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D I C A S  D E  V I A G E M


Um dilema chamado gorjeta

Em férias, pequenos detalhes como as gorjetas podem tornar-se em complicados problemas… mas tudo não passa de uma questão cultural

Março de 2004

Texto de Simone Rocha
Ilustração de André kano
   


Dar ou não gorjeta, eis a questão. Para um viajante este acto pode ser um quebra-cabeças pois depende de variáveis como o destino ou a profissão do visado. Por exemplo, no Japão e Austrália o mais normal é sentir-se hostilizado quando dá uma gratificação, enquanto nos Estados Unidos um taxista recebe mal uma gorjeta só de 5%. E a tal ponto esta regra de etiqueta dá que falar que até já existem rankings das celebridades mais generosas: John Travolta deixa 130% de gorjeta nos restaurantes e Michael Jordan 80%. Nesta matéria a actriz Sharon Stone é associada a um episódio ocorrido num restaurante de Washington onde deu apenas 20% de gratificação, quando na América a etiqueta manda a que se atribua entre 15 e 20%. No final deixou uma mensagem irónica ao chef: esperava que ele gostasse tanto dos seus filmes como ela da refeição que lhe foi servida.

Verídico ou não, o facto é que este episódio configura o que muitos especialistas na matéria pensam: o montante da gorjeta deve depender do grau de satisfação face ao serviço prestado. Falamos em “mon-tante”, pois na generalidade dos países atribuir uma gratificação é mesmo uma regra a cumprir. Ao contorná-la não está a violar qualquer lei, mas arrisca-se a um olhar de soslaio ou mesmo a um reparo.

América e Europa
Não há regras universais para a atribuição de gorjetas, por isso o melhor é consultar um guia ou perguntar ao porteiro do hotel. Já agora, por este conselho ele não espera receber nada, mas se lhe pedir para reservar um res-taurante ou um bilhete de teatro deverá oferecer-lhe entre quatro a oito euros (se estiver nos Estados Unidos). Quando se trata das ca-mareiras ou empregados de mesa, a gorjeta varia entre 80 cêntimos a quatro euros por dia dependendo da qualidade do hotel. Pode optar por atribui-la no fim, mas o melhor é ir deixando as notas na almofada, pois a partida pode coincidir com a folga do empregado. Nos Estados Unidos estes trabalhadores ganham cerca de seis euros por hora e as gratificações contri-buem em boa parte para o ordenado. Estima-se, porém, que apenas entre 25 a 30% dos hóspedes tenham este hábito. Ao utilizar um táxi deve somar ao preço da viagem 20% de gorjeta ou arredondar até ao próximo dólar. Na res-tauração há cidades americanas em que as gra-tificações são incluídas no valor total da conta, o que de resto não é um hábito exclusivo deste país: também acontece no Brasil e em França.

Embora na Europa esta prática não seja tão espontânea e generosa como nos Estados Unidos, na maioria dos países a recom-pensa por um bom trabalho é bem recebida – e mesmo esperada. Se na carta dos restaurantes a taxa de serviço não estiver incluída, deixe uma gorjeta de 10% ou arredonde o pagamento até ao próximo euro, sendo este o montante também recomendado para as viagens de táxi. Na Itália, por exemplo, basta dizer um simples “va bene cosi” quando pretende que o troco seja a gratificação. Já em Budapeste a taxa de serviço não está habitualmente incluída na conta, e o melhor é dar directa-mente a gorjeta ao empregado, pois deixá-la na mesa é considerado uma regra de má educação. Nas visitas guiadas deve informar-se se as grati-ficações estão incluídas sendo que, mesmo assim, às vezes, o guia turístico espera uma compensação. O melhor é usar o senso comum: se acha que ele foi para além do cliché, dê-lhe um ou dois euros. É ainda importante andar com trocos, pois nas casas de banho públicas é habitual dar uma gratificação à entrada ao respectivo encarregado ou ter de pagar, por exemplo, o papel de limpar as mãos. Há ainda outras profissões menos associadas ao turismo, mas às quais pode ter de recorrer, que recebem gorjetas. Os britânicos, por exemplo, normal-mente dão gratificações aos cabeleireiros, já os suecos e holandeses não o fazem. Se em Roma uma banda tocar para si deixe 80 cêntimos no prato (esta regra é válida para outros países onde ser músico de rua é uma profissão).

Em mar alto
Se em terra é complicado, no mar não é menos. A indústria de cruzeiros tem uma filosofia de gorjetas própria e uma tabela que indica o valor da gorjeta a atribuir desde o gerente do restau-rante ao ajudante de garçon. As companhias de cruzeiros chegam mesmo a possuir guidelines que fornecem indicações sobre o momento mais apropriado para a atribuição da gratificação (no dia-a-dia ou no final da viagem). Muitas vezes é ainda sugerido aos passageiros que, em alternativa à gratificação, demonstrem pessoal-mente o apreço por um profissional na cabina do comandante. Quando estes elogios se repetem, regra geral reflectem-se no salário da pessoa. Uma prova de que as palavras, às vezes, são mais eficazes que o dinheiro.

 

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