Seja
em vielas sombrias ou em praças luminosas, na Ribeira do Porto
todas as esquinas têm uma história para contra
Texto
de Ana Pedrosa e fotos de António Sá
A
Ribeira. Júlio Resende apelidou-a de negra no extenso painel
de azulejos colocado à saída do tabuleiro inferior da
Ponte D. Luís I, aos pés da colina onde se erguem o
imponente Paço Episcopal e a Sé Catedral. São
escuros os tons que escolheu para retratar o quotidiano das gentes
que aí vivem: mulheres ocupadas no comércio de peixe
e verduras, cães vadios, homens envolvidos numa luta (num abraço?),
garotos entretidos em brincadeiras várias ou mergulhando no
rio turvo. Visto da margem Sul, o bairro apresenta-se, no entanto,
como um renque de casas coloridas, de fachadas voltadas ao Douro que
parecem irradiar uma luz própria, mesmo quando a neblina lhes
esbate os contornos, como que desmentindo a vocação
granítica do Porto.
Zona
histórica do Porto vista
a partir de Vila Nova de Gaia
Lugar
de contrastes, na Ribeira convivem as duas realidades. Uma é
ponto de partida de todos os city tours e cruzeiros que sulcam as
águas num sobe-e-desce incansável, imagem de cartão-postal
onde a cada dia se multiplicam as esplanadas, as lojas de vinhos e
os restaurantes e a parte mais conhecida da zona classificada pela
UNESCO como Património da Humanidade. É a sua face solar,
alegre e curiosa, observada por um enxame de olhos e câmaras
voltadas para as frontarias ora pintadas de cores fortes, ora cobertas
por azulejos, com a lentidão do rio, o alvoroço das
pombas e a fruta enclausurada em caixotes entre as mesas dos cafés.
Esplanada
Café do Cais
e fachadas da Ribeira
Na outra, onde a vida se desenrola em vielas tão apertadas
que o Sol só aí se demora por breves instantes, solta-se
o calão mais denso do burgo, as crianças descem pelos
corrimões que dividem as escadarias, a água escorre
pelos passeios e sons domésticos misturam-se com os de pequenas
oficinas. Não fossem alguns sinais que denunciam o século
XXI e julgaríamos ter viajado até à Idade Média,
tal a atmosfera, a estreiteza das ruelas, os odores inclassificáveis.
A
História, pois é dela que vamos à procura, encontra-se
em cada esquina, tanto nas praças mais luminosas como nos quelhos
esconsos. O traçado das ruelas, as casas encavalitadas colina
acima, largos minúsculos com fontanários e alminhas
com santos ausentes dão-nos uma visão próxima
da antiguidade da área confinada ao interior da muralha fernandina.
A encosta dos Guindais, a Oriente, e a praia de Miragaia, do lado
oposto, eram já territórios do exterior. Dentro dos
muros cresciam os templos, os palácios, as moradas de gente
tão humilde que a largueza de uma janela era – ainda
é – suficiente para albergar uma família inteira.
Mas também hortas, pomares e olivais, regados por pequenos
ribeiros, entretanto desaparecidos sob o granito das avenidas.
O
eléctrico pode ser um bom meio de transporte
para chegar à Ribeira
À beira-rio não é difícil imaginar a agitação
do porto medieval: a multidão de mercadores, cobradores de
impostos, peixeiras de canastras equilibradas à cabeça,
compradores, ladrões e prostitutas. A travessia para a outra
margem fazia-se então através de um passadiço
assente em embarcações. Foi aí que, em Março
de 1809, ocorreu a tragédia da Ponte das Barcas, quando a população,
surpreendida pelo avanço das tropas napoleónicas, fugia
em direcção a Gaia. Demasiado frágil, a passagem
não resistiu ao peso excessivo e acabou por ceder colhendo
inúmeras vidas. No mesmo lugar, logo no início do Cais
da Ribeira, um baixo-relevo de bronze da autoria de Teixeira Lopes
(pai), conhecido como as Alminhas da Ponte, reproduz o acontecimento.
