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    XL >   Rotas & Destinos > Palácio de Fronteira
L U G A R E S  C O M  H I S T Ó R I A


Abril de 2004
No Palácio dos Marqueses de Fronteira é exactamente essa a sensação, a de que fugimos de Lisboa e entramos nas bucólicas paisagens campestres do século XVIII.

Texto de Miguel Satúrio Pires
Fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   

Mal damos por ele, mas o certo é que o Palácio dos Marqueses de Fronteira, em Lisboa, ali está desde há séculos, escondido por entre a vegetação da mata de Monsanto.


Sala de estar
Com a cidade há muito a tentar tomar de assalto esta construção secular, mandada erguer pelo primeiro marquês de Fronteira, D. João de Mascarenhas, e inaugurada por volta de 1675 pelo então príncipe regente, D. Pedro (filho de D. João IV e de D.ª Luísa de Gusmão), a sua história está repleta de personagens, acontecimentos e datas memoráveis.

Ao todo são mais de cinco hectares de múltiplos ambientes e pormenores mil. Embora não esteja à vista desarmada de quem passa do outro lado dos carris de comboio que percorrem a linha de Sintra, os que se aventurarem em direcção a Monsanto, para lá desta – afinal – “eficiente” barreira entre a cidade e o campo, vão com toda a certeza ter agradáveis surpresas.

Em primeiro lugar, impossível é não referir que o Palácio dos Marqueses de Fronteira propriamente dito é uma residência particular, lá habitando, numa parte da casa restrita ao público, o actual e 12º marquês de Fronteira, D. Fernando de Mascarenhas. Longe de olhares indiscretos, circula-se por corredores e divisões vividas, com objectos tão simples e informais como dezenas de fotografias de família distribuídas por todo o lado. Já para não falar das inúmeras peças de arte que decoram as paredes, os cantos e os recantos do espaço, como é o caso de uma frágil mesa de costura que, reza a história, terá sido oferecida à marquesa de Alorna, sogra do sexto marquês de Fronteira, por Maria Antonieta, mulher do monarca francês Luís XVI, decapitada em 1793.

Apesar das alterações que sofreu até finais do século XVIII, a ultimar a construção de uma nova ala no lado poente do pátio de entrada, este conjunto foi preservado e mantido pela família, sendo desde há sensivelmente 15 anos gerido pela Fundação das Casas de Fronteira e Alorna. Classificado em 1982 como Monumento Nacional, parte do palácio e os jardins estão abertos ao público, com visitas guiadas e horários fixos.

Viver num palácio

Galeria das Artes e biblioteca
Com vestígios datados de finais do século XVI, e já eventualmente na posse da família Mascarenhas, o início da construção do conjunto apalaçado e dos jardins remonta a 1667 ou 1668, julga-se que fruto de uma promessa de convidar D. Pedro para ali celebrar a restauração da independência. Talvez por se ter apaixonado pelo local, o nobre não se conteve em dar largas à imaginação ao criar naquela propriedade então rural um espaço idílico e, acima de tudo, rico em obras de arte.

A inauguração lá foi marcada, tendo sido servido um faustoso jantar, e, conforme mandava a etiqueta e a tradição da época, louça onde já tivesse manjado o Rei, nunca mais utilizada seria. Assim foi. Partido em milhares de cacos, o serviço Ming a que D. Pedro deu uso uma única vez forra desde então as paredes da chamada Casa de Fresco, onde, presume-se, os fidalgos da casa e respectivos convivas se iam refrescar. A título de curiosidade refira-se que não falta sequer um pedaço de vidro iden-tificado por um especialista como pertencendo a um copo Mirafiori italiano, dos quais apenas existem três ou quatro exemplares intactos no mundo inteiro. Ali está preservado para sempre.

Utilizada durante anos como pavilhão de caça e local de veraneio, a propriedade foi ocupada a tempo inteiro pela família logo após o terramoto de 1755, dado que toda aquela zona não foi afectada pelo abalo que devastou Lisboa. Desde então, pouco ou quase nada mudou dentro daqueles cinco hectares, que contam ainda, nos dias de hoje, com hortas cultivadas por particulares a quem a família cedeu pequenas parcelas de terreno.

