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   XLRotas & DestinosDestaque > Rio 40 graus


D E S T A Q U E Fevereiro de 2008   
   
No ano em que se comemora o bicentenário da chegada da família real portuguesa ao Brasil, o Rio de Janeiro, habituado, mas não resignado, a nem sempre ser notícia pelas melhores razões, reinventa-se a cada dia. Retrato falado e sentido de uma cidade, linda por natureza, que já não cabe mais em simples cartões postais.

TEXTO DE JOÃO MIGUEL SIMÕES | FOTOgrafia DE MANUEL GOMES DA COSTA
   

P U B L I C I D A D E
Rio 40 graus
cidade maravilhosa
purgatório da beleza
e do caos..."
Rio 40 graus, Fernanda Abreu
O rigor jornalístico leva-me a citar um facto pessoal. Durante a minha última viagem ao Rio, em Dezembro de 2007, fui finalmente vítima de um percalço infeliz. E não escrevo este “finalmente” com a mínima ponta de ironia, pois, nos muitos anos em que já visito a cidade, nunca me comportei, por um minuto que seja, como se aguardasse o pior ao virar da esquina.

Muito pelo contrário, do Rio eu sempre esperei, e espero, o melhor. Mas aconteceu; num belo dia, à porta de um hotel cinco estrelas, onde era suposto não me preocupar, distrai-me por uma fracção de segundos e um taxista menos escrupuloso aproveitou para se escapulir com a minha mala. Fiquei, literalmente, com a roupa do corpo e com aquele amargo de boca próprio de quem teve de escutar, de amigos, conhecidos e familiares, um “finalmente”, dessa vez sim, carregado de fina ironia. Mas não me dou por vencido.

Azul Marinho, no Arpoador, a actriz Grazi Massafera no ensaio da Grande Rio; orla de Copacabana
e o Estrela da Lapa; Posto 9, Ipanema


“Cariocas são bonitos
Cariocas são bacanas
Cariocas são sacanas
Cariocas são dourados
Cariocas são modernos
Cariocas são espertos
Cariocas são diretos
Cariocas não gostam
De dias nublado”

Cariocas, Adriana Calcanhotto
É claro que me enfureci – e enfureci-me, sobretudo, pelo sentimento de impotência e de impunidade que sentimos num quase encolher de ombros generalizado e na falta de empenho das autoridades policiais, a quem faltam meios, formação e salários mais justos para fazerem a diferença –, o que não apaga, todavia, tudo de bom que o Rio já me deu e, estou certo, me vai continuar a proporcionar. Logo, não se espere desta reportagem um retrato ressentido. Seguir-se-á antes um olhar assumidamente pessoal, mas ainda assim com o devido distanciamento e espírito crítico, de alguém que quer passar a seguinte mensagem a quem sempre desejou ir ao Rio, mas ainda não ganhou coragem: acidentes podem acontecer, ninguém está livre disso, mas é apenas uma probabilidade ínfima. Garantido mesmo é que, uma vez ali, vai, aposto, surpreender-se com cenários e situações que se tornaram clichés de tão repetidos em cartões postais, mas que, quando testemunhados ao vivo e a cores, nos emocionam. De quantos lugares do mundo se pode dizer a mesma coisa?

Arpoador, no limite entre Copacabana e Ipanema, passou a ter um rival de peso na cobertura do novo hotel Fasano na hora de admirar o mais elogiado pôr-do-sol do Rio. É também aqui que encontro a piscina, com serviço de bar, a mais bonita de toda a cidade, com direito, para além do já citado fim de tarde, a vista desafogada para toda a marginal que se estende de Ipanema ao Leblon, entre a pedra do Arpoador, de um lado, e o Morro Dois Irmãos, do outro.

Fasano, mais um nome de São Paulo que chega ao Rio para marcar a diferença, abriu as suas portas em Agosto de 2007. Instalado num prédio de oito andares, discreto mas que dá logo no olho, este Fasano depressa se tornou o ícone do novo Rio chique, apesar de ainda não estar tão afinado em matéria de serviço como o seu irmão paulistano. Seja como for, Rogério Fasano não brinca em serviço; quando se juntou aos outros investidores no projecto, já eles tinham então contratado o designer de interiores Philippe Starck, não abdicou de ter uma palavra a dizer.

De braços abertos, mas...
Qual mestre de cerimónia, do alto do seu pedestal no morro do Corcovado, o Cristo Ressuscitado como o Redentor (Aquele que abençoa e protege) envolve todo o Rio de Janeiro com o seu abraço. É assim há 76 anos e estou em crer que, sem ele, a cidade e os cariocas sentir-se-iam órfãos. Declarado Património Histórico Nacional desde 1937, o Cristo Rei virou mais uma página da sua história ao ter sido eleito – não sem muita polémica à mistura, como é da praxe... – como uma das novas Sete Maravilhas do Mundo. Muitos acham que tudo não passou de uma bem orquestrada operação de marketing global, mas um mérito temos de lhe reconhecer: graças a ela, várias pessoas, e não só turistas, que nunca tinham subido ao Corcovado, estão agora a fazê-lo e a maioria, apesar de reclamar do preço algo exagerado (em torno dos e15 por pessoa), não deixa de se surpreender com o que vê quando desce do “trenzinho” que sai do n.º 513 da Rua Cosme Velho, no Centro, até lá (trajecto de aproximadamente 20 minutos, com saídas a cada 30 minutos, entre as 8h30 e as 18h30).

A primeira pedra da estátua foi colocada no dia 4 de Abril de 1922, mas as obras só arrancaram em 1926. Entre as várias centenas de trabalhadores que colaboraram na sua construção, três nomes ficariam para a posteridade: o engenheiro Heitor da Silva Costa, autor do projecto vencedor em Maio de 1922, o artista plástico Carlos Oswald, autor do desenho final do monumento, e o escultor francês, de origem polaca, Paul Landowski, que executou a maqueta da cabeça e das mãos. O Cristo Redentor, de acordo com a ideia inicial, não teria os braços estendidos, mas a supressão da cruz levou a que o próprio corpo passasse a simbolizá-la. Uma opção complicada, que não só fez disparar os custos, como também obrigou a encontrar soluções para suster os braços abertos. Aliás, não é à toa que, ainda hoje, a sua edificação – um colosso de 38 metros de altura, todo revestido por pequenos triângulos em pedra-sabão feitos à mão, com linhas simples, vestes estilizadas e proporções perfeitas graças a rigorosos cálculos matemáticos – é vista como um dos grandes feitos da engenharia civil brasileira. Mas nem tudo é harmonioso.

A imprensa local tem feito igualmente eco do descontentamento que se vive devido às más condições de acesso rodoviário, que pouco ou nada melhoraram depois da eleição. Pior, as várias placas de sinalização são frequentemente adulteradas para que os condutores mais desavisados se enganem e vão parar numa favela vizinha ao monumento, ficando aí à mercê de assaltos. As vozes mais críticas, que também apontam o dedo aos taxistas menos escrupulosos e à presença massiva de falsos guias, não se cansam de repetir que não adianta o Governo do Rio ter gasto uma “fortuna” na campanha para a eleição do monumento, se agora não aplica pelo menos uma fracção do que empatou para facilitar os acessos.

