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   XLRotas & DestinosEstrada fora > De Cabo a Cabo

E S T R A D A    F O R A Outubro de 2002   
   
Visitar o Mosteiro dos Jerónimos e o Castelo de São Jorge, comer um pastel de Belém ou ir ao Palácio Nacional de Mafra não tem de ser apenas um percurso turístico para estrangeiro ver: pode muito bem ser um agradável passeio que qualquer bom português deve (re)conhecer

Texto de JoÃo Ferreira Oliveira | Fotografia de Pedro Sampayo Ribeiro
   

P U B L I C I D A D E
Há sítios que parecem fazer parte do nosso imaginário desde sempre. Como todos parecemos conhecer Nova Iorque ou Paris antes da primeira visita, porque os filmes também são viagens, há monumentos e locais históricos em Portugal que estão umbilicalmente acoplados à nossa memória. Quem é que não terá ido num passeio da escola ao Convento de Mafra ou ao Mosteiro dos Jerónimos, nos tempos em que era politicamente correcto pedir ao senhor condutor para colocar o pé no acelerador?! Mas há quantos anos foi? Será que ainda se lembra do que viu? Será que não conhecerão os estrangeiros algumas zonas do país melhor do que os próprios portugueses? Dispensámos o autocarro e fizemo-nos à estrada a ritmo lento, ao encontro não só do “Portugal dos Monumentos” mas, sobretudo, do país dos miradouros com sensação de fim de linha. Do cabo da Roca ao cabo Espichel, sempre à conversa com o mar.

Núcleo Museológico do Castelo, obra galardoada com um Prémio de Arquitectura (em cima, à esq.); um dos rostos que simboliza a boa disposição diária nos Pastéis de Belém (ao centro); e o Mosteiro dos Jerónimos, a apenas alguns metros de distância daquela loja.

Dia 1
LISBOA | CABO DA ROCA | SINTRA
Dizer que este passeio começa no cabo da Roca é pura dialéctica. Porque imprime outra força ao título, não fosse este cabo o princípio do fim, o ponto mais a ocidente do Velho Continente, miradouro com vista privilegiada para as Américas. Na realidade, esta rubrica tem início na cidade de Lisboa, no Castelo de São Jorge. De construção romana e antiga casa oficial de D. Afonso Henriques depois da conquista aos mouros em 1147, este monumento nacional não é apenas o monumento mais visitado do país. É também um dos locais lisboetas com melhor panorâmica sobre a cidade. Ao contrário do cabo da Roca, não se adivinha lá ao fundo o Novo Mundo, mas olham-se os telhados da velha Lisboa pombalina reflectidos no rio Tejo.

“Há anos que não vinha aqui”, ouve-se aqui e ali, sotaques de todo o país misturados com o sempre internacional “uau”, que os turistas transformaram numa língua universal. Impressiona, sem dúvida, e não será por acaso que só em 2010 tenha por aqui passado cerca de um milhão de pessoas. Mesmo no Inverno, as manhãs parecem nascer Primavera e a altura faz-nos esquecer – não confundir com apagar – os problemas que a cidade enfrenta junto ao solo. Razões mais do que suficientes para voltar, voltar mais vezes, voltar sempre que possível. Contudo, os que precisarem de um motivo, têm, desde há alguns meses, o Núcleo Museológico do Castelo de São Jorge para justificar a visita. Este museu começou a ganhar forma a partir de 1996, quando foram encontrados vestígios arqueológicos que levaram a novas escavações, resultando num acervo que agora é dado a conhecer ao público.

A beleza postal das Azenhas do Mar e um dos imperdíveis pratos de peixe do restaurante Azenhas do Mar, de frente para o mar (em cima); o luxo e o ambiente de época do Palácio de Seteais, a morada ideal para prenoitar em Sintra.

Vista geral do cabo da Roca, o local “onde a terra se acaba e o mar começa”
A verdade é que o espaço é também um projecto arquitectónico, assinado por João Luís Carrilho da Graça, recentemente distinguido com o Prémio Internacional Piranesi Prix de Rome 2010 – galardão que o colocou inclusive nas páginas da britânica Wallpaper, o que arrastará, com certeza, ainda mais alguns turistas ao topo da mais alta colina da cidade. Mas se há passeio para fugir de turistas não é este. Aqui o objectivo é precisamente seguir os seus passos, à procura de paisagens que são tão nossas que às vezes nos esquecemos de as reclamar. É por isso que vamos para Belém. Não só para os Jerónimos, casa maior do estilo manuelino, que D. Manuel I mandou edificar depois de Vasco da Gama ter regressado da viagem à Índia, mas, sobretudo, para comer pastéis. Um, dois, três, os que quiser, pelo menos por um dia, afinal uma percentagem insignificante no universo de 20.000 que fabricam diariamente. Sentados, é claro, que o bom português gosta de comer com as pernas da cadeira bem assentes no solo, por entre os “uaus” estrangeiros e perguntas acerca da história da casa. Lembra-se? Nós também não. O melhor é lermos: “No início do século XIX, em Belém, junto ao Mosteiro dos Jerónimos, laborava uma refinação de cana-de-açúcar associada a um pequeno local de comércio variado. Como consequência da revolução Liberal ocorrida em 1820, são em 1834 encerrados todos os conventos de Portugal, expulsando o clero e os trabalhadores.

