Cenário
de batalhas históricas e até de actuais telenovelas,
o Castelo de Almourol ergue-se imponente no meio do rio
Texto
de Miguel Satúrio Pires
Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
Prédio
Militar n.º 6. Nem mais, nem menos. Por muito estranho que possa
parecer, é esta a denominação toponímica
e cartográfica do Castelo de Almourol, conquistado por D. Afonso
Henriques aos mouros e com histórias mil para contar. A explicação
é simples. Afinal de contas, trata-se de uma propriedade do
Exército português, inevitavelmente incluída nos
roteiros turísticos nacionais e de além-fronteiras.
Uma
das torres circulares vistas
do alto da torre de menagem
Lá
para os lados de Tancos, entre Vila Nova da Barquinha e Constância,
Almourol ergue-se do alto dos seus cerca de 310 metros de comprimento,
75 de largura e apenas 18 de altura. No meio das águas do Tejo,
há séculos “plantado” num pequeno ilhéu,
ocupa uma diminuta formação granítica literalmente
a dividir as margens do rio e que desde sempre serviu como um ponto
nevrálgico ao nível das manobras militares. Aliás,
ainda hoje a Escola Prática de Engenharia de Tancos, proprietária
daquele e de grande parte dos espaços envolventes, aqui realiza
exercícios do seu ramo.
Apesar de classificado como monumento nacional desde 1910, esta construção
secular depende há muito da teimosia de alguns, e do descuido
de outros tantos, em conservar a memória deste guardião
do Tejo.
Barqueiro
na travessia do Tejo
Críticas
à parte, o certo é que o cenário não deixa
de ser romântico e idílico. Ao amanhecer, a paisagem
mais parece retirada de um postal antigo, com aquela austera fortaleza
envolta por suaves luzes matinais e por uma misteriosa bruma. À
sua frente, junto às margens do rio, não falta sequer
uma pachorrenta burra, de nome Bianca, a saborear as ervas rasteiras
junto a uma construção
em madeira,
prometida
como posto
de turismo mas
que acabou por ser um snack-bar... e
eis que acordamos para a realidade! No artesanal e improvisado cais
suspenso por bidons e por um bamboleante passadiço de madeira,
entra-se num filme ao estilo de Emir Kusturica, em que um dos simpáticos
“comandantes” destas chatas ou picaretes – embarcações
tradicionais da região que transportam os visitantes até
ao castelo – encarna uma imponente personagem de pele curtida
pelo sol, com os pulsos cheios de pulseiras ornamentadas por dezenas
de moedas pendentes.
Ataque ao castelo
A travessia faz-se em menos de dois minutos, mas pode prolongar a
viagem por mais alguns instantes se pedir ao barqueiro para dar a
volta a todo o ilhéu. Há, então, que lançar
as amarras para pisar o palco de solenes e sangrentas batalhas históricas
e até mesmo de uma recente telenovela brasileira, em que um
dantesco vampiro assomou à imponente torre de menagem.
O
alcance da vista a partir de Almourol é fantástico,
explicando o porquê da sua intensiva utilização
militar
Mas
cuidado; como já acima se referiu, longe vão os seus
tempos de glória. Agora, e enquanto não se concretizar
o prometido Parque de Almourol (um mega-projecto de capitais públicos
e privados que quer criar ali e nas margens envolventes, de Vila Nova
da Barquinha à Praia do Ribatejo, um pólo de lazer,
desporto e cultura – ver o site www.cm-vnbarquinha.pt),
resta-nos percorrer o interior e o exterior do castelo, desviando-nos
de ervas daninhas, mato selvagem na sua maioria e perigosas armadilhas.
Vá, portanto, com atenção, e até pode
ser que, no meio dos escondidos caminhos em cimento construídos
pelos militares que já percorreram o local em jeito de circuito,
descubra a entrada de um dos misteriosos túneis que, reza a
historia contada de boca em boca, ligavam a ilha às margens.
