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   XLRotas & DestinosDossier > Marraquexe
D O S S I E R Abril de 2005   
   
Contamos histórias de encantar de uma cidade das mil e uma noites, um lugar mítico e místico que se renova a cada instante e onde novas moradas – pequenos hotéis, restaurantes e clubes nocturnos – nos transportam para uma atmosfera cosmopolita e sempre cheia de fantasia

TextoS de Miguel Satúrio Pires e fotos de Pedro sampayo Ribeiro
   

P U B L I C I D A D E

Introdução | Al Magreb | "Marrochic" | Apetece viver aqui | Guia Prático

A cada minuto que passa, os sentidos vão-se rendendo ao espectáculo. Estamos em Marraquexe, numa cidade que festeja a vida de uma forma muito singular e exótica, onde tudo e todos vibram a um ritmo das mil e uma noites.


Especiarias à venda na Medina
Como terá dito Fernando Pessoa, “primeiro estranha-se e depois entranha-se”, esta Marraquexe e as suas gentes, que nos invadem o espírito e a alma para nos emprestar por breves instantes a sua tão única maneira de viver. Respira-se aqui um ambiente rústico, mas também sofisticado, que habita paredes-meias com uma atmosfera cosmopolita, a fazer lembrar, uma ou outra vez, experiências vividas em Nova Iorque, Paris ou em outra qualquer metrópole, agora transportadas para ruas de terra batida, paredes de adobe e mercados onde a animação é constante.

Todas as semanas novas moradas abrem portas nos quatro cantos da cidade. Desde restaurantes e discotecas até às inevitáveis maisons d´hôtes e mais uns tantos hotéis de charme, passando por lojas de marcas internacionais, pouco, ou mesmo nada, falta nesta exótica cidade pintada de vermelho, a menos de duas horas de avião de Lisboa. São locais de estética apurada, look modernista ou de um irresistível charme arábico e sempre povoadas por beautiful people, os mesmo que se repetem e se reencontram com facilidade por estas e outras capelinhas.


La Menara, jardins imperiais onde fica um imenso reservatório de água;
Numa espécie de roteiro do habitual (e de habitués), cruzamo-nos com as mesmas caras uma ou outra vez. Seja num almoço de cozinha internacional e de fusão no tranquilo pátio do Café Arabe (rue el Mouassine, 184, tel. 00212 44 429728, www.cafearabe.com), localizado em plena Medina, no bairro de Mouassine (dispõe também de três quartos), entre as ruelas de piso meio enlameado dos souks. Ou na Casa Lalla (Derb Jamaa, n.º 16 – Zaitoune Lakdime, tel. 00 212 44 429757, www.casalalla.com), um simpático ryad, inaugurado em Junho de 2004, transformado em maison d´hôtes (com quatro suites e dois quartos) por Richard Neat, reputado chef de cuisine francês galardoado, aos 29 anos, com duas estrelas da Michelin. As suas criações gastronómicas, servidas no La Table, o restaurante da Casa Lalla, são famosas no circuito de Marraquexe. De referir que apenas os jantares estão abertos ao público em geral, sendo os almoços um privilégio exclusivo, mediante reserva, dos hóspedes.

E é assim a Marraquexe dos turistas que procuram ir além dos meros circuitos turísticos vendidos em excursão, uma cidade de requintes, que se descobre lentamente, a bebericar um chá de menta ora no terraço de um ryad exclusivo, ora no democrático Café de France.


Piscina do ryad Al Jazira
Desde sempre mí(s)tica e uma verdadeira fonte de inspiração para as muitas gerações que por lá passaram – foram muitos os nomes ilustres que participaram na história recente da cidade, desde Churchill, que a considerava “um dos lugares mais bonitos do mundo”, a Alfred Hitchcock, que aqui filmou a sua segunda versão de O Homem Que Sabia Demais –, nunca deixou de exercer fascínio com o correr dos tempos, renovando-se e acompanhando a par e passo, mas sem desvirtuar o seu passado, as novas tendências do Ocidente, que se cruzam a cada esquina com as tradições e os costumes locais.