Por tudo isto, prefira o “trenzinho” ao carro (a partir de Março, conte também com carrinhas credenciadas que partem da estação de metro do Largo Machado). Seja como for, é um passeio que vale a pena. Se nem tanto pela estátua em si, pela paisagem grandiosa que oferece de bandeja e à qual é impossível ficar indiferente! E eu, que gosto particularmente da vista rival do Morro do Pão de Açúcar, atrevo-me mesmo a rematar com o seguinte: deveria estar escrito em algum lugar, como aviso prévio, que nada supera a imagem do Rio visto do ar. De preferência ao som da música “Cristo Redentor/ Braços abertos sobre a Guanabara/ Este samba é só porque/ Rio, eu gosto de você” (Samba de Avião), de António Carlos Jobim.

Da “fricção” de génios e pontos de vista divergentes nasceu um consenso que se traduz no seguinte: a classe de Rogério sente-se, sobretudo, na recepção (lindo o balcão de cinco metros e seis toneladas, todo escavado num tronco único de pequiá), no lobby (onde mistura reproduções de mobiliário brasileiro dos anos 50 e 60 com marcas registadas de Starck como os enormes espelhos ou as cortinas a separar ambientes, mas aqui em palha de seda), no Londra (o bar do momento, com quase 100 capas de LPs da sua colecção privada a forrar as paredes) e no restaurante Fasano al Mare (a cargo do chef Luca Gozzani, Rogério bateu o pé que queria colunas como as do aeroporto Santos Dumont, mas permitiu os lustres fabulosos de Murano). Já Starck teve maior “liberdade” na piscina, nos corredores (foi sua a ideia de colocar as poltronas Big Mamma, de Gaetano Pesci) e nos quartos (muito confortáveis, tendo como marca registada o espelho “gota de água”, também utilizado para reflectir a paisagem).

Luca Gozzani, chef do Fasano al Mare; bar Londra; entrada do hotel, na Joaquim Nabuco; varanda de uma das suites viradas para Ipanema; Ter sido eleita pela revista Veja como a chef revelação de 2007 deu maior visibilidade a Roberta Ciasca e ao Miam Miam

Foi um investimento brutal, que implicou importar material topo de gama dos quatro cantos do mundo. Com um total de 92 quartos, do mais simples com cama king size à suite de luxo, é certo que apenas pouco mais de 40 dão directamente para o mar. Os restantes têm de se contentar com os fundos, mas até aí a filosofia da casa prevalece e argumentam que mais vale ficar no pior quarto do melhor hotel do Rio do que num quarto medíocre com vista panorâmica. É um ponto de “vista”. Além de estar a mudar o perfil do Arpoador, o Fasano, na esquina da Joaquim Nabuco com a Vieira Souto, também veio tornar mais disputado o quinhão de areal frente ao posto 8.

De todas as praias urbanas do Rio, Ipanema continua a ser a preferida, mas convém não fazer confusões; cada trecho de areal carioca tem a sua identidade: o célebre posto 9, outrora símbolo do movimento hippie e da resistência à ditadura, serve de ponto de encontro para os corpos mais enxutos do Rio, ao passo que entre o 8 e o 9, face às ruas Teixeira de Melo e Farme de Amoedo, é onde se reúnem gays, simpatizantes e musas que não se importam de dar a cara (os mais discretos preferem
a Reserva, no Recreio). Não por acaso, uma das novas boites da moda entre o público GLS, o 69, fica na esquina da Farme com a Prudente de Morais, ao lado da choperia Devassa. Aliás, como em muitos outros pontos da cidade, aqui é fundamental ter, mais do que uma mera noção geográfica, uma percepção de como as coisas funcionam. Por uma questão de comodidade e segurança, os cariocas apreciam ter tudo o que precisam no seu bairro. Ipanema não é diferente, e se o assunto é gastronómico, rume ao Quadrilátero de Charme, cheio de restaurantes e cafés recomendados. É precisamente neste perímetro que fica a mais nova casa de dois andares do Gula Gula (Rua Henrique Dumont, 57).

Tudo começou com um modesto ponto no Leblon, onde o engenheiro Fernando de Lamare, o Fernandão, queria ocupar os dias de ócio. O sucesso foi tanto que hoje, passados mais de 20 anos, o seu filho Pedro e a neta, a chef Nanda, continuam o legado. Ao lado, no número 65-A, fica a Q-Guai, onde a dupla Amanda Haegler e Maria do Rosário encantam com três colecções ao ano de propostas femininas muito vivas e joviais. Mas, em matéria de compras, não há como escapar à Visconde de Pirajá. Com trânsito nervoso e gente apressada como quase todas as avenidas no miolo do bairro paralelas à Vieira Souto, é aqui que encontro a minha livraria preferida no Rio, a Travessa (n.º 572), com café e uma filial no Shopping Leblon. Só perde em programação cultural para a Letras & Expressões
(n.º 276). Entre as duas, no número 365, não tenho como falhar a Farm. Sem vitrina, a fachada da nova mega loja de 300 m2 é linda e já é conhecida por um fenómeno muito curioso: nos dias de maior movimento, os homens – namorados, maridos, amigos, simples curiosos – ficam sentados ou em pé nas escadas enquanto as suas acompanhantes, que se confundem com as vendedoras, conferem as novidades.

“Lá não existe
Felicidade de arranha-céu
Pois quem mora
lá no morro
Já vive pertinho do céu”
Ave Maria no Morro, João Gilberto
A linha, alegre, colorida e descontraída, é a “cara da carioca” e o mérito é da estilista Kátia Barros, ela mesma uma filha do Rio, criada na praia do posto 6, que, apesar da expansão do negócio, não esquece que a sua inspiração está aqui. A calar a boca dos que acusam Ipanema de se estar a “copacabanizar”, a Garcia d’Ávila (e, até certo ponto, a Maria Quitéria), perpendicular à marginal, é mais “o Rio a querer ser os Jardins, em São Paulo” – nota-se que as melhores marcas e restaurantes capricham especialmente na sua apresentação. Por oposição, o Mil Frutas Café, que ocupa uma loja para lá de acanhada no número 534-A, arriscava-se a passar despercebido, não fosse serem aqui vendidos os gelados mais amados da cidade.

