugendubel, das poucas com edições em inglês;
ou o colorido Kaimug, de onde emanam os aromas da cozinha
tailandesa confeccionada à nossa frente.
| Pinakothek der Moderne, um
gradioso museu de arte contemporânea,
inaugurado em 2002 |
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Poucos metros adiante, alcança-se
o Maximilianhöfe (a entrada é pelo n.º
15 da Maximilianstrasse), onde funcionou em tempos o picadeiro
da Real Escola Equestre. Fruto da reconstrução
do edifício Burklëin, neste abrigado pátio
rodeado de paredes envidraçadas (se tiver sorte
pode ser que consiga escutar a companhia de ópera
de Munique, através da parede de vidro que dá
para a sua nova sala de ensaios – ver caixa: O ano
de Mozart), passeia-se agora o estilo da haute couture,
com assinatura de Gianfranco Ferré e Dolce &
Gabbana, entre outros. O restaurante Brenner Grill &
Pasta Bar, escondido aqui no pátio, é um
verdadeiro achado de boa comida, bom ambiente, simpatia
e originalidade.
O exemplo acabado da forma progressista que Munique tem
de encarar os projectos – recorde-se a facilidade
com que a Baviera recuperou a pujança económica
no pós-guerra – é, sem sombra de dúvida,
o novo estádio da cidade. Falamos novamente do
futurista Allianz Arena, que, além de vários
jogos do Mundial de Futebol que começa em Junho,
vai acolher a cerimónia de abertura do campeonato
das nações. Projectado pela dupla Herzog
& de Mueron, foi inaugurado em Junho de 2005, precisamente
um ano antes do início da prova internacional,
estando também já finalizados todos os acessos
e as respectivas infra-estruturas de apoio.
Partilhada por duas das equipas de futebol locais, o Bayern
de Munique e o 1860, esta obra de arte da arquitectura
desportiva, a aparentar um insuflável gigante,
impressiona à medida que o metropolitano de superfície
se aproxima da estação de Fröttmaning
(linha U6). De forma progressiva, toda a fachada que o
envolve vai mudando de cores, entre o branco, o vermelho
e o azul, estando prometidos momentos memoráveis
de espectáculo nocturno (durante o dia realizam-se
visitas guiadas em Inglês, se marcadas com antecedência;
informações em www.allianz-arena.de).
O seu excelente restaurante de linhas minimalistas, o
Arena a la Carte, ainda com um espaço lounge, é
o local ideal para beber um café ou almoçar.
 |
Outra das referências da
arquitectura modernista de Munique é o seu complexo
olímpico, utilizado durante os jogos de 1972. Apesar
de ser notória alguma degradação
da envolvente, não deixa de ser um ponto emblemático,
acima de tudo pela ousadia das suas linhas, nomeadamente
do estádio, agora mais utilizado para concertos,
exposições e feiras. Entretanto, resta dizer
que o original edifício-sede da BMW, em frente
ao Olympiazentrum, vai ter em breve um sucessor à
altura, com as obras a avançar no novo espaço
da marca, agora mesmo ao lado dos 290 metros de altura
da Torre Olímpica.
Conquistas passa a passo
A capital da Baviera divide-se em várias zonas,
fronteiras mais ou menos virtuais, cada uma delas com
o seu ambiente e habitada pelas suas personagens, que
variam consoante as épocas. O eterno clima artístico,
as noites boémias e a estudantina de Schwabing,
o segredo bem guardado que ainda são Neuhausen
e os jardins dos palácio de Nymphenburg, os cafés
de charme de Haidhausen, as lojas gourmet para o consumidor
sofisticado de Lehel, o público tricolor e os restaurantes
de charme de lockenbachviertel, o estilo operário
de Giesing ou a história de Altstadt, apenas nomeando
algumas das áreas mais concorridas e emblemáticas
de Munique, reúnem uma miríade de atmosferas
para todos os gostos.
| O Schloss Nymphenburg, mandado
construir pelo duque Ferdinand Maria e sua
mulher, Henrietta de Sabóia, como palácio
de Verão |
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Cidade plana de fácil
orientação e circulação, dotada
de uma excelente rede de transportes, que, literalmente,
num pulo o levam a qualquer ponto da região, do
país e da Europa, em Munique coabitam de forma
pacífica várias tendências, culturas
e opções.
Nós partimos da estação central,
Hauptbahnof, em direcção a Karlsplatz e
continuamos no sentido do centro histórico. Grande
parte desta zona distribui-se por alargadas áreas
de circulação pedestre em redor da célebre
Marienplatz e da Residenz (ou Residência), a casa
real dos soberanos da Baviera. Este grande complexo palaciano
onde, entre 1385 e 1918, viveram os membros da dinastia
Wittelsbach, inclui o maior edifício renascentista
do mundo – o Antiquarium – vários pátios
ajardinados e interiores onde traços rococó
e clássicos predominam.
O preciosismo das linhas e dos detalhes que se vislumbram
na Residenz caminham ao longo do Cuvillés Theater
(século XVIII) e da Schatz-kammer (a sala das jóias
da coroa; século XVI) – alguns dos espaços
deste palácio com vista para o Hofgarten, onde
ainda se encontra a sede da chancelaria do Estado da Baviera.
 |
É precisamente nestas imediações
que nos apercebemos da agitação típica
de uma cidade muito turística, mas também
com muita vida própria, preenchida por um comércio
vivo e variado. Durante todo o dia, as ruas estão
repletas de gente a entrar e a sair das inevitáveis
cervejarias (é incontornável uma visita
à histórica Hofbräuhaus, na Am Platz
9), às compras numa das muitas lojas, ou simplesmente
a admirar – diariamente às 11 horas em ponto
– o rodopiar do famoso relógio de figuras
dançantes, que decora a torre cimeira do Neues
Rathaus (Novos Paços do Concelho), um rebuscado
e monumental edifício neo-gótico construído
entre 1867 e 1919 em plena Marienplatz.