E para quem pensa que o investimento turístico e cultural por estas bandas está todo nas mãos de estrangeiros, um bom exemplo que contraria esta tendência chama-se Abdellatif Ait ben Abdallah, um marroquino que é proprietário da cadeia Marrakech Riads (informações em www.marrakech-riads.net), que inclui cinco maisons d´hôtes (Dar Sara, Dar Sara Srira, Dar Baraka, Dar Zelije e Riad Al Jazira) e um centro cultural onde são promovidas regularmente exposições e tertúlias, o Dar Cherifa, situado num antigo palacete do século XVI escondido no labirinto do bairro de Mouassine, em plena Medina. Todos os projectos de Abdallah têm fama de manter religiosamente as linhas e as características originais das construções, sendo apologista de um estilo simples e depurado.


Mergulhe na confusão
O seu melhor cartão de visita é, sem dúvida alguma, a famosa praça de Jemaa el-Fna, às portas dos souks, que agora está atapetada de novo para desgosto de muitos, pois perdeu o característico chão de terra batida e, com ele, parte da sua aura. Modernismo à parte, o certo é que, por enquanto, a tradição se mantém. Reminiscência do tempo em que os nómadas paravam no local, com os cofres cheios de preciosidades, todos os dias ao entardecer, milhares de pessoas juntam-se no local, numa verdadeira romaria de aromas e sons que não mais acaba. O ambiente é de delírio absoluto.

Durante todo o dia, e até às tantas da manhã, milhares de pessoas acorrem a este ponto nevrálgico da cidade. Uns em busca de curas para as suas maleitas – sejam elas físicas ou psicológicas –, outros na senda de partilhar as suas memórias com quem passa e mais uns tantos a encantar serpentes. Aproximamo-nos de pequenos ajuntamentos que se multiplicam por toda a praça e assistimos a malabarismos e ilusionismos, mais à frente, outro aglomerado de gente atenta, desta feita, às palavras de um velho sábio que recorda, em voz alta, histórias de encantar. Ali adiante, por entre bancas de frutas, jovens ocidentais deixam marcar nas suas mãos, braços e pés a mestria das mulheres berberes com as suas pinturas com henna.

Charme é a palavra que ecoa repetidas vezes no nosso pensamento, enquanto admiramos a ruidosa e vistosa mole humana que invade as ruas, as praças e os recantos desta cidade imperial. São aos milhares.

As pessoas e os cheiros, os sons, as cores, os cenários, uma envolvente que nos abraça sem cerimónias, que nos pede uma moeda, que nos oferece uma rosa como cadeau, que quer regatear um tapete, que nos faz ficar assim, especados, a apaixonarmo-nos lentamente por um quadro pintado de rosa-salmão e animado por sensações com sabor a fantasia.


Pátio da Casa Lalla
Consumidos pelo encanto arrebatador de uma Marraquexe do século XXI, queremos fazer parte desta história das arábias, não perder a oportunidade de percorrer a animada Medina atrás de uma qualquer personagem vestida com a típica djellaba, beber um chá de menta – nunca o recuse, é considerado pelos locais uma falta de respeito –, e, longe da confusão, entrar num labirinto de ruas e ruelas paradas no tempo. De repente mergulhamos num mar de calmaria e silêncio, apenas interrompidos por uma solitária figura que aparece vinda de um túnel, como que saída de outra dimensão. Baixamos a cabeça (muitos dos túneis não foram pensados para gente com a mania das grandezas), atravessamos a escuridão e, ao fundo, voltamos a encontrar a luz do dia, que tenta espreitar por entre o emaranhado de vielas que se estende à nossa frente.


Fnac Berbere, ponto célebre na Medina e seus labiríticos souks
A orientação não é, como se deve calcular, fácil. Onde quer que esteja. Ou seja, caso não pretenda sair de Marraquexe e dos arredores mais próximos, desaconselhamos vivamente a aventurar-se pelas ruas desta cidade frenética ao volante de um automóvel. O tráfego é mais ou menos intenso e anárquico, cruzamo-nos repetidas vezes com burros a arrastar carroças, cavalos a puxar charretes, velocípedes às centenas, bicicletas e um sem número de viaturas vindas de todos os lados. Por isso, o melhor é negociar com um taxista acreditado – há mais de dois mil – o preço a cobrar pelas voltas que quer dar, e até mesmo para ele o levar, a pé, a determinado local no interior da Medina.