Mantido pela Escola Prática de Engenharia de Tancos, uma ou
outra beneficiação lá vai (foi?) sendo feita.
É o caso da iluminação nocturna do castelo, levada
a cabo em Abril de 1988, dez longos anos após o início
do projecto. Seguiram-se-lhe outras alterações, como
por exemplo a plataforma de madeira servida por uma íngreme
escada e que dá acesso à torre de menagem. Dali do alto
poderá avistar não só a ruína do abandonado
e secular Convento do Loreto, mandado edificar na margem direita do
rio, em 1572, por D. Álvaro Coutinho, um dos muitos senhores
de Almourol, como também toda a paisagem que se espraia curso
acima e arredores. O alcance da vista é fantástico,
explicando-se assim o porquê da sua intensiva utilização
militar ao longo dos séculos.
Histórias
que se contam
Vestígios de tempos passados só mesmo as paredes do
castelo e as suas dez torres cilíndricas, com a de menagem,
de planta quadrada, a mirar bem longe. Outros vestígios de
tempos passados lá se vão mostrando. Aqui e ali sempre
pode admirar elementos de então, tais como a cruz patesca,
o antigo emblema templário, insculpido na pedra sobre um portal
que terá servido um possível varandim antes empoleirado
na torre de menagem.
O castelo
vai, por força do peso dos séculos e pela falta de atenção
sistemática, perdendo de uma forma repetida os mistérios
e os encantos de outrora. Mesmo assim, se for de olhos bem abertos,
ou acompanhado por alguém conhecedor, verá o que resta
do que se julga terem sido os tronos do castelo. Esculpidos na rocha
granítica, e já quase indetectáveis, sofrem,
assim como tudo o resto, uma lenta erosão.
A sua história conhecida e registada por achados arqueológicos
no local remonta à época da ocupação romana
da Península Ibérica, por volta do século II
a.C., que se apode-raram do que então seria um castro lusitano
ilhado no meio do Tejo. Mais tarde, alanos, visigodos e mouros também
ali assentaram arraiais, até que, em 1129, o primeiro rei de
Portugal tomou de assalto e conquistou esta fortaleza estratégica,
situada pouco a jusante da confluência do Tejo com o rio Zêzere.
Antes disso já
Almourol havia sido palco de outras histórias, desta feita
de amor e que facilmente se converteram em lendas. Entre as mais populares
está o episódio dramático que relata o amor proibido
entre a filha de um cruel senhor feudal godo e um pagem mouro, e o
de uma princesa mourisca, de seu nome Ari, que se deixou encantar
por um cavaleiro cristão, o que lhe valeu ficar “peada”
(com a perna presa por uma corda) a mando de seu pai. Com a história
da Ari “peada” surgiu Arripiada que, com o correr dos
tempos, resultou em Arripiado, nome de uma pitoresca aldeia à
beira-Tejo, situada um pouco a Norte de Barquinha e de Tancos. Tudo
passado aqui no castelo de Almourol – ou como também
foi conhecido, fortaleza Almorolan, do árabe “pedra alta”
–, com violentas paixões e mortes à mistura.
Tempos antes gloriosos
Reedificado em 1171 por Gauldim Pais, mestre dos Templários
e monge-cavaleiro a quem D. Afonso Henriques havia doado Almourol,
foi aos poucos perdendo relevância na luta pela Terra Santa,
dado o avanço dos combates e das conquistas para Sul por parte
dos cruzados lusitanos. Entretanto, já no reinado de D. Dinis
(de 1279 a 1325), dá-se a extinção da Ordem dos
Templários, com todos os seus bens e direitos a passarem para
as mãos da Ordem de Avis. Daí em diante Almourol sofreu
várias alterações, com algumas das mais profundas
a serem levadas a cabo já no século XIX e ao longo de
grande parte do seguinte.
