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[Moçambique: A Ilha dos Amores]


O dia amanhecia então às 4h. As crianças jogavam à bola, as mulheres estendiam a roupa molhada no chão, mesmo em frente
às janelas do meu quarto e um rádio brandia, num volume que a mim me parecia exagerado para a hora. O calor era sufocante e os dhows faziam-se ao mar de velas ao vento para mais um dia de pesca, a principal ocupação destas gentes.

A ilha é pequena. Com os seus 2500 metros de comprimento e 600 m de largura é difícil não nos cruzarmos com todas as pessoas que conhecemos se andarmos ao seu redor. Uma manhã percorria a ilha com Tiago, um jovem jurista voluntário da Oikos, quando nos cruzámos com Lena, uma macua linda, a tribo dominante na ilha. Vestia como manda a tradição muçulmana, cabeça coberta, saia larga e comprida e falava com algum recato ao convidar-nos para almoçar. Já tinha, aliás, ido ao mercado comprar "uma surpresa muito especial e difícil de conseguir. Não podem faltar".

Não faltámos e esperavam-nos duas surpresas: dentro de portas, Lena era uma mulher extrovertida, que usava um vestido muito justo e curto, verde-alface, que faria inveja a qualquer brasileira. Com uma história de vida cheia de viagens pelo mundo, onde não falta um primeiro casamento com um diplomata sueco, Lena tinha voltado há pouco tempo para Muípiti (o nome da ilha em macua) para casar com o seu amor de infância e juventude. A filha, fruto dessa união, tinha então alguns meses.

A segunda surpresa deixou-nos um nó na garganta, acompanhado por aquela sensação desagradável de não saber muito bem como reagir. Íamos comer carne de tartaruga, "arranjada por especial favor", uma espécie protegida e em vias de extinção em algumas partes do globo. Havia, felizmente, imensos legumes e muitas batatas fritas. Para sobremesa, mangas e bananas com um sabor fantástico, diferente do europeu.

Nessa tarde, a caminho da Fortaleza de São Sebastião, construída entre 1558 e 1608, caminhava pela única praia da ilha "própria para turista consumir", conforme tinha sido avisada. Ibrain, Ibacar, João e Momad tinham vindo comigo e estavam dentro da água.

Enquanto esperava o fim daquele banho, ia explorando a areia, à procura dos pequenos tesouros que se encontram em todas as praias. Mas o que ia encontrando era insólito. Havia pedaços de vidros coloridos, baços por estarem dentro de água há muito tempo, porcelanas roladas pelo mar e algumas missangas. Ia apanhando uns e outros, guardando-os no regaço da minha t-shirt, fascinada.

A explicação veio uns dias mais tarde, quando Tiago me levou a casa da Nina, uma artesã que faz conjuntos de brincos e colares, lindíssimos, justamente com estes materiais.
Nos séculos passados, as actividades comerciais dos árabes, dos portugueses, dos baneanes, as migrações por mar e o tráfico de escravos para o Brasil, deixaram na areia destas praias pedaços de porcelana, de vidro e as missangas, símbolo de prestígio e autoridade e também moeda de troca.

Essas missangas vinham de locais tão diversos como o interior de África (no Zaire), a África Ocidental (no Togo, no Benin e no Ghana), enquanto algumas das porcelanas e dos vidros eram originários de Murano (perto de Veneza), da Holanda e da Índia. A prata que Nina usa no fabrico das jóias é uma tradição da ilha devida aos ourives árabes e indianos, que ainda hoje se mantém.

Apesar de ter dois terços classificados como Património Mundial da Humanidade pela Unesco, grande parte das habitações da ilha, incluindo as da cidade de Pedra e Cal, não tem saneamento básico.

Abel Ernesto Safrão, presidente do Conselho Executivo (a Câmara Municipal) da ilha de Moçambique assegura que "é indispensável definir como prioridade primária o saneamento até porque a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos e o turismo são os nossos objectivos. Para isso há que elevar o nível de assistência sanitária e educacional e criar novos postos de trabalho". A Associação dos Amigos da Ilha, responsável pela elevação da ilha a Património Mundial e presidida pelo Sêhê Amore, partilha da mesma opinião e assegura que já estão previstas medidas nesse sentido.

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