Das ruas do Leblon ainda não dá para perceber, mas o crescimento da favela Chácara do Céu, no sopé do Morro Dois Irmãos, já começa a levantar muitos sobrolhos. Que o digam os moradores do Alto Leblon, tido como um dos bairros mais pacatos do Rio de Janeiro – quase uma aldeia, reduto da alta burguesia carioca, onde ainda se cumprimenta o jornaleiro, as crianças brincam na praça e se pára no bar da esquina para dar dois dedos de conversa. Até ver, contudo, a aura residencial do Leblon, seguramente o bairro com mais vedetas por metro quadrado, mantém-se incólume, não obstante os seus luxuosos condomínios terem ultrapassado, em muito, a altura máxima outrora estabelecida em quatro andares.

Outra sua característica muito curiosa é a de ser praticamente auto- -suficiente. Há de tudo: da praia badalada, com direito a segmento para as amas, aos melhores pontos de sumos naturais – aconselho o Juice Co. Lounge (Av. Gen. San Martin, 889) e o Universo Orgânico (Rua Conde de Bernadote, 26, lojas 105 e 106) –, sem esquecer a animação nocturna, sobretudo no Baixo Leblon, com o Jobi (Av. Ataulfo de Paiva, 1166) à cabeça graças às mesas lotadas madrugada fora com cariocas e não cariocas em amena cavaqueira.

4 Olhares sobre o Rio
GUTO NIEMEYER
Sobrinho de Oscar Niemeyer, Carlos Augusto, mais conhecido por Guto, não dispensa o sobrenome como cartão de visita, mas fá-lo porque, à semelhança do resto do clã, possui um imenso orgulho no legado e na longevidade daquele que se soube tornar, por mérito próprio, um dos arquitectos mais requisitados da actualidade. Guto adora imagem e adora o Rio, pelo que faz de cicerone aos amigos dos amigos com o maior dos prazeres (tanto que os nossos leitores podem contactá-lo e colocar-lhe questões através da sua página pessoal http://br.youtube.com/okfacilguto).
Por sua vez, a sua mulher, Roberta Arrigoni Niemeyer (e-mail robertaarrigoni@yahoo.com), corretora de imóveis, trabalha cada vez mais com estrangeiros que desejam adquirir uma segunda residência no Rio.

O que ainda vale a pena fazer/ver no Rio?
Fazer um Favela Tour (com a Be a Local, por exemplo, www.bealocal.com) ou um Jeep Tour (www.jeeptour.com.br) em favelas como a Rocinha; assistir à missa das terças-feiras no Convento de Santo Antônio; escutar o coro de canto gregoriano, na concorrida missa das 10h aos domingos, no Mosteiro de São Bento; visitar o impressionante acervo da Fundação Eva Klabin, na Lagoa; ou passar uma tarde no Instituto Moreira Salles, na Gávea.

Restaurantes preferidos?
Os Esquilos (Floresta da Tijuca, tel. 0055 21 2492-2197), Guimas (Rua José Roberto Macedo Soares, 5, Gávea), Bira (Estrada da Vendinha, 68-A, Barra de Guaratiba) e Gula Gula (ver texto).

Onde fazer compras?
As bolsas de Andrea Prado na Grã (www.graacessorios.com.br), os biquÍnis da Lenny Niemeyer (www.lenny.com.br), a moda personalizada da dupla da Q-Guai (www.qguai.com), a linha mais desportiva de Napoleão Fonyat na Sandpiper (www.sandpiper.com.br), as opções “bem transadas” da Isabel Capeto (Rua Dias Ferreira, 45b, Leblon) ou ainda as boas selecções das livrarias Argumento (Rua Dias Ferreira, 417, Leblon) e Letras & Expressões (Rua Visconde de Pirajá, 276, Ipanema).

Com que fazer um tour personalizado?
Recorrer ao motorista Jatobá, tel. 0055 21 9618 4538.

ROBERTA CIASCA
Não é uma novata no ramo, mas o facto de ter sido eleita como chef revelação em 2007 pela revista Veja deu a Roberta Ciasca, e consequentemente ao Miam Miam (ver texto), uma outra visibilidade. Aos 21 anos, acabada de se formar em Marketing, embarcou rumo a Paris, onde se matriculou na famosa escola Le Cordon Bleu. Regressou ao Rio um ano depois, com a lição aprendida e decidida a ganhar traquejo na produção de buffets para festas e eventos. Assim foi até que, em 2006, assumiu a cozinha do restaurante Miam Miam, instalado num casarão que pertenceu à sua avó.

O lugar preferido?
O calçadão da Urca, bairro onde moro.

O que ainda vale a pena fazer no Rio?
O Rio é uma cidade linda que foi muito maltratada ao longo dos anos. Está mais
do que na hora de se investir e cuidar da cidade. O Rio tem cachoeira no meio
da cidade, sabiam? E nenhuma autoridade cuida para que aquilo seja preservado como deve ser... O Rio tem floresta escondida, praia escondida e as vistas mais bonitas do planeta (na minha opinião). Além disso tem ensaio de escola de samba, tem roda de chorinho e tem música electrónica. Bom é ficar no Rio como carioca e aproveitar toda essa mistura.

Leblon, Ipanema ou Barra?
Ipanema.

Restaurante preferido (fora o Miam Miam, é claro)?
Aconchego Carioca, um lugar escondido na Zona Norte do Rio.
N. A.: Eleito pela Veja no quesito “Melhor Cozinha”. Fica na Rua Barão de Iguatemi, 388, Praça da Bandeira, e proporciona, graças aos dotes culinários de Kátia Barbosa, um tempero e uma atmosfera nordestina, com direito até a uma carta de cervejas com 29 marcas importadas.

Onde sair à noite?
Qualquer lugar que tenha muitos amigos e música boa.

JEAN-LUC BOUCHARENC
Natural de Paris, Jean-Luc não esconde o sorriso quando constata que nunca exerceu a sua arte em França. Está no Rio há cerca de quatro anos, e, desde então, criou a House in Rio (www.houseinrio.com), que consiste em comprar ou vender casas a estrangeiros, com uma decoração cuidada e ênfase muito particular no design brasileiro, para depois as arrendar a turistas que não se revêem nos hotéis. É o caso de um fenomenal andar da Av. Atlântica, junto ao Forte de Copacabana, que transformou em loft para um magnata italiano que, quando não está na cidade, o coloca no mercado para estadas curtas. Entre os projectos que levaram a assinatura de Jean-Luc contam-se um bar, uma casa no Leblon e a futura residência da actriz Marília Pêra, mas há algo que vai merecer a sua atenção especial nos próximos tempos: a construção de uma pousada num terreno que adquiriu na Floresta da Tijuca, perto do mar.

Os lugares preferidos?
A Lagoa e a praia de Ipanema, de manhã bem cedo, para correr; a Floresta da Tijuca, pela sua frescura e contraste com a praia; e ainda a Prainha e o Recreio, com os surfistas.

O que ainda vale a pena fazer no Rio?
Kitesurf na Barra, voar de asa-delta em São Conrado, ir às compras no Fashion Mall, também em São Conrado, visitar o Centro (e as suas lojas de antiguidades, igrejas antigas, os seus velhos bares e sentir toda a sua atmosfera) durante a semana, ou ainda ir à feira da ladra, junto ao Palácio Imperial, no Centro, aos sábados.

