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XL
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> Costa Rica
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| D O S S I E R |
Março
de 2005 |
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Um
país minúsculo, mas com uma
riqueza natural tremenda: inúmeras
florestas tropicais, milhares de espécies
de plantas e animais, uma cordilheira de montanhas
vulcânicas, recifes de coral e extensos
areais banhados por águas azul-turquesa.
Os seus olhos e ouvidos não estão
preparados para tamanha sobrecarga de sensações.
É aqui que vai encontrar a verdadeira
“Pura Vida”
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Texto e fotos de Mirjam Bleeker |
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Os
costa-riquenhos costumam atingir idades avançadas,
o que pode dever-se ao seu estilo de vida despreocupado.
Os quatro milhões de ticos e ticas, como se auto-dominam
os homens e as mulheres destes pequeno istmo entre a Nicarágua
e o Panamá, não parecem conhecer o significado
da palavra stress. “Amanhã é suficientemente
cedo, agora é preciso aproveitar o dia”,
é um dos lemas pelos quais se regem. E parece que
não têm motivos de grandes preocupações.
Este é o país mais próspero da América
Central. Embora os seus vizinhos tenham passado por momentos
tumultuosos, a Costa Rica foi sempre um oásis de
tranquilidade e estabilidade política. É
um dos poucos países que nem sequer tem exército,
e a sua economia baseia-se nas produções
de banana, café e ananás, mas principalmente
no turismo ecológico que tem vindo a aumentar de
forma considerável nos últimos cinco anos.
Tudo graças a um esforço governamental que
instituiu o programa de reflorestação mais
progressivo das Américas e lançou, no início
dos anos 90, uma campanha internacional que promove a
Costa Rica como “amiga do ambiente”.
Na verdade, este minúsculo país –
que ocupa 0,03 por cento da superfície terrestre,
ou seja, é mais ou menos do tamanho da Suíça
– é um luxuriante paraíso tropical
que possui quase cinco por cento da biodiversidade do
planeta, com cerca de 12.000 espécies de plantas,
das quais 1400 árvores, 850 espécies de
aves, 350 de répteis, 130 de peixes de rio, 3000
de borboletas, 200 de mamíferos e cerca de 40.000
de insectos. Mas não é tudo. Os costa-riquenhos
respeitam profundamente o meio ambiente, são um
povo orgulhoso e com toda a razão. Poucos entre
nós podem afirmar pertencer a um país que
possui 25 Parques Nacionais (entre inúmeras reservas
naturais e biológicas), com uma área protegida
que atinge os 27 por cento da sua área total. Sem
esquecer a sua diversidade paisagística. O país
está dividido por uma cordilheira com 112 vulcões,
cinco dos quais activos, possui uma costa com 1200 quilómetros
banhada, de um lado, pelo Pacífico e, do outro,
pelo Caribe, e algumas das praias mais belas do mundo;
múltiplas florestas tropicais húmidas, mas
também bosques secos e paisagens vulcânicas
inóspitas…
Por tudo isto, em pouco menos de uma década, a
Costa Rica deixou de ser apenas um paraíso de aventureiros
e turistas de mochila às costas. Gradualmente,
o segredo tornou-se conhecido e o ecoturismo passou a
ser um movimento nacional. Só em 2004, a Costa
Rica recebeu cerca de 1.2 milhões de visitantes,
mais 20 por cento do que no ano anterior, mas o esforço
para manter este éden intacto mantém-se,
com os hotéis a serem construídos segundo
standards de conservação e preservação
da natureza e a apostar num estilo de turismo muito específico
e pouco vocacionado para as massas.
De San José a Manzanillo
Chegamos de manhã cedo a
San José, a capital, e onde fica o aeroporto internacional.
A cidade fica situada a cerca de 1000 metros acima do
nível do mar e está rodeada por uma cordilheira
que aloja uma série de vulcões. Apesar de
possuir pouco da monumentalidade das cidades coloniais
da América latina, o centro é sossegado
e quase provincial, sem edifícios elevados, e é
fácil deslocarmo-nos pelas suas ruas. O Mercado
Central, um espaço coberto com muitos estabelecimentos
alimentares e grandes bancas de frutas e legumes, flores
e plantas cultivadas em musgo, é uma versão
miniatura da Costa Rica, uma amostra colorida do que nos
espera. Podemos cheirar e saborear a selva e isso aguça
o nosso sentido de aventura.

| Casa
colorida em La Fortuna |
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Embora tenha dimensões
reduzidas, este não é um país que
se possa conhecer numa única viagem. Apesar de
desenvolvido e com uma mentalidade pró-ambiente
e pró-turismo, as suas estradas não são
fáceis e muitas delas demoram horas a ser percorridas,
principalmente na época das chuvas, quando a simples
travessia de um riacho se pode transformar numa epopeia.
Da costa este à oeste, são apenas cerca
de 160 quilómetros, mas, de carro, o percurso chega
a demorar 12 horas! A Costa Rica pode ser dividida em
oito regiões – San José e Vale Central,
Alajuela, Guanacaste, Península de Nicoya, Quepos,
Osa, Cahuita e Tortuguero –, por isso, a menos que
tenha um mês de férias, é preciso
fazer opções antes de partir.

