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   XLRotas & DestinosEm Destaque > Trancoso

D E S T A Q U E Março de 2010   
   
Trancoso, o vilarejo no litoral sul da Bahia com o metro quadrado mais caro do Brasil, rima com maravilhoso, gracioso, amistoso, gostoso, dispendioso e tantas outras palavras que nos remetem para um lugar que, sem muito espalhafato, é um dos grandes destinos-sensação de 2010.

Texto de João Miguel SimÕes | Fotografia de Pedro Sampayo Ribeiro
   

P U B L I C I D A D E

Uxua Casa Hotel
Menos de uma hora de carro separam Porto Seguro de Trancoso, mas, baianidades à parte, é como ir de um planeta ao outro, tamanhas são as diferenças. Estrelas de cartaz do litoral sul da Bahia, o primeiro enveredou, sem volta, por um modelo de turismo de massa, ao passo que o segundo se tornou o pedaço de terra e mar mais cobiçado do Brasil, com uma valorização imobiliária vertiginosa nos últimos anos. Só para ter uma pequena noção, dos antigos casebres de pescadores muito poucos são os que restam nas mãos dos seus primeiros proprietários, e o metro quadrado junto à praia ascende hoje a valores que se aproximam do cobrado no Shopping Iguatemi, em São Paulo, apontado como o mais caro da América Latina. Achar quem venda não é impossível, mas tem de se estar preparado para pagar somas astronómicas, pois quem detém a terra sabe de antemão que se arrisca a perder dinheiro no negócio face à velocidade com que a mesma se está a valorizar de dia para dia

Detalhes das nove casas do Uxua Casa Hotel, uma das novas moradas de Trancoso. De áreas generosas, entre os 90 e os 240 metros quadrados, estes alojamentos possuem uma a três suites, cozinha e sala de estar. Praia dos Nativos e as casas coloridas do Quadrado. Piscina comum revestida a cascalho. Quarto da Casa da Árvore, ao estilo Robinson Crusoe, também no Uxua, e a Praia do Rio Verde, onde é possível passear a cavalo

Wilbert Das, o holandês que por um bom tempo assumiu a direcção artística da marca italiana Diesel, começou a comprar casas no Quadrado, a praça rectangular que foi crescendo em torno da igreja de São João, fundada pelos Jesuítas. Como tantas outras figuras ligadas ao mundo da moda – das supermodelos Naomi e Gisele aos gurus Calvin Klein, Valentino, Manolo Blahnik ou Diane von Furstenberg –, Das veio de férias em 2004, mas logo se tomou de amores pelo estilo de vida despojado, que ainda admite pé descalço, um fuso horário muito próprio (a maioria dos restaurantes não abre ao almoço e as lojas só começam a despertar a partir das quatro da tarde, ficando a actividade até então por conta das piscinas e das praias) e uma identidade que consegue ser “artificial” sem deixar de ser legítima.

Óbvio, o vilarejo de pescadores que só viu a estrada e a electricidade chegarem no século XXI já não é o mesmo de antes, mas no Quadrado continuam a existir apenas as duas fileiras de casas de outrora e os carros só entram para cargas e descargas até às dez da manhã (a entrada de Trancoso é mais tumultuada e não tão dispendiosa, mas ai podem circular viaturas sem restrições).

