Estátua
de Frei Luis de Léon no pátio das Escuelas
Mayores
A
tarde não foi, contudo, dada por perdida. Dedicada ao estudo
(como convém em cidade universitária), assim fiquei
a saber o que passo, resumidamente, a partilhar:
Salamanca parece ter origem celta e nos primeiros documentos escritos
onde surge referida ("assinados" pelos historiadores gregos
Políbio e Plutarco, ou por Tito Lívio), fala-se indiscriminadamente
de Helmantik, Hermándica ou Salmántica. Sob domínio
Romano, Visigodo, em 589 estava cristianizada. Em 712 rende-se aos
Muçulmanos. Entre 715 e até finais do século
XI foi uma ciudad abierta, pelos piores motivos. Ninguém queria
nela estabelecer-se, certo de que seria saqueado, ora por mouros,
ora por cristãos. Zona de fronteira, no seu posterior repovoamento
participaram muitas famílias de origem portuguesa.
Possuí 2 catedrais, 23 igrejas, 5 conventos, 12 casas monumentais,
5 "colégios" universitários históricos
e 9 palácios ou edifícios apalaçados.
Durante a Guerra de la Independencia, que para nós corresponde
ao período das Invasões Francesas, Salmanca viu desaparecer
um terço dos seus monumentos - 27 edifícios públicos
e mais de um milhar de casas.
Oferece, em matéria de alojamento, 1 parador, 7 hotéis
de ****, 6 de ***, 11 de **, 7 de *, 32 hostales, 25 pensões,
1 albergue de juventude, 2 parques de campismo. Para comer e beber,
dispõe (o que uma pessoa aprende!) de 1652 cafés, bares
e restaurantes.
O nosso Guerra Junqueiro escreveu, a propósito: "Feliz
aquele que vive numa cidade por cujas ruas se pode sonhar sem medo
que nos interrompam o sonho."
Entrada
do Palácio de Congressos e Exposiciones.
O
único rei que nasceu em Salamanca, Alfonso XI (1311-1350) era
filho de Fernando IV e Constança de Portugal, tendo-se casado
com Maria de Portugal, rainha que reintroduziu o costume, entretanto
caído em desuso, de mandar açoitar as concubinas dos
clérigos salmantinos.
Entre 1497 e 1618, os bordéis estiveram legalizados e situavam-se
do lado de lá do rio. A profissão era proibida a mulheres
casadas, mulatas e àquelas cujo pai vivesse na cidade. Com
visita médica semanal, tinham horário de funcionamento
pré-estabelecido, padre confessor (Padre de Mancebía
ou Padre Putas), e ficaram famosas as disposições régias
de Filipe II, em 1570, a seu respeito: En días de fiesta, cuaresma,
cuatro témporas y vigilias, nos estén las dichas mujeres
ganando. A actual festa "Lunes de Aguas", na Páscoa,
tem origem no regresso à cidade das prostitutas, que eram trazidas
então de volta, depois do período proibido, em barcas
conduzidas por estudantes.
A tradição esotérica é muita antiga. Está
ligada a cultos pagãos e rituais mágicos pré-cristãos.
Pensa-se que a Cueva de Salamanca estaria edificada sobre um cemitério
celta, na colina de San Isidro. No local, os cristãos ergueram
um templo em honra de São Cipriano e o acesso à Cueva
fazia-se por uma escada de 25 degraus. Escola de saberes mágicos
e proibidos, nela se reuniriam alunos insatisfeitos com o conhecimento
"oficial" ministrado pela Universidade. A demolição
do templo teve início no século XV e no século
XVI as suas pedras foram usadas na construção da Catedral
Nova. Isabel, a Católica, mandou "selar" a cueva
para evitar a atracção que continuava a exercer. Ainda
hoje, na América Latina e nas Filipinas, a palavra salamanca
significa o local onde as bruxas se reúnem ou, simplesmente,
bruxaria.
Estátua
da Exposição dedicada a Rodin, no claustro
das Escuelas Menores, até 31 de Março.
Frei
Luis de Léon, agostino de origem judaica, formado em Salamanca,
foi professor de Teologia na Universidade entre 1561 e 1572. Encarcerado
pela Inquisição, acusado de ter traduzido o Cântico
dos Cânticos, foi libertado ao fim de cinco anos. Regressou
à cátedra iniciando a aula com as palavras que ficariam
célebres: Decíamos ayer... e continuou a exposição
no ponto em que tinha sido interrompido aquando da detenção.
