L
U G A R E S C O M H I S T Ó R I A

No
Palácio dos Marqueses de Fronteira é exactamente essa
a sensação, a de que fugimos de Lisboa e entramos nas
bucólicas paisagens campestres do século XVIII.
Mal
damos por ele, mas o certo é que o Palácio dos Marqueses
de Fronteira, em Lisboa, ali está desde há séculos,
escondido por entre a vegetação da mata de Monsanto.
Com
a cidade há muito a tentar tomar de assalto esta construção
secular, mandada erguer pelo primeiro marquês de Fronteira,
D. João de Mascarenhas, e inaugurada por volta de 1675 pelo
então príncipe regente, D. Pedro (filho de D. João
IV e de D.ª Luísa de Gusmão), a sua história
está repleta de personagens, acontecimentos e datas memoráveis.
Ao todo são mais de cinco hectares de múltiplos ambientes
e pormenores mil. Embora não esteja à vista desarmada
de quem passa do outro lado dos carris de comboio que percorrem a
linha de Sintra, os que se aventurarem em direcção a
Monsanto, para lá desta – afinal – “eficiente”
barreira entre a cidade e o campo, vão com toda a certeza ter
agradáveis surpresas.
Em
primeiro lugar, impossível é não referir que
o Palácio dos Marqueses de Fronteira propriamente dito é
uma residência particular, lá habitando, numa parte da
casa restrita ao público, o actual e 12º marquês
de Fronteira, D. Fernando de Mascarenhas. Longe de olhares indiscretos,
circula-se por corredores e divisões vividas, com objectos
tão simples e informais como dezenas de fotografias de família
distribuídas por todo o lado. Já para não falar
das inúmeras peças de arte que decoram as paredes, os
cantos e os recantos do espaço, como é o caso de uma
frágil mesa de costura que, reza a história, terá
sido oferecida à marquesa de Alorna, sogra do sexto marquês
de Fronteira, por Maria Antonieta, mulher do monarca francês
Luís XVI, decapitada em 1793.
Apesar das alterações que sofreu até finais do
século XVIII, a ultimar a construção de uma nova
ala no lado poente do pátio de entrada, este conjunto foi preservado
e mantido pela família, sendo desde há sensivelmente
15 anos gerido pela Fundação das Casas de Fronteira
e Alorna. Classificado em 1982 como Monumento Nacional, parte do palácio
e os jardins estão abertos ao público, com visitas guiadas
e horários fixos.
Viver num palácio

| Galeria
das Artes e biblioteca
|
 |
Com
vestígios datados de finais do século XVI, e já
eventualmente na posse da família Mascarenhas, o início
da construção do conjunto apalaçado e dos jardins
remonta a 1667 ou 1668, julga-se que fruto de uma promessa de convidar
D. Pedro para ali celebrar a restauração da independência.
Talvez por se ter apaixonado pelo local, o nobre não se conteve
em dar largas à imaginação ao criar naquela propriedade
então rural um espaço idílico e, acima de tudo,
rico em obras de arte.
A inauguração lá foi marcada, tendo sido servido
um faustoso jantar, e, conforme mandava a etiqueta e a tradição
da época, louça onde já tivesse manjado o Rei,
nunca mais utilizada seria. Assim foi. Partido em milhares de cacos,
o serviço Ming a que D. Pedro deu uso uma única vez
forra desde então as paredes da chamada Casa de Fresco, onde,
presume-se, os fidalgos da casa e respectivos convivas se iam refrescar.
A título de curiosidade refira-se que não falta sequer
um pedaço de vidro iden-tificado por um especialista como pertencendo
a um copo Mirafiori italiano, dos quais apenas existem três
ou quatro exemplares intactos no mundo inteiro. Ali está preservado
para sempre.
Utilizada durante anos como pavilhão de caça e local
de veraneio, a propriedade foi ocupada a tempo inteiro pela família
logo após o terramoto de 1755, dado que toda aquela zona não
foi afectada pelo abalo que devastou Lisboa. Desde então, pouco
ou quase nada mudou dentro daqueles cinco hectares, que contam ainda,
nos dias de hoje, com hortas cultivadas por particulares a quem a
família cedeu pequenas parcelas de terreno.
