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   XLRotas & DestinosDossier > Agadir
D O S S I E R Março de 2005  
   
Agadir garante dias soalheiros o ano inteiro e praias douradas sem fim. Completamente reconstruída nos anos 60, após um terramoto devastador, é a mais europeia das cidades marroquinas e, a par de Essaouira, a mais cobiçada pelos amantes dos desportos náuticos

Texto de Sara Raquel Silva e fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   

P U B L I C I D A D E

Um momento de pausa entre os pescadores, no Porto de Agadir
A Rotas & Destinos deparou um dia destes, num site alusivo a agadir, com a seguinte frase promocional: “… a cidade onde faz sol 370 dias por ano”. A acreditar neste slogan, este seria também o local com o ano solar mais longo de todo o planeta. Mas, lapsos à parte, a verdade é que esta cidade marroquina desfruta de um clima invejável, onde o Inverno se assemelha à nossa Primavera e o Verão, embora quente, é suavizado pela brisa que sopra do Atlântico. Significa isto que nos meses mais frios do ano ouve-se falar mais Alemão, Francês e Inglês que propriamente Árabe e Berbere e, nos meses mais quentes, Italiano ou Espanhol (entre suspiros dos ditos alemães que já ameaçam derreter por essa altura).

Agadir não é uma típica cidade de Marrocos – se procura tradição é melhor optar por outras paragens –, pois sofreu um terramoto destruidor em 1960, após o qual foi completamente reerguida (longe das zonas de alto risco e por meio de processos anti-sísmicos) com a colaboração de alguns arquitectos europeus. Por outro lado, o número de turistas é tão elevado, que a cultura local se encontra um pouco diluída, entre os pratos de cozinha francesa e as mini-saias das turistas nórdicas. Mas, claro está que sob um olhar mais atento e, fugindo das avenidas principais decoradas a buganvílias e lojas de artesanato sofisticadas, encontrará talhos a céu aberto, carcaças de animais incluídas, bazares com todo o tipo de bugigangas, especiarias, pós e corantes alimentares, boutiques com djellabas a preços módicos, entre outros mimos magrebinos.


Tratamento de talassoterapia no Hotel Palais des Roses, que pode ser complementado por outros cuidados como o hammam e massagem com óleos aromáticos
Mas quem se desloca a Agadir espera sobretudo encontrar praias fantásticas. E, nesse aspecto, não sairá desiludido. O areais são longos, dourados e limpos e, se em frente aos hotéis se tornarem demasiado concorridos, existem outros, poucos quilómetros a norte ou a sul, quase desertos, célebres apenas entre os surfistas. Por outro lado não faltam actividades com que preencher os dias de lazer: o leitor tanto poderá ficar deitado nas espreguiçadeiras de frente ao mar 24 horas por dia como andar a cavalo, praticar surf, bodyboard, sky-surf, golfe, ténis ou mesmo partir em expedições até à região do Atlas, a meia dúzia de horas de caminho.

Surpresas de uma cidade moderna
A zona turística situa-se junto à costa, tal como a maioria dos hotéis, alguns com acesso à praia. Ao longo da linha do mar, existe uma calçada pedonal – “o calçadão de Agadir” –, repleta de cafés, vendedores de artesanato e gelados, sendo um dos locais mais descontraídos, no pico do Verão, para sair à noite e usufruir da brisa marinha e do talento de jovens músicos amadores.


Praia do Hotel Palais des Roses
O Hélios Palais des Roses, onde ficámos alojados, é um hotel de cinco estrelas célebre pelos seus tratamentos de talassoterapia. A arquitectura é de inspiração mourisca – basta observar as fontes e o portão de entrada, uma réplica feliz em madeira maciça das portas de Meknès – mas com um toque de modernidade, conferido pelos arranjos florais e por algumas peças de mobiliário minimalistas. Os quartos (num total de 405) são espaçosos e estão dispostos ao longo de corredores ao ar livre, num trajecto que pode tornar-se excessivamente refrescante nas noites de Inverno, mas garante finais de tarde agradáveis entre Maio e Setembro.


Jovem vendedor de café, no souk da cidade de Taroudant, a cerca de uma hora e meia de Agadir
A maioria dos quartos usufrui de vista para a enorme piscina; para os jardins repletos de cactos, roseiras, entre outros arbustos devidamente identificados (merecem um pequeno tour); para o restaurante “L`Oásis”, onde são servidos os almoços em regime de buffet (destacamos qualidade e variedade das saladas); e, ainda, para as tendas berberes em frente ao mar, onde também é possível almoçar, e à noite são organizados os espectáculos de música oriental e dança do ventre. Ao jantar funcionam ainda os restaurantes “International”, o “Le Méditerranée “, o “Le Safran” (cozinha marroquina) e o “Tching Tchang” (cozinha vietnamita), o que nos garantiu ao longo da estadia experiências gastronómicas diversas (e preciosas para quem está alojado em regime de meia-pensão ou pensão completa).