Esta praça marca o centro geográfico de
Munique (e da Baviera) e funciona como uma espécie
de sala de estar dos munichers, desde os tempos em que
apenas dava lugar a um mercado.
A coluna de Mariensäule que ocupa o centro foi erguida
em 1638 como gratidão ao final da invasão
sueca, e a praça ganhou o nome actual em 1854,
quando os cidadãos de Munique pediram a protecção
da Virgem contra uma epidemia de cólera.
O
ano de Mozart
Wolfgang Amadeus Mozart
nasceu em Salzburgo, há precisamente 250
anos, data que é comemorada em 2006 por toda
a Europa, nomeadamente em Munique, que recebeu o
músico e compositor por numerosas vezes e
onde ele completou dois dos seus maiores trabalhos.
Aliás, a sua primeira visita à cidade
aconteceu quando Mozart tinha apenas seis anos,
em 1762. Desta breve estadia, pouco documentada,
apenas se sabe que o pequeno menino prodígio
deu um dos seus primeiros concertos e que Maximilian
III Joseph, soberano da Baviera, estava entre os
espectadores. Entre outras inúmeras passagens
por Munique, sempre com concertos agendados, foi
aqui que, durante o Carnaval, foi representada La
Finta Giardiniera, uma opera buffa de três
actos, corria o ano de 1775. Cinco anos mais tarde,
Mozart voltaria a ser convidado para aqui compor
e executar a sua primeira opera seria, Idomeneu,
a qual viria a fortalecer a sua reputação
de jovem e genial mestre. Presume-se que Munique
foi também a última cidade visitada
pelo compositor antes da sua morte. Aliás,
descobriu-se no ano passado, numa galeria em Berlim,
um retrato de Mozart até agora desconhecido,
que, segundo os peritos, terá sido pintado
na sua passagem pela capital da Baviera a caminho
de Viena, onde viria a falecer, em 1791, com 35
anos.
Para celebrar a vida e obra de Mozart, além
das óbvias comemorações levadas
a cabo nas restantes cidades europeias por onde
o compositor passou, especialmente Salzburgo, sua
terra-natal, vão ser apresentadas na Bayerische
Staatoper de Munique (Max-Joseph-Platz, 2), seis
das suas mais importantes óperas: La Clemenza
di Tito, Cosi fan tutte, Don Giovanni, Die Entfuehrung
aus dem Serail, Le nozze di Figaro, e Die Zauberfloete
(A flauta mágica). Informações
em www.musikmetropolemuenchen.de
e bilhetes à venda em www.muenchenticket.de |
Muito se fala da mágica luz de Lisboa, mas o certo
é que os tantas vezes acobreados tons que dão
cor à silhueta desta cidade também não
lhe ficam atrás, principalmente naquele momento
em que o Sol se põe para lá da monumental
basílica de traços góticos Frauenkirche
(século XV). O melhor local para gozar este momento
único do dia fica a dois passo da Marienplatz.
Do alto do campanário renascentista da mais antiga
igreja da cidade – a Peterskirche, que, construída
no século XI, fazia parte do mosteiro que deu o
nome à cidade: Mönchen significa “monges”
–, e, após uma escalada de 302 degraus, podem
espreitar-se os telhados de Munique a pontilharem na linha
do horizonte, com a cordilheira dos Alpes a irromper do
solo à nossa volta nos dias de maior visibilidade.
|
| O Antiquarium é a
maior construção renascentista
do mundo. Foi construído no século
XVI e integra o complexo da Residenz, residência
dos reis da Baviera e da dinastia Wittelsbach |
|
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Os estabelecimentos comerciais daqui diferem de estilo
e de aspecto à medida que avançamos. Desde
as incontáveis galerias de arte antiga e contemporânea,
lojas de decoração e antiquários,
até às simples lojas de artesanato bávaro,
passando pelos ateliers de artistas e estilistas locais
e pelos estabelecimentos das grandes etiquetas da moda
mundial, as grandes avenidas sucedem-se às pequenas
ruelas e animadas praças.
Não muito distante do centro histórico,
tendo como ponto de partida a Odeonsplatz e cortando à
esquerda pela Oskar Von-Miller Ring (aproveite para aqui
visitar a mostra tecnológica patente no moderno
Siemens Forum) em direcção à Gabelsbergerstrasse,
as vistas alargam-se ao encontrarmos os enormes quarteirões
onde se distribuem os três vértices do “triângulo
dourado da arte em Munique”. Entre outros espaços
museológicos de menor dimensão, destacam-se
a Neue Pinakothek, a Alte Pinakothek e a Pinakothek der
Moderne, edifício modernista de fachadas envidraçadas
e ângulos rectos, inaugurado em 2002, que reúne
obras de alguns dos mais conceituados autores contemporâneos.
| Neuschawanstein, o mais célebre
projecto de Ludwig II |
|
Triângulo das
artes
No início do século XIX, Maximilian I Joseph
lançou um concurso para encontrar um projecto que
tornasse mais bela a área que liga a Residenz ao
Schloss Nymphenburg (que significa literalmente “castelo
das ninfas”) – a residência real de
Verão construída pelo duque Ferdinand Maria
(1651-79) nos arredores da cidade e que hoje se mantém
um agradável espaço verde. Transformar Munique
numa cidade das artes foi um sonho a que os seus sucessores
deram continuidade com sucesso.