Velas sempre acesas e algumas flores, frescas ou de plástico,
provam que este se mantém vivo na memória dos locais.
A posterior ponte pênsil, cujo pilar de pedra ainda é
bem visível, viria a ser substituída pela actual Ponte
D. Luís I, inaugurada no último dia de Dezembro de 1886
e desenhada pelo engenheiro belga Theophile Seyrig, colaborador de
Gustave Eiffel.
Esplanada
onde se pode comer as tradicionais francesinhas
A
Praça da Ribeira ficava, tal como toda a face ribeirinha, recolhida
intramuros. Zona fervilhante de comércio, com tendas e uma
lota, sofreu em 1491 um terrível incêndio. A posterior
construção de casas com colunas abertas sobre o largo
e o chão lajeado desenharam-lhe um novo perfil. No número
1, por portas envidraçadas, acede-se agora ao Porto Carlton
Hotel, que ocupa seis edifícios contíguos, com quartos
voltados para o rio e para a Rua da Fonte Taurina, uma das mais antigas
da cidade. Encravado entre dois desses edifícios, o Postigo
de Carvão é a única porta sobrevivente da muralha
que ligava ao Cais da Estiva, principal ancoradouro da cidade. Hoje,
existem veleiros em vez de naus, enquanto os barcos rabelos transportam
turistas no lugar dos tonéis de vinho.
Fachadas
típicas do casario
Com
o fim da necessidade defensiva da muralha, esta passou a ser usada
como rua, sendo erguidos vários prédios a ela adossados.
Com varandas de ferro forjado, roupa deixada ao sabor do vento e gaiolas
penduradas de que se escapa a sinfonia dos canários, as casas
do Muro dos Bacalhoeiros têm as portas frequentemente abertas
à nossa curiosidade. A toponímia nada terá a
ver com o facto, mas foi ali, no número 114, que nasceu, a
7 de Fevereiro de 1851, José Luís Gomes de Sá,
criador de um dos pratos mais conhecidos do Porto. O nosso percurso
continua até ao Largo do Terreiro, onde se encontra a capela
da Nossa Senhora do Ó, construída no século XVII
onde antes havia um hospital.
Histórias e monumentos de outros
tempos
Alminha
num dos históricos edifícios do bairro
classificado pela UNESCO
É
altura de recuar ainda um pouco mais no tempo. Estamos em 1120, ano
em que D. Teresa entrega a tutela do burgo ao bispo D. Hugo, responsável
pela reorganização da sua vida económica e administrativa.
Entretanto, a urbe cresce e o comércio ribeirinho ganha ânimo.
Ciente dos proveitos daí resultantes, a Coroa tenta controlar
a actividade aduaneira, envolvendo-se num confronto com os membros
do clero, verdadeiros senhores da cidade. Em causa estaria a localização
do edifício a construir, que a Igreja não admitia no
seu couto, chegando a ameaçar D. Afonso IV de excomunhão,
num conflito com o poder real que haveria de durar quase um século.
Não obstante, o Rei ordena a construção da Alfândega
Régia, iniciada em 1325. Posteriores alterações
e aumentos não lhe sacrificaram a essência, e é
frente a esse mesmo local que nos encontramos agora.
Barcos
rabelos, que hoje transportam turistas no lugar dos
tonéis de vinho
A
Casa do Infante, como é conhecida, foi berço do Infante
D. Henrique, a 4 de Março de 1394, devido a uma estadia prolongada
no Porto do Rei D. João e D. Filipa de Lencastre. Com efeito,
as torres da alfândega serviam de habitação a
almoxarifes e eram o principal edifício régio da cidade.
