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XL
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| E S T R A D A F O R A |
Maio de 2011 |
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A panorâmica da Lagoa do Fogo |
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Três dias de viagem, mil descobertas e uma só pergunta: por que será que continuamos a embarcar em voos de longa duração para chegar ao paraíso quando podemos aterrar nos (nossos) Açores?!
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Texto de Rita Lúcio Martins | Fotografia de Manuel Gomes da Costa |
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Visitei São Miguel pela primeira vez há cerca de seis meses, para assistir à cerimónia de entrega dos prémios das 7 Maravilhas Naturais de Portugal. Nessa tarde, a organização do evento decidiu mostrar aos jornalistas algumas das paisagens a concurso e levou-nos, num daqueles autocarros lustrosos com ar condicionado no máximo, até à Lagoa do Fogo. Lembro-me de ter espreitado o miradouro, confirmado que a paisagem é realmente bonita, e corrido de volta para o meu lugar, para escapar aos borriços e aos turistas. Seis meses depois, aqui estou novamente. Mas, no lugar do miradouro lotado, encontro um horizonte vazio e, em vez de regressar à planura do alcatrão, escolho os socalcos do trilho desenhado à minha frente. Hoje vou fazer mais do que olhar a Lagoa do Fogo: vou vê-la. E de perto.
Dia 1
LAGOA DO FOGO | CALDEIRA VELHA | LOMBADAS | AREAL DE SANTA BÁRBARA
Primeira coisa a saber para quem pretende fazer trekking nos Açores: é preciso planear. Por muito bom que seja ceder aos impulsos, às vezes também é precisa alguma ponderação... e antecipação. Neste caso, seria bom ter calçado mais adequado e não um par de ténis Nike de sola lisa e cor berrante. Também não teria sido má ideia levar um chapéu... e água, até porque, se os 575 metros de altitude não são fáceis de descer, custam ainda mais a subir, sobretudo em dias de sol. Mas isto são só pormenores, mais insignificantes agora que o batimento cardíaco já voltou ao normal... À medida que avançamos pelos degraus esculpidos no terreno é como se trocássemos de realidade. Os sons da Natureza ficam mais nítidos e, mesmo para mim, que sou incapaz de distinguir o chilrear dos pássaros (ou mesmo os próprios pássaros), chega a ser arrepiante mergulhar naquela bolha em perfeito equilíbrio. Classificada Reserva Natural em 1974 e instalada na caldeira de um vulcão com mais de 15 mil anos (a última erupção foi em 1563), esta lagoa é mesmo mágica. Nas suas imediações, é obrigatório ainda visitar a Caldeira Velha, um parque natural com quase 12 mil hectares que também pode ser definido como um entrançado gigante de fetos arbóreos, acácias da Austrália e incensos que perfumam o ar e envolvem esta espécie de respiradouro para os vulcões adormecidos. “É fundamental para o equilíbrio da ilha”, avisa um guia turístico ao grupo alinhado em redor de uma poça borbulhante, onde as temperaturas podem chegar aos 100º C.
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| A densidade verde do Vale das Lombadas; mesa posta n’O Gato Mia e os bodyboards no Areal de Santa Bárbara. |
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CONTA-QUILÓMETROS
• Dia 1 | 57 km
• Dia 2 | 66 km
• Dia 3 | 80 km |
Quanto custa
3 Dias - 2 Noites
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| Voo |
a partir
de €179 |
| Alojamento |
€178 |
| Combustível |
€20 |
| Aluguer de carro |
€122 |
| Cinco refeições |
€152 |
| Total para 2 pessoas |
€651 |
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Próximo destino: Vale das Lombadas. O objectivo é chegar até à bonita fonte de água mineral, mas a descida de um desfiladeiro silencioso é a prova de que o caminho pode ser tão ou mais interessante do que a própria chegada. As nuances verdes das cryptomérias japónicas sobrepõem-se num vale tão bem desenhado que faz lembrar a ambiência branca e fofa dos Alpes. Apetece congelar o instante e contemplar. Mas a manhã vai longa e o charme natural destes Açores não se esgota na paisagem. Subimos à Ribeirinha, localidade atravessada por uma ribeira e abrilhantada pelo restaurante O Gato Mia. Rui Ramos, o proprietário, recebe-nos num tom caloroso: “Aqui têm duas opções: ou escolhem vocês ou escolho eu”. Seja qual for a decisão, arriscamo-nos sempre a provar uma das mais deliciosas refeições da ilha. As opções são muitas, mas as telhas de lulas com cherne são tão obrigatórias como os dois dedos de conversa com Maria Paula Ramos, cozinheira talentosa e interlocutora irresistível. Reserve o que sobra do dia para digerir emoções na areia negra do Areal de Santa Bárbara. Spot de eleição dos surfistas açorianos, é o sítio certo para deixar o dia acabar.
