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Nacional - Festa
Entre mouros e cristãos

Todos os anos, a 24 de Junho, o povo acorre ao Sobrado, uma pequena freguesia de Valongo, para assistir à Bugiada, o mais louco dos combates entre o Bem e o Mal. É um ritual único, que celebra um milagre de São João, encenado segundo regras definidas por uma lenda antiga.

Texto e fotos de Victor Carvalho

Os mouros tinham uma povoação nas serras agrestes de Cuca Macuca, de cujas entranhas retiravam o sustento: pepitas de ouro. Os seus vizinhos eram gente simples, cristãos que viviam da agricultura e da pastorícia nos vales férteis de Pias e Couce. Estes, devotos de São João, a quem suplicavam favores em momentos de aflição, viam nos infiéis das serranias uma ameaça constante. Porém, a confiança no santo não tinha limites; com a sua fama de milagreiro, não deixaria mal sem remédio.

Quis um dia que a filha do rei mouro fosse acometida de doença desconhecida dos sábios. Já sem qualquer esperança, mas sabedor das proezas de S. João, o rei suplicou aos cristãos o empréstimo da imagem do santo, negado várias vezes. Por fim, o seu desespero despertou uma piedade colectiva, e lá foi o santo para terras infiéis, incumbido de arrancar a jovem princesa às sinistras garras do demo. Transbordando de felicidade, mandou então o rei mouro um mensageiro, convidando os seus benfeitores para um banquete de graças.

Uma armadilha bem montada, era o que era! Foram os cristãos enganados, ridicularizados (serviram-lhes apenas os restos) e roubados, ficando sem santo e sem rei, ambos feitos prisioneiros pelos mouros. De imediato planeiam vingança, o povo envergando trajes muito garridos, máscaras de semblantes horríveis, empunhando castanholas e guizos, a contar com as fortes superstições do inimigo. E foi assim que uma multidão irrompeu, de surpresa, na aldeia mourisca, berrando e pulando, munida de uma enorme serpente de madeira. Perplexos, os inimigos não ofereceram resistência. Resgatados o rei e o santo milagreiro, tudo voltou à normalidade nas terras dos cristãos.

Esta é a lenda, antiquíssima, que as gentes de Sobrado dizem estar na origem da Bugiada, uma festa inigualável em cor e movimento, única no nosso país, e que atrai anualmente, no dia 24 de Junho, milhares de forasteiros.


Mourisqueiros e bugios
É grande a azáfama na casa do Reimoeiro, o rei mouro. Cá fora os seus soldados aguardam, dando os últimos retoques nas exóticas e complicadas fardas. Quando o soberano aparece, impecavelmente vestido e com pose altiva de líder, as tropas recebem-no divididas em duas filas paralelas e, à sua voz de comando, começam uma série de danças de carácter militar ao ritmo minimalista de toques de caixa. São disciplinados e austeros, tão aprumados e garbosos que se assemelham a soldados de Napoleão, o que contraria a nossa ideia académica de como seriam as tropas mouriscas - no S. João de Sobrado, fica o mundo de pernas para o ar.

Alagados em suor, atacam os comeres e os beberes expostos numa mesa comprida, antes de voltarem à formatura e partirem, saltitantes, para o centro da vila, transformada num grande arraial que cheira a pipocas, algodão-doce, farturas e petiscos das barracas de comes-e-bebes. Os espectadores já são às centenas e a entrada dos mouros em cena não deixa ninguém indiferente. São olhados com respeito, não só pelo porte, mas sobretudo por serem inimigos, de quem se esperam as maiores traições.

Mal os cerca de trinta Mourisqueiros desaparecem ao dobrar da esquina, uma inesperada torrente de mais de seiscentos cristãos - os Bugios - desagua em plena avenida, numa correria louca; pulam, gritam e resfolegam como cavalos selvagens. A multidão recua, debanda quase, perante tamanho rebuliço. Estes figurantes vestem-se de modo surpreendente: calças curtas e meias às barras, faixa à cintura, casaco e capa com folhos, chapéu de aba larga e máscara. A esta indumentária intensamente colorida, onde predomina o vermelho, foram cosidos guizos metálicos.

Com toda a gente aos saltos, tocando castanholas e roncando devassamente, a atmosfera enche-se de uma espécie de sinfonia de vanguarda. Para cúmulo, agitam bonecos, répteis de borracha, penachos, feixes de palha, pares de cornos e tudo o que possa amedrontar a assistência. No S. João de Sobrado, o Bem é representado pelos mais loucos e mal-comportados. Mas é esta insurreição e rebeldia que encanta os espectadores, de tal forma integrados na festa que deixa de haver distinção entre quem actua e quem assiste.


Arte de maldizer
Os inimigos observam-se de longe, espiam-se, mas só se juntam para o confronto final. Passam o tempo em danças rituais, que mais parecem manobras bélicas: os Mourisqueiros, ao ritmo do tambor e do Reimoeiro; os Bugios, acompanhados por rabecas e violões, seguindo as ordens do Velho. O almoço, constituído por um lauto cozido à portuguesa, realiza-se a horas diferentes e em locais separados, para cada grupo. Curiosamente, são os mouros que participam na procissão e que carregam os andores depois da missa dedicada a S. João Baptista - mais uma subversão da festa.

Os festejos de Sobrado ultrapassam a comemoração de uma lenda. Há espaço para se criticar ferozmente um quotidiano controlado por leis morais e sociais, dogmas, autoritarismos, mesquinhez e todos os tipos de poder. É pela via do grotesco que se liberta o lado reprimido dos membros desta sociedade, com encenações a tocar a demência, que provocam o clímax nos espectadores. Afinal, estamos a escarnecer e a rir de nós próprios, dadas as características universais do acto.

As rábulas são interpretadas por populares, sempre mascarados ou travestidos, realçando os acontecimentos mais marcantes do ano. E não só: os efeitos rocambolescos da imaginação já deram lugar a um jogo de futebol sem regras e agressões constantes, com bola quadrada e árbitro comprado a cada infracção com dinheiro vivo; à venda dos ossos de Camões misturados com pedaços de toucinho a escorrer gordura e a voar em todas as direcções; à lavagem de roupa interior em poças de água suja, com o evidente arremesso sobre quem estivesse por perto... Repórteres da Rádio Televisão de Sobrado transmitiam, via "perabólica", entrevistas com políticos cheios de promessas disparatadas (as câmaras esguichavam água...); dezenas de funcionários da Junta pavimentavam a estrada, com maquinaria completamente obsoleta e numa confusão tamanha que ficou tudo na mesma, ou pior; um enfermeiro ambulante, "só para mulheres", oferecia produtos de higiene feminina e enormes exemplares da mais pura louça tradicional das Caldas da Rainha...

"Participar na festa não é apenas perpetuar uma tradição e muito menos exibir um achado arqueológico para forasteiro ver. É redescobrir, em formas velhas ou novas, a arte de viver e, assim, permitir que se abram brechas de sentido e de imaginação, que rompam a carapaça dos trabalhos e dos dias", afirma Manuel Pinto, filho da terra e grande estudioso do evento.
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