E como a história deste sítio se mistura com a actualidade, torna-se inevitável a pergunta: quais são as lembranças mais remotas deste ilustre senhorio, o 12º marquês de Fronteira, na sua casa de campo? Pois bem, recorda-se da altura em que, daqueles que foram em tempos os aposentos de sua mãe, e que agora servem como sala de estar, apenas se via, por exemplo, o Hospital de Sta. Maria. Tudo o resto em volta era verde, conta D. Fernando. Percorridos exactamente 50 anos, o emaranhado de prédios, guindastes e antenas compõe o cenário. Mesmo assim, a cidade ainda passa ao lado.

Ilustres presenças
Quanto à linhagem da família, e consequentes fábulas e episódios do local, está tudo documentado. Muito bem documentado, aliás. A começar pela entrada do palácio, servida por duas imponentes escadarias, bem ao estilo barroco, e com um tecto onde figuram um mitológico Hércules e um leão. Duas representações simbólicas em honra, conta-se, da bravura, da força e da atitude destemida do fundador da casa de Fronteira.


A presença deste temerário homem de armas na restauração da independência face a Castela – foi exactamente por ilustres feitos em prol da defesa da pátria lusitana durante a Restauração que D. João de Mascarenhas, então conde da Torre, recebeu em 1670 o título de primeiro marquês de Fronteira das mãos d’el Rei D. Pedro II – não foge à vista sequer do menos atento.

À medida que se percorrem as salas do edifício são feitas variadas alusões à coragem de D. João de Mascarenhas, tal como o painel de estuque em baixo-relevo e à escala natural que se destaca na Sala das Batalhas (ou da Restauração), com a figura deste herói das batalhas do Ameixial e de Montes Claros montado no seu cavalo. Ainda neste espaço, que se situa no segundo andar do edifício, podem admirar-se os azulejos monocromáticos seiscentistas, de origem portuguesa e holandesa, a representar a Guerra da Restauração – vai ao pormenor de, por entre cavaleiros e peões de espada em punho, se poder encontrar a data da última batalha com Castela (20 de Novembro de 1667) e até, como não poderia deixar de ser, registos da personagem deste ilustre nobre a cavalo em defesa do reino. Também o tecto, de um magnífico estuque rendilhado, faz re-ferência aos heróicos feitos militares da família.
Ao lado pode ainda visitar a Sala dos Painéis, na qual, além de figurarem em re-tratos a óleo espalhados pelas paredes vários membros da família, estão também repre-sentadas, num silhar de azulejos seiscentistas holandeses, cenas da vida campestre e da mitologia e paisagens fluviais.

Recantos românticos
Grande parte dos cinco hectares do terreno onde está implantado o palácio é ocupada pelos românticos jardins, decorados por azulejos, re-cortadas sebes, fontes e inúmeros esconderijos para momentos de tranquilidade e reflexão.

Saídos do edifício – as portas das salas das Batalhas e dos Painéis dão acesso a um terraço que começa a debruçar-se sobre o jardim – a orientação é feita para o lado direito, para um enorme varandim acompanhado por estátuas em mármore e à escala humana dos deuses do Olimpo. Também chamado de Galeria das Artes, inspirado nos painéis de azulejos representativos das sete artes liberais e da poesia, tem no seu seguimento aquele que se pensa ser o vestígio mais remoto da ocupação daquela propriedade. Na porta da capela palatina, uma notável obra de influências italianas e renascentistas, é visível uma placa com a data de 1584, e, conta a história, São Francisco Xavier terá aqui celebrado a sua última missa antes de partir para as suas expedições no Oriente. Refira-se, no entanto, que não terá esta data qualquer ligação com São Francisco de Xavier, que partiu para Goa em 1541 e morreu em 1552.

Uma escadaria também decorada com azulejos leva-nos do terraço ao Jardim de Vénus. À sombra dos ramos das frondosas magnólias, das estrelícias, das árvores de jasmim e dos jacarandás temos a já mencionada Casa de Fresco, que se encontra ao fundo de um pequeno lago de cantaria, o Lago dos Ss, rodeado por bancos com paredes revestidas pelas chamadas “macacarias”, azulejaria em tom sarcástico na qual animais personificam o homem nos seus metiers e no dia-a-dia.