Restaurantes preferidos?
No Leblon: Churrascaria Espaço Brasa Leblon (Av. Afrânio de Mello Franco, 131), Sushi Leblon (Rua Dias Ferreira, 256), Zuka (Rua Dias Ferreira, 233); em Copacabana: Copa Café (Av. Atlântica, 3056, loja B);
em Ipanema: Alessandro & Frederico (Rua Garcia d’Ávila, 134, loja D).

Onde sair à noite?
Rio Scenarium e bares da Lapa (ver destaque E tudo acaba em samba).

PAULA BEZERRA DE MELLO
Com apenas 26 anos, Paula é, actualmente, uma das relações públicas mais influentes do Rio de Janeiro, ou não fosse ela responsável pela imagem do novo hotel Fasano Rio (ver texto). Ainda assim, Paula é avessa a aparecer e insiste que não pretende tirar o protagonismo a quem, de facto, o merece, mas é difícil passar despercebida quando se possui uma agenda recheada de óptimos contactos e se é neta do falecido industrial Othon Bezerra de Mello, também ligado à hotelaria – aliás, o Fasano está construído no terreno da sua antiga residência. Em Nova Iorque desde 2001, onde estava ligada ao cinema e era colaboradora habitual de revistas como a RG Vogue, Paula não resistiu, contudo, ao convite de Rogério Fasano e assumiu o posto.

Lugares preferidos?
Actualmente, a cobertura do hotel Fasano e o Jardim Botânico (ver destaque Passos Imperiais).

O que ainda vale a pena fazer no Rio?
Assistir e aplaudir o pôr-do-sol no Arpoador; passear em Santa Teresa (ver texto); visitar o Jardim Botânico e o Corcovado (ver destaque De braços abertos, mas...)

Leblon, Ipanema ou Barra?
Ipanema

Restaurantes preferidos (além do Fasano al Mare, é claro)?
Gero (Rua Aníbal de Mendonça, 157, Ipanema) e Sushi Leblon (Rua Dias Ferreira, 256, Leblon).
N. A.: A revista Veja elegeu, em 2007, o Gero como o melhor em matéria de cozinha italiana e o Sushi Leblon como o supra-sumo dos japoneses no Rio.

Onde sair à noite?
Adoro o bar Londra (ver texto), no Fasano, e o Rio Scenarium (ver destaque E tudo acaba em samba), na Lapa, uma opção bem animada com música ao vivo.

O melhor exemplo desta concentração está, todavia, na Rua Dias Ferreira, repleta de óptimos restaurantes, livrarias, lojas ou até guloseimas inesperadas numa cidade tropical como sejam as 50 variedades de bombons artesanais da Envidia (n.º 106-A), nome sugerido pelo cantor Djavan, casado com uma das sócias. Como alternativa mais personalizada às boas marcas do Shopping Leblon (Av. Afrânio de Mello Franco, 240) e do São Conrado Fashion Mall (Estrada da Gávea, 899, São Conrado), existe nesta mesma artéria, no n.º 417, um prédio com vários estilistas por andar – como Isa Lima (Domitila, sala 406), moda feminina muito colorida, ou Andrea Prado (Grã, sala 304), famosa pelas suas bolsas, carteiras e malas de viagem em couro, linho ou até palha de milho. Aproveito a boleia de um conhecido para me fazer a uma das estradas mais bonitas do Rio, suspensa em pilares, que serpenteia o trecho da orla entre São Conrado e o Joá. É aqui, debruçada sobre o mar, que fica La Suite.

“O Rio de Janeiro
continua lindo
O Rio de Janeiro
continua sendo
O Rio de Janeiro,
Fevereiro e Março”
Aquele Abraço, Gilberto Gil
É a casa do francês François Dussol, que, após o lançamento da La Maison (a cargo do seu irmão Jacques) em 2004, na Gávea, descobriu este ponto excelente, nas imediações da praia da Joatinga, frequentada por surfistas. Felizmente, o La Suite recebe hóspedes, que podem assim optar por um dos sete quartos, cada um de uma cor diferente, com direito a estampas de Andy Warhol nas paredes e a um quinhão de vista só para eles. Em construção está uma piscina, daquelas que se perdem na linha do horizonte. O sossego é absoluto, a menos que seja dia de dar uma festa de arromba para algum VIP de passagem pelo Rio. Contam-me que o fotógrafo Mario Testino foi um dos felizardos.

Vista da praia de Copacabana e da baía de Guanabara a partir do Morro do Pão de Açúcar
Uma lagoa rodeada por prédios e morros. O céu de fim de tarde não chega a ficar incandescente, mas a magia não sai beliscada. Coloco de parte o cocktail de álcool e frutas amazónicas, demasiado adocicado, e ajeito-me numa das cadeiras alfresco do Kanto Galo (Av. Epitácio Pessoa, s/n, Parque do Cantagalo) para melhor desfrutar o cenário. A minha preguiça nem sequer destoa da energia comedida com que a grande maioria – e são muitos àquela hora – se exercita e passeia nos oito quilómetros que rodeiam a Lagoa Rodrigo de Freitas.

Os parques vizinhos dos Patins e das Catacumbas foram os pioneiros, no final dos anos 90, a inaugurar a tradição dos quiosques com cozinhas de vários pontos do mundo, mas o Kanto Galo, o irmão mais novo do exótico – e, a meu ver, mais conseguido – Palaphita Kitch (www.palaphitakitch.com.br), pertence a uma geração mais recente de quiosques que vieram dinamizar o Parque do Cantagalo, às margens da Lagoa, entre o final do dia e a madrugada. Mas nem tudo é tão idílico como parece à primeira vista. A meio caminho entre Ipanema e Leblon, a lagoa, ligada ao mar pelo canal do Jardim de Alah, padece ainda com a poluição, mas tem vindo a melhorar e está mais arborizada e cuidada. O trânsito intenso à sua volta também está longe de ser um bálsamo em hora de ponta, até porque é um eixo de circulação entre vários bairros da Zona Sul.

É o caso do Jardim Botânico. Este bairro-jardim, um dos mais procurados por quem troca a proximidade das praias por um maior recato, cresceu em torno de um ícone da cidade (ver destaque Passos Imperiais), mas sem dúvida que o facto de albergar a sede da TV Globo contribuiu, e muito, para que, aos poucos, este se esteja a tornar um verdadeiro fenómeno gastronómico – não é à toa que sucessos de São Paulo, como a Pizzaria Braz (Rua Maria Angélica, 129) e Nakombi (Rua Maria Angélica, 183-5), escolheram o Jardim Botânico para abrir as suas filiais cariocas.