Por detrás da praia e desta área ocupada pelos hotéis cresce, em direcção ao interior, a cidade moderna propriamente dita. Delimitada pela Boulevard Mohamed V e pela Avenue Prince Moulay e Abdallah, é nesta zona que se encontram os serviços administrativos e a maioria das lojas, assim como o Mercado Central, um dos três principais espaços comerciais (os outros são o souk e o centro de artesanato) onde poderá encontrar produtos locais como cerâmica, especiarias, marroquinaria e tecidos.


Jovem exibe os seu dotes de “surfista de camelos” na praia de Tarhazoutz, uma das favoritas dos surfistas portugueses
Este lugar, bem mais calmo e organizado que o souk (mas também, por isso, menos fascinante) é o ideal para aprender a arte de negociar, que aqui significa regatear (oferecer menos de metade do pedido inicial é um bom princípio). Com uma queda para o negócio muito peculiar, a maioria dos vendedores arranha idiomas tão diversos como o Castelhano, Italiano, Inglês e Alemão, numa “macarronada linguística” hilariante. Um ou outro ainda se aventura: “Portuguesa? Lisboa é mui bonita!”. “Já lá esteve ?”, pergunto. Não, não esteve, mas um primo ou um amigo havia por ali trabalhado em tempos. E, a pretexto da conversa de circunstância, já eu tinha à minha volta uns pares de babouchas, um cafetan, meia dúzia de copos para o chá de menta, bule incluído, e outras sugestões de compra na ponta da língua do comerciante. “Só se tivesse um carrinho de mão e as libras dos ingleses”, pensei, não resistindo, porém, a um frasco de óleo de argão, uma verdadeira preciosidade, que não se encontra à venda em Portugal (trata-se de um óleo extraído de uma espécie de amêndoa, fruta da árvore de argão, excelente hidratante para o cabelo e pele, vendido em França, por exemplo, dez vezes mais caro).


Salada de alcachofras, sempre presente no buffet do Hotel Palais des Roses
Resta, depois das compras, dar uma volta pelos quarteirões adjacentes para deitar uma olhadela à mesquita e aos edifícios da Câmara Municipal e da Fiduciaire du Sud, cuja arquitectura sofreu nitidamente influências do funcionalismo. “Ciao pórtuguésa!”, ouço alguém saudar-me (um dos jovens vendedores, que como todos os bons comerciantes não esquece o rosto de um potencial cliente), e, sentindo-me um pouco mais familiarizada com a cidade, entro num táxi, rumo ao hotel (pergunto o preço primeiro, pois as tarifas, já percebi, variam consoante o humor de cada senhor ao volante).
A ferrugem da carcaça não inspira grande confiança nas suas capacidades de locomoção. E as suspeitas depressa se confirmaram: o pobre veículo não arrancou à primeira nem à segunda, mas sim à terceira, com um empurrão dos solícitos motoristas da praça. E de um só fôlego, lá regressámos ao Palais des Roses.



Cestos de sardinhas à saída do Porto de Agadir
Histórias de centro pesqueiro
Devido ao terramoto de 1960 não restam grandes vestígios históricos da antiga “Nice marroquina” a não ser a sua imponente, embora danificada, kasbah, situada no cima de uma colina árida a quase trezentos metros de altitude. A fortaleza foi construída em 1540 para proteger a região dos portugueses e reforçada duzentos anos depois. No século XVII e XVIII funcionou como a sede das negociações entre o sultão e os comerciantes europeus, daí que ainda hoje seja visível à entrada a inscrição em holandês: “Temer a Deus e honrar o Rei”. A sua visita só vale a subida íngreme pelas vistas que daí se obtêm sobre toda a baía (vá por altura do pôr-do-sol) e para um dos portos pesqueiros mais activos de todo o país, com duas dezenas de fábricas de conserva e refrigeração, além de um estaleiro de reparação adjacentes.