A verdade é que hoje Munique é mesmo uma
cidade possuída pelas artes e o proclamado bairro
dos museus, na parte mais oeste de Schwabing, é
disso exemplo. Um dos primeiros passos foi dado por iniciativa
de Ludwig I, soberano da Baviera entre 1825 e 1848, que
aqui mandou construir, em 1836, a Alte Pinakotheke, que
alberga uma importante colecção de obras-primas
datadas entre os séculos XIV e XVIII. Distribuídos
pelos dois andares deste soberbo edifício de linhas
renascentistas, desenhado por Leo von Klenze (que também
arquitectou o plano urbano envolvente da Ludwigstrasse)
e reconstruído após a II Guerra Mundial,
estão obras assinadas por mestres como Rembrandt,
Titian, Botticelli ou Bruegel, entre muitos outros exemplares
artísticos oriundos dos riquíssimos espólios
das dinastias que atravessaram a história da Baviera,
de antigas ordens monásticas e da nobreza bávara.
| A estrada coberta de neve
que leva ao castelo de fadas, inspirado nas
óperas de Wagner, e que todos os anos
recebe milhares de visitantes |
|
Segue-se a Neue Pinakotheke, inaugurada em 1853 também
por Ludwig I, e ainda hoje em dia um dos mais importantes
museus do mundo, com uma impressionante mostra permanente
de arte que percorre todos os “ismos” deste
ofício: do classicismoo ao impressionismo, passando
pelo simbolismo, são exibidas, nas mais de trinta
salas deste edifício – igualmente arrasado
durante a II Guerra Mundial e reconstruído de raiz
entre 1976 e 1981 –, cerca de 4500 pinturas de alguns
dos mais representativos autores mundiais, de que se destacam
Edouard Manet, Claude Monet, Max Libermann ou Goya.
A Pinakotheke der Moderne é a mais recente novidade
do Museum & Art District de Munique. O arquitecto
Stephan Braunfel deu especial primazia à luz natural
filtrada pelas vastas superfícies em vidro e pela
enorme cúpula central envidraçada. Por isso,
este novo espaço dedicado à arte contemporânea,
com mais de 21.000m2 e quase labiríntico, choca
com a restante envolvente histórica, onde marcam
presença construções de traços
mais pesados e rebuscados.
Nas redondezas, encontram-se ainda a Glyptothek, com exposições
permanentes de escultura grega e romana, o Museu de Arte
Antiga e a Lembachhaus, uma galeria de arte instalada
num palácio do século XIX, onde habitualmente
se cruzam admiradores de movimentos artísticos
tão diversos como o romântico, o Biedermeier
– com origem na classe média da época
e que viria a influenciar fortemente discípulos
da Arte Nova como a Bauhaus –, e outros de estilos
mais contemporâneos, desta feita assinados por Kandinski,
Andy Warhol ou Joseph Beuys.
 |
De referir que estão previstos
para breve outros núcleos museológicos nesta
zona, como é o caso do futuro Museu da Fotografia
e do Museu Brandhorst que, num edifício de linhas
futuristas desenhado pelo atelier de arquitectura Sauerbruch
Hutton, vai reunir a colecção de arte contemporânea
da fundação homónima.
O futuro Museu Brandhorst (www.museum-brandhorst.de)
começou a ser erguido em 2003 no terreno adjacente
à Pinakotheke der Moderne e vai assumir-se, em
conjunto com as cerca de 700 obras de Picasso, Warhol,
Nauman, entre muitos outros, como mais uma âncora
deste bairro dedicado à cultura.
Espírito de mercador
Desde há séculos animada pelos célebres
mercados de rua que se espalham um pouco por toda a cidade,
Munique explora esta faceta com total dedicação
e entusiasmo. O dia-a-dia é levado com uma notória
brandura, sem stress, e com tempo para tudo. Esta filosofia
de vida vê-se nas caras que se atravessam à
nossa frente. Logo pela manhã ou após o
final da jornada de trabalho, por volta das 18, 19 horas,
o municher sai à rua para beber um chocolate quente
ou uma cerveja, acompanhado de uma pratada de weisswurst
e chucrute, pratos típicos da região que
inundam o ar com um estranho aroma agridoce.
 |
Os principais pontos de reunião
são os tais mercados de rua, na sua maioria com
múltiplas banquinhas de comes e bebes rodeadas
de frutas, hortaliças e artesanato, onde a confusão
de gente não impede o convívio. Nos mais
centrais há sempre movimento, e só a partir
das 22 horas é que a multidão começa
a dispersar para outros pontos estratégicos da
cidade. Mas enquanto o dia avança e a noite não
cai, a população distribui-se por estes
locais para umas compras de ocasião ou para um
almoço rápido no charmoso Shrannenhalle,
um antigo mercado oitocentista de venda de cereais, totalmente
reconstruído e inaugurado em Setembro passado,
mas que já na época era considerado uma
verdadeira obra-prima da arquitectura pela sua estrutura
forrada de vidro e ferro forjado, que foi, aliás,
mantida no actual projecto.
Com um ambiente interior assumidamente cosmopolita, no
Schrannenhalle, mesmo ao lado de um dos mais famosos e
antigos mercado de Munique, o Viktualienmarkt, cruzamo-nos
com pequenas bancas de jovens designers de moda locais,
pontos de venda onde artesãos de peças sofisticadas
mostram o seu ofício, a que se juntam inúmeros
bares e restaurantes de estilo e para todos os paladares.
Durante o dia e até mesmo noite fora (está
nos planos futuros dos promotores deste indoor market
mantê-lo aberto ininterruptamente, num conceito
“24/7”), é também habitual desenvolverem-se
aqui várias iniciativas culturais, tais como concertos
de jazz e de música clássica e exposições
de arte.
Passeios
periféricos
Sair do centro de Munique
é como entrar noutro mundo, habitado por
atmosferas bucólicas, ambientes tranquilos
e sensações nostálgicas. Na
Baviera parece que parámos no tempo. Para
lá da janela do comboio sucedem-se os intermináveis
lagos, os prados e as florestas cerradas, tantas
vezes pintadas pelo branco da neve. Uma casa isolada
ali, outra aldeia adiante, mais um palácio
de histórias de fadas escondido entre a vegetação,
e os Alpes no horizonte, num daqueles dias em que
o Föhn – um vento quente característico
da região – afasta a neblina habitual.
