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    XL >   Rotas & Destinos > Castelo de Almourol
L U G A R E S   C O M   H I S T Ó R I A


Março de 2004
Cenário de batalhas históricas e até de actuais telenovelas,
o Castelo de Almourol ergue-se imponente no meio do rio


Texto de Miguel Satúrio Pires
Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   

Prédio Militar n.º 6. Nem mais, nem menos. Por muito estranho que possa parecer, é esta a denominação toponímica e cartográfica do Castelo de Almourol, conquistado por D. Afonso Henriques aos mouros e com histórias mil para contar. A explicação é simples. Afinal de contas, trata-se de uma propriedade do Exército português, inevitavelmente incluída nos roteiros turísticos nacionais e de além-fronteiras.


Uma das torres circulares vistas
do alto da torre de menagem
Lá para os lados de Tancos, entre Vila Nova da Barquinha e Constância, Almourol ergue-se do alto dos seus cerca de 310 metros de comprimento, 75 de largura e apenas 18 de altura. No meio das águas do Tejo, há séculos “plantado” num pequeno ilhéu, ocupa uma diminuta formação granítica literalmente a dividir as margens do rio e que desde sempre serviu como um ponto nevrálgico ao nível das manobras militares. Aliás, ainda hoje a Escola Prática de Engenharia de Tancos, proprietária daquele e de grande parte dos espaços envolventes, aqui realiza exercícios do seu ramo.

Apesar de classificado como monumento nacional desde 1910, esta construção secular depende há muito da teimosia de alguns, e do descuido de outros tantos, em conservar a memória deste guardião do Tejo.


Barqueiro na travessia do Tejo
Críticas à parte, o certo é que o cenário não deixa de ser romântico e idílico. Ao amanhecer, a paisagem mais parece retirada de um postal antigo, com aquela austera fortaleza envolta por suaves luzes matinais e por uma misteriosa bruma. À sua frente, junto às margens do rio, não falta sequer uma pachorrenta burra, de nome Bianca, a saborear as ervas rasteiras junto a uma construção em madeira,
prometida como posto de turismo mas que acabou por ser um snack-bar... e eis que acordamos para a realidade! No artesanal e improvisado cais suspenso por bidons e por um bamboleante passadiço de madeira, entra-se num filme ao estilo de Emir Kusturica, em que um dos simpáticos “comandantes” destas chatas ou picaretes – embarcações tradicionais da região que transportam os visitantes até ao castelo – encarna uma imponente personagem de pele curtida pelo sol, com os pulsos cheios de pulseiras ornamentadas por dezenas de moedas pendentes.

Ataque ao castelo
A travessia faz-se em menos de dois minutos, mas pode prolongar a viagem por mais alguns instantes se pedir ao barqueiro para dar a volta a todo o ilhéu. Há, então, que lançar as amarras para pisar o palco de solenes e sangrentas batalhas históricas e até mesmo de uma recente telenovela brasileira, em que um dantesco vampiro assomou à imponente torre de menagem.


O alcance da vista a partir de Almourol é fantástico, explicando o porquê da sua intensiva utilização militar
Mas cuidado; como já acima se referiu, longe vão os seus tempos de glória. Agora, e enquanto não se concretizar o prometido Parque de Almourol (um mega-projecto de capitais públicos e privados que quer criar ali e nas margens envolventes, de Vila Nova da Barquinha à Praia do Ribatejo, um pólo de lazer, desporto e cultura – ver o site www.cm-vnbarquinha.pt), resta-nos percorrer o interior e o exterior do castelo, desviando-nos de ervas daninhas, mato selvagem na sua maioria e perigosas armadilhas. Vá, portanto, com atenção, e até pode ser que, no meio dos escondidos caminhos em cimento construídos pelos militares que já percorreram o local em jeito de circuito, descubra a entrada de um dos misteriosos túneis que, reza a historia contada de boca em boca, ligavam a ilha às margens.

Mantido pela Escola Prática de Engenharia de Tancos, uma ou outra beneficiação lá vai (foi?) sendo feita. É o caso da iluminação nocturna do castelo, levada a cabo em Abril de 1988, dez longos anos após o início do projecto. Seguiram-se-lhe outras alterações, como por exemplo a plataforma de madeira servida por uma íngreme escada e que dá acesso à torre de menagem. Dali do alto poderá avistar não só a ruína do abandonado e secular Convento do Loreto, mandado edificar na margem direita do rio, em 1572, por D. Álvaro Coutinho, um dos muitos senhores de Almourol, como também toda a paisagem que se espraia curso acima e arredores. O alcance da vista é fantástico, explicando-se assim o porquê da sua intensiva utilização militar ao longo dos séculos.

Histórias que se contam
Vestígios de tempos passados só mesmo as paredes do castelo e as suas dez torres cilíndricas, com a de menagem, de planta quadrada, a mirar bem longe. Outros vestígios de tempos passados lá se vão mostrando. Aqui e ali sempre pode admirar elementos de então, tais como a cruz patesca, o antigo emblema templário, insculpido na pedra sobre um portal que terá servido um possível varandim antes empoleirado na torre de menagem.

O castelo vai, por força do peso dos séculos e pela falta de atenção sistemática, perdendo de uma forma repetida os mistérios e os encantos de outrora. Mesmo assim, se for de olhos bem abertos, ou acompanhado por alguém conhecedor, verá o que resta do que se julga terem sido os tronos do castelo. Esculpidos na rocha granítica, e já quase indetectáveis, sofrem, assim como tudo o resto, uma lenta erosão.