Com um bom gosto que se socorreu de tintas e materiais coloridos, a maioria dos forasteiros, oriundos de São Paulo, deu outra vida às fachadas recuperadas, que vai muito bem com o rosa e o laranja incandescentes das Acácias-Rubras, também conhecidas por “Flamboyants”. O holandês, que se divide agora entre França, Itália, o seu país natal e o Brasil, ganhou muito depressa a admiração local, pois não só arremessou o conceito de hotel-casa para um patamar raramente visto por aquelas bandas, como demonstra sensibilidade ecológica, respeito pelos costumes e trouxe uma visibilidade ainda maior que já rendeu a Trancoso uma nova clientela hip europeia e norte-americana (publicações como o New York Times elegeram este como um destino-sensação em 2010 e muitos são os nova-iorquinos influentes que estão a fazer na Bahia e em Trancoso o seu debut brasileiro) e produções de grande destaque como a edição deste ano do célebre calendário Pirelli (a produção, muito arrojada, causou alvoroço na vila). Um dos grandes trunfos do Uxua Casa Hotel, assim se chama a propriedade idealizada por Das, é que este, muito bem apoiado por uma equipa de profissionais competentes, sem ter vista para o mar (isso fica por conta do seu bonito bar de praia, entre a dos Nativos e dos Coqueiros, aberto também a não hóspedes), conseguiu criar um autêntico jardim das maravilhas, onde se distribuem somente nove casas, baptizadas de Seu Pedrinho, Seu João, Nozinho ou Quintal da Glória, de 90 a 240 metros quadrados, com uma a três suites, cozinha e sala de estar. A ideia é a de estar numa casa de férias, mas com serviço de um hotel cinco estrelas que não caiu na pretensão imperdoável de esquecer o lugar onde está. Por isso mesmo, e apesar de todas as ideias trazidas de fora, Das fez questão de conseguir o seu estilo baianorústico- chique com a ajuda de artesões locais (incluindo os índios Pataxó) e de priorizar técnicas nativas como os telhado feitos de piaçaba trançada, chuveiros em tronco de eucalipto, uma piscina comum revestida a cascalho ou bancos de madeira que utilizam os troncos de árvores derrubadas na propriedade. A isto somam-se modernidades e confortos indispensáveis, mas a sensação é mesmo a de se estar entre amigos e não num hotel.

Sala de Seu Pedrinho, uma das nove casas que constituem Uxua. Wilbert Das, ex-director criativo da Diesel que se apaixonou por Trancoso e aqui construiu um dos alojamentos mais desejados da vila, num estilo baiano-rústico-chique. Sem ter vista para o mar, Uxua possui um bonito bar de praia, entre a dos Nativos e dos Coqueiros, aberto também a não hóspedes.

Na verdade, já pousadas como a Estrela d’Água, instalada no que foi a casa da cantora Gal Costa, ou a Etnia, que tem como co-proprietário um antigo colaborador de Jean-Paul Gaultier, tinham criado um estilo distinto de receber, mas Uxua inaugurou uma outra época e abriu caminho para que o grupo Fasano, muito elogiado pelos seus hotéis-boutique de São Paulo e Rio, se prepare para assumir a gestão de uma nova propriedade que vai surgir, pela mão de investidores suecos e de Itacaré, na praia da Ponta da Itapororoca. Enquanto isso não acontece, o Uxua vive lotado de todos aqueles que não se importam de pagar pelos prazeres terrenos, ao mesmo tempo que Trancoso não dá mostras de querer substituir as suas estradas de terra batida por asfalto. Talvez porque isso a mantém a salvo de maiores enchentes indesejáveis, e porque há muito boa gente que, na ausência de uma classe business nas carreiras comerciais entre Salvador e Porto Seguro, vá e venha de helicóptero ou de jacto privado.

Jacaré do Brasil
É fácil cair na tentação, por tudo o que se ouve e lê (não só no Brasil mas também em outras partes do mundo), de dizer que Trancoso, tendo deixado há muito de ser uma novidade, está neste momento a ser tratado como uma espécie de revelação. Não está na moda, nem se trata apenas de um fenómeno estival. Ascendeu antes à categoria restrita de destino jet-set, com uma frequência digna desse nome que não se limita, em muitos casos, a estar de passagem ou a ser um mero convidado VIP.

Óbvio que muitos dos nomes sonantes, ligados à moda, ao entretenimento, ao futebol e a outras actividades com purpurina, são presenças fugazes no Quadrado, apenas notadas porque para isso existem promotores e colunistas sociais sempre atentos. Há, no entanto, uma classe à parte, que transita na alta roda internacional, que não se deixa ver e raramente se mistura ao comum dos turistas, pois tem a sua mansão de sonho nos condomínios privados que se estendem à volta do vilarejo, de preferência voltada para uma das praias menos frequentadas. Para que fique claro, estou a falar de personalidades como um conde Philippe de Nicolay, descendente dos Rotschild, ou de um João Roberto Marinho, das Organizações Globo.