Dia 2
RABO DE PEIXE | LAGOA DO CONGRO | GORREANA | PRAIA DOS MOINHOS | RIBEIRA GRANDE
Despertar no Pico do Refúgio é sempre bom. Porque é um daqueles lugares abençoados pela Natureza mas também porque o pequeno-almoço preparado pela senhora Maria é bom demais para fidelidades à dieta. Degustados os bolos lêvedos e barradas as fatias de massa sovada com as compotas caseiras, é tempo de mergulhar num dos segredos mais bonitos dos Açores: a Lagoa do Congro. Siga as placas e arregale os olhos à procura da pedra que assinala a descida. A partir daí, o caminho cumpre-se a pé, numa espécie de prova de atletismo em que os obstáculos têm a forma de troncos retorcidos e a pista mais parece um labirinto de vegetação.
Para descobrir outros segredos apanhe a estrada até São Brás e instale-se no Cantinho do Cais. À primeira vista é um daqueles restaurantes desengraçados, mas assim que a comida começa a circular percebo por que razões alguns locais hesitaram em dar-me a informação deste sítio, bom demais para ser partilhado com quem não merece. Para digerir o repasto, nada melhor do que um chá... verde, claro, não estivéssemos nós nos Açores.
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| A Casa dos Tabuleiros, é um dos lofts onde se faz o alojamento no Pico do Refúgio, propriedade dedicada ao turismo rural que se prolonga por vinte hectares de verde. Ao centro, os bolos lêvedos feitos pela D. Rosa. A sala de estar do Pico do Refúgio |
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| Despertar no Pico do Refúgio é sempre bom. Porque é um lugar abençoado pela Natureza mas também porque o pequeno-almoço é bom demais para fidelidades à dieta |
Na Gorreana (www.gorreana.com), a apanha do chá estava marcada para o dia seguinte à nossa visita. Não pudemos, assim, testemunhar o processo, mas o Sr. Armando Mota, responsável pela fábrica há mais de 40 anos, encarregou-se das explicações que tornam a história desta fábrica fundada em 1883 (e ainda hoje a única a produzir chá na Europa) ainda mais singular. O Sol espreita e o Atlântico convida? Então está na hora de rumar à Praia dos Moinhos, uma das preferidas pelos micaelenses em época balnear.
“No pico do Verão é preciso vir quase de madrugada para marcar lugar”, avisam-nos duas amigas, instaladas na esplanada relvada. Aos fins-de-semana, passam sempre pel’O Moinho, café-restaurante famoso por ter o melhor hambúrguer da ilha. No caso, a fama não é maior que o proveito: este hambúrguer é mesmo bom e até é capaz de ter menos calorias do que os rebuçados de alfenim que provamos mais tarde no centro da Ribeira Grande.
Em plena preparação para a procissão, a cidade não foge à pacatez habitual. A igreja do Senhor dos Passos até pode ter mais flores do que o costume, mas nem por isso retira protagonismo aos jardins do centro ou à igreja Matriz, com acesso ao coreto. Está tudo no sítio certo, até a cartola do Bobi, o cão do senhor Manuel, vestido a rigor para um domingo de fervor religioso. O catolicismo domina e a convenção impera, com os homens a matarem as horas no café da esquina enquanto as mulheres desaparecem na intimidade das casas caiadas de branco.
Dia 3
PONTA DELGADA | LAGOA | VILA FRANCA DO CAMPO | FURNAS | FAIAL DA TERRA
Para o último dia ficam reservadas as compras. Acorde cedinho no Mercado da Graça, em Ponta Delgada, e abasteça-se das especialidades locais. Para além do ananás, é obrigatório provar os queijos açorianos e o Rei dos Queijos (tel. 919 290 914) é o sítio certo para o fazer. Para outras compras regionais rume até à Lagoa e espreite a Cerâmica Vieira (tel. 296 912 116) onde ainda é possível ver o barro ganhar forma pela mão das artesãs da terra.
Seguindo pela costa, espreitamos a Vila de Água de Pau antes de parar na Caloura, outra zona balnear cheia de graça, onde os rochedos formam piscinas naturais. E aí que descobrimos o Centro Cultural da Caloura (www.cccaloura.com), um oásis intelectual erguido entre muros de pedra escura e solta, a mesma que rolou dos vulcões e serviu para proteger os vinhedos com que se cultivavam os terrenos da zona. Hoje é a arte que movimenta estas terras, sobretudo no Verão. É o que nos explica Conceição, a mulher por detrás de Tomás Borba Vieira, o homem que idealizou este espaço e que reuniu um espólio de arte nacional do século XX.
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| A Lagoa do Congro. Na Ribeira Grande, até os cães se vestem a rigor para as celebrações religiosas e festividades locais. Ao centro, a igreja Matriz, emoldurada pela longa escadaria; o hambúguer servido n’O Moinho tem fama de ser dos melhores da ilha. |
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| Menos badalada do que a das Sete Cidades e menos visitada do que a do Fogo, a Lagoa do Congro tem a magia especial de um segredo que teima em persistir. Custa lá chegar, mas custa ainda mais de lá sair |
Antiga capital da ilha, a bonita Vila Franca do Campo tem qualquer coisa de especial, que encanta mesmo ao turista mais apressado. Talvez seja o seu centro bem recuperado, ocupado pelos reformados que gozam a calma do Largo de Antero de Quental ou aproveitam o silêncio dourado da bonita igreja Matriz, interrompido apenas pelo tecno ruidoso que ecoa de um qualquer veículo convertido à vertigem do tuning. Junto ao mar, os pescadores descarregam safios com 12 kg e deixam-nos ainda mais maravilhados com um mar revolto que lambe o Ilhéu da Vila, o rochedo desenhado a poucos metros da costa para onde os micaelenses fogem em dias de Verão. O Jaime (R. Teófilo Braga, 108, tel. 296 582 419) é um dos restaurantes mais afamados do lugar, mas se a fome ainda não apertar pode sempre rumar às Furnas e saborear o cozido que dá fama à região.