Vale a pena reservar um dia para dar uma volta de
reconhecimento pelo enorme lago Starnbergersee,
onde foi encontrado morto Ludwig II, o excêntrico
monarca que marcou a história da região.
Agora convertido
em condomínio privado de luxo, o antigo castelo
de Passenhofen (século XVI), onde a imperatriz
Sissi passava temporadas, ainda está rodeado
por alamedas de árvores e restos de muralhas
seculares, oferecendo uma fantástica vista
para o espelho de água, cenário de
agradáveis passeios de barco (informações
em www.bayerische-seenschifffahrt.de).
A viagem desde Hauptbahnhof pela linha S6 não
demora mais de 30 minutos. Mais para sul, num percurso
de aproximadamente 1h30 de comboio, encontramos
a que pode ser considerada como a mais famosa excentricidade
de Ludwig II, o Castelo de Neuschwanstein, construído
de acordo com os humores deste rei que muitos viam
como louco, entre 1868 e 1892. As óperas
de Wagner, Lohengrin e Tannhäuser, foram a
fonte de inspiração para este projecto
sem limites (de genialidade e de orçamento),
onde se conjugam de forma grandiosa estilos tão
diferentes como o bizantino, o gótico e o
romântico. Estrategicamente erguido no alto
de um rochedo, proporciona uma soberba vista sobre
a planície, seguindo o curso do rio Pöllat,
e também por isso vale a caminhada de 45
minutos até à entrada para o palácio.
É que, caso o piso não ofereça
condições de aderência aos transportes
públicos que fazem o percurso entre a estação
de Füssen e o destino final, só é
possível fazer a subida a pé! –
ou numa romântica charrete para 5/7 pessoas
puxada a cavalo, por cerca de €80. |
A animação por estas bandas é realmente
grande e prolonga-se todos os sábados até
pelo menos às três da manhã, mantendo-se
nesse dia muitas das bancas, tanto do Shrannenhalle como
do Viktualienmarkt, abertas noite dentro, mesmo aquelas
que vendem produtos pouco habituais nas lides noctívagas,
tais como mel, especiarias, fruta, legumes ou flores.
 |
Entre um sumo de fruta natural
na famosa banca NaturSaft e um sushi na peixaria Poseidon,
vamos dando uma olhadela nos tradicionais bonecos de palha
que se vendem aqui, ao mesmo tempo que tentamos ler os
nomes inscritos nos pedestais das estatuetas que decoram
a praça do mercado. Duas das mais famosas são
as que representam as figuram de Karl Valentin (popular
comediante conhecido como o Charlot da Baviera) e de Roider
Jackl, um agricultor da região que ganhou reputação
na primeira metade do século XX pela pontaria e
acidez das suas rimas de sátira apurada.
Pode também procurar agitação nas
imediações se atalhar pela Sedlingerstrasse,
movimentada rua durante décadas tomada por gerações
de comerciantes ultrapassados no tempo, mas que agora
se mostra com uma imensa jovialidade, com bares, restaurantes
e lojas para todos os gostos e feitios. Descubra o Caffé
Streiflicht (Sedlingerstrasse, 8), poiso habitual de jornalistas
e intelectuais, situado precisamente no edifício
sede do conhecido diário Süddeutsche Zeitung,
ou o Stadtcafé im Stadtmuseum (St-Jakobs-Platz,
1), para um almoço com vista para os jardins do
Stadtmuseum. Entretanto, os habituais ruídos de
mercado ouvem-se de novo, desta feita vindos de Sedlinger
Tor, maioritariamente ocupado por bancas de comes e bebes,
protegidas pelo que sobra da muralha medieval.
Tentações
de caminhante
Podemos também optar por conhecer Munique exactamente
pelas grandes e longas avenidas, umas mais comerciais
e turísticas que outras, mas todas de idêntica
personalidade monumental. Aguçando a curiosidade
e a atenção encontramos de tudo um pouco:
fachadas de elegantes prédios que, inusitadamente,
desembocam em pátios a céu aberto, muitas
vezes a esconder uma galeria de arte, uma loja de acessórios
de moda, ou um tranquilo bar com uma simpática
esplanada, ideal para uma bebida quente a meio do dia
ou uma cerveja lá mais para a noite.
| Banca no Virtualienmarkt,
um velho mercado agrícola convertido
num paraíso gourmet |
|
Enquanto a Maximilianstrasse –
nobilíssima e elegante avenida que se inicia na
praça do Nationaltheater e acaba no Maximilianeum,
a monumental sede do parlamento bávaro –
está voltada para a alta costura e para o fashion
design de autor, recebendo o luxuoso Kempinski Hotel (no
n.º 17) e mais uns tantos cafés e restaurantes
de charme, as boulevards Ludwigstrasse e Leopoldstrasse
marcam pontos no que diz respeito ao ambiente académico,
à vida nocturna, ao comércio e aos escritórios.
Separadas pelo monumental Siegestor, ou Arco do Triunfo,
réplica do Arco Constantino de Roma, entre estas
artérias notam-se estilos bem diferentes. Os traços
sólidos dos edifícios neoclássicos
da imponente e austera Ludwigstrasse – onde viveu
na primeira metade do século XIX aquela que viria
a ser a imperatriz da Áustria, a mítica
Sissi – dão lugar à arquitectura mais
variada (e arrojada) da Leopoldstrasse. Basta dizer que
somos recebidos (e surpreendidos) pelo célebre
“Walking Man” do artista plástico norte-americano
Jonathan Barofsky, uma enorme estátua de fibra
branca com 17 metros de altura, instalada desde 1995 diante
da sede da Munich Reinsurance.
| Mercado de rua na Marienplatz,
a praça histórica que marca
o centro geográfico da cidade, funcionando
como uma espécie de sala de estar dos
habitantes |
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Já com inúmeros pubs,
restaurantes, salões de chá e afins à
vista, ao contrário da Ludwigstrasse, praticamente
sem estabelecimentos comercias além de uma ou outra
galeria de arte ou loja de decoração e do
histórico Schumann’s Bar (ver caixa: Hotspots
de Munique), esta avenida é animada até
de madrugada por jovens executivos de empresas vizinhas
e estudantes de uma das faculdades da Ludwig-Maximilians
Universitat, que vêm aqui jantar ou beber um copo
depois de uns momentos de exercício no Leo (Leopoldstrasse,
11 A/B), o mais in e famoso health club de Munique. Uma
dica: as livrarias do bairro universitário são
uma perfeita perdição.