A Garcia d’Ávila, perpendicular à marginal da Vieira Souto, é a prova de que Ipanema tem os olhos postos na rival São Paulo

Sem contar que continuam aqui dois dos chefs mais premiados dos últimos tempos: Claude Troisgros e Roberta Sudbrack (Rua Lineu de Paula Machado, 916). O primeiro é um francês há muito radicado no Rio, mas não há meio de perder o forte sotaque. Reabriu, em finais de 2003, o seu antigo restaurante, o Olympe (Rua Custódio Serrão, 62), e, desde então, não pára de arrecadar todos os prémios mais prestigiados para a sua cozinha francesa com um toque brasileiro. A segunda é agora uma confirmação em matéria de cozinha contemporânea e veio directa do Palácio da Alvorada, onde cozinhou para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Os comensais, que podem também participar em aulas semanais, sentam-se numa mesa comum e pagam cerca de e60 à cabeça para provar as suas criações, aparentemente simples, mas muito sofisticadas.

Se for durante o dia à vizinha Gávea, vai sair daqui com a impressão de que não é muito diferente, a não ser nas ladeiras, mais longas e íngremes. É provável ainda que volte rendido aos encantos do Parque da Cidade, do Instituto Moreira Salles (Rua Marquês de São Vicente, 476), um centro cultural com cinema, salas de exposições fotográficas, livraria e café à beira da piscina, e que se embasbaque com as casas, no meio de um verde pujante, cujos terraços soalheiros apontam para o Corcovado.

“Da janela,
vê-se o Corcovado
O Redentor, que lindo!”
Corcovado, António Carlos Jobim
Só que o Baixo Gávea, sobretudo ao redor da Praça Santos Dumont, se transfigura mal tomba o lusco-fusco. Se for então num domingo à noite, prepare-se para ter de abrir caminho por entre a multidão de jovens e para esperar por mesa no restaurante mais disputado do pedaço: o Braseiro da Gávea (n.º 116). E o que tem de tão especial? Bem, a carne, sobretudo a picanha, é farta, o chope é gelado, mas a verdadeira explicação para o entra e sai constante está por cima do mictório, onde se pode ler: “Parabéns, você entra solteiro e sai namorando”. Surpresa só mesmo para quem chega aqui desavisado e ignora que o Braseiro, em particular, e o Baixo Gávea, em geral, são conhecidos como “o” ponto para flirtar e lançar olhares cheios de boas intenções.

Não é só o Corcovado, nem a baía de Guanabara, que eu avisto da varanda do Mama Ruisa. Situado numa ladeira de Santa Teresa, este antigo casarão, como tantos outros que existem por aqui, belíssimos, foi comprado pelo francês Jean-Michel Ruis e transformado numa pousada de muito bom gosto, onde não faltam apontamentos inesperados como as almofadas da Missioni ou as cadeiras Anel, criadas pelo falecido designer Ricardo Fasanello – cujo atelier (e produção) é mantido pela sua família no n.º 42 da rua do Paraíso. Neste bairro altaneiro existem ainda outras três – Solar da Santa, Castelinho 38 e Rio 180 –, surgidas entre 2006 e 2007, também nas mãos de estrangeiros que se apaixonaram pelo local; sem mencionar as casas de moradores, mais modestas, que aderiram ao conceito de cama e café de Leonardo Rangel e João Vergara (ver Guia). É, Santa Teresa está na moda. Para quem chega à espera de encontrar um bairro boémio e popular, que se tornou conhecido pelos blocos de Carnaval de rua, bares e ateliers, vai ter de se conter para não se sentir arrebatado pelo seu dédalo de ladeiras a pique, entre bolsas de verde e vistas panorâmicas, pelo acervo do museu Chácara do Céu (Rua Murtinho Nobre, 93), antiga casa do coleccionador Raymundo Castro Maya, ou ainda pelo cardápio brasileiro do Aprazível (Rua Aprazível, 62), um restaurante que mais parece um refúgio, escondido entre denso arvoredo.

Passos imperiais
A 8 de Junho deste ano, o Jardim Botânico comemora 200 anos de vida, tantos quantos os que assinalam a chegada da família real portuguesa ao Brasil. Aliás, há quem diga, em jeito de piada, que uma das poucas coisas boas que D. João VI deixou na sua passagem pelo Rio de Janeiro foi precisamente a criação, em 1808, do Jardim Botânico (Rua Jardim Botânico, 920, R$4). Ao olhar para as impressionantes alamedas de palmeiras imperiais, sou tentado a concordar. O “pulmão” de 137 hectares foi, e é, tão importante que, à volta dele, surgiu todo um bairro homónimo, com charme a rodos. Ao Jardim Botânico, abrigo para plantas de todo o mundo, aves e animais, nunca faltaram admiradores, mas uma revitalização recente fez com que o número de visitantes aumentasse significativamente, que os eventos culturais se multiplicassem, que o bromeliário e a estufa de plantas carnívoras passassem por reformas e que fosse possível criar o primeiro Museu do Meio Ambiente da América Latina, com inauguração prevista para Julho, a funcionar num antigo casarão. Para assinalar o bicentenário estão ainda previstos o lançamento de livros, exposições, maiores investimentos nas colecções científicas e a criação de um cineclube e de um restaurante (há quem fale no chef Claude Troisgros... – ver texto).

Seja como for, este é apenas um dos muitos marcos que atestam a passagem da família real pelo Brasil. Para celebrar o período de 1808 a 1821, tão sui generis mas também tão delicioso, na História dos dois países – afinal, esta fuga às invasões napoleónicas determinou que o Rio fosse a única cidade fora da Europa a acolher o Governo de um império e a única das Américas a ser capital de um reino –, Portugal e Brasil criaram duas comissões que vão fazer de 2008
o Ano Joanino. No caso do Rio, a efeméride, que terá o seu ponto alto a 7 de Março, vai ser marcada pela reinauguração de vários edifícios restaurados – especial destaque para a igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro (acessos pela Rua do Russel ou pela Ladeira da Glória), onde a rainha D. Maria II foi baptizada, reaberta em todo o seu esplendor barroco –, exposições, concertos, livros ou uma longa-metragem.

Existe também um percurso a fazer. Sugiro que comece, por exemplo, pela Praça Tiradentes, assim chamada por ter sido ali que o incitador à revolta contra a coroa portuguesa foi enforcado – mas quem está representado na estátua equestre é o Imperador D. Pedro I, com a Declaração
de Independência na mão. Não muito longe, na esquina das ruas Luís de Camões
e Alexandre Herculano, fica o Real Gabinete Português de Leitura (Rua Luís de Camões, 30, aberto de 2.ª a 6.ª), um edifício neo-manuelino com uma sala soberba, forrada de estantes até ao tecto, que possui o maior espólio de obras lusas fora de Portugal.