E
como a história deste sítio se mistura com a actualidade,
torna-se inevitável a pergunta: quais são as lembranças
mais remotas deste ilustre senhorio, o 12º marquês de Fronteira,
na sua casa de campo? Pois bem, recorda-se da altura em que, daqueles
que foram em tempos os aposentos de sua mãe, e que agora servem
como sala de estar, apenas se via, por exemplo, o Hospital de Sta.
Maria. Tudo o resto em volta era verde, conta D. Fernando. Percorridos
exactamente 50 anos, o emaranhado de prédios, guindastes e
antenas compõe o cenário. Mesmo assim, a cidade ainda
passa ao lado.
Ilustres
presenças
Quanto à linhagem da família, e consequentes fábulas
e episódios do local, está tudo documentado. Muito bem
documentado, aliás. A começar pela entrada do palácio,
servida por duas imponentes escadarias, bem ao estilo barroco, e com
um tecto onde figuram um mitológico Hércules e um leão.
Duas representações simbólicas em honra, conta-se,
da bravura, da força e da atitude destemida do fundador da
casa de Fronteira.
A
presença deste temerário homem de armas na restauração
da independência face a Castela – foi exactamente por
ilustres feitos em prol da defesa da pátria lusitana durante
a Restauração que D. João de Mascarenhas, então
conde da Torre, recebeu em 1670 o título de primeiro marquês
de Fronteira das mãos d’el Rei D. Pedro II –
não foge à vista sequer do menos atento.
À medida que se percorrem as salas do edifício são
feitas variadas alusões à coragem de D. João
de Mascarenhas, tal como o painel de estuque em baixo-relevo e à
escala natural que se destaca na Sala das Batalhas (ou da Restauração),
com a figura deste herói das batalhas do Ameixial e de Montes
Claros montado no seu cavalo. Ainda neste espaço, que se
situa no segundo andar do edifício, podem admirar-se os azulejos
monocromáticos seiscentistas, de origem portuguesa e holandesa,
a representar a Guerra da Restauração – vai
ao pormenor de, por entre cavaleiros e peões de espada em
punho, se poder encontrar a data da última batalha com Castela
(20 de Novembro de 1667) e até, como não poderia deixar
de ser, registos da personagem deste ilustre nobre a cavalo em defesa
do reino. Também o tecto, de um magnífico estuque
rendilhado, faz re-ferência aos heróicos feitos militares
da família.
Ao lado pode ainda visitar a Sala dos Painéis, na qual, além
de figurarem em re-tratos a óleo espalhados pelas paredes
vários membros da família, estão também
repre-sentadas, num silhar de azulejos seiscentistas holandeses,
cenas da vida campestre e da mitologia e paisagens fluviais.
Recantos românticos
Grande
parte dos cinco hectares do terreno onde está implantado
o palácio é ocupada pelos românticos jardins,
decorados por azulejos, re-cortadas sebes, fontes e inúmeros
esconderijos para momentos de tranquilidade e reflexão.
Saídos do edifício – as portas das salas das
Batalhas e dos Painéis dão acesso a um terraço
que começa a debruçar-se sobre o jardim – a
orientação é feita para o lado direito, para
um enorme varandim acompanhado por estátuas em mármore
e à escala humana dos deuses do Olimpo. Também chamado
de Galeria das Artes, inspirado nos painéis de azulejos representativos
das sete artes liberais e da poesia, tem no seu seguimento aquele
que se pensa ser o vestígio mais remoto da ocupação
daquela propriedade. Na porta da capela palatina, uma notável
obra de influências italianas e renascentistas, é visível
uma placa com a data de 1584, e, conta a história, São
Francisco Xavier terá aqui celebrado a sua última
missa antes de partir para as suas expedições no Oriente.
Refira-se, no entanto, que não terá esta data qualquer
ligação com São Francisco de Xavier, que partiu
para Goa em 1541 e morreu em 1552.
Uma escadaria também decorada com azulejos leva-nos do terraço
ao Jardim de Vénus. À sombra dos ramos das frondosas
magnólias, das estrelícias, das árvores de
jasmim e dos jacarandás temos a já mencionada Casa
de Fresco, que se encontra ao fundo de um pequeno lago de cantaria,
o Lago dos Ss, rodeado por bancos com paredes revestidas pelas chamadas
“macacarias”, azulejaria em tom sarcástico na
qual animais personificam o homem nos seus metiers e no dia-a-dia.