Depois de uma “bica” bem tirada no MilchHäusl,
um simpático recanto com esplanada mesmo à
entrada do Englischer Garten, partindo da Thiemestrasse,
aventuramo-nos então pelo bucólico e tentador
jardim que parece retirado de um postal do século
XVIII, numa tentativa de descobrir os muitos segredos
que escondem os mais de 370 hectares deste enorme parque
municipal. Sendo um dos maiores espaços verdes
urbanos da Alemanha – e o primeiro na Europa –,
recebe de manhã à noite os locais, que aqui
vêm em peregrinação de lazer. Há
quem venha trabalhar para o bronze nos dias de maior calor
(o nudismo é frequente e encarado com muita naturalidade),
outros em passeio de bicicleta ou a pé pelos 78
quilómetros de trilhos em direcção
ao beer garden mais próximo (recomendamos o Seehaus,
mesmo no coração do jardim, à beira
do lago Kleinbesseloher See), não faltando sequer
– pasme-se! – surfistas de ocasião,
que, num dos braços do rio Isar, o Eisbach, aproveitam
os desníveis de água para apanhar umas ondas.
Do outro lado do rio
Atravessando para a outra margem do rio Isar, pela Max-Joseph
brücke (ponte), uma vez mais respiramos outros ares.
Em Bogenhausen, a monumentalidade transforma-se em largos
quarteirões rodeados de verde, urbanizados por
imponentes condomínios habitacionais em altura,
hotéis de luxo das grandes cadeias internacionais,
algumas sedes de empresas e várias peças
arquitectónicas interessantes, como o edifício
Hypo-Haus (Arabellastrasse, 109399). Aliás, marque
esta vizinhança com um “X” no mapa,
porque é aqui que se encontra o mais elitista club
lounge de Munique, o P1, na primeira porta da Prinzregentenstrasse,
mais concretamente nas catacumbas do Museu Haus der Kunst,
um espaço cultural multifacetado, famoso pelas
suas exposições de arte contemporânea
e pela originalidade das instalações que
muitas vezes lhe decoram a fachada. Mais à frente,
junto ao Prinzregententheater, uma sala de espectáculos
datada do início do século XX onde ocorrem
regularmente concertos da Bayerische Theaterakademie,
vale a pena uma visita à Feinkost Käfer, uma
loja gourmet, propriedade de um dos mais famosos chefs
de cuisine de Munique, com um nome/marca que vai do pão
ao azeite e às pastas.
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| Café Aran, na Theatinerstrasse;
Dorint Sofitel Bayerpost, um hotel de design
inaugurado recentemente num velho armazém
da estação central; e o “Walking
Man” na Leopoldstrasse; o Kaimug, restaurante
de cozinha tailandesa, e o Bar Comercial,
ambos no Fünf Höfe,prédio
perto do Schrannenhalle |
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À medida que avançamos no terreno, e após
um petisco no concorrido Lisboa Restaurante-bar (Breisacherstrasse,
22), vizinho de uma mão-cheia de concorrentes franceses,
italianos, gregos e outras tantas gastronomias do mundo
servidas com estilo aqui por Haidhausen, recupera-se o
fôlego para regressar ao centro.
Impossível de passar despercebido, o impressionante
edifício do Deutsches Museum – o maior do
mundo de ciência e tecnologia, com mais de 17 mil
peças expostas – barra-nos as vistas a partir
de uma ilha no meio do curso do Isar, que faz fronteira
com aquele que é hoje em dia considerado o bairro
da moda, o Glockenbachviertel. Regressámos novamente
à outra banda, também habitada por gente
jovem e endinheirada – enquanto na zona de Schwabing
a renda de um T2 custa €700, aqui esse valor mais
que duplica – e repetem-se os locais onde nos apetece
perder uns momentos de relaxe. São incontáveis
as lojas gourmet e de fashion design, os bares e restaurantes
de estilo, pelo que este é o local ideal para se
iniciar nas gastronomias japonesa, turca, vietnamita ou
tailandesa. Arrisque com segurança nos originais
pratos do Yum-Thai Kitchen & Bar (Utzschneiderstrasse,
6), um agradável espaço de aspecto intimista
e decoração contemporânea com toques
asiáticos, perto da Gärtnerplatz, onde convém
fazer uma reserva antecipada.
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Assim voltamos a um ambiente
mais aconchegante, que se desenvolve em redor da Gärtnerplatz
e segue até a Sedlinger Tor, preenchido por edifícios
cobertos de heras em que os andares térreos estão,
porta sim, porta sim, ocupados por antiquários,
alfarrabistas ou originais lojas como a Sama-Sama (Westenreiderstrasse,
21), com os seus arranjos florais acompanhados de verdadeiras
obras de arte de chocolate e frutas secas.
Os cafés e os bares na linha do Trachtenvogl (Reichenbachstrasse,
47) são ideais para fazer uma pausa na companhia
de uma torrada e um chá enquanto fingimos que nos
aquecemos na sua lareira virtual, em “emissão”
contínua a partir do televisor que marca o centro
da sala em mezzanine.
