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 FBNet > Rotas & Destinos > A essência da Irlanda

Irlanda - Connemara

A essência da Irlanda

Para a maioria dos estrangeiros que visitam a Irlanda pela primeira vez, a região de Connemara, uma das mais belas do país, é um bom ponto de partida.


Quem entrar no con dado de Galway — onde se situa a região de Connemara — pelo lado norte, depara-se imediatamente com um cenário espectacular. O porto de Killary, uma espécie de ria alongada que se estende mais de dez quilómetros para o interior, desenha-se entre duas encostas abruptas e intensamente verdes, como se nada o distinguisse de um autêntico fiorde. Mesmo debaixo de chuva, o que não é raro num país como a Irlanda, poucos resistem a sair do carro para olhar bem para aquela paisagem hipnotizante. A partir daqui, o deslumbramento não pára, como comprovam as horas que qualquer recém-chegado leva a percorrer uma pequena distância. E quando finalmente chegamos à península de Renvyle, apenas uns quinze quilómetros depois de entrar nesta lendária região, então já não queremos sair dali. Ao longo da costa vêem-se dezenas de baías abrigadas, de águas transparentes, onde se escondem areais brancos e tranquilos; para o interior, levantam-se suaves montanhas, de pouca altitude, forradas por uma vegetação rasteira que a luz faz variar numa infinidade de tons, entre o verde-escuro e o amarelo-torrado. Talvez melhor do que em qualquer outra parte do país, é aqui que se materializa a Irlanda do nosso imaginário — a Irlanda dos filmes, a Irlanda dos livros.


Até onde a vista alcança, ao longo de velhos caminhos, surgem campos divididos por seculares muros de pedra e uma ocasional casa, abandonada aos rigores do tempo. Também não faltam as crianças ruivas que, ao fim da tarde, ainda molham os seus pálidos pés nas poças deixadas pela maré, ou procuram na areia húmida as conchas mais coloridas. Nestas horas, quando o fim do dia traz uma luz mais dourada à recortada baía de Ballinakill, um grupo de pescadores descarrega no pequeno cais o resultado de um dia de faina. Quase tudo o que apanham são crustáceos — lagostas, santolas e sapateiras —, particularmente abundantes nestas águas, e que agora se destinam aos mercados e restaurantes da vizinha cidade de Clifden. Depois de acabarem, volta o silêncio. Os barcos deixaram de se agitar e, tal como as montanhas que se erguem por detrás da baía, reflectem-se numa perfeição absoluta sobre o espelho das águas; junto às margens, um extenso tapete de algas e uma legião de mexilhões, agora a descoberto, aguardam o regresso da maré para voltar à actividade, enquanto as gaivotas — o único som na quietude da tarde —, se entretêm com os restos deixados pelos pescadores

Quando nos afastamos em direcção ao interior, deparamos com um cenário igualmente calmo, mas bem diferente.

É aqui que surge uma das paisagens mais características da Connemara e de todo o Oeste da Irlanda: as boglands ou turfeiras. São uma espécie de zonas pantanosas, formadas por água e matéria orgânica, como folhas, raí-zes e outros restos de plantas, que ao longo de milhares de anos se foram acumulando em camadas sucessivas. A partir do século viii, os habitantes aprenderam a tirar proveito destes locais aparentemente inóspitos e, ainda hoje, é daqui que se extrai a turfa — durante muito tempo, a principal fonte de energia da Irlanda. Um pouco por toda a parte, encostados às casas ou no meio das turfeiras, aparecem aqueles montes escuros, onde os pequenos blocos de solo vão secando lentamente, para serem queimados nos dias frios e húmidos do Inverno.

