Subscrever
Rotas & Destinos




- - - - - - - - - - - - - - -
Rotas&Destinos
no Facebook
- - - - - - - - - - - - - - -
  Bloco de notas
   Hoteis, Restaurantes e Shopping
   Globetrotter 
   Livros e Discos
   Promoções 
   Agenda
   Dicas de Viagem
   Dicas de Saúde
 
  Secções
 • Fim-de-semana 
 • Estrada fora

 • 24 Horas
 • Hotéis
 • Em destaque
 • Especiais
 • Panorâmica
 • Lugares com história
 • Gourmet
 • As viagens de
  Pesquisar artigos


  Planear Viagem
 • Programas de Viagem
 
  Jogue online
 • Acção
 • Desporto

 • Plataformas
 • Puzzle
 • Shoot´Em Up
 
  Utilidades
  
- - - - - - - - - - - - - - -
 Edições Anteriores
- - - - - - - - - - - - - - -

    XL >   Rotas & Destinos > As cores da Ribeira
L U G A R E S  C O M  H I S T Ó R I A

Junho de 2004
Seja em vielas sombrias ou em praças luminosas, na Ribeira do Porto todas as esquinas têm uma história para contra

Texto de Ana Pedrosa e fotos de António Sá
   

A Ribeira. Júlio Resende apelidou-a de negra no extenso painel de azulejos colocado à saída do tabuleiro inferior da Ponte D. Luís I, aos pés da colina onde se erguem o imponente Paço Episcopal e a Sé Catedral. São escuros os tons que escolheu para retratar o quotidiano das gentes que aí vivem: mulheres ocupadas no comércio de peixe e verduras, cães vadios, homens envolvidos numa luta (num abraço?), garotos entretidos em brincadeiras várias ou mergulhando no rio turvo. Visto da margem Sul, o bairro apresenta-se, no entanto, como um renque de casas coloridas, de fachadas voltadas ao Douro que parecem irradiar uma luz própria, mesmo quando a neblina lhes esbate os contornos, como que desmentindo a vocação granítica do Porto.


Zona histórica do Porto vista
a partir de Vila Nova de Gaia
Lugar de contrastes, na Ribeira convivem as duas realidades. Uma é ponto de partida de todos os city tours e cruzeiros que sulcam as águas num sobe-e-desce incansável, imagem de cartão-postal onde a cada dia se multiplicam as esplanadas, as lojas de vinhos e os restaurantes e a parte mais conhecida da zona classificada pela UNESCO como Património da Humanidade. É a sua face solar, alegre e curiosa, observada por um enxame de olhos e câmaras voltadas para as frontarias ora pintadas de cores fortes, ora cobertas por azulejos, com a lentidão do rio, o alvoroço das pombas e a fruta enclausurada em caixotes entre as mesas dos cafés.


Esplanada Café do Cais
e fachadas da Ribeira
Na outra, onde a vida se desenrola em vielas tão apertadas que o Sol só aí se demora por breves instantes, solta-se o calão mais denso do burgo, as crianças descem pelos corrimões que dividem as escadarias, a água escorre pelos passeios e sons domésticos misturam-se com os de pequenas oficinas. Não fossem alguns sinais que denunciam o século XXI e julgaríamos ter viajado até à Idade Média, tal a atmosfera, a estreiteza das ruelas, os odores inclassificáveis.

A História, pois é dela que vamos à procura, encontra-se em cada esquina, tanto nas praças mais luminosas como nos quelhos esconsos. O traçado das ruelas, as casas encavalitadas colina acima, largos minúsculos com fontanários e alminhas com santos ausentes dão-nos uma visão próxima da antiguidade da área confinada ao interior da muralha fernandina. A encosta dos Guindais, a Oriente, e a praia de Miragaia, do lado oposto, eram já territórios do exterior. Dentro dos muros cresciam os templos, os palácios, as moradas de gente tão humilde que a largueza de uma janela era – ainda é – suficiente para albergar uma família inteira. Mas também hortas, pomares e olivais, regados por pequenos ribeiros, entretanto desaparecidos sob o granito das avenidas.


