Conhecer
o Velho Continente ao volante do próprio bólide é uma boa alternativa.
Mas obriga a alguns cuidados para não "atropelar" as diferentes legislações
das estradas europeias. Eis um pequeno retrato dos Quinze
Maio
de 2003
Texto
de Jorge Flores
Ilustração de André Kano
Fechou
a edição da Rotas & Destinos dedicada aos cruzeiros
e guardou as tabelas de preços dos voos para o Brasil. Logo
de seguida abriu o mapa de estradas da Europa. Estava decidido! Além
do mais, não estava o seu automóvel carente da terceira
rodagem, aquela mesmo dos 200 mil quilómetros? Se se revê
nestes planos, saiba que está longe de ser original. São
cada vez mais os portugueses que optam por percorrer o Velho Continente,
durante as férias, ao volante do próprio bólide.
Tenha apenas em atenção alguns pormenores para poder
garantir o sucesso da operação. Ainda em terras lusas,
faça um programa dos lugares que pretende visitar.
Estabeleça uma rota. Já agora, se não for muito
dado a aventureirismos, faça antecipadamente as reservas dos
hotéis, para evitar surpresas. E não se esqueça
de fazer um check-up à viatura. Posto isto, estará pronto
para a viagem. Mas não sem ter presente que as legislações
das estradas europeias variam ainda muito das nossas. Embora esteja
em elaboração um "Livro Branco", que unificará
códigos e sanções, depois de 2005, por enquanto,
ainda há vicissitudes próprias dos países-membros
a respeitar se não quiser estragar o passeio. Aqui ficam algumas
dicas....
Dois pares de óculos?
Mal
atravesse a fronteira com Espanha, encontrará algumas surpresas.
Embora os limites de velocidade e de álcool sejam idênticos,
se o leitor possuir carta há menos de dois anos - ou conduzir
um veículo com mais de oito lugares sentados - não poderá
exceder os 0,3 g/l... Se for apanhado, como visitante, terá
de pagar a multa no acto, beneficiando, porém, de uma redução
de 30%. Deve ainda transportar no automóvel, o tradicional
pneu extra e as ferramentas para a substituição. Mas,
pasme-se, se usar óculos será obrigado a trazer um par
a mais, não vá parti-los na viagem...
Já em França, a lei permite os 130 km/h nas auto-estradas,
e é bastante rigorosa quando as condições de
visibilidade são más: o limite passa para 50 km/h, em
todas as vias.
Ao viajar com crianças tenha muito cuidado, pois se o catraio
tiver menos de 10 anos, nunca poderá ir à frente. O
Código Penal Francês prevê o delito para quem coloca
em perigo a vida das crianças, bastando, para tal, a não
utilização de um sistema de retenção adequado,
variando as multas entre os 1500 e os 15 mil euros.
No coração da sede europeia, na Bélgica, os limites
de velocidade são iguais aos lusos. Mas, nas zonas residenciais,
nunca se pode ultrapassar os 20 km/h. Se viaja com menores de 12 anos,
estes não podem ir nos bancos da frente sem sistema de retenção
legal.
Bem no centro da Europa, as estradas da Alemanha costumam induzir
em erro os turistas aceleras. Lamentamos desiludi-los. Há cada
vez mais troços onde os limites existem (nomeadamente junto
a entradas e saídas das auto-estradas),por norma de 130 km/h,
embora tal dependa muito das condições climatéricas.
E a polícia não perdoa quem exceda os 50 km/h quando
estiver nevoeiro, ou supere os rígidos limites impostos na
área urbana. Mas não é tudo. Dado que a matrícula
é estrangeira, não se admire se lhe pedirem uma caução
caso seja multado (na falta de pagamento, o veículo poderá
ser retido). As prevaricações graves ficam registadas,
como um cadastro, criando-se um período durante o qual ficará
inibido de circular na Alemanha.
Ali mesmo ao lado, na Áustria, encontram--se regras de trânsito
distintas. Para já, se circular nestas regiões, acompanhe-se
sempre de uma caixa de primeiros socorros. Nas auto-estradas o limite
de velocidade é de 130 km/h, mas baixa para os 110 km/h, todas
as noites, entre as 22h00 e as 05h00 na A10 (Tauem), A12 (Inntal),
A13 (Brenner) e ainda A14 (Rheintal). Se viaja num veículo
de dois lugares, saiba que o tripulante não poderá ser
menor de 12 anos. Também aqui as infracções graves
poderão impedi-lo de "rodar" pelas belas montanhas
deste país por um largo período de tempo.
Sente-se
em casa?
Ainda
antes de "caminhar" pela famosa bota italiana, procure atestar
o depósito do automóvel. É que, em Itália,
as auto-estradas reservam-se o direito de adicionar ao preço
do combustível pesadíssimas taxas. Já a partir
do final do mês de Julho, as auto-estradas com três vias
para cada lado permitirão circular a 150 km/h, enquanto nas
restantes o limite continuará nos 130 km/h. Tanto nestas vias
como nos túneis terá sempre de circular de luzes acesas,
24 horas por dia!
No Luxemburgo, os limites de velocidade apenas diferem dos nossos,
numa pequena nota que obriga a baixar para os 110 km/h nas auto-estradas
sempre que o tempo estiver chuvoso. O consumo de álcool durante
a condução é permitido até aos 0,8 g/l.
Se prevaricar, saiba que a polícia pode cobrar logo as multas,
mas sempre em numerário! Alegre-se pois, pelo menos, não
encontrará aqui quaisquer portagens...