Saídos
deste recanto bucólico, fica-se a céu aberto, com
vista para o enorme lago, limitado por uma parede azulejada de composição
figurativa, com 12 cavaleiros e respectivos cavalos, intervalada
por três grutas. Em tempos terão até existido
neste lago barcos para dar passagem a uma destas três reentrâncias
que irrompem parede dentro.
A encimar o lago, acessível através de duas escadarias
laterais, vislumbra-se um dos mais notórios conjuntos do
jardim, a chamada Galeria dos Reis, onde se destacam os bustos em
pedra marmórea de reis portugueses, desde D. Henrique a D.
Pedro II.
O jardim, recortado por sebes e com uma fonte central, esta última
alvo de recuperação recente, está rodeado por
um muro onde se podem admirar não só inúmeros
painéis de azulejos da época – em representação
dos pla-netas (e dos quatro elementos; a água, o fogo, a
terra e o ar), dos 12 meses e dos 12 signos do Zodíaco –,
como também um painel contem-porâneo, de autoria da
pintora Paula Rego.
É o moderno a confundir-se com o antigo, num palácio
em que a história não mais acaba.
| A |
Na
biblioteca, antes um terraço com vista para o jardim,
livros seculares partilham o espaço com as memórias
da família |
| B |
No cimo
da escadaria, bem ao estilo barroco, que dá acesso ao
piso superior do palácio |
| C |
O palácio
é um dos mais prodigiosos exemplos em Portugal da azulejaria
seiscentista |
| D |
As armas
da família Mascarenhas inscritas no tecto da entrada |
| E |
Panorâmica
o jardim, com a Galeria dos Reis ao fundo, onde figuram desde
D. Afonso Henriques a D. Pedro II |
Informações
úteis
• Palácio
dos Marqueses de Fronteira
Morada: Lgo. de S. Domingos de Benfica, 1, 1500-554 Lisboa; Tel.:
21 778 20 23;
• E-mail: fronteiraalorna@mail.telepac.pt
• Preço:
æ7,5 (palácio + jardim); €3 (jardim).
• Horário:
Aberto todos os dias, excepto domingos e feriados. Visitas guiadas
todos os dias úteis às 11h e ao meio-dia (até
Maio); quatro visitas diárias (de Junho a Setembro).
Ainda para ver...
Toda a zona de Benfica, em tempos passa-dos com características
essencialmente rurais, é rica em locais de interesse históri-co.
Desde palácios a conventos, passan-do mesmo por quintas ainda
habitadas, que resistem às investidas do betão. Apesar
de alguns destes imóveis não estarem abertos ao público,
deixamos aqui um pequeno roteiro das redondezas.
• Palácio
e Quinta das Laranjeiras, ou Palácio dos Condes de Farrobo
– Imóvel de Interesse Público e ocupado por serviços
da Administração Central – século XVIII.
Morada: Estrada das Laranjeiras, 197 a 205 - 1649-018 Lisboa
• Antigo Convento
de São Domingos de Benfica – Imóvel de Interesse
Público, ocupado pelo Instituto Militar dos Pupilos do Exército
– século XIV
Morada: Largo de S. Domingos de Benfica
• Túmulo
de João das Regras – Monumento Nacional – século
XV
Morada: Lgo. de S. Domingos de Benfica
• Jardins do Palácio
Beau-Séjour – século XIX.
Morada: Estrada de Benfica, 368-372
• Capela dos Castros
–Monumento Nacional – século XVII.
Morada: Travessa de S. Domingos de Benfica, n.º 1
• Quinta Nova
da Conceição, ou Quinta do Bonfim – Casa de Turismo
de Habitação – séculos XVIII/XIX
Morada: Rua Cidade de Rabat, n.º 5, 1500-158 Lisboa - Tel.: 217
780 091
E-mail: qta.nova.conceicao@ip.pt
• Museu da Música
Morada: Estação do Metropolitano do Alto dos Moinhos,
1500 Lisboa - Tel.: 21 355 84 57
• Museu da República
e da Resistência
Morada: Rua Alberto de Sousa, n.º 10ª, 1600-002 Lisboa -
Tel.: 217 802 760.
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