A
Maurícia é uma ilha feita não só de praias
de areias de alabastro, águas cálidas azul-turquesa
e vegetação luxuriante, mas também de um quotidiano
buliçoso partilhado por gente de diferentes comunidades religiosas
e étnicas que preserva, com orgulho, as suas tradições.
Mais do que um simples paraíso tropical, a sua identidade única
desvenda-se nos passeios pelo seu interior e nos longos mergulhos
no Índico
Texto
de Sara Raquel Silva
Fotos de Henrique Seruca/BC Imagens
Apetece
transformar a conclusão no antelóquio da reportagem:
regressámos com a pele dourada pelo sol, suavizada pelas águas
cálidas do Índico, a memória cheia de imagens
coloridas e aromas exóticos, os pulmões satisfeitos
com o ar puro. Assentou em nós a promessa do deus hindu, Shiva,
de abundância e saúde, e ainda sentimos no corpo o ritmo
da música e das danças africanas. Guardamos o paladar
das massas chinesas confeccionadas com o requinte da gastronomia francesa,
ainda temos o ouvido e a língua treinados no Inglês,
no Crioulo e no Francês que ouvimos e falámos (ou tentámos
falar, no caso do Crioulo), recordamos com saudade os hotéis
onde nos estragaram com mimos. Trouxemos a mala cheia de saris, especiarias
e chás e a esperança de nos próximos destinos
encontrarmos um pouco da diversidade cultural, do clima abençoado,
da gentileza das gentes e da beleza da paisagem com que nos brindou
a Maurícia.
Mark
Twain afirmou um dia que Deus criou primeiro esta ilha para depois,
à sua imagem, conceber o Paraíso. Não desfazendo
as intenções do Criador, pensamos que o encanto da Maurícia
nos nossos dias se deverá tanto ao génio divino como
ao ímpeto aventureiro da Humanidade. Pois não fosse
o navegador português Pedro Mascarenhas ter descoberto a rota
marítima para o local, posteriormente ocupado por holandeses,
franceses e ingleses e povoado por africanos, indianos e chineses,
este seria um cenário idílico como tantos outros que
encontramos por esse mundo fora. Mas sem o carisma que a mestiçagem
étnica, cultural e religiosa harmoniosamente tecida ao longo
de quatro séculos lhe confere e que transforma a ilha, um autêntico
paraíso tropical, em muito mais do que um cenário de
férias à beira-mar, engalanado por hotéis de
luxo e coqueiros a perder de vista.
Na
verdade, a Maurícia não possui grande número
de spots turísticos e mesmo os seus habitantes permanecem alheados
ao que se passa nas áreas ocupadas pelos resorts e nas duas
ou três vilas mais frequentadas por estrangeiros (Flic en Flac
e Grand Baie). Embora cordiais, cumprem as actividades quotidianas
na indústria têxtil e nos campos de cana-de-açúcar
indiferentes a quem procura no seu país o sol e a quietude
já desaparecida dos países ditos desenvolvidos.
Bailarina
de Séga, dança tradicional maurícia
Templo
Tamil
Hotel
Touessrok
O ponto forte da Maurícia consiste, precisamente, no facto
de, à excepção do espaço circunscrito
aos resorts (alguns de grande nível), não dispor ao
longo do seu território de infra-estruturas que apenas o turista
pode frequentar ou custear, “falta” compensada por uma
vegetação luxuriante e selvagem no interior e pelas
praias dignas de postal, decoradas por corais e bordadas a coqueiros
e casuarinas. A que se acrescenta, ainda, mais de um milhão
de habitantes, gentis e orgulhosos de uma cultura que a História
ajudou a preservar.
A bênção de Shiva
Quando
um jovem hindu se aproximou com um par de bananas e meio coco na mão
que havia mergulhado no lago em frente recuámos sem saber se
seria correcto aceitar a oferta. Não teríamos de futuro
a possibilidade de retribuir o gesto. Mas (disparate!), o gesto não
carece de retribuição. É apenas uma cortesia,
um costume hindu, o de oferecer e partilhar estes bens abençoados
por Shiva. O coco para que não falte saúde e as bananas
em nome da abundância. “Merci bien!”, acabámos
por murmurar um pouco atordoados pela surpresa e pelo perfume adocicado
do incenso.