Já na Avenida Rio Branco, em pleno coração da antiga Cinelândia, espreite o Museu Nacional de Belas-Artes, com acervo de 20 mil obras, as primeiras das quais trazidas por D. João VI, e a Biblioteca Nacional (visitas guiadas de 2.ª a 6.ª), com 400 mil volumes, entre eles os 14 mil livros e documentos salvos do terramoto de Lisboa, em 1755, que foram enviados para o Brasil e que, depois da independência, não foram devolvidos. Pelo tesouro perdido consta que Portugal terá recebido uma indemnização de oitocentos contos de réis. E já que estamos numa onda saudosista, estique o passeio até à Praça 15 de Novembro.

O Paço Imperial, residência da família real entre 1808 e 1889, onde será encenada uma peça de teatro alusiva ao tema, está virado para a baía de Guanabara.
Consulte a programação oficial em www.rio.rj.gov.br.

Pode subir a Santa Teresa de táxi, mas nada se compara a uma viagem no histórico “bondinho”, que atravessa os Arcos da Lapa, o aqueduto do século XVIII – saídas da Rua Prof. Lélio Gama, junto ao edifício da Petrobras e da cónica catedral Metropolitana, talvez a obra mais incompreendida e mal-amada de Oscar Niemeyer. Aos pés de Santa Teresa, a Lapa, outrora um reduto de prostitutas, malandros, boémios e artistas, é, desde há cinco anos, o principal centro de agitação nocturna do Rio. Nas ruas à volta dos Arcos, como a Mem de Sá ou a Lavradio, é tal o movimento de carros, gente e barracas de comes-e-bebes, até às tantas da manhã, que as principais casas com rodas de samba e choro, como é caso da elegante Estrela da Lapa (Av. Mem de Sá, 69), não têm mãos a medir, apesar dos preços elevados que praticam (ver destaque E tudo acaba em samba). Na calçada, mais democrática, estudantes estrangeiros ao abrigo do programa Erasmus misturam-se com a juventude local, preferindo beber na rua e uma batida mais electrónica, mas muitos deles continuam a cumprir o ritual de terminar a noite no Nova Capela (Av. Mem de Sá, 96).

“As ondas do mar
Cidade maravilhosa
És minha
O poente na espinha
Das tuas montanhas
Quase arromba a retina
De quem vê”
Carioca, Chico Buarque
Durante o dia, a Lapa revela de forma mais crua o contraste entre o que já foi recuperado e o que ainda se encontra abandonado e esquecido, mas na Rua do Lavradio já não há só casas de diversão nocturna, e muitos são agora os endereços ligados aos móveis, antiguidades e design brasileiro. O Mercado Moderno (Rua do Lavradio, 130), num sobrado recuperado por Marcelo Vasconcellos, é um bom exemplo do revivalismo que belas peças made in Brazil dos anos 50 e 60, com preços a condizer, estão a despertar dentro e fora de portas. Aproveito a proximidade do Bar Brasil (Av. Mem de Sá, 90), para testar até que ponto iguarias alemãs vão bem com aquele que muitos apontam como o melhor chope do Rio. É um lugar castiço, despretensioso como a Lapa ainda consegue ser, com as paredes cheias de quadros do chileno--carioca Selarón, o artista sui generis que fez da Escadaria do Convento (perto dos Arcos, mesmo atrás da Sala Cecília Meireles), toda revestida a azulejos de várias dezenas de países, a obra de uma vida.

Kátia Barros, na Farm; quarto do Mama Ruisa; sala do Claude Troigros; e piscina do La Suite

A Lapa está colada ao Centro, onde os arranha-céus da área comercial e financeira, mas também muito voltada para a indústria de entretenimentos (com o seus teatros e centros culturais), se mesclam com casario antigo e edifícios históricos. Não é por acaso que boa parte do roteiro ligado às comemorações do bicentenário da chegada da família real portuguesa ao Brasil (ver destaque Passos imperiais) acontece aqui, juntamente com São Cristóvão, agora rebaptizado de Bairro Imperial, na Zona Norte do Rio. A Confeitaria Colombo (Rua Gonçalves Dias, 32), apesar dos pergaminhos, não é dessa época, mas foi inaugurada, em 1894, por portugueses.

Desemboco naquela rua muito estreita, que quase faz com que a sua fachada me surja algo desproporcionada, ainda meio tonto pelo frenesim de carros, transeuntes e vendedores ambulantes que atolam tudo à sua volta. Frequentada por escritores da craveira de um Olavo Bilac ou Machado de Assis, a Colombo é um bombom “art nouveau”, com direito a clarabóia francesa, balcões de mármore italiano e monumentais espelhos belgas, de tonelada e meia cada um, emoldurados a jacarandá trabalhado. Entre um trago de café e uma dentada num petit four de maracujá, lamento não ter à mão o romance O ano em que Zumbi tomou o Rio, de José Eduardo Agualusa, pois gostaria de reler a cena passada aqui.


Como não estou longe, mas também não estou perto, apanho um táxi até ao Aterro do Flamengo. Sabe sempre bem passear pelos jardins projectados por Burle Marx, de frente para a marina da Glória e ao lado do aeroporto Santos Dumont, que se estendem ao Museu de Arte Moderna (Av. Infante D. Henrique, 85). Já conheço o seu acervo de arte do século XX, por isso prefiro ficar a observar o vaivém de barcos na enseada. Mesmo poluída, a marina é um cenário inspirador. Ao largo, avisto também a fachada do hotel Glória, antigo concorrente do Copacabana Palace e símbolo, por excelência, de um certo charme decadente.

A tarde cai a pique, como sempre acontece nos trópicos. Apanho novo táxi. Faço a Avenida D. Henrique, com o estilizado Memorial aos soldados mortos na Segunda Guerra Mundial por companhia. Escapo por um triz ao engarrafamento típico de um final de dia de trabalho; consigo atéabstrair-me e entreter-me a apontar, por entre o caos urbanístico, as mansões e villas (atenção à Casa de Arte e Cultura Julieta de Serpa, Praia do Flamengo, 340, www.casajulietadeserpa.com.br) que passam por mim a correr – o bairro do Flamengo, juntamente com o seu vizinho Botafogo, exibe ainda hoje, e à vista desarmada, resquícios de uma época em que era eleito para morada de famílias da alta burguesia carioca.

Salto em Botafogo, mais precisamente na São Clemente, toda ela recheada de belíssimos casarões – entre eles a residência do Cônsul de Portugal – que me limito a espreitar pelo canto do olho. No final da rua, num prédio impessoal, Lenny Niemeyer possui o seu atelier e showroom. Conhecida pela boa disposição e pelas festas incríveis que dá, Lenny é, como se diz por aqui, “uma paulista de alma carioca”. Começou a desenhar as suas primeiras peças de moda praia em 1993, então ainda para outras marcas, mas depressa abriu um ponto de venda em Ipanema, que se viria a tornar a primeira loja de um negócio muito rentável.

