Home | Fóruns | PDA | Assinar Revista
Directório de Turismo: Agências de Viagens | Operadores Turísticos | Comp. Aéreas | Alojamento
  Subscrever
Rotas & Destinos




- - - - - - - - - - - - - - -
  Bloco de notas
   Hoteis, Restaurantes e Shopping
   Globetrotter 
   Livros e Discos
   Promoções 
   Agenda
   Dicas de Viagem
   Dicas de Saúde
 
  Secções
 • Fim-de-semana 
 • Estrada fora

 • 24 Horas
 • Hotéis
 • Em destaque
 • Especiais
 • Panorâmica
 • Lugares com história
 • Gourmet
 • As viagens de
  Pesquisar artigos


  Planear Viagem
 • Programas de Viagem
 
  Jogue online
 • Acção
 • Desporto

 • Plataformas
 • Puzzle
 • Shoot´Em Up
 
  Utilidades
  
Assinar a Revista
- - - - - - - - - - - - - - -
 Edições Anteriores
- - - - - - - - - - - - - - -

   XLRotas & DestinosDossier > O centro do Mundo


D O S S I E R Junho de 2006   
   
Durante um mês, Berlim será a sede do Mundial de Futebol. E depois? Depois será como sempre foi – será a capital do mundo e o pomo da discórdia. Continuará a cativar, a atrair divisões, e a trair a sua História. Falará todas as línguas, reunirá todos os povos, e tropeçará antes de cair, para novamente se voltar a erguer, gloriosa

Texto de Miguel Somsen e fotos de Pedro Sampayo Ribeiro
   

P U B L I C I D A D E
O centro do Mundo | Perguntas frequentes | Guia de viagem

Sandy pede-me para eu pôr as mãos nos ombros dela e vira as costas, preparada para marchar. Ficamos assim os dois de pé, à procura de uma sintonia que nos permita iniciar a visita sem atropelos. Sei que inevitavelmente irei tropeçar nas suas pernas, mas ela não se incomoda. “Sorry”, repito pela terceira vez. “It’s OK”, conforma-se. Ao contrário de outros empregados do restaurante, Sandy não é invisual, mas tem um problema ocular que lhe retira acutilância visual. No entanto, dentro daquela sala, no meio daquele labirinto, a vantagem passou a ser sua – Sandy guiava-me, e explicava os truques do ofício, ou como contornar os incontornáveis. “Aqui é uma coluna. Tenta evitá-la. Consegues sentir estas cadeiras? Estão desarrumadas”. Ali, o escuro não é uma ausência de luz, mas a morte momentânea de um dos nossos sentidos. Ali, durante um jantar de três horas, durante um segundo histórico, seremos todos iguais – sem a visão, restam-nos todos os sentidos que nos restam, todos os momentos que nos sobram, para a eles juntarmos a ideia, ou a percepção, de estarmos a viver uma experiência inesquecível. Trata-se apenas de um restaurante em Berlim, ainda nos falta o resto do labirinto. Por onde começar?

Berlim

A cúpula que Norman Foster desenhou para o Reichstag
Não é possível fazer Berlim em cinco dias, nem em duas semanas. Não é possível conhecer a cidade num mês, nem sequer numa vida, mas cada um faz aquilo que é possível no tempo que nos é concedido. Diz-se que “Paris será sempre Paris e Berlim nunca será Berlim”. É capaz de ser verdade, mas as teorias mudam de viajante para viajante. E, tal como as opiniões, Berlim muda por sistema; por sistema é uma cidade orgânica que se destrói, se renova e contraria. É uma cidade-árvore, que desabrocha na Primavera para empalidecer no Outono e novamente rebentar na Primavera.

“Berlim representa tanta coisa”, diz o arquitecto Daniel Libeskind, autor do edifício do Museu Judaico. “Mesmo no seu vazio e na sua vastidão, continuou a ser o foco daquilo que o mundo representava. Lembro-me que a frase de Kennedy, “Ich bin ein berliner” tinha o seu quê de verdade. Que todas as pessoas, mesmo aquelas que nunca aqui estiveram, fazem, e farão sempre parte desta cidade”.


