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E V A S Õ E S


O relato de uma viagem ao encontro de uma das civilizações mais notáveis da história da humanidade, com um cruzeiro nostálgico pelo Nilo e uma visita à cidade do Cairo

Texto e fotos de Carlos Costa
   


Após o atraso na partida do avião devido a um ataque de claustrofobia de uma passageira no momento do embarque, iniciamos finalmente uma viagem que nos levará a testemunhar, ao vivo, o que resta de uma das civilizações mais notáveis da História da Humanidade. O entusiasmo é geral. Todos os participantes aguardam com expectativa a hora do encontro com os templos e as pirâmides dos faraós.


A Grande Esfinge

O começo do nosso percurso tem início em Luxor, "o grande oásis da cultura egípcia", onde aterramos já de noite. Após algumas horas de repouso, o amanhecer a bordo do "Pharos" revela-nos o primeiro momento mágico da viagem: o nascer de Sol no Nilo. Este navio-cruzeiro será o nosso "lar" durante os quatro dias em que desceremos este histórico rio até Assuão, a cidade mística das antigas cataratas que põem termo à sua navegabilidade.

Estômago confortado às 6h30, eis-nos partindo com o guia numa pequena barca, que nos leva à margem ocidental em direcção ao célebre Vale dos Reis. Ao vislumbrar pela primeira vez o templo de Hatshepsut, encaixado num sopé da montanha, a sua beleza quase mágica faz-me recordar alguns dos filmes bíblicos que todos já vimos um dia. Nesse momento percebo que quem visita o Egipto não faz apenas uma, mas sim duas viagens. Uma é aquela que nos leva ao encontro das paisagens, das gentes e, é claro, dos monumentos; outra é uma incursão pelo passado das nossas memórias.


As pirâmides de Guiza

Aparecem, depois, as plantações de chá, compostas por arbustos singelos que conseguem imprimir à paisagem um cunho fascinante. Não faltam os tufos de bambu e arrozais inundados onde labutam homens e búfalos.

O primeiro impacto com a cidade pode ser negativo, devido ao tráfego automóvel quase caótico. Afinal, estamos numa cidade asiática e até o Paraíso pode ter destes contratempos... O Hotel Olde Empire, com o pavimento de madeiras empenadas e uma réstia de atmosferas coloniais, serve de paliativo à confusão inicial. Da sua varanda com vista para o lago começa a atracção pela mais carismática cidade do Sri Lanka.


Egipto faraónico

Templo de Edfú dedicado a Hórus, deus-falcão.

Tebas, antiga capital do Império Novo (1560 a.C. a 1070 a.C.), perfilava-se nas margens do Nilo: a oriente, a chamada "Cidade dos Vivos", onde hoje se ergue Luxor; e a ocidente, onde o Sol desaparece por detrás do horizonte, a "Cidade dos Mortos". Viajamos através da história até ao tempo do deus Amon e do reinado de faraós como o célebre Ramsés II.


Hórus, deus-falcão.

Vista de longe a necrópole tebana não é muito diferente de outros vales junto ao deserto, mas depressa nos apercebemos da imensidão que nos espera. Entre 1539 e 1078 a. C. quase todos os faraós foram enterrados nesta área. A riqueza arqueológica do local é imensa. Nestas primeiras horas da manhã, o sumptuoso templo de Hatshepsut surge iluminado de cor amarelo-ocre, enquadrado pela montanha da mesma cor. Nos arredores, homens trabalham em pedras de dimensões consideráveis, espalhadas no terreno como num puzzle incompleto. Após a visita ao templo dedicado à única mulher-faraó que reinou durante 20 anos no Antigo Egipto, Alim, o nosso guia, apressa-nos porque ainda vamos seguir para Luxor. Caminhamos na direcção do Vale dos Reis, por detrás da montanha, no sentido oposto ao templo de Hatshepsut.
Já no Vale dos Reis um pequeno comboio turístico leva-nos junto à entrada principal dos túmulos. Estamos num dos sítios arqueológicos mais antigos do planeta, um lugar inóspito, domínio de cobras e escorpiões. A escolha certa para quem buscava o eterno descanso, numa tentativa de evitar os saques de que as pirâmides do Império Antigo (em Guiza) já tinham sido alvo. Porém, o objectivo não foi atingido. Pelo menos no que diz respeito às pilhagens. No início da era cristã, muitos destes túmulos já tinham sido assaltados.


Abu Simbel.

Praticamente intacto só chegou aos nossos dias o de Tutamkhamon, descoberto em 1922 por Howard Carter. A sua fama vem precisamente desse facto e não pela importância (menor) deste faraó na história do Egipto antigo. Apesar de ser uma experiência nada aconselhável a claustrofóbicos, decidimos penetrar no túmulo de Ramsés IV, escavado no calcário através de um longo corredor cujas paredes parecem um filme animado por diferentes figuras, que, segundo o guia, simbolizam o faraó procurando alojar a sua alma na eternidade com o deus Siris; ou Anúbis, deus dos embalsamados, com cabeça de chacal. São muito concorridos o de Ramsés III, o de Amen-Hotep II e o de Merneptah, sem falar, é claro, do já mencionado Tutankhamon. No regresso do Vale dos Reis, há tempo ainda para admirar ao vivo os artesãos nos seus trabalhos em pedra na aldeia de Deir El-Medina, um verdadeiro paraíso para os mais consumistas.


Museu do Cairo.

Após pausa para a fotografia dos dois colossos de Memmon regressámos à margem oriental de Luxor para visitar os espectaculares monumentos da Cidade dos Vivos, a capital do Império Novo, onde viviam e trabalhavam os antigos. Começamos pelo templo de Luxor dedicado a Amon Rá, rei dos deuses, construído por Amen-hotep III, e alargado nos reinados de Amenofis III e de Ramsés II. Pela direita, a entrada apresenta dois grandes colossos, um enorme obelisco e uma colossal cabeça de Ramsés II. À esquerda, uma longa avenida ladeada por várias dezenas de esfinges em ambos os lados ligava o templo de Luxor ao de Karnak num percurso de cerca de três quilómetros.


Karnak.

Um vasto complexo de templos, obeliscos, esfinges, colunas e milhares de inscrições esmaga os visitantes pela sua sumptuosidade. Karnak foi um dos centros religiosos mais importantes da Antiguidade. A sala Hipostila, por exemplo, com cento e trinta e quatro colunas surpreende pela diversidade das cenas expostas nos relevos. Muitos dos obeliscos, construídos aos pares, "viajaram" através dos tempos para outras paragens, podendo ser hoje vistos em praças de capitais europeias como Paris e Roma. Destaque também para a enorme estátua de Ramsés II e sua rainha construída em granito rosa, tornando-se na principal atracção das máquinas fotográficas, aqui em Karnak.

 
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