| Jovem
surfista numa das estradas de Nosara |
|
Na manhã seguinte, bem
cedo, alugamos um todo-o-terreno. Tratamos da papelada
em meia hora, as pessoas são prestáveis
e eficientes e estão, evidentemente, habituadas
a lidar com viajantes. Depois de colocarmos a nossa bagagem
no carro, deixamos a capital. Após 30 minutos,
estamos numa estrada serpenteante que sobe uma montanha,
as florestas enevoadas são visíveis à
distância, estamos rodeados por nuvens e sentimo-nos
completamente hipnotizados. Durante os próximos
dias, vamos descobrir que a Costa Rica é sinónimo
de natureza, natureza e mais natureza.
Partimos para sul, em
direcção à costa banhada pelo Caribe.
A estrada descendente faz-nos atravessar a cidade portuária
de Puerto Limón, a caminho de Manzanillo, que fica
mesmo a norte da fronteira com o Panamá. Embora
o país tenha duas estações, húmida
(de Janeiro a Abril) e seca, não há grandes
oscilações climatéricas na costa
caribenha. Ao longo do ano, chove pouco, o que explica
que as suas praias de areia branca rodeadas por selva
sejam das mais apreciadas por surfistas.
Descemos junto até Cahuita,
onde os cartazes que dizem “isto não presta”
já se tornaram uma espécie de imagem de
marca deste pedaço de terra que qualquer um de
nós gostaria de esconder do resto do mundo. Ali
ao lado, a Playa Negra tem, como o nome indica, areia
negra, mas em Puerto Viejo e Punta Uva, o areal é
claro e as águas azul-turquesa.
Grande parte da população
de Manzanillo é originária da Jamaica e
veio para a vila para trabalhar nos caminhos-de-ferro.
A atmosfera é dominada por um certa cultura rasta
e casas pintadas de cores vibrantes. Se os costa-riquenhos
em geral são despreocupados, em Manzanillo a vida
é 100 por cento livre de stress. Aqui vive-se com
calma, em torno da praia e à sombra de uma palmeira.
A praça principal da vila é uma cacofonia
de mulheres a conversar, os pescadores fazem o seu trabalho
e há crianças a jogar à bola na praia,
mesmo ali ao lado. Todos se conhecem e o Maxi’s
Bar, o ponto de encontro local, está sempre a abarrotar.

| Papaias
no mercado de San José, a capital |
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Estamos hospedados no Congo Bongo,
um estabelecimento rústico com cabanas de madeira
escondido na selva, mas a curta distância a pé
da praia. Daan, o proprietário holandês,
foi atraído pela atmosfera descontraída
do país e instalou-se aqui há muitos anos.
Alugamos bicicletas para explorar as pequenas vilas e
praias vizinhas e, nos primeiros dias, demoramos a habituarmo-nos
aos hábitos e ritmos locais. Anoitece cedo e, nessa
altura, estamos à mercê do reino animal.
Uma vez no quarto, caímos num sono profundo, embalados
pelos sons das cigarras, dos sapos e dos tucanos. No dia
seguinte, somos acordados pelos macacos-uivadores, que
produzem uma quantidade impressionante de decibéis,
tendo em conta a sua pequena estatura.

| Praia
na zona de Manzanillo |
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O vulcão Arenal e as
florestas de Monteverde
Ao fim de alguns dias, partimos.
A estrada conduz-nos por entre vastas plantações
de bananas, uma paisagem recorrente. Voltamos para trás,
em direcção a San José e rumo a La
Fortuna. A distância é curta no mapa, mas,
na realidade, demora muito tempo a percorrer, principalmente
quando seguimos atrás de um comboio de camiões
muito lentos numa estrada de montanha! Porém, a
paisagem que se vai desdobrando perante os nossos olhos
é tão magnífica que o ritmo lento
não chega a incomodar. Num instante vemos campos
com vacas a pastar, no seguinte plantações
de café, seguidas de florestas enevoadas com magníficas
cascatas. Há uma nova surpresa a cada curva. A
beleza e a variedade da paisagem deixam--nos estupefactos.

| Ponte
suspensa na Reserva Biológica da Floresta
de Monteverde |
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A noite já caiu quando
chegamos a La Fortuna, uma vila no sopé do vulcão
Arenal, que é um dos mais activos do mundo. Adormecido
durante centenas de anos, a sua última grande erupção
foi em 1968, destruindo a vila de Tabacón e matando
cerca de 80 pessoas. Desde então, nunca mais acalmou
e solta doses de lava vermelha incandescente com grande
regularidade, bem visível em noites límpidas,
quando o topo do seu cone perfeito não está
envolto em nuvens.
La Fortuna fica no coração
do Parque Nacional Arenal e é o local certo para
praticar actividades ao ar livre. As pessoas fazem expedições
a pé ou a cavalo até ao vulcão, onde
os turistas se maravilham com os velhos riachos de lava
e sentem a montanha tremer. Outro must é a queda
de água de La Fortuna. Subimos uma pequena escada
esculpida na rocha da montanha até chegarmos ao
regato onde a cascata derrama a sua água. Há
uma praia minúscula onde se pode nadar e algumas
pessoas vestem os fatos-de-banho para se refrescarem.
Decidimos juntar-nos a elas, mas a água, apesar
de cristalina, é gelada. Mais acima, existe uma
grande cratera onde se pode nadar, mas decidimos deixá-la
para a próxima visita.