Restaurante que também é discoteca

A Fernsehturm ou torre de televisão, na Alexanderplatz
Em 1989, o muro foi abaixo e outra cidade se ergueu, como uma nova civilização. Berlim aumentou consideravelmente a sua cintura, mas não deixou ninguém de fora. Todos os bairros continuam a ser Berlim e, por isso, são facilmente visitáveis, para não dizer acessíveis. O comboio (S-Bahn) e o metropolitano (U-Bahn), ao preço de amigo de €2,10 a carreira, fazem milagres em horas de ponta, garantindo a pontualidade à população activa, e uma eficácia geográfica a repórteres sem fronteiras (a multa para quem for apanhado sem bilhete é de 600 euros). Nunca, em qualquer momento da viagem, algum de nós teve de esperar mais de cinco minutos no apeadeiro pelo comboio que nos levaria daqui para ali em dois tempos.

A Ku’damm

Catedral neo-barroca; e o Spindler & Klatt

Nu, restaurante de inspiração oriental na zona ocidental de Berlim
Charlottenburg continua a ser o centro demonstrativo da antiga cidade ocidental, e isso nota-se na ostentação e arrogância comercial da principal avenida, a Kurfurstendamm (Ku’damm para os amigos e familiares). As lojas são de um luxo quase carnavalesco, com marcas e preços que atraem antes de repelir. Cada esquina é um dilema moral com implicações graves na renda da casa e abono de família. Chanel vs Bulgari. Louis Vuitton vs Cartier. Escada vs Piaget. Valentino vs Hermès. Sonia Rykiel vs Jill Sander.

Ao fim da esquina, um balcão da Commerzbank rivaliza com um da Deutsche Bank no financiamento desta aventura que é a sobrevivência na terra dos ricos. A Ku’damm é uma espécie de Las Vegas, mas com menos néons e garantias bancárias. De qualquer forma, e pessoalmente, tudo que seja uma loja com porteiro é de acautelar. Faz-me lembrar algumas discotecas da capital, há uns anos, nas quais era impossível entrar com um par de ténis colado aos pés e um blusão de ganga agarrado ao corpo. Claro que as coisas mudaram: agora entramos de sapatos de verniz na melhor loja de Lisboa ou Berlim para destemidamente adquirir os ténis Yamamoto da montra, que custam dois salários mínimos nacionais. “American Express ou Mastercard?”, é o único dilema que se nos é colocado.


A Potsdamer Platz
Em 17 anos, Berlim também mudou radicalmente. O muro caiu e, entretanto, a festa mudou-se para leste, a antiga zona comunista. É aí que tudo se passa, é onde tudo acontece, ou pelo menos é onde se espera que aconteça (ninguém percebe quem serão as testemunhas e os intervenientes). “É sempre a arraia miúda que muda as coisas, nunca são os políticos ou os mais poderosos”, assinala o realizador francês Luc Besson. “Afinal de contas, quem deitou o muro de Berlim abaixo? Foi o povo nas ruas. Os especialistas não tinham ideia nenhuma do que iria acontecer na véspera”.

Em Berlim, a revolução começa na Mitte, ou na Stadtmitte, o meio da cidade, ou a cidade do meio, e vai por aí fora, atravessando a Uter den Linden, depois da Porta de Brandenburgo, em direcção a leste, para a expansiva Alexanderplatz, em obras, e daí para os bairros de Friedrichshain, Prenzlauer Berg, a nordeste, ou Kreuzberg, a sudeste. Vai-se sem olhar para trás, sem olhar a meios, sem pensar duas vezes, com os olhos bem atentos ao mapa. Por onde começar?

A Ku’damm

O impressionante Memorial ao Holocausto de Peter Eisenmann ocupa um quarteirão da cidade

Velotaxi, uma espécie de riquexó,muito popular entre os turistas
A nova Potsdamer Platz, com cerca de 480 mil metros quadrados, é a menina dos olhos de Berlim, e parece combinar as linhas clínicas da Defense de Paris com o romantismo interrompido do Parque das Nações da Expo. Tem um valor histórico inestimável, por herdar um simbolismo que tardava, e por recuperar uma vida ultrapassada. A fama da praça vem dos anos 20, mas depois foi-se, com os nazis na vanguarda e os soviéticos na retaguarda. Durante anos, depois da II Guerra Mundial, a Potsdamer foi uma terra de ninguém, uma espécie de hinterland deixado ao abandono, e apenas dois edifícios sobreviveram à indiferença generalizada da espécie: a casa de vinhos Huth, e a estrutura parcial do antigo Hotel Esplanade (o actual Grande Hotel Esplanade é no Tiergarten).