“Gemütlichkeit”
Ao fim de uma semana ganhámos uma tal intimidade
com este cenário animado que (quase) passámos
a fazer parte dele, absorvidos pelos seus ritmos. Na verdade,
até tentámos arranhar umas quantas palavras-chave
de Alemão... um esforço que acaba por se
tornar inglório porque o mais certo é que
o seu interlocutor domine, sem grandes dificuldades, o
Inglês, apesar de olhar com alguma suspeita uma
abordagem “fácil”.
Como a sua gente, a capital da Baviera intimida à
primeira sensação. Não é fácil
ganhar-lhe confiança imediata, há que tentar
explorá-la com calma e atenções,
em jeito de caminhante observador e sem pressas.
Para sentir na pele – nem que seja por força
do frio quase enregelador que às vezes se faz sentir
por estas bandas – o pulsar diário desta
cidade que tem tanto de sofisticada como de tranquila
e pacata.
Feito o balanço, Munique revela-se aos poucos como
uma pequena metrópole, com uma atmosfera tocada
por um tímido cosmopolitismo disfarçado
de gemütlichkeit, palavra mais ou menos crua e proferida
naquele tom seco do idioma germânico. Numa tradução
livre, e sem mais rodeios, nós chamamos-lhe “qualidade
de vida”. Ou simplesmente viver (em) Munique...
Agradecemos a colaboração
da TAP Portugal
Hotspots
de Munique
Em Munique não
se respira apenas a essência das artes. Depois
de uma soirée de ópera ou de uma vernissage
numa galeria, gente jovem, executivos de fato e
gravata, intelectuais de cachimbo a escorregar dos
lábios e respeitáveis famílias
trajadas a rigor procuram um local para conviver.
E o mais certo é que estes e outros tantos
rumem com conhecimento de causa em direcção
ao histórico Schumann’s Bar (www.schumanns.de),
desde há dois anos transferido para a Odeonsplatz
– antes era no n.º 36 da Maximilianstrasse,
onde funciona actualmente o Bar Munchen, também
uma opção interessante.
Propriedade de Charles Schumann (na foto, em cima),
que há quase 30 anos se dedica de coração
e alma a este que é seguramente o mais concorrido
e cosmopolita bar-restaurante da cidade, foi idealizado
à sua imagem, transpirando no ambiente deste
espaço a personalidade forte e o humor mordaz
que o caracterizam à vista desarmada.
De linhas sóbrias e algo teatrais, onde imperam
as cores fortes, as madeiras escuras e os veludos,
com uma iluminação estrategicamente
posicionada que oferece ao ambiente um certo intimismo,
no Schumann’s serve-se uma cozinha tradicional
de autor, de sabores fortes e apimentados, por ele
interpretada de uma forma pessoal e intransmissível.
Como Charles lhe chama, “é uma culinária
de fusão na confusão”, sendo
famosos, não só os seus bifes de molhos
amostardados, mas também os cocktails. Com
ligação directa pelas traseiras para
as arcadas que envolvem o agradável Hoftgarten,
está habitualmente repleto de exemplares
da high society local. Reserve mesa com alguma antecipação,
apesar de serem servidos copos e refeições
até às quatro da madrugada, mas atenção:
fecha aos sábados à noite!
Outra curiosidade: Charles Schumann foi em tempos
detentor da maior e mais valiosa coleccção
de vinhos do Porto em Munique, paixão que
o persegue desde há muito, bem visível
nas dezenas de garrafas expostas nos seus dois estabelecimentos
com a chancela Schumann’s Port Wine. Entretanto,
aproveite para dar uma volta por outros locais de
peregrinação habitual entre os munichers,
como é o caso do Roma Café & Restaurant
(Maximilanstrasse, n.º 31), do Reitschule (Köeniginstrasse,
n.º 34; o restaurante tem vista para o picadeiro),
do Wandelbar (Gärtnerplatz, n.º 1), do
Odeon (Amallienstrasse, n.º 25) e do Maroto
Bar: Tapas + Vinhos + Superbock, (Westermühlstrasse,
n.º 31; gerido por um jovem arquitecto alemão,
fluente em português, que viveu durante quatro
anos no Porto). |
Como ir
A TAP Portugal (tel. 707 205 700, www.flytap.com)
possui dois voos diários e directos de Lisboa para
Munique por tarifas a partir de €149 (mais taxas).
O aeroporto internacional de Munique (informações
em www.munich-airport.de),
recentemente ampliado, fica a menos de 30 quilómetros
do centro da cidade. A cada 20 minutos partem comboios
que fazem ligação directa do aeroporto à
Marienplatz. Por €8 (bilhete de ida), pode apanhar
as linhas S1 (as carruagens traseiras têm inscrita
a palavra Flughafen – aeroporto) ou S8, não
excedendo a viagem muito mais de meia hora. Existe ainda
a possibilidade de, por €9, recorrer ao airport shuttle,
com destino à estação central de
Hauptbahnhof, num trajecto de 45 minutos.
Transportes
A MVV – Münchner Verkehrs-und Tarifverbund
é a empresa pública que explora a rede de
transportes.
O metropolitano, ou untergrund – U-Bahn –,
está dividido por oito linhas e áreas de
diferentes cores, consoante os destinos e as zonas. Os
comboios rápidos, ou schnellbahn – S-Bahn
–, cobrem as periferias e outras distâncias
mais longas. Os bilhetes são adquiridos nos guichets
das principais estações, ou nas máquinas
automáticas. Para os trajectos dentro do centro
urbano, opte pelo innenraum (preços a partir de
€1,10), enquanto para percursos mais distantes terá
de escolher a tarifa XXL (desde os €6). Para andar
na cidade existe ainda um bilhete de três dias,
por €11 (€18,50, o casal).
O Munich Welcome Card é outra opção,
pois, consoante a modalidade, permite a utilização
gratuita de todos os transportes e oferece 50% de desconto
em museus e outras atracções turísticas.