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Saímos do Arenal e prosseguimos
a nossa viagem através das florestas enevoadas
de Monteverde e Santa Elena (classificadas como reservas
biológicas, onde estão identificadas cerca
de 490 de borboletas, 2500 de plantas – 500 são
de orquídeas –, dezenas de milhares de insectos,
400 espécies de aves e mais 100 espécies
de mamíferos, incluindo o jaguar e a anta e o mítico
quetzal). Mas visitar as florestas mais belas da Costa
Rica tem um preço – alguns pontos chegam
a só ser acessíveis de helicóptero
e de barco – e a viagem requer alguma perseverança.
A irregular estrada de
terra batida, com buracos fundos, parece uma pista de
corridas para todo-o-terreno. Demoramos duas horas a percorrer
35 quilómetros, pelo que viajar sem um 4x4 está
mesmo fora de questão, mas a recompensa está
à vista de todos…
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| Bar
da Olga e Guilded Iguana, em Nosara |
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A floresta é arrebatadoramente
bela. As árvores parecem cercadas por lã
de algodão e embrulhadas em orquídeas e
musgo. Independentemente da direcção para
onde se olha, vêem-se flores coloridas, lianas e
trepadeiras, bem como sapos encarnados, borboletas e aves
de cores impossíveis e uma ocasional preguiça,
pendurada no topo de uma árvore. Alguns passadiços
colocados estrategicamente permitem-nos, virtualmente,
andar no cimo das árvores. Quem quiser uma experiência
ainda mais aventureira, pode experimentar o canopy, uma
pequena cadeira presa por um cabo de ferro, que desliza
entre o topo das árvores a alta velocidade!
Refúgio dos guerreiros
Estamos
a caminho da costa oeste, rumo a Nicoya, uma península
plana e seca. Apetece-nos ir para a praia, apanhar sol
e fazer surf e o sistema de estradas da região,
recentemente melhorado, faz-nos lá chegar a uma
velocidade consideravelmente mais rápida. Chegamos
a Nosara, uma pequena vila que nos dá uma impressão
completamente diferente da Costa Rica. Trata-se de um
local muito seco e poeirento, com uma distinta atmosfera
Ocidental. O ar empoeirado, os cowboys montados a cavalo
e as vastas planícies lembram mais as pampas argentinas
do que a Costa Rica. Uma vez por mês, dependendo
da lua, um vento forte começa a soprar, tornado
o local num paraíso para surfistas!
Um labirinto de pequenas
estradas de terra passa por vários hotéis
e pequenos restaurantes, mas todas parecem ir dar às
longas e vastas praias. Também aqui a descontracção
é total. Juntamo-nos aos habitantes no Bar da Olga,
a comer lagostins apanhados nesse dia; a opção
é deliciarmo--nos com uma perca gigante, preparada
no Guilded Iguana. La Tigra, uma campeã de boxe
e professora no local, convida frequentemente os alunos
para almoçar ou jantar no jardim dela depois de
um treino. La Luna, um restaurante na praia, é
um dos melhores e serve pratos coloridos e deliciosos,
um festim para as papilas gustativas enquanto se ouve,
ao longe, o murmúrio ritmado do mar.
A
cada dia que passa torna-se mais evidente por que este
local atrai tanto os jovens como os adeptos de locais
trendy. A Península de Nicoya e a região
de Quepos (um ferry atravessa o golfo de Nicoya e liga
a península ao continente, em Puntarenas), onde
fica o célebre Parque Nacional Manuel António,
são pontos frequentados por top models e actores
famosos. Vivem aqui norte-americanos reformados, surfistas
de renome e ticos fazendeiros, além de esta costa
estar povoada pelos melhores hotéis de charme da
Costa Rica.
É claro que ninguém no seu juízo
perfeito iria deixar de visitar os parques e as reservas
biológicas, mas depois de uma semana a fazer caminhadas
por florestas cerradas, rafting em rios caudalosos, a
escalar encostas de vulcões e a conduzir por quilómetros
de estradas esburacadas, nada como passar uma semana inteirinha
numa praia deserta. “Pura Vida” é uma
saudação nacional e a frase que a Costa
Rica utiliza para se promover, dizendo ao mundo que aqui
vive-se a natureza em estado puro.
É época alta e estamos a pensar onde estarão
todos os turistas.
A Costa Rica parece ser a última fronteira, faz-nos
pensar que ainda há muito por descobrir. O facto
de o turismo ser de pequena escala só torna a visita
ainda mais especial. A viagem foi longa e cansativa e,
depois de regressarmos novamente a San José, é
altura de voltar para casa. Não conseguimos conhecer
toda a Costa Rica. Teremos de voltar.

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