E tudo acaba em Samba
Do Carnaval do Rio já tudo foi dito e escrito. Pouco há a acrescentar, a não ser insistir, talvez, que ver os desfiles das escolas de samba pela televisão jamais vai conseguir passar-lhe a mesma emoção de assistir a tudo ao vivo (e até mesmo de desfilar) ou reproduzir o arrepio provocado, por exemplo, pela passagem da bateria (e tive a prova disso durante um simples ensaio técnico da Grande Rio, no Sambódromo, em Dezembro de 2007). Só por si, a estrutura da Marquês de Sapucai é muito precária e destituída de qualquer encanto – excepção feita ao traçado de Oscar Niemeyer –, mas o brilho das fantasias, a alegria contagiante dos integrantes e o fausto dos carros alegóricos fazem com que não tenhamos olhos para mais nada. Este ano, as escolas do Grupo Especial vão desfilar nos dias 3 e 4 de Fevereiro, a partir das 21h (regra geral, os turistas ficam no Sector 9, com bilhetes a cerca de €200 por pessoa). Mas este, inegavelmente o ponto alto das folias cariocas, é apenas uma das muitas possibilidades de “pular” o Carnaval – um termo que ficou do tempo em que, movidos a jactos de lança-perfume (uma fragrância perfumada à base de éter, cujo uso foi proibido nos anos 60 durante o governo de Jânio Quadros), foliões de todas as idades perdiam o tino.

Na realidade, cada vez mais são aqueles que preferem festejar nas agremiações,
nos bailes carnavalescos e, sobretudo, nos desfiles populares de rua, onde marcam presença blocos já famosos como o Suvaco de Cristo (dia 3 de Fevereiro, no bairro do Jardim Botânico). Como alguns não fazem muita divulgação dos dias em que saem à rua, para tentar minorar o caos que sempre se instala no trânsito, consulte o site www.choro.com.br. Mas se, por acaso, não tiver oportunidade de visitar a “Cidade Maravilhosa” nesta altura do ano, não desespere. A Gamboa, uma imensa área portuária, passou a abrigar a Cidade do Samba (Rua Rivadávia Correa, 60), onde as várias escolas, em vez dos barracões degradados de outrora, passaram a dispor de armazéns para produzir fantasias e carros alegóricos ao longo de todo o ano. E tudo isto aberto a visitas. É também aqui que, segundo a revista Veja, fica actualmente a melhor casa do Rio para ouvir música ao vivo: Trapiche Gamboa (Sacadura Cabral, 155).

A advogada Claudia Melo Alves, uma frequentadora assídua das rodas musicais do Sobrenatural, em Santa Teresa, realizou um sonho ao abrir o seu próprio bar, com programação de samba e choro, num sobrado (antigo casarão) do século XIX. De qualquer forma, a Lapa é sempre um ponto incontornável, isto porque vários sobrados foram recuperados e passaram a funcionar como casas de samba, que, sobretudo nas noites de sexta, sábado e vésperas de feriado, se enchem de gente para prestigiar novos e velhos talentos. Entre os lugares mais concorridos estão o Rio Scenarium (Rua do Lavradio, 20), o Carioca da Gema (Av. Mem de Sá, 79), a sociedade carnavalesca Clube dos Democráticos (Rua do Riachuelo, 91-93), o Circo Voador (Rua dos Arcos, 21), a Comuna do Semente (Rua Joaquim Silva, 138), o Centro Cultural Carioca (Rua do Teatro, 37), a Estrela da Lapa (Av. Mem de Sá, 69, ver texto), o Casarão Cultural dos Arcos (Av. Mem de Sá, 23) ou o Mangue Seco (Rua do Lavradio, 23). A maioria destas casas, apesar de a Lapa manter a sua veia castiça, entrou no circuito turístico, pelo que cobram entrada (cerca de €15 por pessoa) para além do consumo, mas não lhes falta clientela local, nem o reconhecimento dos entendidos na matéria, que as elegem como os melhores locais da cidade para ouvir música ao vivo e dançar.

“A mão de Deus em tudo
em Copacabana
o Rio bate um bolão
garotas que passam
têm lugar na canção”
Delírio dos Mortais, Djavan
Espero por ela entre porta-retratos e chariots apinhados de biquínis e fatos de banho para as garotas de Ipanema do século XXI. Já perto da hora do jantar, tenho duas opções, aqui mesmo em Botafogo, para tomar um copo: o bar do Espaço Cultural Maurice Valansi (Rua Martins Ferreira, 48), que também faz as vezes de Museu da Cadeira, livraria e galeria de fotografia, ou o Miam Miam (Rua General Góes Monteiro, 34). Acabo por optar pelo segundo, até porque me esqueci de reservar mesa com a devida antecedência e é uma maneira de ganhar tempo até conseguir uma. Decorado com móveis, cadeiras e candeeiros dos anos 50 e 60, provenientes da loja Hully Gully (Rua Siqueira Campos, 143, slj. 102, Copacabana), o Miam Miam é um espaço desconcertante e deliciosamente inesperado, onde Roberta Ciasca (ver destaque Quatro olhares sobre o Rio) dá largas à sua predilecção pela vertente da comfort food – trocado por miúdos, receitas caseiras com um toque de autor. Mais do que apenas as críticas favoráveis, Roberta e o Miam Miam têm a seu favor uma casa cheia.

Dou entrada no Copacabana Palace quando a tarde de sábado já vai a mais de meio. A piscina, há muito o coração social deste hotel, é agora também disputada por várias noivas, e respectivas entourages, que não se importam de pagar bem para que o seu dia de sonho inclua um cenário digno de capa de revista. Há uns tempos pediram que explicasse as razões que me levam a regressar aqui, ainda que prefira ambientes modernos e pequenos, e eu escrevi: “Regresso pelo conforto dos quartos, pelo empregado que se esforça em fixar o meu nome entre tantos, pelas orquídeas que trepam pelas árvores do pátio, pela feijoada de sábado, pelo brunch de domingo, e pela hora mágica em que as suas fachadas se alumiam. E também porque, para mim, a ideia de um dia perfeito no Rio termina com um banho ao luar, na piscina ancorada entre os restaurantes Pérgula e Cipriani”. A isto somo agora um outro atractivo de peso: um spa a cheirar a novo, de 700m2, nas antigas Termas Copacabana, com acesso pelo edifício anexo, com belos apontamentos florais nas paredes, onde as empregadas usam havaianas em vez de sapatos e os tratamentos, a partir de €35, utilizam produtos das linhas Natura, Decleor, Wellness e Shiseido.

Interior da loja Q-Guai; praia de Copacabana; Mercado Moderno, na Lapa; e entardecer na Lagoa; A piscina do Copacabana Palace é o coração deste hotel, onde abriu um novo spa de 700 m2


Mas, Copacabana, por mais que a calçada ondulada projectada por Burle Marx continue apetecível (e a tornar-se estampa de marcas como a Osklen), não se resume à bela fachada do Copa ou à Avenida Atlântica. Basta sair da beira-mar e entrar nas ruas interiores do bairro e sentir-nos-emos de imediato num outro “mundo”, que pouco ou nada preservou da aura mágica dos anos 50 e 60, tão bem ilustrados por Nelson Motta, o homem dos sete ofícios, em Ao som do mar e à luz do céu profundo. Uma outra época, em que o metro ainda não depositava centenas de pessoas vindas da Baixada fluminense nos congestionados areais e a vida corria a outro ritmo, com menos roubos, boites de quinta e prostituição de rua.

