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    XL >   Rotas & Destinos > Namíbia
E S P E C I A I S

Março de 2004
Uma expedição pela Namíbia, o país encaixado entre Angola
e a África do Sul que é conhecido pelos seus belos parques naturais
e por paisagens tão inóspitas quanto inesquecíveis


Texto e fotos de António Sá
   

Todos nós, de uma forma ou de outra, alimentamos desde pequenos um imaginário intimamente ligado a África. Seja pelas lendárias aventuras de John Weissmüller, na pele do famoso Tarzan, pelos recorrentes documentários sobre a vida selvagem ou, mais recentemente, graças aos bonecos animados do Rei Leão, qualquer criança fixará mais cedo do que tarde nomes como zebra, girafa, hipopótamo, elefante e tantos outros animais desse mítico continente, berço de todos os mistérios, incluindo o da origem da nossa própria espécie.

Jan Grobler, o guia,
no deserto do Namibe

O mais próximo que estive desse sonho eternamente adiado foi em 1994, quando comecei a desenhar uma viagem ao Botswana com uma pequena incursão no então recém-fundado e desconhecido país que dava pelo nome de Namíbia. Depois, não sei bem porquê, engavetei novamente o mapa e acabei noutros destinos.

Agora que me encontro deitado nas dunas do Namibe, fitando um céu austral com mais estrelas do que grãos de areia, pergunto-me: como foi possível esperar tanto tempo? É que a realidade supera de longe toda a metragem de filmes, séries e documentários que alguma vez possamos ter visto. E apenas estou no início de uma longa viagem.

A aventura começa
Havia um dia que tinha deixado a capital, Windhoek (que se lê “vinduk”), com o seu asfalto, os seus edifícios altos, toda uma variedade de gentes e demais sinais de civilização, e acabara de alcançar um planalto inóspito de areias avermelhadas. De repente, esse mundo pareceu-me tão distante quanto Marte ainda se oferece aos olhos de um potencial astronauta terreno.


lodge Twyfelfontein
No vale abaixo não era altura de correr o Kuiseb, um desses rios efémeros comuns nestas paragens, onde a chuva cai raramente mas sempre de uma só vez. Os sinais das esporádicas e violentas torrentes são bem visíveis pelo caos de ramos e troncos secos que se amontoam em barricadas intransponíveis e na areia finíssima que constitui o leito, agora seco. As margens são, no entanto, surpreendentemente verdes, graças às árvores ripícolas cujas raízes se vão abastecendo no subsolo. São poucos os humanos que se aguentam por aqui.

Alguns membros do povo Topnaar estabeleceram-se em pequenas comunidades ao longo do vale e vão vivendo das cabras, de um fruto verde e espinhoso, tão apreciado quanto disputado, chamado !nara (as palavras locais iniciadas por um ponto de exclamação pronunciam-se com um estalido da língua) e, tal como as árvores, dos aquíferos que se escondem uns metros abaixo da superfície poeirenta.

Quanto aos animais selvagens, também não têm a tarefa facilitada, embora o Namibe – um dos desertos mais antigos do planeta – lhes tenha concedido tempo de sobra para adaptar o organismo às árduas circunstâncias: há toupeiras douradas que se mantêm enterradas durante o pino do sol, coelhos e raposas de orelhas sobredimensionadas para dissipar o calor, e até escaravelhos que descobriram nas encostas arenosas a melhor forma de saciar a sede: deixar a gravidade fazer escorrer para a boca o nevoeiro matinal lentamente condensado nas diminutas carapaças. Engenhoso, não?
Crepúsculo em Otjovasandu

Sinto-me, pois, um felizardo, dadas as limitações morfológicas da nossa espécie, completamente inadaptada às zonas mais remotas deste mar de areia.
É um luxo poder contemplar o magnífico cenário
de montanhas douradas e ondulantes que se
estende a perder de vista até tocar outro mar, o de sal
e água, ainda mais imenso. Vale-nos o engenho tecnológico dos todo-o-terreno para galgar quilómetros
e quilómetros de dunas – 80 em cerca de nove horas – em constantes ziguezagues, sobe-e-desce e, não
poucas vezes, exasperantes “quase sobe” ou nervosos “será que desce?”. Caprichos próprios de um deserto naturalmente instável, onde cristas em gume, pendentes abruptas e areias ilusórias ao primeiro olhar, são apenas algumas das armadilhas que insistem em recordar-nos a real dimensão da pequenez humana.

