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    XL > Rotas & Destinos > Lisboa a bordo do "28"
L U G A R E S  C O M  H I S T Ó R I A


Março de 2003
Um dos ícones da Carris, o eléctrico 28, atravessa Lisboa desde os Prazeres até à Graça. É um longo passeio pelas colinas e ruas estreitas da cidade ao som do tilintar da campainha

texto de Nysse Arruda
fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   

É no Largo da Graça que, a bordo do eléctrico 28, iniciamos um passeio por Lisboa e sua história. Aí, algumas residências apalaçadas e casas burguesas marcam o cenário, que tem a igreja e o convento de Santo André e Santa Marinha, com a sua Torre do Relógio, como referência principal de um bairro outrora aristocrático.


Basílica da Estrela, com formas herdadas do Convento de Mafra

Na sua rotina diária, o "28" arranca e faz rumo pela rua Voz do Operário, passando por alguns prédios burgueses dos finais de Oitocentos. Nas imediações, divisam-se antigos palácios e a Igreja de São Vicente de Fora, cuja construção foi iniciada em 1147, por D. Afonso Henriques, e se prolongou até o século XVIII, quando foram acrescentados os azulejos inspirados nas fábulas de La Fontaine. A completar o conjunto monumental, "ex-libris" da cidade, estão o mosteiro, que foi residência do cardeal-patriarca até 1910, e o Panteão dos reis da dinastia de Bragança, na barroca Igreja de Santa Engrácia, com as dezenas de sarcófagos reais, incluindo o dos últimos monarcas portugueses, D. Carlos e o príncipe D. Luís Filipe.


A calçada portuguesa

Num contraponto ao peso da história, ali mesmo no Campo das Cebolas, a conhecida Feira da Ladra reúne o artesanato e as velharias, um mercado e vendedores de roupas que, às terças e aos sábados, ocupam o local com grande alarido.

Segue-se, depois, pela Calçada de S. Vicente e por um emaranhado de ruas estreitas, num malabarismo inacreditável, passando rente às portas e janelas do casario, com o condutor a tilintar a campainha a avisar algum motorista

Largo de Camões
distraído que venha em sentido contrário. À saída desse labirinto urbano, surge na ribalta o Tejo, avistado do largo das Portas do Sol, onde a Lisboa romana floresceu. A vista no Miradouro de Santa Luzia estende-se sobre os telhados do bairro de Alfama - com suas ruelas e becos, restaurantes e casas de fado - e alcança as águas do rio num enquadramento espectacular pontuado pelo casario da Graça, o Monte da Graça e o Castelo de São Jorge.

Uma esplanada convida à contemplação e, do outro lado da rua, está o Palácio Azurara, sede da Fundação Espírito Santo que abriga um museu e uma escola de artes tradicionais portuguesas. Segue a inclinada Travessa de Santa Luzia, com lojas de artesanato e antiguidades.


O eléctrico 28 nas ruas do bairro da Graça

A rota alcança então a Sé Catedral de Lisboa, o marco da fundação da cidade após a tomada aos mouros. Mandado construir por D. Afonso Henriques, no século XII, o monumento é imponente, com suas torres e a fachada em estilo românico. O interior revela uma planta em cruz latina, com 60 metros de comprimento e 22 de largura, quase uma centena de arcos românicos, rica sacristia e capelas com traços góticos, além de elaboradas talhas, pinturas e antigas arcas tumulares.


Assembleia da República

Logo a seguir, avista-se a igreja pombalina de Santo António da Sé, consagrada ao santo lisboeta que ali terá nascido nos finais do século XII, como assinala uma lápide na cripta do edifício. É no pequeno largo fronteiriço, decorado com a estátua do santo padroeiro da cidade, que se iniciam os cortejos populares de 13 de Junho, seguindo pelas ruas de Alfama.


Miradouro da Graça
O "28" continua o seu caminho atravessando a Baixa Pombalina, o mais emblemático traçado urbano da capital, delineado após o terramoto de 1755 pelo Marquês de Pombal e sua equipa de engenheiros. Num relance, é possível ver da janela do eléctrico o perfil do Arco da Rua Augusta que se abre para a Praça do Comércio, com sua renovada arcaria pombalina e o rio Tejo.

