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   XLRotas & DestinosEstrada fora > Alto Alentejo

E S T R A D A    F O R A Fevereiro de 2009   
Uma das imagens mais características do Alto Alentejo. Os bois, as vacas e os toiros costumam completar o cenário
   



De Montemor-o-Novo a Alter do Chão vai a distância de um Alentejo que muita gente desconhece. Se o país tem assimetrias, esta região também tem direito à diferença. A gastronomia é uma delas


texto de João Ferreira Oliveira | Fotografia de Manuel Gomes da Costa
   

P U B L I C I D A D E
A maior parte das vezes fala-se do Alentejo como um corpo uno. Como se tivesse uma só alma. As raízes, a fonte onde os alentejanos sorveram a sua essência, são as mesmas, mas há grandes diferenças dentro da região. Aqui é do Alto Alentejo que se fala. Uma zona com um leve trago a Ribatejo, com campos repletos de toiros, vacas e ovelhas, restaurantes em que os pratos de caça são quem mais ordena, em que os cavalos são de puro sangue e onde o turismo não é uma moda, mas um prazer em que cada um pode, e deve, criar o seu próprio roteiro.

Dia 1
Montemor-o-Novo
A suite da Casa do Largo, Turismo Rural situado no centro do Crato; uma ponte romana próximo de Avis; a Tasca do Montinho, em Alcórrego, um dos restaurantes a não perder

Estar bem localizado tem as suas desvantagens. Parece um contra-senso, mas a verdade é que ter boas acessibilidades pode fazer com que as pessoas não parem. Apenas passem. Simplificando: Montemor-o-Novo fica situada a uma hora de Lisboa, mas muita gente só se lembra de ver o nome da localidade na placa da auto-estrada. Perde a aura de destino turístico e passa a ser apenas um ponto de passagem. Erradamente. Quando muito pode ser um ponto de partida.

Não é um destino de eleição, é verdade, em que algo se destaque de forma dramática, seja a beleza do terreno, a arquitectura ou a sua história, mas tem uma interessante aura hermafrodita. O facto de este ainda ser um Alentejo demasiado próximo da capital, e, por outro lado, de aqui existir um interessante pólo criativo (se nos é permitida a expressão) de gente das artes, faz com que seja possível mais do que ter o melhor de dois mundos: aqui há os dois mundos na mesma cidade. 

Rui Horta é a cara, o corpo e a mente deste lado mais artístico. Este homem, bailarino e coreógrafo que já dançou, ensinou e dirigiu espectáculos nas melhores escolas e nos mais importantes palcos do mundo, dirige, desde o ano 2000, o Espaço do Tempo – situado no Convento da Saudação, Monumento Nacional do século XVI. Trata-se de uma estrutura transdisciplinar que se dedica a tentar oferecer as melhores condições a artistas internacionais que trabalhem na área do teatro, cinema, vídeo, arquitectura ou dança.


Este e outros projectos não serão o suficiente para manter de pé uma cidade, mas são o suficiente para que ela não se afaste do mundo. E para que o mundo não se esqueça dela. Fonte de Letras é outro dos nomes a reter, outro dos exemplos a seguir. Uma livraria que numa cidade grande seria apenas uma livraria, mas que aqui ser torna um local de visita obrigatória, onde pode aceder às últimas e mais alternativas novidades do mercado, participar em interessantes tertúlias ou, simplesmente, tomar um café. Tudo sem pressas, porque intramuros as palavras vêm de todo o mundo, mas lá fora ainda é a alma alentejana que marca o tempo. Especialmente na zona histórica, onde o cair do dia, a construção palaciana de algumas casas e a consequente decadência de outras lhe dá uma aura especial. É também a altura em que o seu Castelo, situado sobre o outeiro mais alto, mostra verdadeiramente o seu porte. É o local onde se diz que Vasco da Gama ultimou os seus planos para a viagem à Índia e onde todos os habitantes regressam sempre que precisam de olhar em frente e recarregar energias. Depois voltam para casa. Nós voltamos para o Monte do Chora Cascas. Também pode fazer o contrário. Ficar todo o tempo no Monte do Chora Cascas (ver artigo) e, se lhe apetecer, visitar a cidade – pois a qualidade do alojamento e o consequente bem-estar transformam a partida quase num acto de obrigação.