Ainda antes do nascimento do príncipe foi também erguida
numa zona anexa a Casa da Moeda, que viria a funcionar, com interrupções,
até meados do século XVIII. Acolhendo o Pólo
Medieval do Museu da Cidade, na Torre Norte podem ser vistas algumas
das moedas ali cunhadas, cerâmicas antigas, uma reconstituição
virtual da evolução do edifício, bem como uma
reprodução de um mosaico romano, descoberto debaixo
do pavimento medieval, vestígio de um palácio do quarto
século da nossa era. Muito interessante é a maqueta
que reproduz a cidade na Idade Media. Com a ajuda de um painel electrónico
apercebemo-nos da localização das suas igrejas e sinagogas,
das casas senhoriais, das hortas e feiras, dos cemitérios e
das prisões.
Logo
acima da rua, aguarda-nos a airosa Praça do Infante. Mas ainda
não é para aí que os nossos pés nos encaminham.
Habituados já ao passeio medievo, querem ainda calcorrear a
vetusta Rua da Reboleira, que conserva dois exemplares de casas quinhentistas.
O número 55 mantém as janelas e os portais góticos,
enquanto o vizinho número 59 se apresenta com uma estrutura
de casa-torre, com as respectivas ameias no topo. Embora pertencendo
igualmente à freguesia de S. Nicolau, confesso que tenho dúvidas
se a Igreja de S. Francisco ainda estará dentro dos limites
“oficiais” do bairro do Barredo, de que a Ribeira faz
parte. Porém, ficando a dois passos (quase literalmente) do
sítio onde agora me encontro, era pecado ficar condicionada
a geografias castradoras.
Pitoresco
batente
de porta
Haverá
certamente templos mais antigos e outros mais belos e maiores. Mas
nenhum, em todo o País, possui a mesma exuberância em
talha dourada. O sóbrio granito escuro do exterior e as linhas
da única igreja gótica da cidade transformam-se, uma
vez transposta a entrada, numa imensa caixa forrada a oiro. Com fascínio
de Aladino, percorro a nave principal em direcção ao
altar. Tecto, colunas, capelas, retábulos, transeptos –
quase se não vê pedra, coberta que está pelas
obras que inúmeros artistas de grande craveira foram talhando
ao longo dos séculos XVII e XVIII. É o barroco no seu
apogeu, sendo de destacar a Árvore de Jessé e a Capela
de Nossa Senhora da Soledade, um dos mais preciosos exemplares do
rococó portuense. A visita prossegue pelo pequeno museu pertencente
à Ordem Franciscana, cujas catacumbas abrigam um cemitério
privativo utilizado desde 1746 até à proibição
dos enterramentos em igrejas, no ano de 1866.
Paredes-meias
fica o Palácio da Bolsa, alçado no lugar do antigo convento
da mesma ordem. Edifício de linhas neoclássicas, de
influência britânica, alberga no seu interior várias
divisões com interesse, como o magnífico Pátio
das Nações, coberto por uma estrutura envidraçada;
a Sala dos Retratos, onde os monarcas portugueses convivem com uma
espantosa mesa de embutidos, obra de um antigo funcionário
da casa; a Sala do Tribunal e a Biblioteca.
Barcos
rabelos, que hoje transportam turistas no lugar dos
tonéis de vinho
O verdadeiro ex-libris da Associação Comercial do Porto
é, porém, o deslumbrante Salão Árabe,
com os seus entalhes delicados, de oiro sobre azul, inspirados no
Palácio de Alhambra. Verdadeira sala de visitas, onde ocasionalmente
se realizam concertos ou jantares de gala, acolheu figuras como Mouzinho
de Albuquerque, Gago Coutinho e a Rainha Isabel II de Inglaterra.
De regresso ao rio, dou por terminada a jornada. O Sol afoga-se aos
poucos junto à Foz enquanto me sento numa esplanada já
deserta de turistas. Por companhia apenas as palavras de Saramago:
“… e é isso que [o viajante] leva do Porto, um
duro mistério de ruas sombrias e casas cor de terra, tão
fascinante tudo isto como ao anoitecer as luzes que se vão
acendendo nas encostas, cidade junta com um rio que chamam Doiro”.