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D
E S T A Q U E

Cidade
Europeia da Cultura 2002, Património Mundial da Humanidade
desde 1998, medieval, esotérica, moderna, noctívaga
e doutoral, fica já aqui ao lado.
Um
magnífico Balzac, esculpido por Rodin, ergue-se no centro
da Plaza Mayor. Ponto de encontro, e de passagem obrigatória,
nela palpita o coração de Salamanca. O hotel onde
acabamos de chegar, caída já a noite, fica a cinco
minutos da Praça. Já lá iremos.
A cidade é
pequena - cerca de 150 mil habitantes, num total aproximado de 40
mil alunos, hablando todas as línguas; existem 30 escolas
de espanhol para estrangeiros e o centro cultural nipónico
mais importante da Europa, a seguir ao de Paris, fica na Plaza San
Boal. Conhece-se a pé. O centro histórico agrega-se
em torno dos seculares edifícios da Universidade (onde já
não são dadas aulas, remetidas, entretanto, para um
campus), mas o rendilhado de pedra, que ganha um delicioso tom rosa
quando iluminado pelo sol, está presente um pouco por todo
o lado. Unamuno, que não nasceu aqui, embora se tenha identificado
até ao fim com Salamanca, falou de corales de oro que reverberan
al sol desnudo del invierno. Estava certo.

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Simbolo
de Salamanca 2002, inspirado no fresco de Fernando Gallego,
do século XV, conhecido por Cielo de Salamanca.
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Não foi
por esta ordem, mas a história exige-me ser contada. Preocupado
com a luz, o fotógrafo parte manhã cedo em busca de
um enquadramento preciso, enquanto eu desperto ainda frente a um
desolado café solo, rendida à impossibilidade de tomar
a única coisa que falta a Espanha para ser perfeita - uma
bica (o café expresso é uma falácia intraduzível).
Tendo parado o carro em local proibido, só para não
perder "aquele" ângulo, vê-se o transgressor
repentinamente abordado por um guarda-civil, que lhe pede os documentos.
O cenário da acção é a ponte romana
de Salamanca (fechada ao trânsito), ex-libris que está
ali desde os tempos imorredoiros do Imperador Trajano e que se encontra
agora, nesta manhã do século XXI, atravancada por
três possantes viaturas - uma do fotógrafo, duas da
polícia. À tentativa, bem portuguesa, de simular não
perceber o que se passa, o fotógrafo é surpreendido
com a única pergunta que nunca poderia ter previsto: "Por
que quer usted suicidar-se?". "Suicidar-me!?", exclama
em estado de choque, e pondo a hipótese de se tratar de uma
confusão linguística, o profissional da imagem. "Sim,
atirar-se ao Tormes con el coche" (nota: Tormes é o
nome do rio que banha Salamanca e vem desaguar ao Douro, e teria
de ser com el coche porque a distância à água
não garante sucesso em caso de desespero não motorizado).
Neste momento pícaro do diálogo (digno, precisamente
de Lazarilho de Tormes, personagem literária de livro homónimo
e que uma estátua evoca, bem por perto), começa a
esclarecer-se o equívoco. Uma cidadã local, igualmente
madrugadora, terá contactado as autoridades informando-as
de que estava em cima da ponte um homem com um carro, cujas manobras
- suspeitas -, a levavam a concluir tratar-se de um potencial suicida.
Respirando fundo ao aperceber-se que não iria ser multado,
o fotógrafo lá conseguiu "o boneco" e eu
arrependo-me mil vezes de ter trocado este episódio por um
café que, para mais, nem sequer era uma bica.
Em Volta da Plaza Mayor