Saídos deste recanto bucólico, fica-se a céu aberto, com vista para o enorme lago, limitado por uma parede azulejada de composição figurativa, com 12 cavaleiros e respectivos cavalos, intervalada por três grutas. Em tempos terão até existido neste lago barcos para dar passagem a uma destas três reentrâncias que irrompem parede dentro.

A encimar o lago, acessível através de duas escadarias laterais, vislumbra-se um dos mais notórios conjuntos do jardim, a chamada Galeria dos Reis, onde se destacam os bustos em pedra marmórea de reis portugueses, desde D. Henrique a D. Pedro II.

O jardim, recortado por sebes e com uma fonte central, esta última alvo de recuperação recente, está rodeado por um muro onde se podem admirar não só inúmeros painéis de azulejos da época – em representação dos pla-netas (e dos quatro elementos; a água, o fogo, a terra e o ar), dos 12 meses e dos 12 signos do Zodíaco –, como também um painel contem-porâneo, de autoria da pintora Paula Rego.

É o moderno a confundir-se com o antigo, num palácio em que a história não mais acaba
.

A Na biblioteca, antes um terraço com vista para o jardim, livros seculares partilham o espaço com as memórias da família
B No cimo da escadaria, bem ao estilo barroco, que dá acesso ao piso superior do palácio
C O palácio é um dos mais prodigiosos exemplos em Portugal da azulejaria seiscentista
D As armas da família Mascarenhas inscritas no tecto da entrada
E Panorâmica o jardim, com a Galeria dos Reis ao fundo, onde figuram desde D. Afonso Henriques a D. Pedro II

Informações úteis
Palácio dos Marqueses de Fronteira
Morada: Lgo. de S. Domingos de Benfica, 1, 1500-554 Lisboa; Tel.: 21 778 20 23;
E-mail: fronteiraalorna@mail.telepac.pt
Preço: æ7,5 (palácio + jardim); €3 (jardim).
Horário: Aberto todos os dias, excepto domingos e feriados. Visitas guiadas todos os dias úteis às 11h e ao meio-dia (até Maio); quatro visitas diárias (de Junho a Setembro).

Ainda para ver...
Toda a zona de Benfica, em tempos passa-dos com características essencialmente rurais, é rica em locais de interesse históri-co. Desde palácios a conventos, passan-do mesmo por quintas ainda habitadas, que resistem às investidas do betão. Apesar de alguns destes imóveis não estarem abertos ao público, deixamos aqui um pequeno roteiro das redondezas.
Palácio e Quinta das Laranjeiras, ou Palácio dos Condes de Farrobo – Imóvel de Interesse Público e ocupado por serviços da Administração Central – século XVIII. Morada: Estrada das Laranjeiras, 197 a 205 - 1649-018 Lisboa
Antigo Convento de São Domingos de Benfica – Imóvel de Interesse Público, ocupado pelo Instituto Militar dos Pupilos do Exército – século XIV
Morada: Largo de S. Domingos de Benfica
Túmulo de João das Regras – Monumento Nacional – século XV
Morada: Lgo. de S. Domingos de Benfica
Jardins do Palácio Beau-Séjour – século XIX.
Morada: Estrada de Benfica, 368-372
Capela dos Castros –Monumento Nacional – século XVII.
Morada: Travessa de S. Domingos de Benfica, n.º 1
Quinta Nova da Conceição, ou Quinta do Bonfim – Casa de Turismo de Habitação – séculos XVIII/XIX
Morada: Rua Cidade de Rabat, n.º 5, 1500-158 Lisboa - Tel.: 217 780 091
E-mail: qta.nova.conceicao@ip.pt
Museu da Música
Morada: Estação do Metropolitano do Alto dos Moinhos, 1500 Lisboa - Tel.: 21 355 84 57
Museu da República e da Resistência
Morada: Rua Alberto de Sousa, n.º 10ª, 1600-002 Lisboa - Tel.: 217 802 760.

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