Dia 2
Montemor-o-Novo | Mora | Avis | Crato
Um dos sete quartos do Monte do Chora Cascas, em Montemor-o-Novo; as cavalariças na Coudelaria de Alter-Real, em Alter do Chão, e um cavalo Lusitano
Viajar foras das grandes vias, isso sim, deveria ser um acto obrigatório para a saúde mental de todos os portugueses. A estrada nacional entre Montemor e Mora é um desses exemplos. Umas vezes pela vida que não há, pela ausência de pessoas, de sons, de automóveis, outras pela paisagem repleta de azinheiras e campos verde-saúde que os bois, as vacas e os toiros parecem gerir sozinhos. Pára-se e abre-se uma cancela – estrada do Alentejo que se preze tem sempre uma cancela para abrir –, desta feita de encontro à Anta Grande da Herdade da Comenda. É apenas uma das inúmeras construções megalíticas existentes nesta área, muitas delas em elevado estado de conservação e em locais de fácil acesso.

O que o Alentejo e a maior parte do país não tem é um museu como aquele que Mora possui. Uma espécie de Oceanário que este ano foi considerado pela Associação Portuguesa de Museologia como o melhor museu português de 2008. Falamos do Fluviário de Mora, uma casa aberta em 2007 onde pode observar diferentes tipos de habitats e uma surpreendente diversidade de peixes, entre eles lontras, trutas, robalos, peixes-tromba-de-elefante, piranhas, carpas, raias ou tartarugas. Esta é uma verdadeira surpresa numa região em que a água tantas vezes escasseou, numa terra que forasteiros procuravam, essencialmente, devido aos seus afamados pratos de caça. Hoje as pessoas deslocam-se aqui propositadamente para ver os peixes. A cozinha mais “pesada” que tanto caracteriza o Alentejo, em que a carne de porco e os enchidos são a cara do menu, dão nesta sub-região lugar uma gastronomia ligeiramente mais “leve”, expressa em pratos como o arroz de lebre, o pombo bravo, as migas de espargos bravos, o javali, o veado, o coelho à caçador ou galo de cabidela. O Afonso, bem no centro de Mora, propriedade da já famosa Dona Bia, ponto de peregrinação de Miguel Sousa Tavares, ou a Tasca do Montinho, a poucos quilómetros de Avis, outrora “segunda casa” de Francisco José Viegas – dois jornalistas/escritores apreciadores de uma boa mesa – são locais de eleição para perceber esta realidade. E a realidade é simples: seja maia a norte ou mais a sul, não serão muitos os lugares no mundo em que come como nesta região.

Dia 3
Crato | Alter do Chão
As muralhas do Castelo de Montemor-o-Novo; a livraria Fonte de Letras, na mesma cidade; Rui, oleiro e orientador da Escola de Olaria de Flor da Rosa, onde se faz e vende artesanato
Uma das maiores virtudes deste Alentejo é para muitos um dos seus maiores defeitos. E vice-versa. Ao contrário de outras aldeias e vilas espalhadas um pouco por todo o país, que graças à caprichosa recuperação dos seus centros históricos se tornaram verdadeiras localidades-museu e ponto de excursão obrigatória nas rotas do turismo sénior (e não só), aqui tudo continua muito próximo daquilo que sempre foi. No bom e no mau sentido. Sente-se a despovoação, expressa em algumas (muitas) casas abandonadas, em palacetes antigos onde outrora funcionaram fábricas que empregavam centenas de pessoas, mas sente-se igualmente a força da pureza alentejana. A simpatia, a firmeza, a puerilidade daqueles que ficaram porque acreditam que o local de nascença deve ser a casa para toda a vida. É assim em Avis, no Crato e em Alter do Chão, onde o branco e amarelo das casas se funde com a força das laranjeiras (figura omnipresente em todas as ruas) criando um cenário que projecto algum de recuperação poderá reproduzir.

