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Locais com História

A eleita de Jean Genet

Distante do bulício característico das conhecidas povoações marroquinas, Larache guarda na sua placidez momentos de história e memórias que ocidentais ajudaram a construir



Texto de Lourdes Féria e Fotos de Adriana Freire


Não está integrada nos itinerários das cidades imperiais onde desaguam regularmente grupos organizados de turistas que, quais borboletas, vão pousando de hotel em hotel, de monumento em monumento, de medina em medina, retendo apenas flashes, os tópicos que couberam no enquadramento da fotografia. Não propõe regime de meia-pensão, conforto de quatro estrelas e ainda o jantar num restaurante tipicamente marroquino com músicos e dançarinas do ventre a actuarem, tudo incluído no pacote da agência de viagens. Larache só recebe a visita esporádica dos desgarrados, dos que desejam mesmo lá ir por qualquer razão. É o caso de alguns portugueses que, espicaçados pela curiosidade histórica, resolvem seguir o rasto da presença portuguesa no Norte de África, de alguns espanhóis movidos por impulsos similares ou dos admiradores de Jean Genet que se encontra ali sepultado.

Não vale a pena sequer pensar nos estereótipos mais do que estafados sobre Marrocos onde habitam uns tipos baixinhos, magrizelas e morenos, mais ou menos muçulmanos, que usam gilabas e nos fixam insistentemente sem que saibamos porquê. Onde os homens andam de mão dada, se beijam e se abraçam, levam as mãos à cabeça e ao peito em gestos significativos de cumprimento, e as mulheres são sombras fugidias quase invisíveis, vultos esquivos de formas imprecisas que dobram as esquinas nos labirintos das medinas. Onde bandos de jovens desempregados se pegam aos turistas que nem lapas, tentando arrastá-los para os bazares de tapetes berberes. Desta indústria artesanal depende o sustento de milhares de famílias, compreende-se portanto tamanha insistência. Depois da oferta do chá de menta, com um cortejo de sorrisos e conversa fiada, vem o regateio. Há algo de penoso no regateio, por muito que isso corresponda aos padrões culturais da civilização islâmica
.


Passado corsário
Larache não se encaixa neste quadro. Não possui o exotismo de Fez com os burros, carregados de pesados alforges, a subirem as ruelas serpenteantes e de progressiva obscuridade, as meadas de lãs coloridas a secarem ao sol, os minaretes das mesquitas apontados para o céu, a lembrarem aos crentes o dever da oração.

Situada no estuário do rio Oued Louku, onde o peixe abunda, sempre foi uma terra marinheira penetrada pelas culturas dos povos que vinham do outro lado do estreito de Gibraltar no intuito de a conquistarem. Essa abertura observa-se até na mestiçagem da arquitectura onde os elementos hispânicos afloram com alguma pujança na geometria da ornamentação árabe.

Uns dos raros emblemas turísticos da cidade são as ruínas romanas de Lixus, a escassos quilómetros de distância e associadas à lenda do Jardim de Hespérides. Foi naquele lugar, com os vestígios do teatro, do templo, da necrópole e das termas à vista, que Hércules se apoderou dos frutos de ouro. Perto dali, nos campos de Ksar-el-Kebir, aconteceu a batalha dos três reis.
Debruçada sobre um mar que desde cedo abriu os braços à navegação e ao comércio, digamos unilateral, as suas pedras escondem um património ignorado e um passado beligerante. Do ponto de vista dos histo-riadores marroquinos, dedicava-se à yihad marítima, ao que os europeus preferem apodar de pirataria, mas ambos os conceitos não têm de ser forçosamente antagónicos. Na verdade, os slauis eram mestres na arte de matar dois coelhos de uma só cajadada: enquanto combatiam os inimigos infiéis, aproveitavam para encher os bolsos. Neste lucrativo negócio distinguiu-se Al Ayachi, um famoso corsário mouro do século XVII que, para além de conseguir manter à distância os espanhóis e os ingleses, não deu tréguas aos aguerridos portugueses que chegaram a dominar praticamente toda a costa Atlântica de Marrocos
.


Paixões

Na Praça de Espanha, circular e bem cuidada, com as esplanadas dos cafés animadíssimas ao final da tarde, não soam os dum-dum repetitivos dos tambores nem as melodias das flautas dos encantadores de serpentes que, enroscadas dentro de cestos, se erguem lentamente. Não se concentram os malabaristas, os engolidores de fogo, os acrobatas, os dançarinos, os vendedores de ervas medicinais, os aguadeiros vestidos com roupas estapafúrdias que fazem as delícias dos turistas na praça Yamaa el Fna de Marraqueche. Não, a Larache não se pode aplicar o qualificativo de pitoresco.
Se calhar foi isso que atraiu Jean Genet, pouco dado a arrebatamentos líricos. Pão-pão, queijo-queijo, endurecido pelos tombos da vida, buscava cenários mais neutros, mais incaracterísticos, mais discretos, para viver a sua vida de eremita. Era a carne, o sexo puro e duro sem embaraços das emoções que o mobilizava. Ancorou aqui com um amante marroquino, meio pescador meio gigolo, depois das orgias desregradas de Tânger, das cumplicidades literárias e de outro teor com Mohamed el Chukri que desmontou nos seus textos as visões idílicas de Marrocos, mostrando o lado sórdido da exclusão e da miséria.