Com decoração contemporêna de Stig Bergamin, nome bem conhecido no Brasil, e paisagismo de Gilberto Elkis, as casas do Jacaré do Brasil possuem um ou dois quartos, várias zonas de estar, cozinhas externas e terraços espectaculares. A piscina com vista para o Atlântico e o relvado da propriedade convertido em zona lounge para os hóspedes das cinco unidades

É nestas casas, ao abrigo dos olhares curiosos, que muitos se refugiam e onde o boca-a-boca mais funciona em prol da fama ascendente de Trancoso. Nada mais natural que quem se possa dar a esse luxo, depois de experimentar o bem- -bom de ser hóspede, se sinta tentado a também ele adquirir o seu pedaço de paraíso. Não deixa de ser uma espécie de manobra de sedução.

Fernando Droghetti, empresário paulista mais conhecido como Jacaré, foi um dos primeiros forasteiros a chegar, na década de 1970, quando Trancoso ainda se podia dizer uma aldeia piscatória. Os pescadores já se foram há muito, e os que ficaram preferem hoje prestar serviço aos ricos, mas Jacaré, que acompanhou a passagem do vilarejo de sensação hippie a acontecimento social, ficou. Ficar é, entenda-se, uma forma de expressão, pois está habituado a dividir-se por vários locais do mundo e mantém o seu negócio, agora através da venda online, de decoração. O certo é que começou por ter uma pousada no Quadrado, que depois vendeu, até conseguir o pedaço de terreno desejado, também na praça, mas mesmo junto à igrejinha, com a melhor vista sobre o litoral.

Ainda assim, Droghetti não acertou a mão logo à primeira. Ou melhor, acertar até acertou, pois teve desde sempre uma boa adesão ao seu conceito de providenciar a quem não tem casa na região – ou a sorte de ter um amigo que possua uma e goste de receber – um porto de abrigo, mas só a partir de Setembro de 2007, altura em que se deu a grande reforma, se pode realmente falar de um lugar que nos faz acreditar, por poucos ou muitos dias, que também nós, sem sermos milionários mas apenas bem remediados, nos podemos dar ao luxo de brincar às casinhas no Quadrado-Rectângulo de Trancoso.

Os 11 quartos deram então vez a cinco casas apenas, com decoração contemporânea de Sig Bergamin (que recorreu a algumas peças comercializadas por Jacaré, mas não só), nome bem conhecido no Brasil, e paisagismo de Gilberto Elkis. Quem as vê por fora, não imagina o que lá vai por dentro. A maior é a n.º 1, com dois quartos e chuveiro no exterior, mas são as n.º 2 e n.º 5 que possuem os terraços mais espectaculares, com cozinhas externas, cadeiras Eames e Butterfly ou camas de dia. Sem perder, claro está, pitada do panorama de fazer cair o queixo. Antes vinham mais brasileiros, presentemente mais estrangeiros, mas uns e outros apreciam a sensação de estar em casa, mas sem as maçadas de estar, efectivamente, em casa. O conceito hotel-casa certifica um atendimento personalizado e privacidade total. Nas áreas comuns, com três zonas de estar, bar de apoio e até uma cozinha exterior para preparar um jantar especial panorâmico, espaço de sobra para uma piscina sobre a linha do horizonte, um pomar e várias cadeiras no relvado para ficar a ver a vida passar. Sem pressas ou neuras. E não há praticamente impossíveis, tanto que o lema ali é que “do jegue (burro) ao helicóptero, tudo se arranja”.