A subir e a descer as colinas


O eléctrico 28 na sua travessia por Lisboa, dos Prazeres à Graça, passando pela Sé
Tomando novo fôlego, o "28" começa a galgar mais uma colina, passando defronte de imponentes palacetes, rumo ao renovado e elegante bairro do Chiado. Ali ao pé está "A Brasileira", um dos cafés mais emblemáticos de Lisboa, com o poeta Fernando Pessoa à porta. Numa das travessas laterais, está a Ópera S. Carlos, inaugurada em 1793, e na Rua Serpa Pinto fica o Museu do Chiado, sediado no antigo Convento de São Francisco, com sua colecção de pintura e escultura portuguesas. A Igreja de Nossa Sra. do Loreto, datando do século XVI, e a Igreja Nossa Sra. da Encarnação, inaugurada em 1708, perfilam-se a guardar o bairro do Chiado. E no Largo de Camões a estátua do poeta maior da língua portuguesa domina o cenário que assinala a entrada para o Bairro Alto, a meca da vida nocturna lisboeta. O percurso continua pela Rua do Loreto, o largo do Calhariz e a Calçada do Combro, cujas transversais abrem caminho para o Mirante de Santa Catarina, com outra panorâmica do rio Tejo, e o pitoresco Elevador da Bica, que sobe e desce pela estreita fenda aberta por outro terramoto, que sacudiu a cidade em 1597. Palácios e igrejas continuam a pontuar o caminho pela Calçada do Combro, especialmente o ex-palácio oitocentista dos Duques de Palmela, hoje sede de uma instituição financeira, e o Palácio Teles da Silva, ou Palácio do Correio Velho, que abriga uma casa de leilões. A igreja paroquial de Santa Catarina, ou Igreja dos Paulistas, ergue-se majestosa em balaústres e torres desde o século XVII.


Miradouro de Santa Luzia e das Portas do Sol, com vista para a Igreja de São Vicente de Fora e o Panteãol
O caminho, de súbito, estreita-se e o "28" atravessa uma zona modesta, com casas e comércio populares, para então alcançar o cimo da rua de São Bento e descortinar o soberbo edifício da Assembleia da República, antigo convento beneditino no século XVI, ex-Torre do Tombo no século XVIII e hoje Património Nacional e sede do Parlamento português. A encosta que marca a Calçada da Estrela é íngreme, mas o eléctrico segue impávido até ao Largo da Estrela, onde estão a Basílica do Sagrado Coração de Jesus, ou Basílica da Estrela, obra erguida no século XVIII, e o Jardim da Estrela, em estilo romântico com o seu coreto central, alamedas, esculturas e lagos.


Casas de Alfama

Segue-se então o trajecto final do "28", passando pelas ruas elegantes do bairro de Campo de Ourique, recheadas de edifícios do início do século, lojas e pastelarias, dentre elas o "Canas", cervejaria de renome no bairro. O eléctrico percorre a Rua Saraiva de Carvalho até fazer uma paragem defronte da Igreja do Santo Condestável, um monumento de meados do século XX.

Aproxima-se a paragem final, mesmo em frente ao cemitério dos Prazeres, uma antiga quinta onde existe uma fonte quinhentista, dita "fonte santa" devido à aparição da Virgem. Local de peregrinação e festas populares até finais do século XIX, o local foi adquirido pelo Estado e transformado em cemitério em 1840, com urnas, pirâmides e capelas decoradas com os brasões da nobreza portuguesa.


Clique aqui para visualizar a rota do "28"

Eléctrico

Um clássico lisboeta

O eléctrico 28 que actualmente cobre o extenso percurso desde os Prazeres até à Graça (e ao Martim Moniz no seu itinerário mais longo) é o mais emblemático exemplar da rede de eléctricos da Carris em Lisboa. Desde a inauguração da linha em 1914, restrita a um trecho entre a Praça de Camões e a Estrela, que a sua rota já incluía algumas das mais belas passagens da cidade.