O eléctrico pode ser um bom meio de transporte para chegar à Ribeira
À beira-rio não é difícil imaginar a agitação do porto medieval: a multidão de mercadores, cobradores de impostos, peixeiras de canastras equilibradas à cabeça, compradores, ladrões e prostitutas. A travessia para a outra margem fazia-se então através de um passadiço assente em embarcações. Foi aí que, em Março de 1809, ocorreu a tragédia da Ponte das Barcas, quando a população, surpreendida pelo avanço das tropas napoleónicas, fugia em direcção a Gaia. Demasiado frágil, a passagem não resistiu ao peso excessivo e acabou por ceder colhendo inúmeras vidas. No mesmo lugar, logo no início do Cais da Ribeira, um baixo-relevo de bronze da autoria de Teixeira Lopes (pai), conhecido como as Alminhas da Ponte, reproduz o acontecimento. Velas sempre acesas e algumas flores, frescas ou de plástico, provam que este se mantém vivo na memória dos locais. A posterior ponte pênsil, cujo pilar de pedra ainda é bem visível, viria a ser substituída pela actual Ponte D. Luís I, inaugurada no último dia de Dezembro de 1886 e desenhada pelo engenheiro belga Theophile Seyrig, colaborador de Gustave Eiffel.


Esplanada onde se pode comer as tradicionais francesinhas
A Praça da Ribeira ficava, tal como toda a face ribeirinha, recolhida intramuros. Zona fervilhante de comércio, com tendas e uma lota, sofreu em 1491 um terrível incêndio. A posterior construção de casas com colunas abertas sobre o largo e o chão lajeado desenharam-lhe um novo perfil. No número 1, por portas envidraçadas, acede-se agora ao Porto Carlton Hotel, que ocupa seis edifícios contíguos, com quartos voltados para o rio e para a Rua da Fonte Taurina, uma das mais antigas da cidade. Encravado entre dois desses edifícios, o Postigo de Carvão é a única porta sobrevivente da muralha que ligava ao Cais da Estiva, principal ancoradouro da cidade. Hoje, existem veleiros em vez de naus, enquanto os barcos rabelos transportam turistas no lugar dos tonéis de vinho.


Fachadas típicas do casario
Com o fim da necessidade defensiva da muralha, esta passou a ser usada como rua, sendo erguidos vários prédios a ela adossados. Com varandas de ferro forjado, roupa deixada ao sabor do vento e gaiolas penduradas de que se escapa a sinfonia dos canários, as casas do Muro dos Bacalhoeiros têm as portas frequentemente abertas à nossa curiosidade. A toponímia nada terá a ver com o facto, mas foi ali, no número 114, que nasceu, a 7 de Fevereiro de 1851, José Luís Gomes de Sá, criador de um dos pratos mais conhecidos do Porto. O nosso percurso continua até ao Largo do Terreiro, onde se encontra a capela da Nossa Senhora do Ó, construída no século XVII onde antes havia um hospital.

Histórias e monumentos de outros tempos

Alminha num dos históricos edifícios do bairro classificado pela UNESCO
É altura de recuar ainda um pouco mais no tempo. Estamos em 1120, ano em que D. Teresa entrega a tutela do burgo ao bispo D. Hugo, responsável pela reorganização da sua vida económica e administrativa. Entretanto, a urbe cresce e o comércio ribeirinho ganha ânimo. Ciente dos proveitos daí resultantes, a Coroa tenta controlar a actividade aduaneira, envolvendo-se num confronto com os membros do clero, verdadeiros senhores da cidade. Em causa estaria a localização do edifício a construir, que a Igreja não admitia no seu couto, chegando a ameaçar D. Afonso IV de excomunhão, num conflito com o poder real que haveria de durar quase um século. Não obstante, o Rei ordena a construção da Alfândega Régia, iniciada em 1325. Posteriores alterações e aumentos não lhe sacrificaram a essência, e é frente a esse mesmo local que nos encontramos agora.