Quarto e sala de uma das cinco casas do Jacaré do Brasil decorados com cadeiras Butterfly e mesa Eames. Deck privado de uma casa e o pomar com vista para o mar, onde várias cadeiras convidam ao repouso. Ao centro, Cristina Pessoa, designer de jóias que escolheu Trancoso para abrir a sua primeira loja. Nuno Fernando Franco, proprietário da pousada El Gordo

Numa certa noite de lua cheia, momento alto para quem tem a sorte de estar no Jacaré, saí por momentos para me ir sentar no relvado da Praça São João (assim se chama o Quadrado), onde várias outras pessoas faziam o mesmo para assistir ao filme que passava, numa tela improvisada, ao abrigo de um festival de cinema. Ao redor, ao olhar para as luzinhas coloridas das muitas lojas e restaurantes de marca que enfeitam as laterais do Quadrado, não pude deixar de concordar. Querendo e podendo, tudo ali se arranja. Talvez por isso, a melhor frase que me ocorre para encerrar este capítulo seja mesmo a que ouvi da designer de jóias Cristina Pessoa. Nascida em Brasília, mas há muitos anos a morar em Barcelona, esta bela mulher não teve dúvidas em escolher Trancoso como o lugar certo para abrir a sua primeira loja. Afinal, “Trancoso é uma montra para o mundo”.

El Gordo e Bendito Seja
Conta-se que os donos das pousadas no Quadrado não descansaram até conseguirem “enxotar” os bares mais barulhentos para fora dos seus limites e para as praias. Em abono da verdade, sobrou um ou outro, mas, numa manhã de domingo, em que gostaria de ter dormido mais um pouco, perguntei-me se a missa transmitida por altifalante também não poderia, heresia à parte, ser considerada uma espécie de “intromissão” invasiva... Adiante.

Nuno Fernando Franco, mais conhecido por “El Gordo”, chegou a Trancoso em 2001. Ou melhor, começou por vir de férias, mas, à semelhança de outros empresários sempre de olho no negócio, não se limitou a ficar de papo para o ar. Bem conhecido em Lisboa graças às suas três casas de tapas, este português tentou repetir a receita de sucesso em Trancoso, só que a reacção dos palatos, habituados a outros temperos, não foi a desejada – voltará a tentá-lo no Rio, com um restaurante já na calha no bairro do Leblon –, pelo que a sua pousada- -restaurante seguiu um outro caminho. Aberto há cerca de sete anos, depois de ano e meio de obras, El Gordo tenta, precisamente, sem alardes e com um toque mediterrânico, tornar as noites no Quadrado mais cosmopolitas, com serviço de bar e restauração até à uma da manhã. É praticamente o único naquele “rectângulo” a fazê-lo com elevada distinção.

Uma das suas “cabanas” escondidas no meio da vegetação; o deck de madeira e a piscina com vista para o mar; e um dos pratos servidos no restaurante, um dos mais elogiados de Trancoso. El Gordo tenta, sem alardes e com um toque mediterrânico, tornar as noites no Quadrado mais cosmopolitas. O serviço de bar e restaurante está aberto até à uma da manhã.

Com um total de 12 quartos de várias categorias – quatro são recentes, com destaque para as duas “cabanas” no meio da vegetação que garantem vista panorâmica a partir da cama –, El Gordo fica no lado certo do Quadrado, ou seja, naquele que, por estar debruçado sobre uma falésia, proporciona nas suas traseiras vista para o mar. A piscina, com borda infinita, é também uma das mais bonitas por ali, sendo precisamente ao redor dela que funcionam o bar e o restaurante. Há um toque tropical, claro, mas Nuno, que não dispõe de muito espaço, optou por uma sofisticação mais “europeia”. No restaurante, comandado pelo chef Wladimir Umezu, o menu acusa a influência portuguesa em pratos de bacalhau, mas afirma-se abrangente para, sem praticar preços baixos, agradar em cheio e ser um dos mais elogiados. Mas a questão dos preços elevados não passa ao lado deste empresário. A maioria dos seus hóspedes vem das grandes capitais brasileiras e costuma ficar, em média, quatro dias. É um tipo de cliente que está acostumado a pagar pelo que é bom, mas, ainda assim, Nuno acha que se está a enveredar por um caminho demasiado pretensioso, onde o serviço oferecido nem sempre justifica os valores exorbitantes cobrados. Talvez por isso não hesitou em ser dos primeiros a baixar os preços das suas diárias, aproximando-as mais da realidade que se vive na Europa.