Foi no meio destas planícies alagadiças que se formaram alguns dos lagos que ajudaram a tornar esta região tão famosa. Ligados ao mar através dos caudais de pequenos ribeiros, as suas águas vêem chegar todos os anos, na mesma época, enormes cardumes de salmões que viajam até aqui para desovarem. O lago Inagh e o de Kylemore são dois dos mais conhecidos. O primeiro, por formar uma impressionante paisagem ao longo de vários quilómetros, com alguns dos Twelve Bens — os doze cumes que se erguem junto a Recess — a servirem de cenário; o segundo — mais pequeno —, pelo enorme castelo que, no final do século passado, o milionário britânico Mitchell Henry se lembrou de construir nas suas margens. Inicialmente pensado como uma casa de férias, este palacete de gosto discutível acabou por se transformar num convento-escola, que se mantém em funcionamento sob a gerência de um grupo de freiras beneditinas, originárias de Ypres, na Bélgica.

O caso de Henry não é único. Ainda hoje, alguns milionários ingleses e americanos compram na Connemara as suas casas de férias ou, em vez disso, gastam pequenas fortunas para passar umas semanas hospedados em castelos e dedicarem-se à pesca do salmão nos rios e lagos circundantes.

Não muito longe do lago Inagh, num labirinto de enseadas e ilhotas que se multiplicam no seio de um estuário, fica a aldeia abandonada de Aillenacally. O seu único habitante, uma espécie de guardião do local, conta que a maioria das casas ficaram desertas por volta de 1940, no auge da emigração para os Estados Unidos. Apesar de uma história triste, de fome e de inúmeras outras privações, este é um local extremamente belo e, sobretudo, muito calmo. Entre as ruínas crescem agora dezenas de flores diferentes e deambulam gansos, galinhas e cavalos, que repartem o espaço com algumas raposas, texugos e, nas zonas inundadas, lontras.

Mais abaixo, já próximo do mar, aparecem as pitorescas casas de Roundstone, alinhadas numa diversidade de cores ao longo da rua principal. Alexandre Nimmo, que em 1822 fundou esta minúscula vila costeira, não podia ter tido melhor gosto para a sua localização, como provam as constantes visitas de pintores e as diversas telas que retratam toda a luz e cor do pequeno porto. Sobre o cais podem ver-se os reflexos verde-translúcido das redes, o laranja fluorescente das bóias ou o ocre-ferrugem das gaiolas para apanhar lagostas; na água são os azuis-fortes e os vermelhos-vivos, que exibem toda a riqueza cromática das embarcações pesqueiras. Na rua principal, praticamente a única, sucedem-se as lojas e os pubs por onde passa toda a animação da localidade. Do lado de fora, por baixo do nome dos pubs, aparecem quase sempre os velhos anúncios à Guiness, cuidadosamente pintados em placas de madeira, enquanto no interior, especialmente nas noites de sexta e sábado, actuam grupos de música tradicional irlandesa e travam-se animadas conversas em gaélico. A Connemara é um dos bastiões da cultura celta e os seus habitantes têm um compreensível orgulho nisso, exibindo-o através dos instrumentos musicais, que ainda produzem artesanalmente, na transmissão de programas de rádio inteiramente falados em gaélico e mesmo nos sinais de trânsito: não é qualquer turista que vê nas palavras Cloch na Rón a direcção para Roundstone!

Perto da localidade, a cerca de dois quilómetros para poente, abre-se aquela que é, seguramente, uma das praias mais paradisíacas da Europa. Dog’s Bay pode mesmo ser comparada aos mais espantosos areais que se encontram nas regiões tropicais do globo, uma vez que, contrariamente ao que acontece no resto da costa, as suas areias são formadas por pequenas partículas de um determinado tipo de coral, tornando-a num caso único em todo o Hemisfério Norte.

Com uma profusão de praias invejáveis, dezenas de montanhas e alguns dos mais belos lagos do país, a Connemara cedo se afirmou como a região mais querida dos irlandeses e aquela que os visitantes estrangeiros mais ambicionam conhecer. Seja na vasta e agreste solidão das boglands ou no conforto e animação de um pub, em cada aroma, em cada som, em cada cor, aqui teremos sempre a certeza de ter encontrado a alma de uma terra, ... a essência da Irlanda



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