É claro que, se tiver coragem, o ideal é esquecer a necessidade de orientação e deixar-se perder pelas ruelas lamacentas (os marroquinos atiram deliberadamente água para as ruas de terra batida, numa tentativa de fazerem baixar a poeira) e cobertas por uma grade de canas que lhes confere uma luz filtrada e ainda mais misteriosa. Passeie-se então para admirar as toscas e imperfeitas paredes de tons garridos, uma ou outra vez rasgadas por pesadas portas, ora de madeira, ora em ferro, mas todas com uma história para contar, ricas em pormenores torcidos e retorcidos, meticulosamente trabalhados pela mão da perícia. Lá dentro escondem--se pequenos paraísos, casas tradicionais construídas em torno de um pátio interior (fechadas aos olhares indiscretos, como convém a todas as construções muçulmanas), umas ajardinadas – os ryads – e com pequenas fontes ao centro e outras de espaço aberto – os dars –, com paredes entrecortadas por aconchegantes salas de estar, as b´hau.

As minúsculas janelas entreabertas escondem caras tapadas; das mesquitas onde não podemos penetrar – o acesso é exclusivo a muçulmanos – ouvem-se as orações; o zurrar dos jericós chama-nos à atenção, pacientemente percorrendo os caminhos a arrastar carroças; as motoretas carregadas com dois ou três marroquinos zumbem nos nossos ouvidos e quase nos atropelam vezes sem conta, mas nunca abrandamos o passo e deixamo-nos, sempre, engolir sem resistência por esta enchente de sensações. Uma explosão de sentidos que atinge o seu auge quando as bancas de comida se começam a instalar, ao final do dia, em plena Jemaa el Fna, com as suas espetadas a fumegar na grelha e os aromas das carnes assadas, dos couscous e da harira a encher o ar. Pouco depois, as lanternas acendem-se, contribuindo para a magia do cenário, o som dos tambores, flautas e alaúdes torna-se intenso e, então, o verdadeiro espectáculo começa...

O mundo aqui ao lado

Jardim Majorelle
Muito mudou – em Marrocos no seu geral e em Marraquexe em particular – nos últimos seis anos. Desde que, em 1999, Mohamed VI sucedeu ao longo reinado do seu pai, Hassan II, os ensaios reformistas do novo soberano (está prestes a completar 42 anos) tentaram romper com muitas das conservadoras convenções desde há muito estabelecidas. A começar pelas mulheres – na política, por exemplo, vão ganhando cada vez mais representatividade; há cinco anos havia apenas três parlamentares do sexo feminino, actualmente são 38. É caso para dizer que o Ocidente, com todas as suas “manias”, começa a entrar em força na sociedade marroquina. Nas bancas de jornais já se vendem revistas femininas bastante progressistas, como a “Les Femme du Maroc”, a abordar sem rodeios, e logo na primeira página, questões que, em tempos, eram tabu.

Por entre turistas provenientes dos quatro cantos do mundo, passeiam--se também jovens marroquinas de cabelo ao vento, a beber uma Coca--Cola, com um cigarro na mão e a vestir roupa da moda, talvez comprada na loja da Diesel, que aqui inaugurou, no passado dia 1 de Março, o seu primeiro estabelecimento no país, na esquina da Av. Mohamed V com a rua Mohamed el Bekkal. Também se vêem, e em grande número, mulheres a que só se vislumbram os olhos por detrás das pesadas sharias muçulmanas. De resto, não há choques culturais, pelo menos que se façam notar num piscar de olhos, mesmo mais atento, de um outsider. Aliás, se for mesmo com alguma atenção, pode ser que se cruze com o próprio rei, a conduzir discretamente, como se tornou hábito, uma das suas viaturas particulares pelas avenidas de Marraquexe, em direcção ao Palácio Real.


Madrassa Ben Youssef, a secular escola do Alcorão
Ainda assim, e apesar deste quebrar de algumas convenções, há assuntos que continuam a não ser discutidos: a monarquia e a religião, ou qualquer outro tema que ponha em causa a segurança nacional. Este tema da segurança, diga-se, é um ponto a favor para o turismo, pois não se sente qualquer tipo de ameaça em Marraquexe. Antes pelo contrário. Vêem-se polícias com bastante regularidade, tanto a tentar controlar o trânsito caótico da cidade, como a patrulhar as ruas. Com efeito, a cidade tem vindo a ser alvo de melhorias constantes, com um forte investimento no sector turístico a levar a cabo uma impressionante modernização não só na paisagem e infra-estruturas, mas também no respeitante aos costumes.

