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    XL >   Rotas & Destinos > Na rota das especiarias
D O S S I E R

Maio 2004
A Maurícia é uma ilha feita não só de praias de areias de alabastro, águas cálidas azul-turquesa e vegetação luxuriante, mas também de um quotidiano buliçoso partilhado por gente de diferentes comunidades religiosas e étnicas que preserva, com orgulho, as suas tradições. Mais do que um simples paraíso tropical, a sua identidade única desvenda-se nos passeios pelo seu interior e nos longos mergulhos no Índico

Texto de Sara Raquel Silva
Fotos de Henrique Seruca/BC Imagens
   

A
petece transformar a conclusão no antelóquio da reportagem: regressámos com a pele dourada pelo sol, suavizada pelas águas cálidas do Índico, a memória cheia de imagens coloridas e aromas exóticos, os pulmões satisfeitos com o ar puro. Assentou em nós a promessa do deus hindu, Shiva, de abundância e saúde, e ainda sentimos no corpo o ritmo da música e das danças africanas. Guardamos o paladar das massas chinesas confeccionadas com o requinte da gastronomia francesa, ainda temos o ouvido e a língua treinados no Inglês, no Crioulo e no Francês que ouvimos e falámos (ou tentámos falar, no caso do Crioulo), recordamos com saudade os hotéis onde nos estragaram com mimos. Trouxemos a mala cheia de saris, especiarias e chás e a esperança de nos próximos destinos encontrarmos um pouco da diversidade cultural, do clima abençoado, da gentileza das gentes e da beleza da paisagem com que nos brindou a Maurícia.

Mark Twain afirmou um dia que Deus criou primeiro esta ilha para depois, à sua imagem, conceber o Paraíso. Não desfazendo as intenções do Criador, pensamos que o encanto da Maurícia nos nossos dias se deverá tanto ao génio divino como ao ímpeto aventureiro da Humanidade. Pois não fosse o navegador português Pedro Mascarenhas ter descoberto a rota marítima para o local, posteriormente ocupado por holandeses, franceses e ingleses e povoado por africanos, indianos e chineses, este seria um cenário idílico como tantos outros que encontramos por esse mundo fora. Mas sem o carisma que a mestiçagem étnica, cultural e religiosa harmoniosamente tecida ao longo de quatro séculos lhe confere e que transforma a ilha, um autêntico paraíso tropical, em muito mais do que um cenário de férias à beira-mar, engalanado por hotéis de luxo e coqueiros a perder de vista.

Na verdade, a Maurícia não possui grande número de spots turísticos e mesmo os seus habitantes permanecem alheados ao que se passa nas áreas ocupadas pelos resorts e nas duas ou três vilas mais frequentadas por estrangeiros (Flic en Flac e Grand Baie). Embora cordiais, cumprem as actividades quotidianas na indústria têxtil e nos campos de cana-de-açúcar indiferentes a quem procura no seu país o sol e a quietude já desaparecida dos países ditos desenvolvidos.


Bailarina de Séga, dança tradicional maurícia

Templo Tamil
     

Hotel Touessrok
     

O ponto forte da Maurícia consiste, precisamente, no facto de, à excepção do espaço circunscrito aos resorts (alguns de grande nível), não dispor ao longo do seu território de infra-estruturas que apenas o turista pode frequentar ou custear, “falta” compensada por uma vegetação luxuriante e selvagem no interior e pelas praias dignas de postal, decoradas por corais e bordadas a coqueiros e casuarinas. A que se acrescenta, ainda, mais de um milhão de habitantes, gentis e orgulhosos de uma cultura que a História ajudou a preservar.


A bênção de Shiva
Quando um jovem hindu se aproximou com um par de bananas e meio coco na mão que havia mergulhado no lago em frente recuámos sem saber se seria correcto aceitar a oferta. Não teríamos de futuro a possibilidade de retribuir o gesto. Mas (disparate!), o gesto não carece de retribuição. É apenas uma cortesia, um costume hindu, o de oferecer e partilhar estes bens abençoados por Shiva. O coco para que não falte saúde e as bananas em nome da abundância. “Merci bien!”, acabámos por murmurar um pouco atordoados pela surpresa e pelo perfume adocicado do incenso.