A grandiosa biblioteca do Convento de Mafra
Numa tentativa de sobrevivência, alguém do Mosteiro põe à venda nessa loja uns doces pastéis, rapidamente designados por Pastéis de Belém. Na época, a zona de Belém era distante da cidade de Lisboa e o percurso era assegurado por barcos de vapor. No entanto, a imponência do Mosteiro dos Jerónimos e da Torre de Belém atraíam os visitantes que depressa se habituaram a saborear os deliciosos pastéis originários do Mosteiro”.

Depois da lição de história improvisada fazemo-nos à estrada e saímos de Lisboa em direcção ao cabo da Roca. Com o mar sempre ao lado, sobretudo se optar pelo prazer em detrimento do tempo e for pela marginal. Um percurso que é em si uma viagem, pura literatura, para fazer a ritmo lento, com uma banda sonora a preceito ou, simplesmente, em silêncio. Em suma, um romance. E nada melhor do que acabar de o ler no Palácio de Seteais, no coração de Sintra.


O peixe fresco grelhado do restaurante Isaías, uma das mais antigas casas de restauração de Sesimbra, e um dos seus empregados; o porto de Setúbal, também com uma forte tradição piscatória

Dia 2
SINTRA | AZENHAS DO MAR | MAFRA
O ambiente literário continua no dia seguinte. Porque por dia seguinte leia-se um passeio pelas Azenhas do Mar, um almoço no restaurante com o mesmo nome e uma ida ao Convento de Mafra. Literário ou cinematográfico, não tivesse sido por estes lados que o escritor e também realizador norte-americano Paul Auster rodou o seu segundo filme, A Vida Interior de Martin Frost – história de um escritor de sucesso que acabou de publicar o seu último romance e decide ir descansar sozinho para uma casa de campo.

Convenhamos que o facto de rodar em Portugal ser mais barato ajudou, pois a beleza por si só não faz filmes, quanto muito vende, mas foi também a beleza das casas caiadas de branco das Azenhas do Mar, banhadas por um Atlântico às vezes bruto, que seduziu Paul Auster e o levou a apaixonar-se pela região: “Os quartos eram suficientemente grandes para se filmar lá dentro. E os terrenos à volta eram muito interessantes, muito estranhos, atraentes, quase de outro mundo”.

Acabo de escrever estas palavras e lembro-me de que, provavelmente, já tinha abordado este tema num outro artigo mas, contrariando as mais elementares regras do jornalismo, não vou corrigir. Porque esta zona é também isso, recordação, memória, reminiscências de paisagens que convém repetir. É por isso que regressamos também ao restaurante Azenhas do Mar. Uma casa inaugurada na década de 50, juntamente com o complexo de piscinas, que continua a servir peixe de frente para o mar como se a qualidade fosse a única via. Não é barato, seria difícil sê-lo com uma localização destas, mas também não é proibitivo. Quem preferir, quem não quiser ou, simplesmente, não puder – que os tempos são de crise e a carne é mais barata –, pode sempre deslocar-se meia dúzia de quilómetros para o interior, até à Terrugem, e ir ao restaurante O Cortador, famoso pelos seus pregos no prato. Além disso, fica a caminho de Mafra e do seu Palácio Nacional. Uma verdadeira Maravilha Nacional, que a maioria (arrisco) também não visitará desde os tempos de escola e que se surpreenderá quando revir o seu tesouro maior: a biblioteca do Convento. Trata-se de um espaço criado pelo arquitecto Manuel Caetano de Sousa no século XVIII, com chão em mármore, estantes em estilo rococó e uma colecção de mais de 40.000 livros com encadernações em couro gravadas a ouro, incluindo uma segunda edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões. Dizem que há muito poucas a rivalizar com ela, sendo a mais distinta “adversária”, a Biblioteca da Abadia de Melk, na Áustria. É possível que o leitor soubesse. Eu já não me lembrava, pois nesses tempos a atenção ficou toda concentrada nos primeiros beijos furtivos trocados no barroco Jardim do Cerco, construído entre o palácio e a Tapada de Mafra e recheado de plátanos, cedros e azevinhos. O cheiro, esse, é que não se esquece.

