|
FBNet
> Rotas
& Destinos > Entre
mouros e cristãos
Nacional - Festa
[Entre mouros e cristãos]
Culto do grotesco
À
hora de maior calor chegam tréguas. Com tanta agitação ficaram os
estômagos vazios e as gargantas sedentas. Atacam-se os farnéis, enchem-se
os restaurantes improvisados, dorme-se uma sesta à sombra das frondosas
árvores do parque. Não tarda, porém, que se ouça a inquietação dos
Bugios...
Vêm cobrar impostos aos comerciantes, apontados num livro de mercearia
cheio de números e de fotografias pornográficas. O cobrador cavalga
um jumento em sentido contrário - isto é, de costas para a cabeça
- , reclama com veemência o pagamento, e molha a ponta de um lápis
gigante no traseiro do animal, para dar baixa. Em troca recebe uma
garrafa de cerveja, logo aspergida sobre quem o rodeia. Os Bugios
recebem o chuveiro de espuma com pulos diabólicos e grunhidos animalescos.
Segue-se
o ritual das sementeiras. Aparecem camponeses esfarrapados, molhados
e enlameados que, com o mesmo jumento, iniciam um ciclo agrícola absurdo:
semear, gradar a terra e, finalmente, lavrar... O trigo está misturado
com palha moída, serrim e cinza, porque se trata de alvejar e sujar
os presentes, sobretudo os de fato domingueiro.
Do outro lado da praça, os mouros executam a "dança do doce", contemplada
com vinho e cavacas tradicionais. Entretanto, em frente à igreja,
os cristãos preparam um lamaçal e uma fogueira para a "dança do cego".
Nela participam um velho sapateiro untando os fios de coser com excrementos
de burro, que voam em todas as direcções; a sua mulher, de amplo busto
e ar provocador; um cego, que caminha sem rumo, derrubando o sapateiro
e sofrendo crueldades por parte dos Bugios. Estes regam-no com água
suja, atiram-lhe torrões e sapatos velhos, arremessados de imediato
sobre a multidão em delírio. Por sua vez, o sapateiro lança-o à lama,
espancando-o com uma longa vara; a pontaria é tão má que quem recebe
as chapadas de água são os espectadores. Avisado de que anda a ser
enganado pela mulher, corre à procura do rival, com quem se envolve
num jogo de pau. Os Bugios, cada vez mais loucos, destroem a fogueira
a pontapé. Quem quiser que se cuide!
Vitória final
Começa
a sentir-se um clima de guerra e o Velho manda recolher o exército.
Não tarda que se troquem tiros entre os dois castelos; nem os negociadores
de paz conseguem terminar a contenda. A mímica, vai sendo acompanhada
pelo relato de uma voz dramática, difundida por altifalantes. O povo
está suspenso, completamente envolvido numa guerra que se prevê perdida.
A vantagem dos mouros faz com que o Reimoeiro penetre no castelo cristão
e prenda o Velho. E não há súplicas capazes de comover o coração insensível
do mouro, que arrasta o rei cristão sob a amea-ça da espada. "Quem
consegue salvar o rei cristão?", pergunta a voz do altifalante. "Só
um milagre, meus amigos. Implorem a São João, o nosso protector, o
nosso santo milagreiro."
Sai
então a Serpente de um esconderijo, investindo furiosamente sobre
o inimigo. O rei cristão é libertado e todos, espectadores incluídos,
comemoram euforicamente a vitória do Bem sobre o Mal. E a lenda torna-se
realidade.
Ficamos com a sensação de termos vivido um dia inteiro noutra dimensão,
noutro planeta, a anos-luz do nosso quotidiano. Não posso deixar de
citar Helder Pacheco: "Quem nunca viu a Bugiada não percebe o que
é a paixão da festa na sua mais funda condição." De parabéns ficam
as gentes de Sobrado por esta festa inigualável. E, claro, São João
milagreiro.
|
|
|
Pesquisas relacionadas com este artigo:
 |
|