Cidade
trendy e frenética, a capital do Japão reinventa-se
a cada segundo que passa
Texto
de Gabrielle Kennedy/TCS fotos de Andrea Artz/Laif/TCS
A
alucinante e densamente povoada capital do japão absorveu por
inteiro a cultura consumista ocidental e deu-lhe uma dimensão
própria. Em Tóquio, uma cidade com 27 milhões
de habitantes, tudo se vende e tudo se compra. A população
jovem, completamente rendida às regras da moda, desfila pelas
cintilantes e sobrelotadas ruas como que “fardada” com
as últimas criações dos estilistas e equipada
com as mais recentes novidades (e inutilidades) tecnológicas.
Com
máquinas de vendas automáticas a
multiplicarem-se por todo o lado, uma ilha artificial com dezenas
de centros comerciais e uma imensidão de lojas psicadélicas
e mega-stores das principais marcas internacionais, as tentações
da extravagante e imparável Tóquio são impossíveis
de contornar. Os exploradores cosmopolitas do século XXI podem
desvendar as delícias e os segredos desta grande metrópole
nos seus incontáveis bares de karaoke, nos cabarets, no red
light district de Kabukicho, nos sushi bars e, como não poderia
deixar de ser, no delírio consumista que faz parte do ambiente.
Ritmos
alucinantes
Desde o final da Segunda Grande Guerra que o ritmo alucinante caracteriza
o cenário urbano de Tóquio, que mais parece uma cidade
com uma missão a cumprir, ansiosa por chegar a algum lado e
por provar algo. O tal andamento frenético funde-se de forma
quase natural com a curiosidade inata da população pela
novidade, atingindo todos os dias o seu clímax. No entanto,
não deixa de ser intrigante que esta cidade futurista, sempre
um passo à frente das tendências, não seja capaz
de se livrar do seu passado. É, por isso, fácil depararmo-nos
com cenários algo contraditórios à medida que
percorremos as ruas inundadas por neons, como os tradicionais e milenares
ukiyo-e, blocos de madeira com imagens gravadas de mulheres nas suas
lides femininas, não faltando sequer cenas alusivas aos guerreiros
shogun, misturadas com actuações de kabuki (antiga forma
de representação teatral japonesa). Toda esta miscelânea
de ambientes faz parte da actual cultura japonesa que percorre o mundo
na forma de duas das suas mais populares artes, a banda desenhada
(manga) e os desenhos animados (anima).
Rapariga
num centro comercial de Shibuya, bairro onde surgem as últimas
tendências da moda, muito popular entre os mais jovens; praça
central e café no Vénus Forte, um centro comercial
só para mulheres; uma loja de sapatos na zona de Shibuya;
o edifício da Fuji Television em Odaiba, um exemplo da arquitectura
moderna de Tóquio; showroom da Toyota, também em Odaiba,
uma ilha artificial onde crescem edifícios arrojados; jovem
“mascarada” com roupas ao estilo gótico, com
realísticas gotas de sangue a complementar a sinistra indumentária
- no bairro Harajuku, uma verdadeira passerelle para os mais arrojados;
montra das lojas de electrónica de Akihabara. Nas páginas
seguintes: vista aérea do Ueno Park, onde existem desde museus
a ursos panda; a “Ponte Arco-Íris” que liga o
centro de Tóquio à ilha de Odaiba. É assim
chamada porque muda de cor consoante as estações.
Um verdadeiro
melting pot de culturas, hábitos e fantasias atravessa todas
as gerações. Diferentes estilos de vida, arte e entretenimento
estão sempre patentes e em completa ebulição
em Tóquio – a cidade nunca pára ou descansa.
Cafés, bares, salões de beleza e lojas abraçam
e absorvem o que de novo aparece nesta metrópole que interpreta
de uma maneira muito própria o conceito de novidade. Aqui
tudo é efémero. Num lapso de tempo quase imperceptível
o “in” passa à categoria de “out of fashion”:
por exemplo, os bares situados na zona de Nakameguro, inaugurados
no ano passado com todo o alarde possível, são agora
arrasados por quem dita as novas modas, e que num ápice encontrou
outras paragens. Assim como as cerejeiras em flor (árvore
sagrada para os japoneses), também as correntes da moda em
Tóquio duram breves semanas – a cidade perde pouco
tempo a olhar na mesma direcção.
Desafio ao sistema
Por detrás de todo este cenário espreitam os arranha-céus
de Shinjuku, as extravagantes construções de Odaiba
e as pequenas ruas e ruelas atrás da antiga escola de Asakusa.
É caso para se dizer que Tóquio tem cantos e esquinas
para todas as tribos urbanas. Os tão típicos computer
nerds que agora pedem contas a Akihabara (o apelidado electric district
que ganhou fama aquando do boom das novas tecnologias) não
serão com toda a certeza encontrados a passear-se com a fashion
people de Harajuku (um dos bairros da moda, sempre inundado de excêntricos
adolescentes viciados no consumo) ou com os músicos que pululam
pela linha ferroviária de Sobu. Todos têm o seu canto
e as regiões devidamente demarcadas são respeitadas
por cada uma das tribos.
