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    FBNet > Rotas & Destinos > Sob o céu de Salamanca

D E S T A Q U E

Cidade Europeia da Cultura 2002, Património Mundial da Humanidade desde 1998, medieval, esotérica, moderna, noctívaga e doutoral, fica já aqui ao lado.

Texto de Cristina Pereira
Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   


Um magnífico Balzac, esculpido por Rodin, ergue-se no centro da Plaza Mayor. Ponto de encontro, e de passagem obrigatória, nela palpita o coração de Salamanca. O hotel onde acabamos de chegar, caída já a noite, fica a cinco minutos da Praça. Já lá iremos.


Puente Enrique Esteban.

A cidade é pequena - cerca de 150 mil habitantes, num total aproximado de 40 mil alunos, hablando todas as línguas; existem 30 escolas de espanhol para estrangeiros e o centro cultural nipónico mais importante da Europa, a seguir ao de Paris, fica na Plaza San Boal. Conhece-se a pé. O centro histórico agrega-se em torno dos seculares edifícios da Universidade (onde já não são dadas aulas, remetidas, entretanto, para um campus), mas o rendilhado de pedra, que ganha um delicioso tom rosa quando iluminado pelo sol, está presente um pouco por todo o lado. Unamuno, que não nasceu aqui, embora se tenha identificado até ao fim com Salamanca, falou de corales de oro que reverberan al sol desnudo del invierno. Estava certo.


Simbolo de Salamanca 2002, inspirado no fresco de Fernando Gallego, do século XV, conhecido por Cielo de Salamanca.

Não foi por esta ordem, mas a história exige-me ser contada. Preocupado com a luz, o fotógrafo parte manhã cedo em busca de um enquadramento preciso, enquanto eu desperto ainda frente a um desolado café solo, rendida à impossibilidade de tomar a única coisa que falta a Espanha para ser perfeita - uma bica (o café expresso é uma falácia intraduzível). Tendo parado o carro em local proibido, só para não perder "aquele" ângulo, vê-se o transgressor repentinamente abordado por um guarda-civil, que lhe pede os documentos.
O cenário da acção é a ponte romana de Salamanca (fechada ao trânsito), ex-libris que está ali desde os tempos imorredoiros do Imperador Trajano e que se encontra agora, nesta manhã do século XXI, atravancada por três possantes viaturas - uma do fotógrafo, duas da polícia. À tentativa, bem portuguesa, de simular não perceber o que se passa, o fotógrafo é surpreendido com a única pergunta que nunca poderia ter previsto: "Por que quer usted suicidar-se?". "Suicidar-me!?", exclama em estado de choque, e pondo a hipótese de se tratar de uma confusão linguística, o profissional da imagem. "Sim, atirar-se ao Tormes con el coche" (nota: Tormes é o nome do rio que banha Salamanca e vem desaguar ao Douro, e teria de ser com el coche porque a distância à água não garante sucesso em caso de desespero não motorizado). Neste momento pícaro do diálogo (digno, precisamente de Lazarilho de Tormes, personagem literária de livro homónimo e que uma estátua evoca, bem por perto), começa a esclarecer-se o equívoco. Uma cidadã local, igualmente madrugadora, terá contactado as autoridades informando-as de que estava em cima da ponte um homem com um carro, cujas manobras - suspeitas -, a levavam a concluir tratar-se de um potencial suicida. Respirando fundo ao aperceber-se que não iria ser multado, o fotógrafo lá conseguiu "o boneco" e eu arrependo-me mil vezes de ter trocado este episódio por um café que, para mais, nem sequer era uma bica
.


Em Volta da Plaza Mayor

Namorando sob o olhar de Francisco Vitoria, o pai do Direito Internacional, no jardim da Plaza del Concilio de Trento, em frente ao Convento de San Esteban..
Voltando à Plaza Mayor. Descobrimo-la na primeira noite, ao acaso das ruas, à vista de uma das entradas que lhe dão acesso (no total são 12). Havemos de atravessá-la vezes sem conta, encontros marcados debaixo do relógio, como fazem os salmantinos. Pelos terrenos que agora ocupa, passou em 1543 Filipe II de Espanha, a caminho do seu casamento com D. Maria de Portugal, muitas décadas antes da praça ter começado a ser construída (1729). Conta a história que o casamento teve lugar às três da madrugada, por ser inconveniente que os futuros esposos prenoitassem debaixo do mesmo tecto (no Palacio de los Solís, hoje ocupado pela Compañia Telefónica) sem terem contraído matrimónio. Na manhã seguinte, pelas sete, o rei terá vindo à janela "mostrando-se bem disposto". Como se sabe, cerca de 60 anos depois, a manhã do 1º de Dezembro não nasceria tão auspiciosa para Filipe IV...