Uma das muitas esplanadas de Agadir, com vista para a mesquita
Podemos afirmar que Agadir não existiria sem o seu porto, a principal fonte de sustento da população, a par do turismo, pelo que desde há muito que este entreposto comercial e pesqueiro é usado como símbolo de poder e fonte de prosperidade. Já no século XVII, quando a dinastia berbere de Tazeroualt (região situada entre Tiznit e Tafraoute) conquistou Agadir aos alauitas, a região foi colocada na rota comercial que recebia o trigo europeu em troca do ouro da Costa do Marfim e o açúcar do Sous. Os alauitas, por seu lado, quando recuperaram, no século seguinte, a sua influência sobre Agadir fecharam este símbolo da independência do Sous e a vizinha Essaouira (antiga Mogador) é que lucrou com a medida, concentrando todo o comércio internacional.


Porta principal de entrada na cidade de Taroudant
Uma ida até ao porto constitui uma experiência interessante que não deverá perder, se as multidões não o incomodarem. Funciona como o ponto de encontro entre centenas de pescadores – os barcos amontoam-se à justa no cais como peças de um puzzle – e centenas de compradores que carregam e descarregam caixas de sardinhas e carapaus. Na rua da frente encontram-se os restaurantes com o melhor peixe fresco da cidade, embora nos tenha parecido que quem por aqui trabalha se alimenta sobretudo de tangerinas e torrões de frutos secos, que vendedores ambulantes carregam em caixotes semelhantes aos que transportam o peixe.

Da investida portuguesa à rota do turismo mundial
Apesar da ausência de monumentos históricos e da sua “cara lavada”, Agadir guarda uma história conturbada, na qual os portugueses detiveram um papel de relevo: a sua inscrição nos mapas da modernidade, em 1505. Até a toponímia pode ter tido origem na presença dos marinheiros lusos, pois se alguns afirmam que Agadir se trata de uma palavra berbere usada para designar um celeiro ou vila fortificada, outros avançam que deriva de “Cabo de Aguer”, denominação dada pelos portugueses a este local.

Terá sido o nobre João Lopes de Sequeiro o primeiro a chegar e a fundar um forte deste lado da costa marroquina, a fim de garantir a Portugal o controle das rotas marítimas e terrestres para a Guiné e para o Sudão. Parece que a estadia foi prolífera, mas também curta: as tribos da região reuniram-se e iniciaram uma espécie de guerra santa contra os invasores que, em 1541, foram desalojados pelo fundador da dinastia sariana, Mohamed Echeikh el Mehdi.

Em 1911, Agadir foi novamente palco de disputas mediáticas, desta feita entre os alemães e os franceses, na altura em que os europeus se encontravam a dividir o mundo colonial. A contenda teve início com a autorização dada a uma expedição alemã para fazer a prospecção mineira da região. Os resultados foram entusiasmantes e Guilherme II, rei da Prússia e imperador alemão, cada vez mais interessado em alargar a sua influência até Agadir, tentou instalar uma base naval na costa marroquina. A França, para salvaguardar a sua soberania, viu-se então obrigada a ceder uma parte do Congo em troca da partida da Alemanha. Tal era o clima de instabilidade que, quando as tropas francesas entraram novamente na cidade, esta contava apenas com cerca de 1000 habitantes (actualmente reúne cerca de 100 000 só no centro, pois contando com os arredores o número atinge os 600 000).

Paraíso do surf

Praticante de sky-surf ao fim da tarde, na praia de Tahazoutz
A boa vida pode ser o principal chamariz de Agadir, mas há também quem para aí se desloque anual e religiosamente apenas para praticar surf, entre outros desportos náuticos (a seguir à Madeira, este é o destino favorito dos surfistas portugueses). Nesse caso, o local de estadia escolhido não será o centro da cidade, mas sim a aldeia vizinha de Tarhazoutz, onde, para pernoitar, o viajante encontrará pouco mais que um parque de campismo e alguns apartamentos, junto ao mar, além claro, das habitações particulares dos locais, conhecidos pela sua hospitalidade.


Massagem relaxante no Centro de Talassoterapia do Palais des Roses
A caminho desse antigo refúgio hippie, agora dominado pelos surfistas, vamos encontrando auto-caravanas de nórdicos entradotes estacionadas aos magotes junto ao mar, o rei e a sua comitiva (!!!), encostas desérticas, meia dúzia de luxuosos palácios sauditas, e hotéis cinco estrelas em construção (de acordo com o Plano 2010, Marrocos encontra-se em pleno processo de reestruturação e ampliação da oferta hoteleira).

Tarhazoutz é uma povoação pacata, de origem berbere, e denuncia na sua génese a placidez dos habitantes, que a cada esquina param para conversar com o vizinho ou para um chá de menta num dos prosaicos cafés dispostos ao redor da praça principal. Esclareceu-nos, posteriormente, um motorista de táxi de Agadir: “Eles (os berberes) são diferentes dos árabes, verdadeiros fala-barato. Lá (em Tarhazoutz) as pessoas são serenas; vive-se mais devagar”.


