Omã
No
dia em que o sultão fez anos
No
dia em que o sultão fez anos houve arraial e foguetes no ar.
É assim desde 1970, altura em Qaboos bin Said tomou o poder
e resolveu associar as comemorações do seu aniversário,
a 18 de Novembro, aos festejos do Dia Nacional de Omã. Um espectáculo
digno das mil e uma noites, que se supera de ano para ano em matéria
de brilho e exotismo. A não perder..
Não
foi o meu caso, pois há muito que sabia ao que vinha, mas estou
certo que o turista comum que chegasse desprevenido por aqueles dias
ao aeroporto de As Seeb, nos arredores de Mascate, ficaria surpreso
com o engalanamento geral da capital de Omã. Os enfeites eram
tão espalhafatosos que pareciam mesmo bater, em esplendor,
as cosmopolitas cities das capitais da velha Europa em época
natalícia.
É certo que a concentração de adornos não
é, aqui, tão grande, mas, em compensação,
estes são muito mais numerosos, uma vez que se espraiam por
dezenas de quilómetros e que em todos os postos de electricidade
da moderníssima auto-estrada, que liga o aeroporto ao centro
da capital, ondulam bandeiras nacionais com as tradicionais cores
branca, vermelha, verde e o canto superior esquerdo decorado com o
símbolo nacional, o kjhaar (adaga em português). Ao centro,
entre duas bandeirinhas, a figura omnipresente do sultão Qaboos
bin Said, cujo aniversário, comemorado a 18 de Novembro, é
motivo para uma semana de intensa animação. "É
o nosso Natal", diz-me um omanita todo sorrisos. É
verdade, o dia do nascimento do sultão corresponde em Omã,
pelo menos em aparato festivo, ao 25 de Dezembro para os cristãos
em todo o mundo. Todos os anos, desde 1970 (altura em que Qaboos tomou
o poder) que o país faz coincidir, propositadamente, o Dia
Nacional com a data de nascimento do monarca. A razão para
este amor extremo resulta do facto de Omã ter dado "o
grande salto em frente" com a sua gestão.
É
certo que a este bem-estar geral não é alheio a descoberta
do petróleo em 1968, mas quantos monarcas enriqueceram, principalmente
naquela zona, deixando o povo numa situação praticamente
idêntica ao tempo anterior às receitas petrolíferas...
Os omanitas parecem, mais do que ninguém, ter consciência
disso, daí que falem do seu querido líder com um misto
de reverência e efeição, pondo-se à sua
disposição para tudo.
Elucidativo
desta disponibilidade foi a resposta dada à minha pergunta
de quantos efectivos tinha o exército omanita. O guia fitou-me
com um ar indignado rematando o diálogo com a seguinte frase:
"Qualquer omanita, independentemente da idade e do sexo,
é um soldado ao serviço do sultão."
Já antes, no souk (mercado) de Mutrah, o mais famoso de Mascate,
um vendedor de prata mostrara toda a sua incredulidade com um sonoro
ah!, quando soube que Portugal não tinha sultão, nem
sequer rei. "Então quem olha por vós?",
interrogou-me, como quem lamenta a orfandade de uma criança.
Desde
a minha chegada, uma semana antes, que a pergunta: "Do you
come for the National Day?" foi-me posta dezenas de vezes.
Ao abanar afirmativo da cabeça esclareciam logo em seguida:
"Este ano as celebrações são aqui mesmo
em Mascate." Sabe-se que o sultão gosta de descentralizar,
de fazer chegar a sua palavra a todo o povo. Por isso, as celebrações
têm lugar em cidades diferentes todos os anos, bastando para
o efeito que exista um estádio onde elas se possam realizar
com a devida pompa e circunstância. O ano passado foi em Salalah,
a segunda cidade do país e terra natal do monarca. Há
dois anos foi em Sur, cidade conhecida pelas suas tradições
piscatórias. A itinerância não altera, porém,
o conteúdo das festividades, uma vez que elas atingem sempre
o ponto máximo com o discurso de Sua Majestade.
Todavia, nesse dia, já se notava por toda a cidade, logo
de manhã bem cedo, um movimento anormal característico
dos grandes dias. Pela azáfama, percebia-se imediatamente
que este dia era o mais esperado do ano. No hall do hotel onde estavam
instalados os jornalistas, por exemplo, há muito que tinha
sido montada uma barraquinha destinada a fornecer todo o tipo de
detalhes (horas, local, intervenções, etc.) relacionados
com as festividades. Ao fim da tarde, agrupados em jipes ou em carrinhas,
os profissionais de comunicação social rumaram ao
estádio em pequenos grupos. Junto deste assistia-se a um
virote de gente de todas as idades, excepto, claro está,
de mulheres.
O
ambiente que envolvia o recinto desportivo não tinha, contudo,
nada a ver com o dos nossos grandes jogos de futebol. Não
havia fumo com cheiro apetitoso a bifanas ou a couratos, nem pipas
do belo morangueiro ou garrafões de ginginha, pois o imperativo
religioso tornou as coisas mais higiénicas e ditou que apenas
fosse servido café, chá, tâmaras e uma espécie
de batatas fritas que não cheguei a provar.
|