Tem estátua no pátio das Escuelas Mayores e os seus
restos mortais repousam na capela universitária.
Nascido em Bilbao, Miguel de Unamuno chegou a Salamanca em 1891 para
ocupar a cadeira de grego da Universidade. Ficou durante 40 anos,
tendo sido vice-reitor e reitor da mesma. Nos primórdios da
Guerra Civil, apoiou inicialmente a revolta dos militares de 36. Depois
de ter assistido aos 503 fuzilamentos de opositores ao franquismo
que tiveram lugar em Salamanca, remeteu-se ao silêncio. No entanto,
na sessão da Universidade de 12 de Outubro de 1936, ao escutar
os discursos dos catedráticos presentes, pediu a palavra para
relembrar que vencer no es convencer. Interrompido pelos gritos de
Viva la muerte! Muera la inteligencia!, Unamuno insistiu, indignado,
com as palavras que ficaram registadas: Venceréis, pero no
convenceréis. Poucos dias depois foi demitido dos cargos de
concelheiro do Ayuntamiento e de reitor. Morreu a 31 de Dezembro do
mesmo ano. Na fachada da sua Casa-Museu está inscrita a máxima
Antes justicia que paz.
O termo guiri, que serve ainda hoje para designar os estrangeiros,
tem origem na palavra Guirigay, que era a "língua"
que se dizia falarem os estudantes que chegavam à Universidade
e tentavam hablar castelhano (nós, por exemplo, somos guiri).
Catedral
Nova a penúltima catedral gótica de Espanha.
Todos
os anos, a 31 de Outubro, véspera de Todos-os-Santos, sobe
à Torre do Galo da Catedral Velha um mariquelo para fazer tocar
o sino que se encontra na cúpula (não há outra
forma). Tal pessoa tem o nome de mariquelo porque, tradicionalmente,
era a família conhecida por Los Mariquelos que executava a
"escalada" (interdida a quem sofra de vertigens). Assim
se festeja o facto da torre da Catedral ter sobrevivido ao Terramoto
de Lisboa de 1755, que se fez sentir na cidade mas sem provocar vítimas
mortais.
A célebre rã de Salamanca é um baixo relevo da
fachada da Universidade, está pousada sobre um crâneo
e, segundo a tradição, garante ao estudante que a descobrir,
no meio do delírio exposto na pedra, boa sorte nos estudos
e bom casamento.
O Cielo de Salamanca é um fresco do século XV, pintado
por Fernando Gallego entre 1485 e1490, que ocupava originalmente os
400m2 da abóboda da antiga Biblioteca Universitária.
Actualmente, parte da obra pode ser apreciada nas Escuelas Menores,
no Museu Universitário. Serviu de inspiração
ao símbolo de Salamanca 2002.
Etc., etc., etc....
...Entretanto, os salmantinos voltaram a aparecer.
Onde Muito se Namora...
Roberto é um brasileiro que trabalha no Medievo. Descubro-lhe
a nacionalidade por trás de um espanhol demasiado doce. Veio
para Salamanca estudar mas uma novia local mantém-o nas noites
salmantinas, onde é conhecido, simplesmente, pelo Brasileiro.
E é à porta do Medievo que o encontramos pela primeira
vez, o fotógrafo e eu, ambos artilhados de máquinas
e tripés. Mostrar-se-á um bom cicerone das andanças
noctívagas. Carlos é um espanhol que de Portugal só
conhece o Algarve, onde joga golfe. Dirige o CVM LAVDE, outra referência
das noites, e também ele tem uma amiga estrangeira que para
cá veio por três meses e já há sete anos
que adia o regresso.
Pousada
de Las Almas, uma decoração barroca e
gente divertida.
Esta
é uma cidade de estudantes. A Universidade, que pelo menos
até à chegada ao poder dos Reis Católicos, foi
uma das mais liberais da Europa (pioneira nas aulas de anatomia, precursora
do Direito Internacional, pela pena de Francisco de Vitoria, o primeiro
pensador a referir-se aos direitos humanos das populações
índias que os Espanhóis haviam encontrado do outro lado
do Atlântico, a primeira com cátedra de música,
a ter aulas sem ser em latim e a abrir biblioteca pública...),
continua a marcar Salamanca. Quase tanto como as incontáveis
igrejas, templos e conventos que se mantêm no activo. Aquí
o vas a misa o de tapas, cita o repórter Igor Reyes-Ortiz,
em artigo publicado no jornal El Pais.