Com ordem de expulsão emitida pelo sultão, embarcou no porto de Larache, rumo ao Médio Oriente, em Outubro de 1805, o espanhol Domingo Bádia, que, sob o disfarce de Ali Bey, cumpria uma missão de espionagem de que a coroa espanhola o incumbira. As suas notas de viagem, reunidas num livro, informam melhor do que a maioria dos guias turísticos que não ultrapassam a rama. Pelas descrições deste aventureiro, os souks não eram muito diferentes do que são hoje. Entramos na medina, onde outrora decorria o mercado da seda, e parece que caímos no passado. Combinam-se o vermelho dos pimentões, o amarelo do açafrão, o azul dos pratos de cerâmica, sugerindo uma pintura de Matisse, que também explorou aquelas bandas no período em que vivia em Tânger. As cores das tangerinas, das meloas, das tâmaras e dos legumes alargam o espectro da paleta, intensificando o impacto visual. São os aromas misturados das especiarias, do peixe frito, dos bolos de mel que impregnam o ar de um cheiro enjoativo e persistente. Correm regueiros de sangue dos carneiros sacrificados no chão de terra batida. Há lojas onde não se vende nada, apenas trastes velhos, coisas aparentemente inúteis.

Imóvel, olhar fixo no vazio, um velho de barbas brancas encostado ao cajado, indiferente à azáfama que o rodeia, entrega-se à medição
.

Interditos
Como é simpático e convidativo este restaurante. Com as mesas cobertas de toalhas aos quadrados brancos e vermelhos, um menu de peixe fresco e variado, preços extremamentes aliciantes, prometia um almoço retemperante e delicioso. Só tinha um inconveniente: não servia bebidas alcoólicas. Ora, bolas! Um branco gelado calhava que nem ginjas. Ao aperceber-se da decepção provocada pela bombástica notícia, o empregado sugeriu que contornássemos a lei corânica, comprando uma garrafa de vinho no Centro Espanhol, que podíamos beber discretamente com o peixinho. Agradecemos a amabilidade. Finalmente, numa correria louca, com abordagens a diversos transeuntes, desistimos da desesperada procura do Centro Espanhol, quando descobrimos um estabelecimento de bebidas, o único existente em Larache, nas imediações da estação rodoviária. Nunca uns salmonetes grelhados souberam tão bem.


Um cemitério acolhedor

A céu aberto, sem muros, sem nichos, sem imagens, sem o luxo dos mármores e dos dourados, com as sepulturas impecavelmente caiadas de branco, isentas da sinistra iconografia do sofrimento, o cemitério apresentava-se limpo e cuidado, o que é de estranhar numa cidade com zonas ruídas pela pobreza, castigadas pelo abandono. Implantado numa colina virada para o mar, mais parece um miradouro. Aqui repousa, assinala a lápide tosca, Jean Genet. Depois de escrevermos estupidamente umas linhas de circunstância no livro de visitantes, prática que certamente ele recriminaria, o encarregado do cemitério indicou-nos a direcção da casa onde Genet tinha residido. A moradia de primeiro andar, com um limoeiro no quintal, no número nove da rua El Ooroba, foi herdada pelo seu jovem amante.

Imaginamos Jean Genet, rosto de vilão, cabeça rapada, vestido com o eterno blusão de cabedal negro, a palmilhar aquelas ruas esburacadas e monótonas, até à avenida principal, bordada de mansões solenes e de palmeiras. Com outro aspecto, mais próspera e mais amena, esta parte da cidade exala ao entardecer o perfume das roseiras e dos jasmins. No Centro Espanhol, onde o acento decorativo é claramente andaluz, sentadas num sofá de cabedal, bebemos uma cerveja à memória do escritor francês. Ali saboreiam-se tapas, polvo, jamon e queso, lêem-se os jornais espanhóis e disputam-se jogos de cartas a dinheiro, com as notas em cima do pano verde das mesas.


Experiências

Está na hora de regressar a Tânger que dista setenta quilómetros de Larache. As cegonhas, cansadas e sonolentas, buscam aconchego nas robustas muralhas que cingem a medina.

As estações rodoviárias marroquinas são um desatino, uma perfeita loucura. Inúmeros taxistas assediam os incautos passageiros que desesperam sem saber qual é o seu autocarro. Cem dihrams é quanto custa o trajecto até Ksar-el-Kebir, o sítio onde D. Sebastião desapareceu na refrega da batalha, montado num cavalo branco, dando origem ao mito do "desejado". Os autocarros, libertando fumos contaminantes, param e seguem, uns para Casablanca outros para Fez. Ouve-se Ksa, ksa que significa fortim de base quadrada com altos muros. O autocarro de Tânger ainda está por chegar. Chega com hora e meia de atraso e apinhado, depois das falsas informações que dezenas de homens frenéticos com batas azuis nos prestaram. Subimos, entre os atropelos da desordem, com medo de ficar em terra naquele inferno onde a única nota de humor era o rosto seráfico da princesa Diana.

No autocarro viajava um ancião de turbante com as suas três esposas de diferentes idades. Reparamos numa mulher, vestida à ocidental, que dormitava embalada pela interminável cassete de música marroquina, cabeça apoiada no ombro de um homem de fato e gravata, que tinha as mãos tatuadas com hena num intrincado arabesco. Irritante a submissão das mulheres. Jousouf Amine Ealamy, nascido em Larache em 1961, actualmente professor na Universidade de Casablanca, doutorado em Publicidade e Medias, não concordaria com este comentário. Trocámos umas palavras na livraria Des Colones, em Tânger, quando do lançamento do seu livro intitulado Un marrocain à New York, e pareceu-nos machista e pretensioso.

   
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