Desde o século XI, altura da fundação da cidade, que a evolução não mais parou, começando exactamente com o extenso palmeiral que ainda hoje se vê. Reza a lenda que os soldados de Youssef ben Tachfine, o fundador desta cidade, quando aqui assentaram acampamento, se alimentavam sobretudo de tâmaras que haviam trazido do Atlas, lançando de seguida os caroços para o chão, o que fez com que, mais tarde, brotassem do solo milhares e milhares de palmeiras, distribuídas ao longo de 120 km2. As muralhas de tons encarniçados que conferiram a Marraquexe o epíteto de Cité Rouge datam desta fase, assim como o engenhoso sistema subterrâneo de abastecimento de água, as khettaras.


Na Medina, os tons ocre conjugam-se com cores e aromas fortes
Tomada pelos Almóadas no século XII, outras grandes obras tiveram lugar, como a mesquita Koutoubia e o Kasbah. Seguiram-se-lhes, no entanto, mais de duzentos anos de estagnação, para só no século XVI, pela mão de Ahmed el Mansour e da dinastia Sádida, a cidade revigorar e rejuvenescer. Então ergueram-se o palácio el-Badi, descrito nas crónicas como o mais belo do mundo muçulmano e do qual apenas restam ruínas, os túmulos sádidas, deu-se a recuperação total da imponente Madrassa (escola que ensina o Alcorão) Ben Youssef, recentemente renovada. No século XIX, foi a vez do grande vizir Ba Ahmed Bem Moussa mandar edificar o faustoso Palácio da Bahia – vários pavilhões interligados por pátios, tanques, salas revestidas a mosaicos (os zelliges), tectos de cedro e estuques rendilhados – para as suas quatro esposas, 24 concubinas e largas dezenas de filhos!

O século XX foi marcado pelas fortes influências europeias, por arrasto do protectorado francês que aqui vigorou entre 1912 e 1956. A Nouvelle Cité ou Guéliz, foi uma das maiores intervenções levadas a cabo na época e, actualmente, novas áreas de construção vão ganhando terreno na paisagem, como o Aguedal, onde se começam a multiplicar os complexos turísticos. Para não falar dos inúmeros e luxuosos condomínios fechados e das sumptuosas mansões que se vão erguendo pela Palmeraie fora.


Mulher berbere
A história – recente ou não – marcou o caminho de grandeza que esta cidade tomou, e dela fizeram parte personagens que mostraram ao mundo o seu esplendor. Depois da paixão de Churchill – o hóspede mais célebre do eterno Mamounia, imponente hotel inaugurado em 1929, com um estilo entre o mourisco e o art déco, e que foi durante décadas a grande referência de Marraquexe –, Chaplin (recebido com honras de Chefe de Estado), Marlene Dietrich, Orson Wells, Hitchcock, Yves Saint-Laurent (cujo nome está para sempre associado aos Jardins Majorelle, pérola da botânica que o famoso costureiro adquiriu e recuperou, tendo-o mais tarde oferecido à cidade), outros têm vindo a seguir as suas pisadas, sendo ainda hoje recordadas as delirantes festas oferecidas, nos anos 60, na casa do multimilionário Paul Getty, em que participavam estrelas como Mick Jagger, John Lennon e Brian Jones, just to name a few. Já nas décadas de 20 e 40 eram internacionalmente conhecidas as festas de loucura e perdição que o autocrata paxá de Marraquexe, T´hami el Glaoui, dava regularmente, com o seu palácio a encher-se de convidados vindos de todo o mundo.

Hoje em dia, o segredo já não pertence só a alguns e a cidade enche--se anualmente de milhares e milhares de visitantes, com personalidades como Nicole Kidman, Bruce Willis, Sharon Stone e Martin Scorcese, entre muitos outros mais ou menos famosos, a eleger Marraquexe como a “sua” cidade das mil e uma noites. De resto, tudo na Medina está como sempre foi: souks cheios de artesãos a trabalhar madeiras, peles, tecidos, cestarias e outros tantos vendedores a tentar negociar estas e outras mercadorias. Era uma vez em Marraquexe, cidade encantada e de encantar.
Agradecemos a colaboração da Royal Air Maroc
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