Quotidiano da típica Taroudant
Na altura, ainda sem o esclarecimento anterior, reparámos que de facto nesta aldeia ninguém corre, muito menos quem aí se encontra de férias: miúdos loiros que se bronzeiam nas esplanadas, zelando discretamente pelas pranchas equilibradas no capot dos automóveis, e raparigas, também, loiras que se deixam tentar pelas pratas de origem berbere. Grande parte já se rendeu às babouchas e à confortável djellaba, transformando-se provisoriamente em filhos da terra.


Pormenor do lobbie do Palais des Roses
À janela, duas mulheres (as únicas locais que vislumbrámos) acenam--me. Os homens, por seu lado, passeiam-se pela praça, também mercado de produtos frescos e artesanato, trocando as últimas palavras antes de regressarem a casa com as compras debaixo do braço.

Taroudant, cidade feiticeira
Apesar da praia ser a principal atracção da maior estância balnear de Marrocos, refira-se que Agadir tem, ainda, a vantagem de se situar muito próxima de povoações e santuários naturais imperdíveis: Inezgane e o seu souk das terças-feiras (em Marrocos os mercados têm a designação do dia a que se realizam, em Agadir, por exemplo, é o souk dos domingos); a aldeia Ait Melloul com a floresta de Ademine; Tiznit, cidade protegida por muralhas cor-de-rosa, onde os habitantes ainda usam o traje tradicional; ou o Parque Nacional de Sous-Massa…


Couscous de borrego, um dos pratos mais populares
Nós optámos por viajar até aos seus antípodas, mas a apenas uma hora e meia de caminho, mais precisamente, à cidade de Taroudant, apontada como a mais pitoresca povoação marroquina do sul (nem pense em acelerar para “encurtar caminho”, porque as brigadas de trânsito em Marrocos são mais numerosas e incisivas que formigas à volta de um favo de mel e ainda bem porque os condutores portugueses são uns meninos de coro quando comparados aos congéneres marroquinos).

A vida é boa em Agadir e, em particular, no Palais des Roses onde experimentámos os tratamentos de talassoterapia, mas somos do género que se cansa dos encantos do dolce far niente ao terceiro dia, por isso a perspectiva de conhecer uma cidade mais genuína é acolhida com agrado e expectativa.

Taroudant surge ao olhar do viajante imponente como uma fortaleza e surpreendente como um oásis. Isto porque permanece protegida por uma enorme muralha ocre (cerca de oito quilómetros por oito metros de altura), de aspecto robusto, penetrável apenas por qualquer uma das suas cinco portas majestosas, e, em torno da cidadela crescem oliveiras, laranjeiras, romãzeiras e palmeiras – adornos refrescantes e apetecíveis, já que aqui a aragem que corre é-nos enviada pelo Sahara. Estamos cada vez mais próximos das grandes dunas, e, até as mulheres que passam, envoltas em véus azul índigo, típicos de Taroudant, evocam inevitavelmente os tuaregues, os célebres homens azuis do deserto.

Comparada frequentemente a Marraquexe, Taroudant, no entanto, não sofreu o desenvolvimento desta última, mantendo-se dependente do comércio e da produção artesanal de artigos em pele e ourivesaria, valendo-se do enorme afluxo de turistas provenientes de Agadir. Admito como sabe bem esta letargia, o passear errante pelos diversos souks sem qualquer preocupação a não ser regatear os preços com habilidade e competência! Existe um, o dos berberes, consagrado aos produtos alimentares, às especiarias (não deixe de comprar açafrão do verdadeiro, em hastes e não em pó) e às plantas medicinais, e outro, o dos árabes, de ambiente mais calmo, onde se encontram as boutiques mais “bem postas”. Ambos merecem igual atenção para que depois, compras feitas e longe da vista dos vendedores (às vezes perseguem-nos descendo os preços das mercadorias a cada 10 metros de caminho), procuremos um cantinho para relaxar na belíssima Praça Assarag, o coração da cidade, provavelmente desde os tempos em que esta era a capital do sul ou que serviu de bastião na luta contra os portugueses.

Fica-se zonzo de tanto movimento, aroma e cor – das bancadas de laranjas, especiarias e CDs piratas; das mulheres em túnicas que lembram saris cor de mostarda e púrpura; do vaivém das bicicletas e dos turistas –, deliciosamente envolvido nesta espécie de corrupio sem pressas magrebino.

Agradecemos a colaboração da Royal Air Maroc e do hotel Hélios Palais des Roses
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