Barcos rabelos, que hoje transportam turistas no lugar dos tonéis de vinho
A Casa do Infante, como é conhecida, foi berço do Infante D. Henrique, a 4 de Março de 1394, devido a uma estadia prolongada no Porto do Rei D. João e D. Filipa de Lencastre. Com efeito, as torres da alfândega serviam de habitação a almoxarifes e eram o principal edifício régio da cidade. Ainda antes do nascimento do príncipe foi também erguida numa zona anexa a Casa da Moeda, que viria a funcionar, com interrupções, até meados do século XVIII. Acolhendo o Pólo Medieval do Museu da Cidade, na Torre Norte podem ser vistas algumas das moedas ali cunhadas, cerâmicas antigas, uma reconstituição virtual da evolução do edifício, bem como uma reprodução de um mosaico romano, descoberto debaixo do pavimento medieval, vestígio de um palácio do quarto século da nossa era. Muito interessante é a maqueta que reproduz a cidade na Idade Media. Com a ajuda de um painel electrónico apercebemo-nos da localização das suas igrejas e sinagogas, das casas senhoriais, das hortas e feiras, dos cemitérios e das prisões.

Logo acima da rua, aguarda-nos a airosa Praça do Infante. Mas ainda não é para aí que os nossos pés nos encaminham. Habituados já ao passeio medievo, querem ainda calcorrear a vetusta Rua da Reboleira, que conserva dois exemplares de casas quinhentistas. O número 55 mantém as janelas e os portais góticos, enquanto o vizinho número 59 se apresenta com uma estrutura de casa-torre, com as respectivas ameias no topo. Embora pertencendo igualmente à freguesia de S. Nicolau, confesso que tenho dúvidas se a Igreja de S. Francisco ainda estará dentro dos limites “oficiais” do bairro do Barredo, de que a Ribeira faz parte. Porém, ficando a dois passos (quase literalmente) do sítio onde agora me encontro, era pecado ficar condicionada a geografias castradoras.


Pitoresco batente
de porta
Haverá certamente templos mais antigos e outros mais belos e maiores. Mas nenhum, em todo o País, possui a mesma exuberância em talha dourada. O sóbrio granito escuro do exterior e as linhas da única igreja gótica da cidade transformam-se, uma vez transposta a entrada, numa imensa caixa forrada a oiro. Com fascínio de Aladino, percorro a nave principal em direcção ao altar. Tecto, colunas, capelas, retábulos, transeptos – quase se não vê pedra, coberta que está pelas obras que inúmeros artistas de grande craveira foram talhando ao longo dos séculos XVII e XVIII. É o barroco no seu apogeu, sendo de destacar a Árvore de Jessé e a Capela de Nossa Senhora da Soledade, um dos mais preciosos exemplares do rococó portuense. A visita prossegue pelo pequeno museu pertencente à Ordem Franciscana, cujas catacumbas abrigam um cemitério privativo utilizado desde 1746 até à proibição dos enterramentos em igrejas, no ano de 1866.

Paredes-meias fica o Palácio da Bolsa, alçado no lugar do antigo convento da mesma ordem. Edifício de linhas neoclássicas, de influência britânica, alberga no seu interior várias divisões com interesse, como o magnífico Pátio das Nações, coberto por uma estrutura envidraçada; a Sala dos Retratos, onde os monarcas portugueses convivem com uma espantosa mesa de embutidos, obra de um antigo funcionário da casa; a Sala do Tribunal e a Biblioteca.


Barcos rabelos, que hoje transportam turistas no lugar dos tonéis de vinho
O verdadeiro ex-libris da Associação Comercial do Porto é, porém, o deslumbrante Salão Árabe, com os seus entalhes delicados, de oiro sobre azul, inspirados no Palácio de Alhambra. Verdadeira sala de visitas, onde ocasionalmente se realizam concertos ou jantares de gala, acolheu figuras como Mouzinho de Albuquerque, Gago Coutinho e a Rainha Isabel II de Inglaterra.

De regresso ao rio, dou por terminada a jornada. O Sol afoga-se aos poucos junto à Foz enquanto me sento numa esplanada já deserta de turistas. Por companhia apenas as palavras de Saramago: “… e é isso que [o viajante] leva do Porto, um duro mistério de ruas sombrias e casas cor de terra, tão fascinante tudo isto como ao anoitecer as luzes que se vão acendendo nas encostas, cidade junta com um rio que chamam Doiro”.


 

 

Anunciar on-line | Contactos | Notícias por RSS | Promoções | Serviços Móveis Record | Serviços Móveis CM
ADSL.XL | Classificados | Emprego | Directórios | Jogos | Horóscopo | Tempo

Copyright ©. Todos os direitos reservados. É expressamente proíbida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Edirevistas, S.A. , uma empresa Cofina Media - Grupo Cofina.
Consulte as condições legais de utilização.