Por falar em praias, a predilecta de Nuno é a do Rio Verde, também conhecida por Pedra Grande, com acesso fácil através das mais populares e frequentadas, Nativos e Coqueiros. É também ali que aponta dois bares de praia que, a seu ver, merecem o destaque: o Beach Club e o Paradise. Apoiados por pousadas e com serviço de restauração, um e outro têm espreguiçadeiras, camas de dia e mordomias para quem já não quer esticar apenas a toalha na areia. O primeiro, mais antigo, apostou no branco; o segundo, aberto desde Dezembro de 2009, é multicolorido. Ambos funcionam desde manhã até ao final da tarde e nunca deixam a música esmorecer. Mais a sul, a praia do Espelho, eleita como uma das mais bonitas do Brasil, também está no roteiro de Nuno, mas este não deixa de notar que, nos últimos tempos, a acha “um pouco caída”. A observação não é, de todo, descabida. Apesar de a viagem de carro a partir do centro de Trancoso levar quase uma hora, grande parte dela por estrada de terra batida, nem mesmo isso tem travado a sua “democratização”. A crescente popularidade levou a prefeitura local a cobrar, arbitrariamente, uma taxa de cerca de seis euros por pessoa, sendo também responsável por algumas mazelas visíveis a olho nu. É que, como alguém já disse, a praia do Espelho não combina com o modelo importado de outras bandas, que tentou substituir a calma e a sofisticação do pé descalço por um turismo massificado e de “pé de chinelo” sem modos.

Um dos quartos, exterior e sala da Pousada Bendito Seja. O jovem chef Felipe Espírito Santo, que completou a sua formação na prestigiada École Grégoire Ferrandi, em França, tendo estagiado em vários restaurantes estrelados. De férias no Brasil, não resistiu ao convite e aceitou o desafio de ficar à frente da cozinha da Pousada (à dir.)

Não julgue, porém, que saí do Espelho de mau humor. Nem poderia. Como ficar insensível a uma língua de areia clara, bordejada de um lado por um mar muito azul e quente domado por recifes, e de outro por uma linha de falésias, coqueiros e pequenos rios que formam enseadas pitorescas? A designer de moda carioca Maria Thereza da Costa, com casa no Porto e ascendência minhota, não conseguiu. Depois de anos a veranear no condomínio vizinho Outeiro das Brisas, ponto elitista com direito a pista para aviões e helicópteros privados, a oportunidade surgiu e comprou um terreno à beira-mar, no trecho conhecido como Curuípe.

Se estabelecimentos como a Pousada do Baiano fizeram dos lounges relvados com camas e almofadas floridas a imagem de marca do Espelho, a Bendito Seja “subiu a parada”. Inaugurada em 27 de Dezembro de 2009, esta pousada devolve a esperança e assume, sem arrogância, a pretensão de reverter o actual quadro, atraindo um outro padrão de hóspedes. Os 11 quartos, com vista para o mar, mais parecem casas de bonecas, e são personalizados com portadas antigas a servir de cabeceiras das camas de dossel, frases de celebridades locais bordadas nas colchas, ecrãs LCD, bases para iPod, máquinas de café Nespresso, chuveiros duplos e banheiras de hidromassagem ou Internet sem fios. Maria Thereza ocupou-se de cada detalhe, da escolha de peças como os grande potes trazidos de Belmonte ou da cabeça do Buda que adornam os jardins, e rodeou-se de boas parcerias. Rico Araújo, ceramista, é exemplo disso, mas também o são o gerente, que trabalhava no badalado Bar d’Hôtel do Rio, e o jovem chef Felipe Espírito Santo, particularmente promissor. Menino do Rio, Felipe completou a sua formação na prestigiada École Grégoire Ferrandi, em França. Munido da técnica e dos conhecimentos, pratica no bistrot da pousada uma cozinha contemporânea que, à primeira vista, pode até parecer demasiado sofisticada para uma praia, mas revela-se suficientemente leve e inspirada para convencer. Se tudo correr como previsto, e Felipe continuar a conquistar admiradores, é bem provável que daqui a um ano a marca Bendito Seja voe até ao Rio para disputar uma vaga na cena da restauração carioca. Apetece dizer “Amén”.