Entramos no Café Novelty, debaixo das arcadas da Plaza. É tarde. Esfomeados, salva-nos a peculiar relação com as horas dos nossos vizinhos (não há globalização que os faça desistir da siesta nem do pinchar - qualquer coisa como petiscar - quando lhes dá la gana). Sentamo-nos e, a meu lado, uma estátua de bronze ocupa um dos lugares da mesa contígua. Não, não é Fernando Pessoa (e não, não estamos na esplanada, até porque está um frio de rachar). Trata-se do escritor Gonzalo Torrente Ballester que, como Miguel de Unamuno, não nasceu em Salamanca, embora também ele a tenha adoptado, e vice-versa. Morreu aqui em 1999 e, em 1987 fora eleito doutor honoris causa pela primeira Universidade da Península e uma das primeiras da Europa.

Lazarillho de Tormes, personagem e título de romance pícaro.
Ceamos ao lado do autor de XXXXXXX, cliente habitual do café mais antigo da cidade (data de 1905), e, perdidos depois pelas calles estreitas, o som quente de um piano conduz-nos até ao El Capitán Haddock, onde gente menos jovem dá lições de tango a frequentadores mais novos. O ambiente sempre descontraído que se vive em Espanha (não consta que os nossos hermanos alguma vez tenham deixado à porta o De Niro por o terem confundido com "um esperto que tem a mania que é parecido com o De Niro", como já aconteceu em Lisboa...) faz-nos esquecer o cansaço. E até o fotógrafo, que não dança, arrisca uns passos de bossa-nova ao som de Tom Jobim. Acabámos de chegar e são demasiadas emoções em poucas horas. Amanhã, aguarda-nos uma visita ao centro histórico, guiados por Carmen García. Está na hora de redescobrir o caminho do hotel.

Um Rendilhado de Delicada Pedra

Plaza Mayor
As cidades não são todas iguais. Visitam-se pela arquitectura, em algumas dominam a localização e belezas naturais, outras tornam-se irresistíveis pelos espectáculos ou animação que oferecem; a outras, ainda, basta-lhes as memórias que despertam em cada um de nós. Em Salamanca é a História quem marca pontos.

A passagem do tempo inscreve-se e funde-se nesta pedra arrosada, chamada de Villamayor (nome da vila de onde provém), e o habitual peso da monumentalidade castelhana aligeira-se graças a esta cor particularmente adequada ao chamado "plateresco" dominante. Platero, palavra que significa ourives, foi o vocábulo que deu origem à classificação deste estilo característico do Renascimento espanhol dos séculos XVI e XVII. El refinamiento decorativo de las obras era tal que no podría igualarla la maestría de um platero, terá escrito em 1539 Cristóbal de Villalón, a propósito da fachada da Universidade local. O substantivo adjectivou-se. E se o Renascimento, vindo de Itália, é um movimento europeu que varre a Europa da época, plateresco poderá ser bem um termo que "passa" melhor no clima repressivo da Contra-Reforma que se vive na Espanha de então.

Salamanca é um museu ao ar livre e está o visitante rotundamente enganado se pensa que já viu tudo, após ter passeado pelas ruas que ladeiam os edifícios universitários. Em primeiro lugar, porque a quantidade e proximidade dos monumentos baralham a sua identificação. Se é fácil nomear o Convento de San Esteban, mais difícil é descobrir o que é o quê quando se trata da Universidade, ou perceber, por exemplo, onde começa a Catedral Nova e termina a Velha, ou o inverso. Por outro lado, o lastro da História alarga-se, não se detendo neste "núcleo duro". Caminhando pelas ruas do comércio que saem da Plaza Mayor (onde se misturam lojas cosmopolitas com montras indiscutivelmente provincianas - El Corte Inglés não existe, escusa o leitor de perguntar), virando, de súbito, uma esquina, eís-nos numa outra praça qualquer (naturalmente, mais pequena), ou face a um palácio ou igreja que resistiram à passagem dos séculos.


Mandada construir em 1729, a Plaza Mayor de Salamanca é considerada uma das mais belas de Espanha. Ponto de encontro e de passagem obrigatória, é o coração e a alma da cidade.
Foi assim, por uma tarde de ruas desertas - tão desertas que acabei por recolher a um café, sentada a ler um livro aguardando que "eles" regressassem (de onde? eis um mistério que não alcancei decifrar) -, que "descobri" duas praças obrigatórias. A plaza onde se ergue a Casa-Museu de Unamuno e a chamada Casa de las Muertes, face ao convento franciscano de las Úrsulas, e a Plaza San Boal (a minha preferida, perdoem-me o subjectivismo), onde decorria, no belíssimo Palacio San Boal, Escuela de Bellas Artes de San Eloy, uma exposição dedicada aos Impressionistas Russos. Ali mesmo, a pedir-me que entrasse, a solução para os tempos mortos. Infelizmente, só reabria às dezoito. Não tive outro remédio se não voltar mais tarde. (Em frente, podem comprar-se bilhetes para os espectáculos Salamanca 2002, mas só a partir das 17h45m. E o preciosismo dos quarto de hora nunca deixará de me surpreender!).


 

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