É precisamente no meio desta realidade que locais como a Casa do Largo, bem no centro do Crato, ganham ainda mais dimensão. Uma antiga casa de família que Maria Luiza recuperou, transformando numa casa do mundo e para todo o mundo em que a pedra e a madeira, a modernidade e as tradições se transformam num só corpo. Destaque para a surpreendente colecção de carros de cavalo, que um dia, promete a proprietária, deixarão de funcionar apenas como peça de museu e voltarão à estrada para passeios pela vila, que com certeza farão as delícias de miúdos e graúdos.É natural esta associação ao lado equestre, não estivéssemos nós a poucos minutos da Coudelaria de Alter-Real, espaço situado na Tapada do Arneiro dedicado à preservação, reprodução e divulgação do Cavalo Lusitano. Uma área com um total de 800 hectares em que se é transportado para um mundo à parte. Para o século XVI, para a corte de D. João IV, para um universo em que tudo gira à volta dos animais. Depois de uma fase em que tudo parecia estar destinado a ser esquecido, há cerca de uma década a Coudelaria empreendeu um processo de renovação, estando agora umbilicalmente ligada ao Ensino Profissional e Universitário, possui infra-estruturas hípicas e desportivas, núcleo museológico, um núcleo de falcoaria e em construção está uma unidade hoteleira. Este é o local ideal para terminar, ou começar, o passeio. Alheado de tudo, imiscuído na natureza, nas tradições, nas raízes lusitanas, prova clara de que a melhor forma de encarar o futuro é saber preservar o passado.

Onde ficar
Monte do Chora Cascas
Montemor-o-Novo, tel. 266 899 690/916 781 966, www.wonderfulland.com/choracascas
Um local de eleição situado num monte a cerca de três quilómetros de Montemor-o-Novo. Sete quartos, sala de estar com lareira, piscina e campo de ténis são algumas das características. Tudo num requintado ambiente campestre com muita sensibilidade e bom gosto, garante de tranquilidade e qualidade absolutos. Preço por noite em quarto duplo a partir de €95.

Casa do Largo
Largo do Município, 2, Crato, tel. 245 997 001, www.casadolargo.com
A prova de como uma casa antiga se pode tornar um interessante pólo de modernidade para a própria vila. São muitos os turistas portugueses e estrangeiros que se tornaram clientes fiéis e as razões são simples: a comodidade, a simpatia de Maria Luiza, a proprietária, e a decoração alegre dos sete quartos e uma suite. Tem piscina, jardim interior e um espaço para crianças. Preço por noite em quarto duplo a partir de €100.

Onde comer
O Afonso, Rua Pavia, 1, Mora, tel. 266 403 166
As paredes estão cheias de testemunhos de pessoas famosas que nunca mais se esqueceram dos cozinhados da Dona Bia, a cozinheira e proprietária. Açorda de perdiz, pombo à Dona Bia, coelho à caçador, javali ou veado estão entre as maiores especialidades.

Tasca do Montinho, Montinho, Alcórrego (Avis), tel. 242 412 954
Galo de cabidela, arroz de lebre, migas de espargos ou tomate e a famosa perdiz estufada (só por encomenda): eis algumas das pérolas desta casa. Um menu em que predominam os pratos de caça, num restaurante com “cheiro” a tasca, a poucos quilómetros de Avis.

“O Leilão”, Parque de Leilões de Gado, Montemor-o-Novo, tel. 266 892 629
Há quem diga que tem os melhores bifes do país. Não é exagero, uma verdadeira surpresa quer pela qualidade quer pela diversidade.

A não perder
Escola de olaria Flor da Rosa Rua D. Nuno Alvares Pereira, 58, Flor da Rosa
Aqui pode comprar algumas peças de artesanato, sobretudo em barro, e mesmo ver as pessoas a trabalhar. Para ficar com uma recordação e contribuir para que a tradição quase em vias de extinção não desapareça.

Coudelaria de Alter-Real Tapada do Arneiro, 80, tel. 245 610 060
Não visitar a casa dos Cavalos Lusitanos é imperdoável. Pode fazê-lo diariamente (excepto às segundas-feiras) de manhã e à tarde. A visita guiada dura cerca de 1h30m e é grátis até aos 11 anos, €1,20 até aos 18 anos, €3,80 até aos 65 anos e €2,50 para a terceira idade.

Um prato de caça Seja lebre, javali, veado, pombo, saborear um prato de caça nesta zona é incontornável. Desde que se esteja na época própria, naturalmente.


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