Beach Club na praia do Rio Verde; jardim do Club Med Trancoso, com direito a camas de dia e uma das jovens assistentes do Club no Buraco 14, no Terravista Golf, que está entre os dez mais bonitos do mundo. O relvado do Quadrado, que serve, com frequência, de campo de futebol e a Praia dos Nativos. Na pág. ao lado: Praia de Itaquena

Club Med Trancoso
Buraco 14. Não é à toa que está entre os dez mais bonitos do mundo. Debruçado sobre a praia de Taípe, no cimo de uma falésia rosa, é o tipo de coisa que faz um não golfista dispor-se, se possível fosse, a desembolsar cerca de 40 euros – que é quanto o Club Med Trancoso cobra por um dia no Terravista Golf – só pelo privilégio de ir até ali para gozar o panorama. De norte a sul, até onde os olhos enxergam e o mapa acompanha, um dos mais belos litorais da Bahia, trecho da cobiçada Costa dos Descobrimentos, com uma sucessão de praias mais ou menos acessíveis, mais ou menos desertas, mas quase sempre apetecíveis.

Se imaginar que sigo pela esquerda, sei que irei dar a Arraial do Cabo, mais tranquilo do que Porto Seguro mas sem o cachet de Trancoso, ao passo que para a direita fica o quinhão das praias mais sonhadas. Antes de Trancoso vem a do Rio da Barra, na foz do rio, com acesso a pé a partir da dos Nativos, a mais central em relação ao Quadrado. A dos Nativos e a dos Coqueiros, encalhadas às margens do rio Trancoso, têm vindo a ser tomadas de assalto pelos bares de praia mais populares, na verdade barracas sem grande graça para quem já viu melhor (e não estava habituado a ter nas imediações de Trancoso cadeiras de plástico e logos das marcas de cerveja). A excepção fica por conta dos bares da pousada Estrela d’Água, do Tostex (um point para os mais novos que gostam de dançar na praia ao som de DJs nacionais e internacionais), do Cauim e do Uxua Praia Bar. Mais adiante, a cerca de 20 minutos de caminhada no areal, fica a do Rio Verde, bordejada por coqueiros, mar habitualmente calmo e lounges de dia mais caprichados (ver El Gordo). É a partir da Ponta da Itapororoca, com vasto areal e piscinas naturais formadas na maré baixa, que o esforço aumenta na mesma proporção da recompensa.

Para chegar à Itapororoca não há outro remédio senão caminhar pela praia durante uns bons 45 minutos desde Rio Verde. Da Ponta de Itapororoca até à Ponta de Itaquena dá uma 1h30. Exige fôlego, mas talvez reconsidere se lhe disser que encontrei esta praia, das mais bonitas que vi nos últimos tempos, totalmente deserta. Rodeada por um condomínio de luxo, o acesso por estrada fica restrito a quem tem casa por ali, a quem é convidado ou tem a “cara de pau” de mexer os cordelinhos e usar o bom e velho estratagema do amigo do amigo do primo do dono – o meu caso com a devida cumplicidade local. No caso de ir de moto ou de bicicleta, como fazem muitos surfistas que adoram acampar na praia em noites de lua cheia, é provável que as cancelas se abram. A bem dizer, não há praias privadas no Brasil, mas o privilégio de acordar numa é cada vez mais coisa de gente com (muito) dinheiro e que não perde tempo com viagens de carro. Muito menos a andar a pé debaixo do inclemente Sol baiano. Ainda assim, há quem esteja disposto a fazer mais cerca de uma hora até à praia da Barra, na foz do rio dos Frades, ou até mesmo cinco horas a pé para ir de Trancoso à praia do Espelho. Mais a sul ainda, Caraíva, a praia, que também é nome de um vilarejo de ruas de areia onde vive uma comunidade índios Pataxó, justifica, se for o caso, o aluguer de um carro.