Os preços variam entre os €7,50/dia (apenas
para o innenraum) e os €48 (para até cinco
pessoas, incluindo toda a rede de transportes de Munique
e arredores). Mais informações em www.muenchen.de
e www.mvv-muenchen.de.
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Munique em duas rodas
Não andar de bicicleta em Munique é imperdoável.
Há que aderir à maioria e dar ao pedal com
convicção. Para tal, o mais fácil
mesmo é alugar um veículo de duas rodas
e lançar-se à descoberta dos mais de 170
quilómetros de ciclovias que percorrem a cidade
e arredores. Pode fazê-lo em vários locais,
mas um dos mais centrais fica na entrada lateral da estação
de Hauptbahnhof, ao lado do Museu do Brinquedo. Na Radius,
as modalidades vão desde o aluguer por uma hora
(€3), até períodos de uma semana (€43).
Funciona das 10h00 às 18h00, e os horários
são cumpridos à risca.
Outra das possibilidades são as “Call a Bike”,
motocicletas (movidas a pedal ou motor) que podem ser
alugadas pelo telefone ou via Internet, havendo várias
distribuídas por toda a cidade, visíveis
pela luz vermelha intermitente que as acompanha. Basta
ligar o número 07000 522 55 22 ou aceder ao site
www.callabike.de
e inserir o código inscrito no quadro do veículo
e os dados do seu cartão de crédito.
Onde ficar
Cidade sempre movimentada, centro empresarial e palco
de inúmeras feiras, Munique oferece várias
opções de alojamento, desde pousadas da
juventude com diárias na ordem dos €20/€40
a hotéis de grande luxo como o Kempinsky Hotel
(www.kempinski-vierjahreszeiten.de).
No site oficial da cidade (www.munich-info.de)
pode encontrar uma lista dos hotéis, confirmar
diárias e fazer reservas online.
No entanto, dois nomes são incontornáveis
na hotelaria local:
Bayerischer Hof Hotel –
Promenadeplatz, 2-6, tel. 0049 89 21200, e-mail info@bayerischerhof.de,
www.bayerischerhof.de.
Preços dos €350 (superior duplo) aos €1195
(suite). Este hotel de luxo, membro dos Leading Hotels
of the World, é um ícone na cidade. Propriedade
da família Volkhardt, abriu em 1841, para responder
a um desejo do rei Ludwig I, que queria que a cidade tivesse
um hotel confortável para instalar os seus convidados.
Hoje possui 395 quartos, incluindo 58 suites. O Blue Spa,
com assinatura de Andrée Putman, é a sua
mais recente novidade.
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Dorint Sofitel
Bayerpost – Bayerstrasse, 12, tel. 0049 89
599480, www.dorint.com,
www.sofitel.com
(com tradução em português no link
das reservas). Preços dos €120 (standard duplo)
aos €540 (suite superior), pequeno-almoço
(€21 p.p.) não incluído. Bom exemplo
da tendência reformadora da cidade é um hotel
de design de cinco estrelas inaugurado há ano e
meio, que ocupa o edifício onde funcionava, desde
1896, o armazém das grandes encomendas da estação
central de Hauptbahnhof. Mantendo a fachada original,
no seu interior reinventaram-se espaços de sensualidade
e ambientes sofisticados, criados pelos arquitectos Angerer
& Hadler. No minimalista e requintado restaurante
Schwarz & Weiz pode experimentar a cozinha mediterrânica
do jovem chef Sascha Baum, que também assina a
ementa do moderno Suzie W, o outro restaurante do hotel,
para preferências culinárias asiáticas.
Com um conceito de do it yourself (além da ementa
à la carte), escolhem-se os ingredientes que são
cozinhados e combinados com mestria e imaginação.
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Oktoberfest e outras festas
Com cerca de seis milhões de visitantes e mais
de cinco milhões de litros de cerveja, a Oktoberfest
é o mais concorrido evento de Munique.
Realiza-se num imenso parque – o Theresienwiese
–, que se transforma numa espécie de feira
popular durante 16 dias. Este ano, a Oktoberfest realiza-se
entre 16 de Setembro e 3 de Outubro. Mais informações
em ww.oktoberfest.de.
Para espíritos mais românticos, o famoso
Festival de Ópera – que se realiza desde
os tempos de Ludwig II, rei apaixonado pela música
– tem lugar na última semana de Julho e é
o evento a não perder. Mais informações
em www.opern-festspiele.de.
Outros pontos altos para os melómanos são
a Munich Biennale que se realiza em Maio (www.muenchenerbiennale.de);
o Königsplatz Open Air (www.kinoopenair.de),
palco de vários concertos de música clássica,
rock e óperas; e o Theatron MusicSummer (www.theatron.de),
o maior festival de música ao ar livre do mundo.
A visitar
Residenz – Residenzstrasse,
1; aberto diariamente, das 10h00 às 16h00 ou 18h00
(no Verão); entrada: €6 ou €9 para bilhete
combinado para visitar o Residenzmuseum e a sala das jóias
da coroa; €3 para visita ao Cuvilliés Theater.
Deutsches Museum –
Museuminsel 1, www.deutsches-museum.de;
aberto diariamente, das 9h00 às 17h00; entrada:
€7,50 ou €4 às quartas-feiras, depois
das 16h00. O maior museu de tecnologia e engenharia do
mundo. Não pode ser visto num único dia.
Geiselgasteig & Bavaria Filmstadt
– Geiselgasteig, Bavaria Filmplatz, 7, www.bavaria-filmstadt.de.
Horário: diariamente (visitas guiadas em inglês
às 13h00), das 10h00 às 15h00 (até
29 de Fevereiro) e das 09h00 às 16h00 (de Março
a Novembro). Entrada: €10 (para visita guiada de
90 minutos; €19 para bilhete combinado – visita
guiada, espectáculo de duplos e filme 3D interactivo).