A Pousada de Setúbal, instalada no Forte de São Filipe, com vista para o estuário do Sado e a Península de Tróia; caves dos vinhos José Maria da Fonseca, em Azeitão; e o sempre dramático cabo Espichel

Dia 3
LISBOA | CABO ESPICHEL | SESIMBRA | SETÚBAL
 
   
 
CONTA-QUILÓMETROS
• Dia 1 | 70 km
• Dia 2 | 80 km
• Dia 3 | 140 km

Quanto custa
3 Dias - 2 Noites
Alojamento €255
Combustível €80
Portagens
(desde Lisboa)
€4,65
Cinco refeições €158
Total para 2 pessoas €49,65
O último dia fica reservado para o outro lado, para o outro cabo, para a margem sul. Poderia ter sido ao contrário, poder-se-ia ter começado por aqui que as sensações seriam as mesmas. A paisagem, essa, é bem distinta. A começar pelo cabo Espichel, situado a poucos quilómetros de Sesimbra. Um cabo vigiado por um farol construído em 1790 e rodeado por um conjunto arquitectónico datado de princípios do século XVIII. Santuário que urge recuperar, pois a decadência que ainda impera ajuda ao dramatismo das fotos mas desfoca por completo uma história que deveria ser alvo de outro tratamento.

Preservar é preciso e disso O Isaías percebe como poucos. Uma casa, tasca, restaurante de família, em Sesimbra, em que a tradição ainda é o que era. O peixe ainda vem do mar, o grelhador ainda está na rua e o sorriso é uma constante da cara. Parece fácil, mas não é, dá trabalho, é isso que penso, enquanto o carro segue lento pela serra da Arrábida até Setúbal. Lá em baixo, a praia do Portinho da Arrábida, uma aguarela que parece importada de uma paragem mais exótica. Penso também que, tal como na maioria dos locais deste passeio, nenhum português deve estar muito tempo sem cá vir. Não por dever patriótico, antes por puro prazer.

A não perder
Animação do Mosteiro dos Jerónimos
Pode visitar o Mosteiro (www.mosteirojeronimos.pt) sozinho, mas aqueles que preferirem uma contextualização histórica têm vários programas à disposição. Há várias actividades pedagógicas diariamente e até teatro: a peça Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente.
Visita à Casa-Museu José Maria da Fonseca
Fundada em 1834 por José Maria da Fonseca, é a mais antiga empresa portuguesa produtora de vinhos de mesa e Moscatel de Setúbal. Pode fazer visitas diárias à Casa-Museu (www.jmf.pt), ficar a conhecer a sua história e, claro, provar e comprar os seus vinhos.

Onde comer
Azenhas do Mar – Azenhas do Mar, tel. 219 280 739
É uma daquelas casas incontornáveis quando se passa pelas Azenhas do Mar. O cenário, por si só, valeria a visita, mas não seria ainda mais grandiloquente se a comida não tivesse tanta qualidade. Arroz de polvo, carabineiros, amêijoas à Bulhão Pato, sargo, dourada ou robalo no carvão são algumas das especialidades.
O Isaías – Rua Conselheiro Ramada Curto, 34, tel. 212 231 867.
É um dos locais mais típicos de Sesimbra, casa onde comida é sinónimo de peixe fresco, de ambiente familiar, doses de simpatia em larga escala e preço a condizer, sendo que fazer uma refeição para duas pessoas e deixar uma nota de €20 não é tarefa impossível.
O Cortador, Terrugem – Av. 29 Agosto, 228, Terrugem, tel. 219 618 664.
Pregos, bitoques e bifes são a prata da casa. Uma casa quase sempre cheia, reflexo da qualidade e do preço.

Onde ficar
Tivoli Palácio de Seteais – Rua Barbosa du Bocage, 8, Sintra, tel. 219 233 200, www.tivolihotels.com
Com vista para o Castelo dos Mouros e para o Palácio da Pena, é um antigo palácio do séc. XVIII transformado num hotel de cinco estrelas. As pinturas, as tapeçarias, o mobiliário de época, os salões, os frescos de beleza rara e os seus jardins desenhados em forma de labirinto são algumas das suas qualidades maiores. Preço por noite em quarto duplo a partir de €160.
Pousada de Setúbal – Forte de São Filipe, Setúbal, tel. 265 550 070, www.pousadas.pt.
Seria difícil encontrar nesta região um alojamento com este enquadramento: com vista sobre a cidade, o estuário do Sado e a península de Tróia. Com 16 quartos, tem também um restaurante com sabores regionais. Uma promoção de duas noites (em quarto duplo) pode ficar-lhe por €190.


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