No deserto do Namibe
Seja como for aqui estou, como dizia, deitado nas dunas do Namibe. O crepitar do fogo e um ligeiro arrepio resgatam-me subitamente desta deambulação mental pelo dia que passou. Faz frio. Quando olho à volta nem acredito que tenhamos descido esta enorme parede de areia ao volante de um veículo; é uma duna gigante com um desnível de cerca de 50 metros e uma inclinação que nos transformou de repente nos mais ousados duplos de Hollywood. Os crentes terão rezado, imagino. Não é das mais altas deste deserto; esse título está reservado às que se situam na região de Sossusvlei que, com mais de duas centenas de metros de altura e outro tanto em quilómetros para Sudoeste deste ponto, se encontram demasiado afastadas dos nossos objectivos.
Criança da tribo Himba

O acampamento só foi montado quando o vento amainou. Até lá dispusemos as seis viaturas em “U” para nos defendermos da areia como o faziam as caravanas dos pioneiros do Oeste americano perante um ataque índio; os grãos de areia são as flechas das nossas preocupações: beliscam-nos violentamente a pele e entranham-se em tudo o que é possível, sobretudo no equipamento fotográfico. Mesmo assim, arriscámos uma subida a pé até uma crista visivelmente em trânsito para outro sítio qualquer, tal era a força do vento. Mas isso foi há umas horas. O que importa é que o nosso braai (grelhado de carnes tradicional) está quase pronto.

Os cinco guias que nos acompanham, mais do que experientes condutores de areia, são incansáveis nos detalhes da expedição, incluindo a preparação das refeições. Quatro deles trabalham para a Uri Adventures e “apenas” são responsáveis por nos fazer atravessar o deserto e todos os seus obstáculos com perícia, conforto, segurança e, diga-se, divertimento.

Girafas no Parque Etosha
O quinto, da Calabash Safaris, é para nós o primeiro. Incumbido de nos guiar durante toda a estada no país, Jan Grobler é um antigo park ranger de origem sul-africana com anos de experiência nestes terrenos impiedosos – um homem que inspira confiança e transpira um profissionalismo irrepreensível. E com sentido de humor. Quando, mais uma vez, uma das nossas pick-up não consegue transpor uma duna teimosa, ele desata a correr lá do alto

Colónia de leões marinhos
de Cape Cross
até cá abaixo, irrompe com a sua cara
vermelha
do sol pela janela aberta do condutor e encoraja toda a tripulação num tom tão ofegante quanto hilariante: “Ok, a ideia vocês já perceberam.” Pelo menos vista do banco de trás, a cena parece tirada de um filme dos Monty Python. Mas que posso eu dizer, que enverguei uns ridículos óculos de natação em pleno deserto, sem que algum dos meus companheiros de viagem pudesse imaginar antecipadamente tratar-se de uma tentativa séria para proteger as lentes de contacto?

Deserto do Namibe,
região de Gobabed

O dia amanhece com o habitual nevoeiro, característico desta costa desértica. Não estamos longe do mar e na base da duna onde acampámos pode mesmo ouvir-se o ribombar distante das vagas. Antes de lá chegarmos, porém, temos de superar aquilo que os guias insistem em designar desde ontem como “o melhor está para vir”. Trata-se de um amplo e profundo buraco

Zona desértica na cratera de Doros
aparentemente sem saída possível, apelidado de forma objectiva – e preocupante – como “cemitério dos Land-Rover”. “Felizmente, estamos de Toyota” – alguém desdramatiza enquanto Fanus, o responsável da Uri, se abeira da cratera para nos dar a chave segura do derradeiro desafio. Momentos mais tarde já refrescávamos com alívio as faces queimadas numa familiar brisa atlântica. O cheiro a maresia é igualzinho ao de boa parte da nossa costa e depois da vastidão árida que deixámos para atrás quase apetece gritar de alívio, ao contrário do que é habitual: “Mar à vista!”

Para Sul vislumbra-se Sandwich Harbour, uma enseada natural em tempos utilizada como ancoradouro de baleeiros; para Norte, as primeiras casas de cor pastel, características da cidade e do importante porto comercial de Walvis Bay, que atingimos ao fim de uns 40 quilómetros pela própria praia.

O Parque Nacional Etosha é um autêntico símbolo de uma política conservacionista
de vanguarda, a jóia das áreas protegidas da Namíbia e o local onde se torna mais fácil
observar a vida selvagem.

Rumo à Costa dos Esqueletos
Swakopmund, na vizinhança de Walvis, é a segunda cidade da Namíbia e sua principal estância balnear. O facto de estar mais ou menos alinhada com a capital, situada no centro geográfico de um país que a faixa desértica do Namibe “bloqueia” de alto a baixo – aproximadamente 2000 quilómetros –, o acesso à costa parece ser a razão mais plausível para o seu sucesso. A forte rebentação e os 16 graus de temperatura da água (na melhor das hipóteses) não me parecem tão-pouco tornar o destino mais convidativo aos cidadãos de Windhoek: é simplesmente mais perto do que qualquer outro sítio à beira-mar e quase a direito – o que se arranja, portanto. Não quero dizer com isto que esta terra de 25 000 almas não seja agradável, mas o seu principal encanto, quando se apresenta a um viajante farto de comer pó no caminho, assemelha-se à descoberta do arco-íris e do respectivo pote de ouro num só pacote – a imagem que retenho da chegada ao Swakopmund Hotel.