Sábado à tarde (depois da siesta, escusado será
dizer), na Rua Mayor (assim mesmo), a multidão é uma
onda gigante que avança apesar do frio. Se não conhecessemos
os hábitos dos nossos vizinhos, poderíamos até
imaginar que algo extraordinário estava para acontecer. Mas
não se passa nada... Passeiam-se, apenas. E namoram. Imenso.
Em todas as línguas.
Um japonês emite uns sons divertidos que, com mais atenção,
percebemos ser espanhol. Um grupo de inglesas pratica com dois autóctones
que parecem levar muito a sério a tarefa. Uma alemã
telefona para casa. Uma rapariga espanhola, de ar tímido, traduz
para a língua de Cervantes os termos italianos que o rapaz
com quem conversa mistura nas frases. Não são namorados,
mas aposto que apenas por que nenhum deles ousou ainda conjugar o
verbo decisivo. Enquanto me passeio, também eu, em busca de
um livro que quero oferecer e que só encontrarei ao fim de
três horas de teimosa busca (as duas melhores livrarias - Cervantes
e Hydria - estão fechadas sábado à tarde), sorrio
à passagem dos jovens estudantes (apesar de já me doerem
as pernas, confesso) e não posso deixar de pensar: "O
que será isto na Primavera!!!" Uma revoada compacta de
andorinhas, sobre o Colegio Mayor de Anaya, cujo piar ensurdecedor
se confunde com o repercutir dos sinos da Catedral, escurece por momentos
os céus. Seria uma resposta? E foi então que encontrei
a Livraria Plaza Universitária ao virar da esquina. Ali à
minha espera.
A famosa Movida Aos
locais chamavam-lhes os Andaluces de Castilla, e é verdade
que, pelo menos a partir de quinta, as ruas se apinham de gente. Na
Plaza Mayor, o vai-vem é tão intenso como o que se vive
de dia. À sua volta, pela Gan Vía ou, mais recentemente,
na zona da calle Van Dick, as portas estão abertas até
de madrugada, e centenas, milhares de jovens (e alguns menos jovens,
caramba!) saltitam de bar em bar, de discoteca em discoteca. Há
para todos os géneros. No El Savor tropeço nos versos
do poeta cantante Joaquín Sabina: bailar es soñar com
los pies. E, na verdade, muito se baila por aqui, ao som de ritmos
latinos, temperados pelo melhor daiquiri que alguma vez provei, feito
por Legé, um venezuelano de simpatia transbordante que nos
acolhe como se fôssemos clientes habituais. Na Pousada de las
Almas, uma decoração barroca recebe gente divertida
e bem disposta, conseguindo até contagiar o fotógrafo
que, como já foi dito, não dança.
O primor e imaginação postos na decoração
são, aliás, um dos must dos lugares da noite salmantina.
O Laval Genovés recria um submarino (sem que, por isso, nos
provoque qualquer claustrofobia), o Camelot revive atmosfera medieval,
o Medievo, aspas, aspas, no CVM LAVDE simula-se a Plaza Mayor e nos
seus medalhões característicos retratam-se agora vedetas
rock em substituição dos notáveis originais...
(O que fica escrito é só uma amostra das imensas possibilidades.
Caberá ao leitor descobrir o resto, se para tal tiver resistência,
paciência e pernas.)
O arrastar melancólico do carro que aspira os despojos da noite
ressoa pela Plaza Mayor. Passos menos seguros afastam-se no silêncio
das ruas. Ouve-se uma ou outra gargalhada. As paredes em pedra dos
edifícios lembram sentinelas eternas, protectoras. O meu reino
por uma cama!, exclamamos à vista do hotel.
É chegado o momento do regresso. Na véspera, o fotógrafo
não saiu à noite. É ele quem conduz até
Lisboa. O vento que se levantara no dia anterior trouxe chuva. Uma
chuva muito fria que nuvens cinzentas derramam agora sobre a cidade,
obscurecendo o seu tom de ouro evocado por Unamuno. Partimos, agradecendo
ao céu de Salamanca o magnífico azul dos dias anteriores.
A ponte romana fica para trás.