Convém é não comer demasiado, sobretudo se os Jardins Terra Nostra forem o seu próximo destino. Criados em 1780, eram o ornamento perfeito da residência de Verão de Thomas Hickling, o cônsul dos Estados Unidos em São Miguel. A casa lá está, impecavelmente cuidada, de resto como a piscina de água vulcânica onde é possível tomar banho, ou os jardins de fetos e camélias que mais parecem poemas. Se há sítio em que vale a pena perdermo-nos, é este. Antes de deixar o lugar, abasteça-se dos famosos bolos lêvedos de Rosa Quental (R. de Sant’Ana, tel. 296 584 245) e dirija-se para a Lagoa das Furnas, que, para além dos encantos já sobejamente conhecidos, conta agora com a atracção de um Centro de Monitorização e Interpretação (a inaugurar em Maio), instalado num edifício projectado pelo arquitecto Aires Mateus. O dia só termina no Faial da Terra, conhecida como a Vila Presépio. O nome promete e o lugar não desilude, ainda que a arquitectura desta fatia micaelense tenha preterido a traça mais típica em função de uma estética no mínimo duvidosa (e vagamente caótica). Mas a vila, em si, apetece pela localização e pelo acesso privilegiado a belas fajãs. Não se distraia com as horas e comece, a partir daqui, a caminhada de quase cinco quilómetros (e uma hora e meia) até ao Salto do Prego. Sim, é verde e mais verde, com direito a passagens por aldeias históricas recuperadas onde é possível pernoitar (os Sanguinhos) e a certeza de uma revelação no final. Os mais cépticos até podem ver apenas uma majestosa queda de água, mas quem, como eu, no início desta viagem, escolher ver em vez de olhar, pode arriscar-se a descobrir outros Açores.
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| Os jardins do parque Terra Nostra e o novíssimo Centro de Monitorização e Interpretação das Furnas, com inauguração marcada para Maio. O Sr. Isaac com o seu burro, Tozé |
Como ir
A TAP (www.flytap.pt) voa para Ponta Delgada quatro vezes por semana, à 3.ª, 4.ª, 6.ª e domingo. Voos de ida e volta a partir de €89,50
Onde ficar
Pico do Refúgio – Roda do Pico, 5, Rabo de Peixe, tel. 296 491 062 / 919 960 660, www.picodorefugio.com.
Nos seus 300 anos de história, esta quinta já foi pomar de laranjeiras, fábrica de chá, forte de milícias, asilo de políticos e casa de artistas. Hoje, é um turismo rural com oito unidades de alojamento, divididas nas categorias de loft e casas de campo. Independentemente da escolha, espaço é coisa que não falta: dentro ou fora, nos 20 hectares da propriedade. Diárias em quarto duplo desde €89 com pequeno-almoço. Está disponível uma promoção que inclui voo e estadia de cinco noites a partir de €294.
Onde comer
Alabote – R. East Providence, 68, Ribeira Grande, tel. 296 473 516, www.alabote.net
O peixe e os mariscos são protagonistas neste restaurante voltado para o mar.
Preço médio: €16
O Gato Mia – Av. Fulgêncio F. Marques, 12, Ribeirinha, tel. 296 479 420, www.ogatomia.com (ver texto principal).
Preço médio: €15
O Cantinho do Cais – R. do Ramal, Porto Formoso, tel. 296 442 631
O ambiente familiar é o acompanhamento perfeito para degustar as lapas grelhadas e o molho de peixe.
Preço médio: €15
O Moinho – Praia dos Moinhos, Porto Formoso, tel. 296 442 110.
Considerado “O Melhor da Ilha”, o hambúrguer deste restaurante nasce de uma receita hebraica.
Preço médio: €7
A não perder
Fábrica de Chá Gorreana – Plantações de Chá Gorreana, tel. 296 442 349, www.azores.net/gorreana.
Fundada em 1883, a Gorreana produz 40 toneladas de chá por ano, sempre sem recorrer a químicos. Na fábrica, é possível conhecer melhor a história desta casa, testemunhar cada etapa do processo e provar as muitas cambiantes deste sabor.
Terra Nostra – Rua Padre José Jacinto Botelho, Furnas, tel. 296 549 090, www.bensaude.pt
Impossível não cair de amores por este jardim bicentenário cheio de recantos românticos, grutas misteriosas e alamedas encantadas. Com 12,5 hectares de jardins e matas e uma amostra perfeita das principais plantas endémicas de São Miguel.
Entrada: €5.
Agradecemos a colaboração da TAP Portugal 
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