1
O Castelo de Almourol fica a jusante da confluência do
Tejo com o rio Zêzere 2
Pelas muralhas de Almourol bateram-se alanos, visigodos, mouros
e cruzados lusitanos 3
Escadas de acesso à torre de menagem, uma das mais recentes
beneficiações levadas a cabo no castelo 4
Porta de armas do castelo, vista a partir do interior das muralhas,
onde consta uma placa alusiva à Ordem dos Templários 5
Uma das dez estratégicas torres circulares que compõem
Almourol
De resto, apenas alguns reparos e consolidações são
dignos de registo. Quem sabe com o proclamado Parque Almourol, que
estava previsto ser concluído no final do ano passado, o castelo
recupere a sua glória. Ali, se as promessas forem cumpridas,
a população vai dispor de locais próprios para
a prática de desportos náuticos, balonismo e pára-quedismo,
espaços museológicos – onde se incluem o Museu
Militar do Almourol, o Museu do Tejo e a Casa e o Horto de Camões
–, aliando-se ainda ao projecto a obrigatória componente
ambiental, com um centro de ciência viva, apoiado no Parque
Ambiental e de Interpretação da Natureza, no Observatório
da Natureza, em circuitos de passeio pelo campo e nos percursos ribeirinhos,
pedonais e cicláveis.
No que diz respeito à museabilização do castelo
propriamente dita (a aguardar parecer favorável do IPPAR),
vai incluir a recriação do ambiente medieval da época
de Gualdim Pais, recorrendo a figuras de fibra de vidro e construções
em madeira para reconstruir cenários passados. Resta agora
saber qual a data definitiva da concretização do projecto.
Informações
úteis Como
lá chegar:
Apanhar a A1, sair na A23 – a 120 Km para quem vem de
Lisboa, e a 225 Km para os que partirem do Porto; seguir a indicação
para Torres Novas/ Entroncamento; tomar direcção
Almourol/Tancos (aconselha-se que esqueça a primeira
placa da A23 que lhe aponta o caminho para Almourol. Salvo ser
for de jipe, não lhe interessa, com toda a certeza, desembocar
numa estrada de terra enlameada e calhaus...). A partir daí
aponte em direcção ao Tejo, pois todos os caminhos
vão dar a Almourol. Basta seguir as placas. Travessia do Tejo: Faz-se num par de minutos
numa das chatas ou picaretes (embarcações tradicionais
da região) propriedade de particulares que cobram cerca
de æ1. Entre Abril e Outubro, um barco da Junta de Freguesia
faz passeios pelo Tejo a partir do cais de Tancos. Onde dormir: Qta. de Sta. Bárbara (turismo
de habitação, onde dizem que Camões viveu),
Constância, tel. 249 739 214; Estalagem Vale Manso (www.estalagemvalemanso.com;
reservas@estalagemvalemanso.com),
Abrantes 2200-638 Martinchel, tel. 241 840 000; Casa do Patriarca,
Rua do Patriarca Dom José, n.º 134, Atalai, tel.
249 710 581, 2260-039 Vila Nova da Barquinha. Onde comer: Restaurante Almourol (www.almourol.com),
Rua Cais de Tancos, tel. 249 720 100; Café-Restaurante
A Palmeira, Vila Nova da Barquinha, EN 3, tel. 249 711 513;
Remédio d’Alma, Largo 5 de Outubro, Constância,
tel. 249 739 405; Trinca Fortes, Av. das Forças Armadas,
Constância, tel. 249 739 221. Entre Março e Abril
celebra-se o mês do sável e da lampreia nos restaurantes
de Vila Nova da Barquinha. Outros locais a visitar: Igrejas matrizes da
Atalaia e de Tancos, Horto e Casa de Camões (Constância),
Capela de Nossa Senhora do Reclamador (Vila Nova da Barquinha),
Casa-museu Vasco Lima Rato (Constância). Contactos: Região de Turismo do Ribatejo
(www.rtribatejo.org),
tel. 243 330 330, Casa do Campino, 2000-014 Santarém;
Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha (www.cm-vnbarquinha.pt),
Praça da República, tel. 249 720 350.