A imensa piscina do Club Med, rodeada por choupanas de estilo polinésio; um dos edifícios coloridos que albergam os seus 250 quartos e a praia que serve o resort (à esq.), e cujo acesso se faz por uma escadaria de 214 degraus! Siri de camarão servido no restaurante da Silvana, um dos poucos a abrir ao almoço, em pleno Quadrado, o coração de Trancoso

Curiosamente, ou não, muitos destes passeios escapam à curiosidade de quem se hospeda no Club Med Trancoso. Há, no entanto, uma lógica, por estranha que possa parecer sem maiores explicações, para este procedimento. A norte do vilarejo de Trancoso, no condomínio de luxo onde têm casa empresários multimilionários como o sueco Ingvar Kamprad, dono da cadeia Ikea, ou o português António Roquette – que inclui ainda o já citado campo de golfe Terravista e uma pista de pouso –, o Club Med nasceu, à semelhança dos seus congéneres no mundo inteiro (existem três no Brasil, estando um quarto a caminho), para ser auto- -suficiente. Claro que os tempos mudaram, e com as mudanças a própria marca tem vindo a rever os seus padrões e a optar por um posicionamento mais topo de gama no mercado, mas a sua essência é proporcionar um serviço completo e isso não muda.

Se antes do aparecimento do Club Med Trancoso já possuía uma aura de encanto e a sua quota de incondicionais famosos, o certo é que lhe faltava uma infra-estrutura hoteleira digna desse nome, capaz de atrair um tipo de turista que aprecia lugares bonitos, mas também quer conforto, segurança e bom serviço. E tudo isso, seja-se ou não fã do conceito, o Club Med trouxe para Trancoso. Talvez por isso, e porque há quem insista em compará-lo com exemplos recentes como os hotéis-casa, muitos se surpreendam que o mais respeitado dos guias brasileiros, o Quatro Rodas, o continue a eleger, em 2010, como o melhor que Trancoso tem para oferecer no seu segmento. Será, porém, mais fácil entender a distinção se tivermos em conta que são, efectivamente, propostas diferentes, com alvos e propósitos diferentes.

Com um total de 250 quartos de duas categorias (os deluxe são particularmente bons, com apontamentos engraçados que incluem, entre outras coisas, a inclusão dos bonitos altares do Espírito Santo), divididos por quatro alas pintadas de verde, azul, amarelo e rosa, este Club Med torna-se imbatível para quem viaja em família, pois, não sendo barato, apresenta um custo-benefício nada subestimável para quem quer manter os mais novos perto da vista, mas com actividades próprias (dos 2 aos 17 anos). E como funciona em regime de tudo incluído – com excepções por conta do spa, dos passeios, da Internet ou de outros serviços mais específicos –, isso contribui também para manter o orçamento de férias debaixo de controlo.

Há acesso directo à praia de Taípe, particularmente bonita pelo seu cordão de falésias rosa- -flamingo adornadas pelo verde-flamejante do mangue, mas este village tem noção que estar num lugar altaneiro tem o seu custo – neste caso um total de 214 degraus –, pelo que disponibiliza um serviço de carrinha para os mais preguiçosos. A piscina, dividida em duas, é, no entanto, o grande ponto de encontro, rodeada das choupanas à Polinésia onde ficam os restaurantes, o bar e demais serventias da casa.

Habituado a ter como vizinhos empresários que têm injectado grandes capitais na região, fazendo deste trecho do litoral sul da Bahia um dos mais prósperos, o Club Med vai dividir em breve a praia com um hotel com 40 suites de luxo, spa e restaurantes de alta gastronomia – um projecto de Calé, um dos fundadores do Terravista – e um novo condomínio de casas construído pelo grupo espanhol Single Homes. E é assim que, em Trancoso, se continua a andar de havainanas, mas só se fala em muitos milhões de reais.

COMO IR
A TAP Air Portugal (www.flytap.com) possui voos directos de Lisboa para Salvador a partir de €927 (taxas incluídas). Uma vez na capital baiana, o mais cómodo é realizar um voo até Porto Seguro, com a TAM (www.tam.com.br, igualmente membro da Star Alliance) com preços desde €160+ taxas para ida e volta. Tenha em atenção no momento da reserva que existem várias ligações diárias, mas só algumas são sem escalas. A viagem de carro entre Porto Seguro e Trancoso demora cerca de uma hora e caso não tenha o transfere combinado, conte com cerca de €60 se for de táxi.

