Em
voos a grande altitude, o corpo está exposto a um grau de radiação
cerca de cem vezes superior ao existente no solo.O risco é
reduzido para o turista ocasional, mas para os “frequent flyers”
este é um problema a ter em conta
Maio
de 2004
Texto
de Simone Rocha Ilustração André kano
Quando,
em 1912, Victor Hess descobriu a radiação cósmica,
fê-lo através de balões que alcançaram
altitudes pouco superiores a cinco quilómetros. Foi apenas
alguns anos após o primeiro voo dos irmãos Wright
e nenhum deles podia imaginar que hoje milhões de passageiros
estariam a cruzar um complexo campo de radiações a
mais de 17 quilómetros de altitude. Com os riscos que isso
implica.
Ao voar, o seu corpo está exposto a um grau de radiação
cerca de cem vezes superior ao existente no solo. Com os pés
bem assentes na terra estamos mais protegidos: a atmosfera absorve
parte destas partículas altamente energéticas que
“viajam” a grande velocidade e são capazes de
perfurar até 5 cm a espessura do chumbo. A exposição
aumenta com a altitude, mas também está relacionada
com o número de horas de voo, a latitude, a actividade solar
e o tipo de avião.
Se é um viajante ocasional não há razões
para se preocupar, mas se faz turismo de negócios esta poderá
ser mais uma preocupação a ter em conta. Ainda assim,
nada de alarmismos: o limite de exposição para os
passageiros é de um 1 milisivert por ano (mSv), o que significa
que terá no mínimo de somar 200 horas de voo para
que possa estar a pisar o risco, segundo a Internacional Commission
on Radiological Protection.
Sem consenso Que
a exposição às radiações prejudica
a saúde é um dado adquirido há mais de meio
século. A dificuldade está em aferir qual a quantidade
necessária para provocar cancro, problemas genéticos
ou outro tipo de malformação nos fetos.
Nos anos 90 vários estudos relacionaram a exposição
à radiação cósmica com a maior incidência
de cancro entre a tripulação dos aviões. Foram
detectados mais cancros do cólon, do recto e da próstata
nos pilotos, e o risco da incidência de cancro da mama nas
hospedeiras de bordo foi contabilizado em mais do dobro em comparação
com a população em geral. Entretanto, várias
pesquisas têm sido realizadas, muitas delas resultantes da
parceria entre as companhias de aviação e a própria
NASA (cuja posição oficial é que há
grupos vulneráveis), mas os resultados são contraditórios.
A British Airways, por exemplo, tem realizado estudos nos últimos
40 anos para avaliar a incidência da doença e a esperança
média de vida das tripulações. Em nenhum deles
os profissionais apresentaram desvantagens face à população
em geral (excepção feita para a morte por melanoma
associada a maior exposição solar).
A falta de consenso não impediu, todavia, Bruxelas de legislar
sobre esta matéria. Além de identificar a exposição
a esta radiação como um risco ocupacional (relacionado
com o trabalho), uma directiva comunitária de 1996 prevê
que as companhias de aviação monitorizem os níveis
de radiação durante os voos. Uma medida que já
devia estar a ser implementada desde Maio de 2000, e tanto a tripulação
como os passageiros a ser informados sobre os riscos a que eventualmente
estão sujeitos. A directiva estabelece ainda o limite de
exposição para os viajantes de 1 milisivert por ano
(valor que também deve ser respeitado pelas mulheres grávidas
da tripulação), sendo para os profissionais esse limite
de 5 milisivert.
Reduzir
os riscos
Não
se sabe a origem exacta, apenas que a radiação
cósmica começa por ser formada por partículas
carregadas e neutras. Ao colidirem com a atmosfera, estas
partículas transformam-se e atingem um fluxo máximo
20 quilómetros acima do nível do mar. Se é
um passageiro frequente, saiba que há algumas formas
de reduzir os riscos de saúde.
Segundo
a Organização Mundial de Saúde, a exposição
média à radiação cósmica
aproxima-se dos 0,005 milisivert (mSv) por hora. Multiplique
o valor pelo tempo de viagem e fica a saber qual o grau de
risco a que está sujeito.
Tome
vitaminas C e E (ajudam o organismo a libertar-se das partículas
nocivas) a seguir a cada viagem.
Opte
pelos voos de curta distância, pois as altitudes são
mais baixas do que nos de longa distância.
Prefira
as latitudes mais baixas, que em princípio estarão
mais protegidas da radiação, isto devido ao
escudo formado pelo campo magnético da Terra, que actua
no máximo no Equador e vai gradualmente diminuindo
em direcção aos pólos (onde existe o
dobro da radiação).
Endereços
úteis: www.sppcr.online.pt;
www.icpr.org