Savana perto dos montes Auas e órixes no Parque Etosha

Foi construído em 1901 para albergar a estação de caminho-de-ferro e, tal como muitos outros edifícios espalhados pelas pacatas ruas da localidade, é representativo da arquitectura colonial alemã do início do século XX. Outros exemplos bem preservados são a prisão e o antigo tribunal, talvez um sinal claro de que a Justiça é aqui valorizada e sobrevive ao passar das épocas. E não há melhor exemplo disto do que o direito à dignidade dos povos indígenas e a própria independência do país, alcançada em Março de 1990: tardou, mas não faltou. As casas são baixas e distribuídas por quarteirões pequenos em esquadria, tudo alcançável facilmente a pé, numa agradável e cada vez mais rara escala humana. As ruas principais encontram-se extremamente limpas e são ladeadas por estabelecimentos onde aparentemente nada falta, nem mesmo, para quebrar o isolamento dos últimos dias, muita cor e animação. Em resumo, uma cidade com um toque germânico que funciona em pleno, até quando uma estação desactivada pode significar um corpo revigorado no que toca a alimentação, descanso, duche e, se ainda houver tempo, umas braçadas na tentadora piscina.

Prosseguimos para Norte. O tempo enevoado mantém-se enquanto acompanhamos a costa, como que a lembrar que também ele funciona com um rigor de fazer inveja à relojoaria tradicional alemã. E é ainda sob este tecto cinzento que chegamos à impressionante colónia de focas de Cape Cross. A cruz diz respeito ao padrão implantado em 1486 por Diogo Cão, o segundo europeu a pisar este
Mulher e criança Himba
solo. Apenas com uma diferença de três anos, Bartolomeu Dias tinha feito o mesmo num local hoje conhecido como Diaz Point, próximo da cidade de Luderitz ou Angra Pequena, se quisermos ser fiéis à cartografia do navegador. Estes dois locais distam cerca de mil quilóme-tros e em ambos a história encontra-se assinalada por réplicas, já que os desgastados padrões originais foram removidos – o de Cape Cross ainda em 1893 –, encontrando-se actualmente na Alemanha. As focas que aqui se reproduzem em Dezembro e ma ntêm-se durante o resto do ano são, na verdade, leões-marinhos (entre outros aspectos, distinguem-se das primeiras pelas orelhas proeminentes). Esta é uma das colónias mais afastadas em relação ao extremo Sul do continente e onde estes pinípedes conseguem subsistir graças à gélida Corrente de Benguela que refresca esta parte do Atlântico acima do Trópico de Capricórnio.

Gravuras rupestres
de Twyfelfontein
A Costa dos Esqueletos abre-se agora à nossa frente.
É um território inóspito dentro de uma paisagem desoladora. Aos náufragos que alguma vez atingiam a praia, vencendo águas demasiado frias e correntes sobre-humanas, só lhes restava festejar o adiamento da morte porque os esperava um deserto quente e seco, ainda mais cruel que o oceano. Jan aproveita para lembrar outros dotes pouco amistosos do já macabro litoral: “Quando sopra o vento forte de Leste, não é anormal ver os carros que viajam ao longo desta estrada chegarem ao seu destino sem pintura de um dos lados.” E continua: “Nestas cidades costeiras, os bulldozers estão sempre a postos para limpar a areia que se acumula nas ruas após uma tempestade.” Seja ou não para evitar engrossar as estatísticas que fazem jus ao nome da costa, a verdade é que deixamos a estrada principal e apontamos ao interior do país. Até ao fim do dia é pedido novo esforço às pick-up, porque a estrada passa a caminho, o caminho passa a trilho e, mais lá para diante, este transforma-se em algo que não consigo bem identificar. Como consequência do troço tivemos um furo, que podia muito bem ser jornalístico: conseguimos observar e até tocar a rara Welwitschia mirabilis, planta de duas folhas considerada um fóssil vivo, com uma longevidade estimada em dois mil anos; atravessámos uma enorme cratera extinta onde abunda a Euphobia damarana, um grande arbusto tão tóxico que chega a ser letal (não tocámos); e, como se não bastasse, a paisagem é de cortar a respiração. Por volta da hora do jantar temos já toda a savana aos pés, numa vista invejável que se alcança de um dos mais cénicos lodges da Namíbia. Mesmo os mais extenuados podem ainda apreciar as gravuras rupestres de Twyfelfontein, que exibem girafas e zebras pré-históricas numa grande laje vertical a escassos metros dos bungalows.