ONDE FICAR
No texto, elegemos o Uxua Casa Hotel (www.uxua.com, desde €350 por noite), o El Gordo (www.elgordo.com.br, desde €100 por noite), o Jacaré Brasil (www.jacaredobrasilcasas.com.br, desde €200 por noite), todos no Quadrado, o Club Med Trancoso (www.clubmed.pt ou tel. 213 309 696, pacotes de sete noites desde €850/adulto, tudo incluído), no condomínio Terravista (Praia de Taípe), e a Pousada Bendito Seja (www.pousadabenditoseja. com.br, desde €170 por noite). Convém referir que, a partir de Março, começa a época baixa em Trancoso, mais vantajosa porque o bom tempo mantém-se, mas os preços baixam significativamente. Recomendamos ainda a Estrela d’Água, Villas de Trancoso e Etnia. As duas primeiras ficam na praia dos Nativos, e a última fica na rua principal, fora do Quadrado.

ONDE COMER
Ciente de que há uma clientela disposta a pagar, e bem, pelo prazer de desfrutar de um bom restaurante, sobretudo na hora de jantar, muitos deles exageram nos preços, mas, justiça lhes seja feita, no requisito decoração e charme esmeram-se e são, com as suas esplanadas iluminadas, os grandes responsáveis, a par das lojas, pelo encanto nocturno do Quadrado. Além de El Gordo, citado no texto, merecem destaque o Capim Santo, especializado em peixe e marisco, o Cacau, que faz uma reinterpretação romântica da cozinha baiana, e a Silvana & Cia, um dos poucos a abrir ao almoço. Fora do Quadrado, o Maritaca (Rua do Telégrafo, 388) não tem rival para as suas massas e pizzas. Na praia do Espelho, além do referido Bistrot da Pousada Bendito Seja, há o restaurante da pousada Enseada do Espelho e a Silvinha, a “última hippie“ de Trancoso, que, mediante reserva prévia, elabora almoços na sua casa junto ao rio (tel. 005573 9985 4157).

ONDE COMPRAR
Cada vez mais, as grandes marcas de São Paulo e do Rio abrem filiais em Trancoso, conferindo ao Quadrado variedade e requinte de propostas. Além de nomes já consagrados como a Farm, a Richards, a Lenny ou a Osklen, espreite as luminárias feitas com vidro das garrafas PET na Cheia da Graça, as jóias de Cristina Pessoa e de Syomara Crespi/ Galeria Fulô (a preferida de Gisele Bundchen), os couros e juncos de Leticia Wrede (que caíram no goto de Carla Bruni), as roupas e as imagens de santos em gesso de Joana Vieira (A Joaninha) ou ainda as cerâmicas de Calazans.

FUSO HORÁRIO
Menos 3h do que Portugal continental no nosso Inverno e menos 4h no nosso Verão.

DESLOCAÇÕES
Existem táxis na rua principal de Trancoso, que não usam taxímetro e fazem-se cobrar por isso. Praticamente todos os hotéis e pousadas que referimos providenciam vários tipos de actividades e/ou passeios. Se quiser ter um maior controlo dos custos e autonomia, recorra aos serviços de empresas como a Trancoso Receptivo (trancosoreceptivo.com), com leque variado de excursões, transferes de e para o aeroporto de Porto Seguro e aluguer de viaturas e equipamento. Para ter uma ideia, se for e vier de táxi à praia do Espelho, vai pagar cerca de €100.

DIVERSÃO
Além dos bares de praia referidos no texto, merece referência a discoteca de música electrónica Para-Raio, na rua Principal, onde também acontecem os bailes de forró no São Brás, que funciona igualmente como bar. No Quadrado, o bar mais cosmopolita é o da pousada El Gordo, podendo alternar com o bar Tempo Rei.

MAIS INFORMAÇÕES
Na Internet, em www.braziltour.com, ou através da Bahiatursa, Av. Simon Bolivar S/N – Centro de Convenções da Bahia,1.º Piso, CEP 41750-230 Salvador, e-mail bahiatursa@bahiatursa.ba.gov.br; www.bahiatursa.ba.gov.br

Agradecemos a colaboração da Embratur, da TAP e da TAM


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