A sua história conhecida e registada por achados arqueológicos no local remonta à época da ocupação romana da Península Ibérica, por volta do século II a.C., que se apode-raram do que então seria um castro lusitano ilhado no meio do Tejo. Mais tarde, alanos, visigodos e mouros também ali assentaram arraiais, até que, em 1129, o primeiro rei de Portugal tomou de assalto e conquistou esta fortaleza estratégica, situada pouco a jusante da confluência do Tejo com o rio Zêzere.

Antes disso já Almourol havia sido palco de outras histórias, desta feita de amor e que facilmente se converteram em lendas. Entre as mais populares está o episódio dramático que relata o amor proibido entre a filha de um cruel senhor feudal godo e um pagem mouro, e o de uma princesa mourisca, de seu nome Ari, que se deixou encantar por um cavaleiro cristão, o que lhe valeu ficar “peada” (com a perna presa por uma corda) a mando de seu pai. Com a história da Ari “peada” surgiu Arripiada que, com o correr dos tempos, resultou em Arripiado, nome de uma pitoresca aldeia à beira-Tejo, situada um pouco a Norte de Barquinha e de Tancos. Tudo passado aqui no castelo de Almourol – ou como também foi conhecido, fortaleza Almorolan, do árabe “pedra alta” –, com violentas paixões e mortes à mistura.

Tempos antes gloriosos

Reedificado em 1171 por Gauldim Pais, mestre dos Templários e monge-cavaleiro a quem D. Afonso Henriques havia doado Almourol, foi aos poucos perdendo relevância na luta pela Terra Santa, dado o avanço dos combates e das conquistas para Sul por parte dos cruzados lusitanos. Entretanto, já no reinado de D. Dinis (de 1279 a 1325), dá-se a extinção da Ordem dos Templários, com todos os seus bens e direitos a passarem para as mãos da Ordem de Avis. Daí em diante Almourol sofreu várias alterações, com algumas das mais profundas a serem levadas a cabo já no século XIX e ao longo de grande parte do seguinte.

1  O Castelo de Almourol fica a jusante da confluência do Tejo com o rio Zêzere
2 Pelas muralhas de Almourol bateram-se alanos, visigodos, mouros e cruzados lusitanos
3 Escadas de acesso à torre de menagem, uma das mais recentes beneficiações levadas a cabo no castelo
4 Porta de armas do castelo, vista a partir do interior das muralhas, onde consta uma placa alusiva à Ordem dos Templários
5 Uma das dez estratégicas torres circulares que compõem Almourol 

De resto, apenas alguns reparos e consolidações são dignos de registo. Quem sabe com o proclamado Parque Almourol, que estava previsto ser concluído no final do ano passado, o castelo recupere a sua glória. Ali, se as promessas forem cumpridas, a população vai dispor de locais próprios para a prática de desportos náuticos, balonismo e pára-quedismo, espaços museológicos – onde se incluem o Museu Militar do Almourol, o Museu do Tejo e a Casa e o Horto de Camões –, aliando-se ainda ao projecto a obrigatória componente ambiental, com um centro de ciência viva, apoiado no Parque Ambiental e de Interpretação da Natureza, no Observatório da Natureza, em circuitos de passeio pelo campo e nos percursos ribeirinhos, pedonais e cicláveis.

No que diz respeito à museabilização do castelo propriamente dita (a aguardar parecer favorável do IPPAR), vai incluir a recriação do ambiente medieval da época de Gualdim Pais, recorrendo a figuras de fibra de vidro e construções em madeira para reconstruir cenários passados. Resta agora saber qual a data definitiva da concretização do projecto.

Informações úteis
Como lá chegar: Apanhar a A1, sair na A23 – a 120 Km para quem vem de Lisboa, e a 225 Km para os que partirem do Porto; seguir a indicação para Torres Novas/ Entroncamento; tomar direcção Almourol/Tancos (aconselha-se que esqueça a primeira placa da A23 que lhe aponta o caminho para Almourol. Salvo ser for de jipe, não lhe interessa, com toda a certeza, desembocar numa estrada de terra enlameada e calhaus...). A partir daí aponte em direcção ao Tejo, pois todos os caminhos vão dar a Almourol. Basta seguir as placas.
Travessia do Tejo: Faz-se num par de minutos numa das chatas ou picaretes (embarcações tradicionais da região) propriedade de particulares que cobram cerca de æ1. Entre Abril e Outubro, um barco da Junta de Freguesia faz passeios pelo Tejo a partir do cais de Tancos.
Onde dormir: Qta. de Sta. Bárbara (turismo de habitação, onde dizem que Camões viveu), Constância, tel. 249 739 214; Estalagem Vale Manso (www.estalagemvalemanso.com; reservas@estalagemvalemanso.com), Abrantes 2200-638 Martinchel, tel. 241 840 000; Casa do Patriarca, Rua do Patriarca Dom José, n.º 134, Atalai, tel. 249 710 581, 2260-039 Vila Nova da Barquinha.
Onde comer: Restaurante Almourol (www.almourol.com), Rua Cais de Tancos, tel. 249 720 100; Café-Restaurante A Palmeira, Vila Nova da Barquinha, EN 3, tel. 249 711 513; Remédio d’Alma, Largo 5 de Outubro, Constância, tel. 249 739 405; Trinca Fortes, Av. das Forças Armadas, Constância, tel. 249 739 221. Entre Março e Abril celebra-se o mês do sável e da lampreia nos restaurantes de Vila Nova da Barquinha.
Outros locais a visitar: Igrejas matrizes da Atalaia e de Tancos, Horto e Casa de Camões (Constância), Capela de Nossa Senhora do Reclamador (Vila Nova da Barquinha), Casa-museu Vasco Lima Rato (Constância).
Contactos: Região de Turismo do Ribatejo (www.rtribatejo.org), tel. 243 330 330, Casa do Campino, 2000-014 Santarém; Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha (www.cm-vnbarquinha.pt), Praça da República, tel. 249 720 350.


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