[Omã:
No dia em que o sultão fez anos ]
As
entradas no estádio, mesmo para o sector VIP,
onde estão instalados os jornalistas, são rigorosamente
inspeccionadas, e ninguém entra sem a respectiva carteira profissional
e um convite da organização, o que não impede
que não sejamos rapidamente revistados, ou não fosse
Omã, apesar de toda a tranquilidade patenteada, um país
do Médio Oriente, uma das zonas mais conturbadas do globo.
Uma hora antes da entrada de Qaboos, prevista para as 20 horas, já
o recinto se encontra praticamente cheio, faltando somente preencher
os lugares destinados aos VIPs da bancada central. Olhando para estas
compreende-se perfeitamente a sociedade omanita, assente numa separação
de funções ditada pelo sexo. Ambas as cabeceiras encontram-se
radicalmente divididas: de um lado, uma mancha negra composta por
mulheres. Do outro, domina, apesar de não haver uma uniformidade
de cor tão acentuada, um luzidio tom azul-lilás transmitido
pelas dishdashas, os vestidos tradicionais dos homens.
Na bancada central, os convidados vão chegando pouco a pouco
e sentam-se em autênticas poltronas de cinema.
São
membros do Majlis-Ashoura Assembleia Consultiva do sultão
, familiares do monarca e membros reais dos Estados vizinhos,
elementos da alta sociedade omanita e representantes das grandes
multinacionais ocidentais.
Cerca das oito da noite, a multidão irrompe em ruidosos aplausos
com a chegada de Sua Majestade, Qaboos bin Said. O caso não
é para menos: este dia é uma espécie de "sultanato
aberto", constituindo uma raríssima oportunidade
de os omanitas verem o soberano in loco. Pouco depois, em passo
marcial, entram bandas de música em traje de gala. De branco,
azul, vermelho, verde perfilam em frente do sultão para o
hino. Os tambores rufam intensamente. Depois é a vez de Qaboos
retribuir, agradecendo, num discurso que dura cerca de uma hora,
o esforço do "Grande Povo Omanita". Pelos
folhetos distribuídos em edição bilingue, árabe
e inglês, os presentes seguem de cabeça baixa, concentrados,
as mágicas palavras.
.
Ao contrário do que se possa pensar, a sua voz raramente
é interrompida por aplausos. No fim da comunicação,
danças e cantares passam em revista a história do
país, desde os tempos em que o império omanita se
estendia da costa oriental africana aos confins da Pérsia,
passando pela ocupação de Mascate pelos portugueses
no século XVI, até à recente revolta que levou
Qaboos ao poder. Aliás, Omã, apesar de os portugueses
terem ocupado durante 150 anos pontos-chave da sua costa, é
o único país da Arábia que se pode orgulhar
de nunca ter conhecido o jugo colonial. Ainda hoje, passados quase
quatro séculos sobre o feito, o dia da expulsão dos
lusitanos é, tal como o nosso 1.º de Dezembro, feriado
oficial.
Mas
é nesta dança que se fica a conhecer melhor este povo.
No fervor dela algumas raparigas libertam-se e descem o véu
que lhes tolda o rosto. Então, nesse momento, exibem toda
a sua beleza, fruto de um invulgar cruzamento de raças tão
característico naquelas paragens. Algumas mais ousadas sentem
que estão a ser o alvo da atenção de fotógrafos
estrangeiros. Sorriem, arregalam os olhos, fazem "boquinhas",
sabendo provavelmente que nunca mais terão uma oportunidade
como esta. Mas hoje é dia de festa, por isso desculpa-se
tudo. No fim, em apoteose, os miúdos de todas as escolas
do país desejaram uma longa vida ao amado sultão.
Já noite dentro, para regalo do povo, foi lançado
fogo-de-artifício com tal intensidade que a noite pareceu
virar dia. Mas os festejos não se ficaram por aqui. No dia
seguinte, desta vez só para a "arraia-miúda",
houve uma reprise do que tinha sido dado a ver na véspera.
Houve também corridas de camelos e largadas de barcos, e
mais danças, não só em Mascate como noutras
cidades, enquanto a televisão estatal ia transmitindo e retransmitindo
tudo em pormenor.
Percebe-se que os omanitas, tal como os gauleses da aldeia de Astérix,
parecem só recear uma coisa: a morte do seu querido Sultão.
Mas seguramente que amanhã ainda não será a
véspera desse dia...
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