Na JR Shinjuku Station – uma das mais concorridas estações
ferroviárias do mundo, com uma afluência de 760 mil
passageiros por dia –, à espera de um dos habitualmente
sobrelotados comboios, vemos faces como que moribundas de assalariados
a envergar fatos sem estilo ou forma, lado a lado com adolescentes
em idade escolar vestidas à marinheiro, e também com
a curiosa tribo urbana que saltou a fronteira de Aoyama e das suas
lojas underground e que agora se passeia pela cidade com as suas
designer t-shirts. Refira-se que os sons musicais, os gadgets electrónicos,
as animações e as revistas que dão fama a Tóquio
vêm exactamente deste universo mais periférico.
Em
Tóquio, cidade com cerca de 27 milhões
de habitantes, tudo se vende e tudo se compra
Por enquanto,
o que é entendido por cool mantém-se à margem
dos escalões do poder estabelecido, vivendo-se uma liberdade
pouco usual – e uma harmonia de certa maneira consensual –
num país desde sempre orientado por rígidas convenções
sociais. Aliás, até quando as autoridades reabriram
vias interditas à circulação automóvel,
o estilo em tudo ficcionado de Harajuku, uma das actuais “passerelles”
da moda desta cidade, recusou-se a desaparecer. É aqui que
a paixão de Tóquio pela fantasia ganha vida, com raparigas
“mascaradas” com roupas ao estilo gótico ou a
envergar uniformes de enfermeiras com realísticas gotas de
sangue a completar a sinistra indumentária.
Na capital do Japão, as modas não passam de um mero
jogo, talvez uma forma de escape à estética tradicional,
ou mesmo um completo desafio ao status quo.
Tribos urbanas
Em Tóquio,
a chamada street fashion é sinónimo de uma explosão
de cores. O minimalismo talvez possa vingar nos studio apartments
de Jingumae, mas, nas ruas, dominam as gentes de cabelos modelados,
com peles e olhos coloridos por sombras brilhantes. Talvez como
forma de reclamar ou celebrar a diferença, rapazes com faixas
de cabelo louro, raparigas com sapatos fluorescentes e outros tantos
adolescentes com grossas linhas de rímel nos olhos avançam
em passo acelerado em direcção às estações
de metropolitano, sempre agarrados ao seu telemóvel e a enviar
mensagens escritas para meio mundo.
Até
há bem pouco tempo, as japonesas deliciavam-se nos salões
de beleza a oxigenar e a platinar os cabelos, com uma passagem obrigatória
pelas tão na moda sessões de solário, numa
vã tentativa de atingirem um nada natural bronzeado ao estilo
californiano, sendo coloquialmente apelidadas de black faces. Acontece
que, actualmente, as white faces é que passaram a estar na
moda, recorrendo as adolescentes a técnicas de embranquecimento
da pele. Ou seja, o que está agora in é o look de
geisha…
You’ve got the look…
O delírio do comércio e da concorrência assegura
que todos os dias novos caprichos sejam lançados para o faminto
mercado de Tóquio – a Meca do consumismo.
Aqui
tudo é efémero. Num lapso de tempo quase
imperceptível, o “in” passa à
categoria de “out”.
Durante os fins-de-semana,
cintilantes armazéns onde tudo se vende, distribuídos
desde Ginza (bairro tradicional onde se situa o palácio imperial)
a Shibuya (o bairro onde surgem as últimas tendências
da moda), espalham nos seus expositores artigos mirabolantes, em
que não faltam tatuagens de todas as cores, formas e feitios,
extensões de pestanas, produtos europeus importados e outras
curiosidades. É a estes locais que afluem os que seguem as
novas tendências. Vêm aqui para comparar os novos produtos
entretanto lançados e, quem sabe, criar uma nova moda. Laforet,
uma megaloja na Avenida Meiji (em Harajuku) cada vez mais in e que
é invadida diariamente pelas adolescentes de Tóquio
como se se tratasse da sua própria casa, é onde as
crises de stress desta juventude alucinada são curadas.
Marcas como Gucci ou Prada vendem mais em Tóquio do que qualquer
outra cidade do mundo, talvez devido a este estilo de vida condicionado
pela febre das compras, que leva a população a vangloriar-se
mais pela moda que ostenta do que pelos objectivos de vida, e parecendo
mais interessados na recente colaboração entre a marca
Louis Vuitton e o artista plástico Takashi Murakami do que
com o novo frigorífico que faz falta em casa…
Numa eventual
viagem a Tóquio, a lista de costureiros que merecem atenção
é extensa. Desde o muito em voga urban cowboy Mihara Yasuhiro
a Chiyuki Sugimoto pela sua visão romântica da moda,
passando por Toshikazu Iwaya, com a arrebatadora elegância
da sua marca Dress Camp. Para quem prefere o look mais retro, ao
estilo dos anos 80, aconselha-se Malkomalka, uma marca criada por
Yuri e Chika, dois jovens diplomados pela London St. Martin’s
College of Art.