Ao longo das primeiras décadas do século passado, o "28" foi ampliando o seu trajecto pelas colinas de Lisboa, primeiro através de um prolongamento até à Estrela, em 1928, quando passou a ser conhecido com o nome de linha 28 Rossio-Estrela, e quatro anos mais tarde com a inclusão de mais um trecho até os Prazeres. Onze anos depois, surgia uma linha adicional, a 28 A, desde a Rua da Conceição até os Prazeres. É somente em 1973 que o Eléctrico 28 passa a cumprir o extenso percurso até a Graça, tornando-se um dos "ex-libris" da capital e atraindo um crescente número de turistas encantados pela habilidades dos condutores através das curvas apertadas e das ruas estreitas do bairro.

Em 1984, o trajecto é mais um vez aumentado, desde a Graça ao Martim Moniz, devido à eliminação de outras linhas e ao reforço do serviço com a linha 28 B, que fazia a rota Martim Moniz-Rua da Conceição, que mais tarde foi também prolongada até à Estrela. Cinco anos mais tarde é inaugurada a raquete na Praça de Camões, um tipo de términos circular onde o eléctrico não necessita de executar a manobra de inversão de
marcha, que também viria a ser instalada na Estrela e nos Prazeres, na Praça S. João Bosco.

Assim, os típicos carros bidirecionais da série "700", com potência de 90 cavalos (dois motores de 45 cavalos), travões manuais a ar comprimido, electromagnético e electropneumático, fabricados por Leito Maley & Taunton, continuam a circular pelas colinas de Lisboa, com a inconfundível pintura amarela e o constante tilintar da campainha.

Um verdadeiro eléctrico do desejo, o "28", mais do que um simples meio de transporte, é uma forma original de passear por Lisboa e conhecer a sua história. Até para quem aqui vive.

Informações úteis

Transporte
O eléctrico 28 realiza o percurso Campo de Ourique/Prazeres - Martim Moniz e em alguns horários apenas entre a Graça e os Prazeres (o itinerário de maior interesse e beleza), em intervalos de aproximadamente 15 minutos. Um bilhete normal da Carris custa € 1; Para quem pretende entrar e sair várias vezes do eléctrico é conveniente comprar um bilhete de um dia, que custa
€ 2,75. Fora das carreiras regulares, a Carris oferece ainda dois serviços de "Eléctricos de Turismo" através das zonas históricas da cidade (Alfama, Graça, Baixa, Estrela, Sétima Colina, Belém) em eléctricos do século XIX restaurados. São circuitos de 1h30 por bairros tradicionais, com início na Praça do Comércio, num eléctrico do início do século e com uma guia intérprete a acompanhá-lo. Preços: €16 (adulto); €8 (crianças 4-10 anos). Para mais informações contacte a Carris pelo telefone 21 361 3054/39 ou consulte o site: www.carris.pt

A visitar
Entre os vários monumentos/atracções emblemáticas de Lisboa que pode visitar quando realizar um percurso a bordo do eléctrico 28 destacam-se: o Panteão Nacional (Campo de Santa Clara, Tel. 21 885 48 20. Aberto de terça a domingo, das 10 às 17h); a Igreja e Mosteiro de São Vicente de Fora (Largo de São Vicente, Tel. 21 882 44 00. Aberto de terça a sexta, das 9 às 18h; sábado, das 9 às 19h; e domingo, das 9 às 12h30 e das 15 às 17h); a Feira da Ladra, no Campo das Cebolas, realiza-se todas as terças e sábados); a Sé Catedral de Lisboa (Largo da Sé, Tel.: 21 886 67 52. Aberta aos domingos, segundas e feriados das 9 às 17h; De terça a sábado, das 9 às 19h); e a Basílica da Estrela (Largo da Estrela, Tel.: 21 396 09 15; Aberta todos os dias das 8 às 13h e das 15 às 20h). A não perder também o Miradouro de Santa Luzia (Largo de Santa Luzia/Rua do Limoeiro), o Miradouro de Santa Catarina (Rua de Santa Catarina ao Calhariz) e o Jardim da Estrela. Destaque ainda para a visita à Fundação Ricardo Espírito Santo (Largo das Portas do Sol, 2, Tel: 21 888 19 91; Aberto de terça a domingo das 10h00 às 17h00. Entrada: € 5. Visitas guiadas por marcação) e ao Museu do Chiado (Rua Serpa Pinto, 4-6, Tel: 21 301 16 75. Aberto de quarta a domingo, das 10 às 18h; terça, das 14 às 18h. Entrada: € 3

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