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Namorando
sob o olhar de Francisco Vitoria, o pai do Direito Internacional,
no jardim da Plaza del Concilio de Trento, em frente
ao Convento de San Esteban..
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Voltando
à Plaza Mayor. Descobrimo-la na primeira noite, ao acaso das
ruas, à vista de uma das entradas que lhe dão acesso
(no total são 12). Havemos de atravessá-la vezes sem
conta, encontros marcados debaixo do relógio, como fazem os
salmantinos. Pelos terrenos que agora ocupa, passou em 1543 Filipe
II de Espanha, a caminho do seu casamento com D. Maria de Portugal,
muitas décadas antes da praça ter começado a
ser construída (1729). Conta a história que o casamento
teve lugar às três da madrugada, por ser inconveniente
que os futuros esposos prenoitassem debaixo do mesmo tecto (no Palacio
de los Solís, hoje ocupado pela Compañia Telefónica)
sem terem contraído matrimónio. Na manhã seguinte,
pelas sete, o rei terá vindo à janela "mostrando-se
bem disposto". Como se sabe, cerca de 60 anos depois, a manhã
do 1º de Dezembro não nasceria tão auspiciosa para
Filipe IV...
Entramos
no Café Novelty, debaixo das arcadas da Plaza. É tarde.
Esfomeados, salva-nos a peculiar relação com as horas
dos nossos vizinhos (não há globalização
que os faça desistir da siesta nem do pinchar - qualquer coisa
como petiscar - quando lhes dá la gana). Sentamo-nos e, a meu
lado, uma estátua de bronze ocupa um dos lugares da mesa contígua.
Não, não é Fernando Pessoa (e não, não
estamos na esplanada, até porque está um frio de rachar).
Trata-se do escritor Gonzalo Torrente Ballester que, como Miguel de
Unamuno, não nasceu em Salamanca, embora também ele
a tenha adoptado, e vice-versa. Morreu aqui em 1999 e, em 1987 fora
eleito doutor honoris causa pela primeira Universidade da Península
e uma das primeiras da Europa.
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Lazarillho
de Tormes, personagem e título de romance pícaro.
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Ceamos
ao lado do autor de XXXXXXX, cliente habitual do café mais
antigo da cidade (data de 1905), e, perdidos depois pelas calles estreitas,
o som quente de um piano conduz-nos até ao El Capitán
Haddock, onde gente menos jovem dá lições de
tango a frequentadores mais novos. O ambiente sempre descontraído
que se vive em Espanha (não consta que os nossos hermanos alguma
vez tenham deixado à porta o De Niro por o terem confundido
com "um esperto que tem a mania que é parecido com o De
Niro", como já aconteceu em Lisboa...) faz-nos esquecer
o cansaço. E até o fotógrafo, que não
dança, arrisca uns passos de bossa-nova ao som de Tom Jobim.
Acabámos de chegar e são demasiadas emoções
em poucas horas. Amanhã, aguarda-nos uma visita ao centro histórico,
guiados por Carmen García. Está na hora de redescobrir
o caminho do hotel.
Um Rendilhado de Delicada Pedra
As
cidades não são todas iguais. Visitam-se pela arquitectura,
em algumas dominam a localização e belezas naturais,
outras tornam-se irresistíveis pelos espectáculos ou
animação que oferecem; a outras, ainda, basta-lhes as
memórias que despertam em cada um de nós. Em Salamanca
é a História quem marca pontos.
A passagem do tempo inscreve-se e funde-se nesta pedra arrosada, chamada
de Villamayor (nome da vila de onde provém), e o habitual peso
da monumentalidade castelhana aligeira-se graças a esta cor
particularmente adequada ao chamado "plateresco" dominante.
Platero, palavra que significa ourives, foi o vocábulo que
deu origem à classificação deste estilo característico
do Renascimento espanhol dos séculos XVI e XVII. El refinamiento
decorativo de las obras era tal que no podría igualarla la
maestría de um platero, terá escrito em 1539 Cristóbal
de Villalón, a propósito da fachada da Universidade
local. O substantivo adjectivou-se. E se o Renascimento, vindo de
Itália, é um movimento europeu que varre a Europa da
época, plateresco poderá ser bem um termo que "passa"
melhor no clima repressivo da Contra-Reforma que se vive na Espanha
de então.
Salamanca
é um museu ao ar livre e está o visitante rotundamente
enganado se pensa que já viu tudo, após ter passeado
pelas ruas que ladeiam os edifícios universitários.
Em primeiro lugar, porque a quantidade e proximidade dos monumentos
baralham a sua identificação. Se é fácil
nomear o Convento de San Esteban, mais difícil é descobrir
o que é o quê quando se trata da Universidade, ou perceber,
por exemplo, onde começa a Catedral Nova e termina a Velha,
ou o inverso. Por outro lado, o lastro da História alarga-se,
não se detendo neste "núcleo duro". Caminhando
pelas ruas do comércio que saem da Plaza Mayor (onde se misturam
lojas cosmopolitas com montras indiscutivelmente provincianas - El
Corte Inglés não existe, escusa o leitor de perguntar),
virando, de súbito, uma esquina, eís-nos numa outra
praça qualquer (naturalmente, mais pequena), ou face a um palácio
ou igreja que resistiram à passagem dos séculos.

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Mandada
construir em 1729, a Plaza Mayor de Salamanca é
considerada uma das mais belas de Espanha. Ponto de
encontro e de passagem obrigatória, é
o coração e a alma da cidade.
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Foi
assim, por uma tarde de ruas desertas - tão desertas que acabei
por recolher a um café, sentada a ler um livro aguardando que
"eles" regressassem (de onde? eis um mistério que
não alcancei decifrar) -, que "descobri" duas praças
obrigatórias. A plaza onde se ergue a Casa-Museu de Unamuno
e a chamada Casa de las Muertes, face ao convento franciscano de las
Úrsulas, e a Plaza San Boal (a minha preferida, perdoem-me
o subjectivismo), onde decorria, no belíssimo Palacio San Boal,
Escuela de Bellas Artes de San Eloy, uma exposição dedicada
aos Impressionistas Russos. Ali mesmo, a pedir-me que entrasse, a
solução para os tempos mortos. Infelizmente, só
reabria às dezoito. Não tive outro remédio se
não voltar mais tarde. (Em frente, podem comprar-se bilhetes
para os espectáculos Salamanca 2002, mas só a partir
das 17h45m. E o preciosismo dos quarto de hora nunca deixará
de me surpreender!).
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