Com roupas ao estilo teenager, a loja Candy Stripper é um
bom começo para uma odisseia consumista nas ruas de Tóquio
– fica situada num beco escuro onde também pode encontrar
outros estabelecimentos da moda. Neste local estranho poderá
admirar dezenas e dezenas de adolescentes japonesas que mais parecem
autómatos programados para o consumo, todas elas car-regadas
de sacos onde enfiaram os últimos gritos da moda… que
pode durar míseros segundos.
Liberdade absoluta
Espectáculo
de cabaret num bar Rappongi
Os bares de Tóquio
são considerados os centros de negócio. Aqui, o karaoke
está entre o irónico e o tremendamente sério
– uma maneira que os locais encontraram para derrubar qualquer
inibição, entreterem-se ou apenas darem nas vistas…
ou tudo ao mesmo tempo.
A.I.P. é um dos melhores locais para ver e ser visto –
a música é psicadélica, a decoração
é em cabedal preto, completamente kitsch, e o serviço
é péssimo, mas o que importa?! A contrastar temos
o Tantra. Bastante difícil de encontrar – a sua porta
tem apenas um “T” inscrito –, o seu interior mais
parece um cenário saído de uma qualquer fantasia das
arábias, com pilares e estátuas eróticas iluminadas
por velas. Um local indicado para o relax… Numa onda ainda
mais kitsch, ambiente afinal tão típico em Tóquio,
dirija-se ao Gmartini, onde pode saborear um cocktail sentado num
sofá de pele de zebra ou lançar-se à luxúria
numa sala privada toda forrada de carpete que foi baptizada como…
the shag room (o quarto de pelúcia).
Casal
na estação de Shinjuku, uma das mais
concorridas estações de metro do mundo,
com uma afluência de 750 mil passageiros por
dia
Quem anda em
busca de noites divertidas tem de passar pelo Kaga-Ya Bar, onde
a lista de cocktails é nada mais do que a lista de todos
os países do mundo. Chegado ao local, peça o que quiser
ao barman – ou “master”, como é conhecido
em Tóquio – e não se admire se o vir a desaparecer
pelo armário guarda-louça adentro. Passados poucos
minutos estará de volta a envergar uma qualquer vestimenta
que esteja de acordo com o cocktail/país que escolheu. Mas
as extravagâncias não se ficam por aqui: a sua bebida
muito provavelmente será servida num copo que tem de ser
mugido (isso mesmo, mugido!!!) ou num prato de sopa. Resultado:
a noite avança, o teor de álcool vai subindo e o mais
certo é que acabe a envergar uma das muitas indumentárias
do “master”. Aproveite, já que só aqui
poderá fazer estas figuras nada embaraçosas e no mínimo
hilariantes, não fosse o prato forte desta cidade fazer com
que os stressados homens de negócios deixem libertar a criança
que está aprisionada no seu subconsciente… seja lá
o que isto significa!
Cidade de loucos
Uma
rua no bairro de Harajuku, onde se multiplicam as
lojas de estilistas e armazéns de marcas internacionaisa
Os sons do rock
gótico têm exercido uma forte influência na vida
recente da metrópole, com especial destaque para o Paranoia
Café, comandado pelo famoso Crazy George, um antigo maquilhador
que participou na película thriller “Dawn of the Dead”,
um filme de culto da nova geração em que uma horda
de mortos-vivos tenta conquistar o mundo. Neste peculiar café-bar
pode consultar a “ementa”, onde, além dos pratos
e das bebidas, está à escolha do cliente uma enorme
variedade de golpes e cicatrizes. Poderá então optar
por encomendar uma caracterização de graça
para se ambientar. Apesar de ser um pouco doentio, não deixa
de ser engraçado e very Tokyo…
Akihabara,
o apelidado electric district que ganhou fama aquando
do boom das novas tecnologias
Numa análise
imediata, Tóquio é uma cidade de loucos e que não
pára – lojas abertas 24 sobre 24 horas, máquinas
automáticas por todo o lado e os famosos hotéis cápsula
(em que os quartos apenas têm espaço para uma cama
de solteiro, existentes no Japão desde o início dos
anos 90), múltiplos bares de karaoke, jovens empoleiradas
em botas com saltos de plataforma e de cabelos tingidos de todas
a cores… A ousadia é uma espécie de imagem de
marca da juventude de Tóquio, uma cidade que parece saída
de um cenário de ficção científica algo
surreal. Não será, portanto, de estranhar que os personagens
do oscarizado filme de Sofia Coppola, “Lost in Translation”,
cheguem à conclusão de que estão numa cidade
onde o visitante nunca se sente em casa.