A realidade das estradas na Holanda é muito parecida com a
lusa. Mas as autoridades "laranja" vão mais longe,
já que o telemóvel nem sequer poderá estar à
mão do condutor (multa de 138 euros). Onde qualquer semelhança
com Portugal é mera coincidência é nas portagens,
já que os autóveis ligeiros só pagam taxas nos
túneis de Kil (1,70 euros) e de Westerschelde (6 euros).
Dada a estatística rodoviária, um turista português
sentir-se-á em casa ao circular na Grécia. Além
dos mesmos limites de velocidade, terá apenas de colocar na
mala um extintor e uma caixa de primeiros socorros para cumprir a
lei.
Para diminuir a poluição, a circulação
automóvel, no centro de Atenas, de segunda a sexta-feira, entre
as 07h00 e as 20h00 só é permitida dia sim, dia não,
consoante a numeração da matrícula - uma medida
que só se aplica às viaturas estrangeiras quando estas
permanecerem na Grécia mais de 40 dias.
Olhos bem abertos "Se
poderes olhar, vê. Se podes ver, repara". Podemos
perfeitamente "receitar" esta frase de José
Saramago, extraída do Ensaio sobre a Cegueira, a quem
se propõe a uma longa jornada de automóvel. A
sonolência ocupa o 8.º lugar entre as causas da sinistralidade
rodoviária (numa lista de 21 factores previstos). Antes
de mais, e se viajar com alguém encartado, não
seja egoísta e partilhe o volante, periodicamente. Mas,
se tal não for possível, evite passar mais de
duas horas seguidas a conduzir, pois está provado que
a partir de então, a atenção cede claramente
o protagonismo a favor do sono. Pare para descansar - numa zona
apropriada ou numa estação de serviço.
Mas não durma mais do que 10 ou 15 minutos, senão
entrará em sono profundo. E quando acordar terá
dificuldade em concentrar-se. Ainda antes de se sentar para
voltar à estrada, beba um café, apanhe ar e caminhe
um pouco a pé.
Outro aspecto a cuidar é a alimentação.
Afaste-se de grandes repastos antes e durante a viagem. Um estômago
demasiado cheio funciona como uma pílula para o sono.
E, sobretudo, não cometa o mais comum e perigoso dos
erros, que é considerar-se imune à fadiga. Uma
larga percentagem dos acidentes provocados pelo cansaço
dão-se à velocidade a que seguia o automóvel.
Sem avisos prévios nem vestígios de travagens.
E sempre com graves consequências.
A
lei que veio do frio...
A
Suécia é um paraíso em termos de segurança
rodoviária. Começa logo com uma taxa de alcoolemia baixíssima
(0,2 g/l), portanto, cuidado até com uma simples cervejinha...
A velocidade máxima permitida nas auto-estradas oscila num
máximo de 90 ou 110 km/h, segundo a sinalização
local. Mas nas zonas residenciais, zonas de creches e escolas, os
30 km/h são mesmo para cumprir. Depois,
as luzes são sempre para andarem acesas. E, atenção,
porque o gasóleo não está disponível em
todos os postos de venda suecos.
Do outro lado da fronteira, na Dinamarca, também terá
de ter atenção, pois os postos de abastecimento estão
em todo o lado menos nas auto-estradas. E fora dos grandes centros
não conte com eles durante a noite. A legislação
dinamarquesa também é bastante rígida, estabelecendo
limites de 110 km/h nas auto-estradas; 80 nas estradas e 50 km/h nas
localidades, devendo os automobilistas circular sempre com os médios
acesos. Não encontrará aqui portagens, salvo em duas
pontes onde terá de pagar em numerário: a de Storebaeltsbroen
e a que liga o país à Suécia.
Nas altas latitudes da Europa, a Finlândia é conhecida
como o país dos mil lagos. A menos que esteja a pensar conhecer
o país de barco, atente aos 20 km/h nas zonas urbanas, pois
a polícia finlandesa é implacável neste ponto.
Deverá andar sempre de luzes ligadas e não verá
portagens. Neste país, a condução perigosa custa
tanto como o excesso de velocidade (multa de 70 euros). E a utilização
de pneus de neve é obrigatória entre 1 de Dezembro e
o último dia de Fevereiro.
Vá pela esquerda!
Esquerda!
Decore esta palavra quando andar nas estradas do Reino Unido! Aqui
o trânsito faz-se no sentido oposto ao nosso, nunca será
de mais recordar. Será ainda obrigatório ajustar a iluminação
do automóvel para poder conduzir na via canhota. O Código
da Estrada britânico impõe limites de 48/96/112 km/h
para as cidades, estradas e auto-estradas, respectivamente. A taxa
de alcoolemia é um pouco mais flexível do que a nossa,
situando-se nos 0,8 g/l. E o triângulo de pré-sinalização
é facultativo, já que em caso de avaria ou acidente
deve usar-se os "quatro piscas". Mas livre-se de utilizar
o triângulo nas auto-estradas.
Como provavelmente não deixará de querer visitar Londres,
terá de pagar 5 libras/dia para aceder ao centro da cidade
entre segunda e sexta-feira, das 07h00 às 18h30 (poderá
comprar este livre-trânsito nas estações de serviço,
quiosques ou internet).
Também pela esquerda se circula na Irlanda, pelo que não
deverá esquecer aqui o ajustamento dos faróis. Não
poderá exceder os 48 km/h nas cidades; 97 km/h nas estradas
e 113 km/h nas auto-estradas. Só encontrará portagens
em algumas pontes como East Link Bridge (1,05 euros) e West Link Bridge
(1,30 euros. A taxa de alcoolemia é igual à britânica
(0,8 g/l), e a polícia de trânsito irlandesa não
cobra as multas no local, limitando-se a dar um formulário
que poderá pagar em 21 dias num qualquer posto da "Guarda
Siochana".