Transportes: Tram n.º 25. Vale a pena uma visita
aos estúdios de cinema de Munique, por onde passaram
e fizeram carreira nomes sonantes como Fassbinder, Bergman,
Hitchcock e Billy Wilder, que, aliados a estrelas com
o brilho de Elizabeth Taylor, Sophia Loren, Romy Schneider,
Richard Burton, entre outras, contribuíram assim
para que o Filmstadt seja desde há muito considerado
a Hollywood da Baviera.
Beyerische Staatsbibliothek –
Ludwigstrasse, 16, www.bsb-muenchen.de.
É a segunda maior biblioteca municipal da Alemanha,
com mais de seis milhões de volumes e cerca de
70 mil manuscritos de incalculável valor. Ocupa
um edifício de linhas renascentistas, desenhado
por von Gärtner.
Castelo de Nymphenburg, ou
Schloss Nymphenburg – Horário: castelo, pavilhões
e Marstallmuseum, das 09h00 às 18h00 (de Abril
a meados de Outubro) e das 10h00 às 16h00 (de meados
de Outubro a Março); jardins (schlosspark), das
06h00 às 17h00 (Fevereiro), das 06h00 às
18h00 (Março), das 06h00 às 20h30 (Abril),
das 06h00 às 21h30 (de Maio a Agosto). Transportes:
tram n.º 12, n.º 16 e n.º 17.
Bayerisches Nationalmuseum
– Prinzregentenstrasse, 3, www.bayerisches-nationalmuseum.de.
Horário: de terça a domingo, das 10h00 às
17h00 (até às 20h00, todas as quintas-feiras).
Entrada: €5 (entrada gratuita à segunda-feira).
Transportes: estação Lehel (linhas U4 e
U5); tram n.º 17; autocarro n.º 100 (Museum
Line).
Casa-Museu Villa Stuck –
Prinzregentenstrasse, 60, www.villastuck.de;
de quarta-feira a domingo, das 11h00 às 18h00.
Entrada: dos €4 aos €18 (bilhete familiar).
Transportes: estação Prinzregentenplatz
(linha U4). Um das mais notáveis exemplares de
Arte Nova de Munique, com exposições permanentes
e temporárias no mesmo estilo. Até 26 de
Fevereiro decorre uma exposição sobre a
vida deste nobre artista plástico, retratada na
sua obra, Franz von Stuck – A família do
artista.
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Alte Pinakotheke,
Neue Pinakotheke e Pinakotheke der Moderne, nos
27, 29 e 40, respectivamente, da Barerstrasse –
www.pinakotheke.de.
Horários: das 10h00 às 17h00 (alguns dias
encerram as 20h00). Entrada: respectivamente, €5,
€7 e €9 (entrada gratuita todas as segundas-feiras).
Transportes: estação Theresienstrasse (linha
U2); tram n.º 27.
Um dia em Munique
De manhã: Mercado de Elisabethmarkt, para uma compras
matinais, entre legumes, frutas, produtos orgânicos
e gourmet, aproveitando para tomar um café no Sancho
Panza, uma pequena loja de vinhos e delicatessen ibéricos
do lado da Nordenstrasse.
Ao almoço: para um almoço rápido
e barato, mas de qualidade, tenha em atenção
os estabelecimentos com a palavra imbiss inscrita nos
toldos ou nas montras. São fast-food espalhados
um pouco por toda a cidade. Aconselhamos os de gastronomia
bávara. Se preferir variar os sabores, escolha
o all you can eat japanishes Sushi King, na Radelstegstrasse,
1, no centro.
À tarde: ir às compras na Manufaktum, na
galeria comercial Fünf Höfe. Com artigos de
decoração e peças vintage, passando
ainda por produtos gourmet, torna-se irresistível...
Seguimos depois para a tal20, uma galeria de jóias
de autor na zona de Glockenbachviertel.
À noite: escolhemos o News Café, na Leopoldstrasse,
74, um restaurante jovem que também é local
de romaria pós-jantar, quando a música sobe
de volume (encerra às três da manhã).
O histórico Atomic Café (Neuturmstrasse
5) tem música ao vivo, discoteca e cocktail bar.
Aberto desde os anos 60, continua a marcar pontos nas
apresentações de bandas de hip hop, rock
ou soul; outra alternativa é o mais sofisticado
Nacht Café (Maximiliansplatz 5) que, além
de receber concertos ao vivo, serve refeições
até às seis da manhã. O seu pátio
é um must no Verão.
Para mais informações
Embaixada da Alemanha, Campo dos Mártires da Pátria,
n.º 38, 3.º, sala 5, 1169-043 Lisboa, tel. 218
810 210.
Na Internet: www.muenchen.de,
www.germany-tourism.de,
www.toytownmunich.com
e www.munich-info.de.
Informações
úteis
Indicativos:
0049 (para a Alemanha) + 89 (Munique)
Diferença
horária: mais
uma hora que em Portugal Continental
Postos
de turismo: Hauptbahnhof,
Bahnhofplatz, 2; Marienplatz, 1.
Internet:
por toda a cidade
são comuns os estabelecimentos para aceder à
Internet. Sugerimos o EasyInternetnet Café, na
Bahnhofplatz, 1 (24 horas por dia – www.easyinternetcafe.com),
e o Coffee Fellows, também em frente à estação,
assim como na Leopoldstrasse, 70 (com melhor ambiente,
excelentes sanduíches, brownies e sumos naturais).
Segurança:
Além do perigo de ser atropelado por um
ciclista – a cidade está repleta de ciclovias,
às quais convém estar atento –, seja
a que horas for e onde quer que se encontre, sentir-se-á
sempre em total segurança. A pé, de bicicleta,
ou recorrendo à comodidade da excelente rede de
transportes, poderá ir onde entender e sem grandes
preocupações.

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