É
aqui, junto ao templo e ao lago sagrado de Grand Bassin, que a comunidade
hindu – vemos grupos de jovens, famílias numerosas e
idosos – reza às suas divindades, banha o corpo e purifica
o espírito. Em 1972, água sagrada do Ganges foi trazida
até este local de peregrinação, que passou então
a ser designado por Ganga Talao (lago do Ganges). Todos os anos, em
Fevereiro ou Março, milhares de devotos deslocam-se até
aqui para celebrar um dos seus festivais religiosos mais importantes
– o Maha Shivaratri (longa noite sagrada de Shiva). Vestem-se
de branco e, após a vigília nocturna, iniciam uma longa
procissão carregando estruturas de bambu decoradas com flores
e sinos coloridos.
Esta
é, no entanto, apenas uma das muitas festividades que se comemoram
na ilha, palco de celebrações ao longo do ano inteiro,
dada a diversidade de religiões aí praticadas. A maioria
da população é hindu, mas existe também
uma percentagem significativa de católicos, sobretudo de origem
africana (designados crioulos) ou franco-maurícios, budistas,
na maioria chineses, e muçulmanos, entre outros credos menos
representativos, cada um com o seu calendário.
Igrejas, mesquitas, templos hindus e budistas convivem lado a lado
com uma população que se afirma maurícia quando
reside no exterior, mas que no país se reconhece sobretudo
como elemento de uma comunidade particular e assume a religião
como um modo de vida e uma âncora identitária.
Embora
os diferentes grupos religiosos convivam em relativa harmonia, os
casamentos raramente são mistos, pelo que a união entre
os maurícios parece assentar na língua que os próprios
criaram a partir do Francês – o Crioulo (de resto, são
bilingues, o Inglês é o idioma oficial, mas o Francês
é também aprendido na escola e o mais falado pela maioria
da população).
No
dia em que recebemos a bênção de Shiva viríamos
a testemunhar uma manifestação de sensualidade e cor,
em tudo contrastante com a devoção e o recolhimento
observados junto ao Ganga Talao – um espectáculo de Séga,
música e dança criadas pelos escravos de origem africana
no século XVIII. Assistimos ao que os locais chamam de “Hotel
Séga”, uma versão mais sofisticada do Séga
típico, ainda hoje dançado pelas praias aos sábados
e domingos, quando os maurícios se deslocam até à
costa em autocarros e automóveis, estes últimos apinhados
de familiares, amigos, conhecidos e o farnel para o dia inteiro.
Cidade
de Port Louis
São
as mulheres quem começa ao ritmo das primeiras batucadas, de
sorriso aberto no rosto e saia presa nas mãos, deixando descobrir
uma pouco da canela que, em pouco, se transformará numa perna
inteira. Rebolam, rodopiam, meneiam as ancas finas de meninas e deixam
a assistência invejosa de tanta graça. Daí a pouco
juntam-se eles, rendidos aos seus encantos, abandonando o triângulo,
o tambor e a cana cheia de sementes secas com as quais já os
antepassados criavam os ritmos que ajudavam a exorcizar o sofrimento,
a saudade e a reclusão (o paraíso pertencia aos colonos),
iniciando um jogo de sedução alimentado pelo calor dos
trópicos.
Hoje
em dia, esta dança exclusiva da Maurícia (nas ilhas
Rodrigues e Reunião a Séga tem outras características)
é uma manifestação de alegria, alimentada pelo
desejo de conhecimento e divertimento do turista. Antes era alimentada
pela tristeza e pelo rum. Dizem que os escravos a dançavam
lentamente... sempre junto ao mar e com os olhos postos nas estrelas
que iluminavam o outro lado da costa, o das suas terras natais.