Diz
a palavra de ordem do clube de futebol local que é más que una ciudad.
Será pela sua riqueza arquitectónica, esplendor histórico ou beleza
natural? Tudo isto e muito mais numa cidade de eleição que o deixará
"encantado"
Texto
de Mariana Roxo
Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
Mosaico
de Joan Miró nas Ramblas
Estende
o tapete marron com uma mesquita desenhada e ajoelha-se. Virado a
Meca, supõe-se, embrenhado num ritual complexo de gestos exacerbados
e expressões de reflexão profunda. Reza para voar no "monstro de asas"
que em fracções de tempo nos transporta para todo o lado. E se aterrasse
em Barcelona?
Bon
dia!, este cumprimento tão familiar é palavra de ordem catalã a contrastar
com os buenos dias do resto da Espanha. É mesmo caso para dizer que
na Catalunha o português não provoca aquelas expressões de espanto
(confundidas até com má vontade dos nossos vizinhos...) como se estivéssemos
a falar russo ou japonês - devagar, eles entendem-nos e nós a eles.
Barcelona é a capital desta comunidade autónoma e a segunda cidade
mais importante de Espanha. Banhada pelo Mediterrâneo, recebeu a sua
influência que se reflecte em tradições e fenómenos culturais.
Mural
de Picasso, no Bairro Gótico
Chegados
a Barcelona, a primeira dúvida que se coloca é: "Por onde começar?"
Esta cidade, desenvolvida e modernizada, ainda conserva um espólio
arquitectónico de luxo, com a sua história intacta. É, por isso mesmo,
o local eleito pelos sedentos de cultura e animação. Uma visita pela
arte gótica e modernista, pelas avenidas principais e pelas ruas mais
escondidas, pelos locais de culto e pelos sítios mais fashion desta
cidade de tantos encantos, é o que lhe propomos. E para começar, a
jóia da coroa.
"Tardas más que la Sagrada Familia"
Escultura
de Lichenstein, na Plaça Antoni Lopez
Como
em várias cidades do Mundo, nada como uma catedral imponente para
pintar os postais como se de um cartão-de-visita se tratasse. A Sagrada
Família faz as maravilhas de todos os que visitam Barcelona. De beleza
irrefutável, esta obra assinada por Gaudí (o grande mestre da arquitectura
modernista da cidade) tem uma particularidade fascinante. Diz-se que
esta estrondosa criação, que já tem 100 anos, conta com mais 50 de
construção. É mesmo motivo de graça entre os locais que dedicam aos
atrasados a frase "Tardas más que la Sagrada Familia". Das linhas
tão características saem guindastes e andaimes e, no interior, misturam-se
com os turistas os trabalhadores desta obra, verdadeiros artistas
em tarefas de minúcia e talento aos olhos de todos os curiosos. Morto
o criador da Sagrada Família, prosseguem os seus fiéis discípulos
em polémicas interpretações dos desenhos do mestre para aquele que
é o monumento mais importante desta cidade.
"Sr.
Branco", um dos mimos que habitam as Ramblas
Com três fachadas caracterizadas - Nascimiento de Cristo, Pasíon y
Muerte e Gloria - e esguias torres que chegam a atingir os 107 metros
de altura, a riqueza da obra está não só na complexidade do traço,
criando um efeito de estalagmites que nasceram do solo e que parecem
dar vida ao gigante de pedra, mas também nos pormenores estilizados
com simbolismos religiosos e figuras de animais que fazem adivinhar
um sem-número de histórias para contar. Situada na Praça Gaudí, como
não poderia deixar de ser, esta obra neogótica foi erguida numa zona
periférica da cidade, assim mesmo local de culto de fiéis e turistas.
Não menos visitado é o bairro mais antigo da cidade, foi lá que fizemos
a "paragem" seguinte.
Parece
cenário de um filme
Decoração
original de um prédio nas Ramblas
Entrar
num mundo de pedra antiga carregada de mistério faz adivinhar um cavaleiro
robusto, montado num daqueles cavalos que parecem desfilar a beleza
de histórias de encantar, princesas e reinos distantes. Mas este "filme"
passa-se mesmo no centro de Barcelona e chama-se Bairro Gótico.
Um cenário de excelência onde se destaca a Catedral, edifício gótico
dos séculos XIV e XV e os dois palácios medievais que a rodeiam: Casa
dels Canonges e Casa de L'Ardiaca. Mas este bairro concentra vários
monumentos. A cada passo viajamos pelas fachadas magníficas do Palau
Reial, da Capilla de Santa Àgata e do Museu d'Història de la Ciutat.
Mercado
de la Boquería
Frente
à Catedral encontrámos o que considero ser uma ideia fantástica: uma
"barraca" de massagens shen. Um casal de jovens oferecia, por quatro
euros, 15 minutos de prazer e relaxamento a admirar a fachada e o
movimento na Praça. Uma música familiar saía do xilofone que um "Charlot"
transportava num carrinho de mão, que circulava vezes sem conta por
entre os que passavam e eram cada vez mais os que paravam para ficar
a ouvir. Diziam que tocava Beatles numa versão minimalista, não posso
assegurar.
Torre
das Telecomunicações, desenhada por Calatrava
Posso apenas garantir que a fila atrás de mim, para receber uma massagem,
era já grande e aposto que a expressão de satisfação, que não consegui
disfarçar, fez adivinhar o que estava a sentir. À medida que o sol
caía, recortando sombras e formas nos paredões de pedra, mais fascinante
parecia o encanto daquele lugar.
A Plaza Reial, noutros tempos lugar de torturas e chacinas públicas,
apresenta-se agora como um local de convívio por excelência. Palmeiras
e bancos de jardim envoltos por arcadas donde "surgem" restaurantes
e "cafeterias" com a opção esplanada. Um convite ao lazer e à preguiça.
Mas muito mais havia para ver, logo ali ao lado... uma avenida que
parece ter vida própria.