Da fronteira com Angola ao Parque Etosha
Entre as 12 etnias ou grupos raciais que se distribuem pelo território namibiano, muitos destes divididos em diversos subgrupos e tribos, os Himba são, talvez, os mais surpreendentes. Quando durante o século XIX os seus antepassados Herero foram despojados e expulsos de outras regiões por guerreiros Nama, refugiaram-se no Noroeste do país, junto e mesmo para lá da fronteira com Angola, onde esta é marcada pelo caudaloso rio Kunene. Desde então ficaram conhecidos como “ovaHimba”, que quer dizer vagamente “pedintes”. É uma zona montanhosa mas com alguns acessos, por isso é surpreendente a forma como ainda se mantêm tão ligados às tradições e, principalmente, ao seu antigo modo de vida. Parte da resposta, dizem alguns, reside no facto de se tratar de um povo extremamente orgulhoso, fiel às suas origens, que não tem pressa nem sequer pretende aderir às “maravilhas” civilizacionais a que outros grupos, como os San (mais conhecidos por bosquímanos), acabaram por sucumbir. E digo sucumbir, por entre essas “maravilhas” se encontrar o álcool.


Cemitério da tribo Himba, na região das cataratas de Epupa
Enquanto nas terras semidesérticas do Kalahari se perdeu um pouco da generosidade endémica e da inocência dócil característica dessa tribo, aqui no Norte os Himba parecem ignorar propositadamente as esporádicas avionetas que sobrevoam os singelos abrigos de adobe. É como se não ouvissem o motor dos aparelhos, como se um carro fosse apenas mais um animal de carga, feio, de ângulos duros e sem alma. Quando chegam turistas, lá vendem o seu artesanato e apanham uma boleia até outra aldeia, mas parece ser tudo.

Pedintes? Os Himba desfazem uma rocha ocre em pó, a que adicionam gordura animal, para maquilharem toda a extensão do corpo. Adornam-se com uma infinidade de pulseiras, colares e curtas peças de vestuário, feitas de quase tudo o que lhes é possível utilizar: cobre, búzios, ráfia, pedrinhas, peles, paus e mesmo plásticos, que cortam e decoram de forma igualmente tradicional – não importa de onde vem, desde que possam utilizar como sempre utilizaram ou como bem entendem. São um povo de feições e estatura elegantes, de fazer inveja aos modelos ocidentais.

Tal como chegámos ao rio Kunene, regressamos agora por ar, a bordo dos exíguos mas fiáveis Cessna, ao lodge de Hobatere onde deixámos as viaturas por um dia. É uma experiência obrigatória, porque lá em cima também é África e além disso podemos sempre acompanhar uma manada de zebras ou elefantes sem o risco de os perder de vista atrás das árvores.

Aterramos em Hobatere, um confortável lodge numa enorme reserva de 36 000 hectares onde acorre grande parte dos grandes mamíferos africanos. Do outro lado da rua – porque de facto ali passa uma estrada de gravilha – fica o Parque Natural de Etosha, ainda mais imenso, praticamente do tamanho da Bélgica!

Autêntico símbolo de uma política conservacionista de vanguarda, esta é a jóia das áreas protegidas da Namíbia e o local onde se torna mais fácil observar a tal vida selvagem que faz parte do nosso eterno imaginário infantil. Rinocerontes negros, leões, leopardos, girafas, 1500 elefantes, 7000 zebras, 20 000 springboks (um tipo de gazela) e mais de 325 espécies de aves, se quisermos voar por aí… Os números são tão impressionantes quanto os próprios animais ao vivo, a curta distância. Só nos apercebemos da verdadeira estatura da girafa quando a vemos entre a copa de uma árvore – das grandes; do porte brutal de um rinoceronte, quando um deles nos fita nervoso e a poucos metros, frente ao jipe. E é tão espectacular vê-los sem barreiras! Acabaram-se-me as palavras aqui. Tenho um nó na garganta.

Já no luxuoso conforto do Windhoek Country Club, enquanto dobro a roupa e preparo a mochila para o regresso, vou pensando em todos os momentos fantásticos vividos ao longo de 3500 quilómetros de viagem. Na minha cabeça a frase “tenho de cá voltar” ecoa silenciosa e repetidamente. De súbito, algo de inesperado acontece. Vinda das profundezas esquecidas dos bolsos de umas calças, uma pequena porção do Namibe espalha-se pela alcatifa do quarto: “Impossível fugir ao deserto”, recordo com um sorriso as palavras de Jan.


Agradecemos a colaboração da South African Airways e da Toyota/Salvador Caetano

 
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