É aqui, junto ao templo e ao lago sagrado de Grand Bassin, que a comunidade hindu – vemos grupos de jovens, famílias numerosas e idosos – reza às suas divindades, banha o corpo e purifica o espírito. Em 1972, água sagrada do Ganges foi trazida até este local de peregrinação, que passou então a ser designado por Ganga Talao (lago do Ganges). Todos os anos, em Fevereiro ou Março, milhares de devotos deslocam-se até aqui para celebrar um dos seus festivais religiosos mais importantes – o Maha Shivaratri (longa noite sagrada de Shiva). Vestem-se de branco e, após a vigília nocturna, iniciam uma longa procissão carregando estruturas de bambu decoradas com flores e sinos coloridos.

Esta é, no entanto, apenas uma das muitas festividades que se comemoram na ilha, palco de celebrações ao longo do ano inteiro, dada a diversidade de religiões aí praticadas. A maioria da população é hindu, mas existe também uma percentagem significativa de católicos, sobretudo de origem africana (designados crioulos) ou franco-maurícios, budistas, na maioria chineses, e muçulmanos, entre outros credos menos representativos, cada um com o seu calendário.

Igrejas, mesquitas, templos hindus e budistas convivem lado a lado com uma população que se afirma maurícia quando reside no exterior, mas que no país se reconhece sobretudo como elemento de uma comunidade particular e assume a religião como um modo de vida e uma âncora identitária.

Embora os diferentes grupos religiosos convivam em relativa harmonia, os casamentos raramente são mistos, pelo que a união entre os maurícios parece assentar na língua que os próprios criaram a partir do Francês – o Crioulo (de resto, são bilingues, o Inglês é o idioma oficial, mas o Francês é também aprendido na escola e o mais falado pela maioria da população).

 

No dia em que recebemos a bênção de Shiva viríamos a testemunhar uma manifestação de sensualidade e cor, em tudo contrastante com a devoção e o recolhimento observados junto ao Ganga Talao – um espectáculo de Séga, música e dança criadas pelos escravos de origem africana no século XVIII. Assistimos ao que os locais chamam de “Hotel Séga”, uma versão mais sofisticada do Séga típico, ainda hoje dançado pelas praias aos sábados e domingos, quando os maurícios se deslocam até à costa em autocarros e automóveis, estes últimos apinhados de familiares, amigos, conhecidos e o farnel para o dia inteiro.

Cidade de Port Louis
São as mulheres quem começa ao ritmo das primeiras batucadas, de sorriso aberto no rosto e saia presa nas mãos, deixando descobrir uma pouco da canela que, em pouco, se transformará numa perna inteira. Rebolam, rodopiam, meneiam as ancas finas de meninas e deixam a assistência invejosa de tanta graça. Daí a pouco juntam-se eles, rendidos aos seus encantos, abandonando o triângulo, o tambor e a cana cheia de sementes secas com as quais já os antepassados criavam os ritmos que ajudavam a exorcizar o sofrimento, a saudade e a reclusão (o paraíso pertencia aos colonos), iniciando um jogo de sedução alimentado pelo calor dos trópicos.

Hoje em dia, esta dança exclusiva da Maurícia (nas ilhas Rodrigues e Reunião a Séga tem outras características) é uma manifestação de alegria, alimentada pelo desejo de conhecimento e divertimento do turista. Antes era alimentada pela tristeza e pelo rum. Dizem que os escravos a dançavam lentamente... sempre junto ao mar e com os olhos postos nas estrelas que iluminavam o outro lado da costa, o das suas terras natais.

Catamarã em direcção a Îlot Gabriel
Vegetação tropical
Piscina do Hotel Prince Maurice

 
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