Sentem-se, porém, ventos de mudança no ar. A prova disso são os novos quiosques da orla entre os postos 1 e 4, que trouxeram melhores condições sanitárias, maior conforto e uma infinidade de novos cardápios, a cozinha estrelada de Roland Villard em Le Pré-Catelan (Sofitel, Av. Atlântica, 4240), ou ainda a dupla de São Paulo que, depois de abrir o Copa Café (Av. Atlântica, 3056), inaugurou em 2007 o Atlântico (Av. Atlântica, 3880), uma mistura de lounge e restaurante, com arquitectura de Gilmar Peres, que já se tornou lugar da moda para ver e ser visto. Entre as novidades conta-se igualmente uma roda gigante para breve, a ser instalada no Forte de Copacabana. Por ora, prefiro apontar o meu foco na direcção contrária, onde estão o Leme e a Urca (ver shows no Guia), pensar na vista maravilhosa que tenho a partir do Morro do Pão de Açúcar e terminar com mais um verso cantado por Djavan: “Rio / Podem dizer o que quiser / Mas o xodó do povo / É o Rio / Casa do samba e do amor / Do Redentor / Louvado seja o Rio”. Ámen.


Como ir
A TAP Portugal (reservas pelo tel. 707 205 700, www.flytap.com) voa diariamente para o Rio de Janeiro por tarifas a partir de €599 (mais taxas, que perfazem cerca de €260). Como é habitual, durante o período de Carnaval irá haver um reforço da operação.

INFORMAÇÕES ÚTEIS
FORMALIDADES: Passaporte válido
CÂMBIO: 1 Real vale cerca de €0,43. Pode levantar dinheiro nos ATM do Bradesco (e pouco mais), mas atenção que só funcionam até às 22h. A maioria dos cartões de crédito é aceite.

House in Rio

Fasano al Mare

Estrada do Joá

MAC, Noterói

Gula Gula

Santa Teresa

TRANSPORTES: Existem autocarros e metro, mas os primeiros são apontados como responsáveis por vários acidentes devido à velocidade com que circulam; e o segundo, embora eficaz, está longe de cobrir a cidade toda. O táxi continua a ser o meio mais seguro, mas não vá à espera de pechinchas e prefira os táxis de cooperativas para não ter dissabores. No aeroporto, pode igualmente optar por comprar a sua viagem de ida e volta numa das cooperativas de táxi ali representadas (conte com cerca de €30 por trajecto).

ONDE FICAR
Bed & Breakfast – Leonardo Rangel e João Vergara possuem a Cama e Café (www.camaecafe.com.br), que providencia alojamento em casas particulares, sobretudo em bairros como Santa Teresa, e a Rio Homestay (www.riohomestay.com.br), com uma boa selecção de casas na Zona Sul, mais próximas das praias. Entre €30 e €60.
Copacabana Palace – Av. Atlântica, 1702, Praia de Copacabana, www.copacabanapalace.com.br
Reservas através da Leading Hotels of the World, tel. 800 780 036 (número verde).
Diárias desde €500 (consultar pacotes mais em conta)
Fasano Rio – Av. Vieira Souto, 80, Ipanema, www.fasano.com.br Reservas através da Leading Hotels of the World, tel. 800 780 036 (número verde). Diárias desde €400 (consultar pacotes mais em conta)
La Suite – Rua Jackson de Figueiredo, 501, Joá, tel. 0055 21 2484 1962. Diárias desde €200
Mama Ruisa – Rua Santa Cristina, 132, Santa Teresa, tel. 0055 21 2242 1281 www.mamaruisa.com
Diárias desde €200
House in Rio – Jean-Luc Boucharenc, www.houseinrio.com

ONDE COMER
Consultar as moradas sugeridas no texto

ONDE COMPRAR
Consultar as moradas sugeridas no texto

MÚSICA AO VIVO
Para ficar a saber das várias casas de samba que existem no bairro da Lapa, consulte o destaque E tudo acaba em Samba. Fique também atento, através do site www.morrodaurca.com, ao projecto Verão do Morro, que tem vindo a assinalar os 95 anos de operação do “bondinho” que sobe ao Morro do Pão de Açúcar com vários concertos e actuações de artistas nacionais e DJs, dispondo para o efeito de bares, lounges e pistas. Para Fevereiro está confirmada, entre outras, a presença de Fernanda Abreu.

PASSEIOS
O novo navio
Pink Fleet (www.pinkfleet.com.br), uma iniciativa do empresário Eike Batista, oferece passeios de um dia pela orla a partir da Marina da Glória – e passando por pontos como o Museu de Arte Moderna, Aterro do Flamengo, Praia Vermelha, Forte do Leme, Praia de Copacabana, Ponte Rio-Niterói e Ilha Fiscal – a partir de €35 por pessoa, com direito a uma bebida. É possível ainda optar por brunchs, almoços, jantares, happy hours, festas e eventos corporativos servidos a bordo, com preços também a partir de €35 por pessoa, preparados pelo chef holandês Gabriel Fleijsman, formado pela Cordon Bleu e especializado em cozinha francesa e asiática. Capacidade para até 454 passageiros.

A NÃO PERDER
Oscar Niemeyer comemorou, em Dezembro de 2007,100 anos de vida. O centenário tem sido assinalado através de várias iniciativas, mas uma das melhores formas de prestigiar aquele que é, sem sombra de dúvida, um dos maiores arquitectos contemporâneos passa por prestar maior atenção às várias obras que possui espalhadas pelo Rio de Janeiro e arredores, como seja o Museu de Arte Contemporânea, em Niterói; a Passarela do Samba e Apoteose, no Sambódromo; o Prédio da Manchete, no bairro da Glória; a sede do Banco Boavista, perto da Candelária, ou ainda o Hotel e Centro Cultural do SESC de Copacabana, no n.º 160 da Rua Domingos Ferreira. De assinalar, contudo, que a célebre Casa das Canoas, em São Conrado, residência do arquitecto, passou a ter uma parte aberta à visitação pública (de terça a sexta-feira, entre as 13h e as 17h, entrada a €4).

MAIS INFORMAÇÕES
Consulte os sites www.turismo.gov.br e www.rio.rj.gov.br (informação oficial sobre tudo o que diz respeito à cidade), www.viajeaqui.com.br (sítio do prestigiado “Guia Quatro Rodas”) e www.veja-rio.com.br (sítio do suplemento da revista Veja dedicado ao Rio).
Livros: Lonely Planet e o Wallpaper City Guide-Rio.
No Rio compre as edições do Guia Quatro Rodas 2008 dedicadas ao melhor da cidade.



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