O Ständige Vertretung, frequentado pelos deputados do Parlamento alemão
Em 1991 foi lançado o desafio a 16 escritórios de arquitectos do mundo para desenvolver um plano de ordenamento que conseguisse “misturar lazer, shopping, cultura e finanças” na zona de Potsdamerplatz, segundo Michael Imhof Verlag, autor do livro Berlin, New Architecture. O resultado final está à vista, tanto na Potsdamer Platz como no concorrido Sony Center, uma unificação de “comércio gargantual”, que abre três flancos de ar na base, e é protegida do céu por uma cúpula de metal e vidro, semelhante a um balão. O Hotel Hyatt e os escritórios da Mercedes-Benz são da autoria do espanhol José Rafael Moneo; o Sony Center é da responsabilidade do germano-americano Helmut Jahn; o IMAX, o Teatro Musical, o Casino e o quartel general da Daimler-Chrysler foram entregues a Renzo Piano, que vai igualmente dinamizar a zona oriental de Lisboa, um dia destes. Procure o Museu do Cinema, o bar-restaurante Billy Wilder, e procure ter tempo para perder, em vez de dinheiro para gastar.

O Memorial do Holocausto

Guarda no muro “para turista ver” que ainda existe na Mühlenstrasse

A Igreja Memorial Kaiser--Wilhelm, bombardeada em 1943
Inspirado no cemitério judaico de Praga, o Memorial do Holocausto (de Peter Eisenmann) é um ponto de convergência e perplexidade da cidade, por surpreender todos aqueles que percorrem o caminho da Potsdamer Platz para a Porta de Brandenburgo, seguindo percurso das sandes e salsichas de caril da Eberstrasse. O Memorial ocupa um quarteirão, ou dois campos de futebol, e é composto por uma seara desalinhada de mais de 2000 túmulos a mármore negro, no qual não se pode, nem se consegue, escrever qualquer dedicatória à namorada.

Uma guia americana no local referia a sinistra coincidência da empresa Degussa, que garante a imunidade química das pedras contra a poesia de rua dos graffiti, ter ligações remotas à companhia que providenciou o gás Zyklon B aos nazis, para extermínio dos judeus. Claro que esse dilema só estalou depois da polémica, ou durante a construção do memorial, em 2003. Antes disso, em 2000, a maioria dos alemães considerava absurdo o empreendimento de um memorial que apenas homenageasse os judeus mortos no Holocausto. “Não estamos a construir para os judeus, ou para todas as outras vítimas do Holocausto”, esclarecia, em 2000, o então presidente do Parlamento, Wolfgang Thierse. “Estamos a construí-lo para nós. Agora, não poderá haver mais negação ou indiferença”.


Exposição de Warhol no museu de arte contemporânea instalado na antiga Hamburgerbahnhof

O sempre animado Centro Sony, na Potsdamer Platz
No entanto, a ladainha não ficou por aqui: antes da construção, a zona desmilitarizada teve ainda de ser sapada, por se recear a descoberta de minas e armadilhas com o carimbo da II Guerra Mundial e sem prazo de validade. O que os engenheiros descobriram foram bunkers nazis e um passado que dificilmente pode ser deixado debaixo da terra, ou longe da vista. Isso fez com que o americano Peter Eisenmann tivesse de requalificar os seus esboços três vezes, antes da aprovação final.

A Terra das Ideias
Um jornalista de Berlim comentava, na sua crónica mensal, o facto de este Mundial de Futebol não ser dos alemães, mas da FIFA. E de a FIFA não ser realmente de ninguém, mas de ter ainda a faca e o queijo na mão. O que ele queria dizer era que o Mundial deixou de ser uma festa de futebol para passar a ser um festival de dinheiro. E que o dinheiro é trazido pela publicidade, e que a publicidade é gerida pelos patrocinadores, e que os patrocinadores são os clientes que determinam as regras do mercado ou as leis do fora-de-jogo.


O Museu Judaico de Daniel Libeskind
Para ilustrar o inexplicável, o jornalista utilizou como exemplo o caso absurdo do Hertha de Berlim, o clube da bundesliga que joga no Estádio Olímpico da sua cidade, mas que, durante a breve passagem do tsunami Mundial, não estará autorizado a vender merchandising da sua equipa nas imediações do estádio. Razão? Conflito comercial: de marcas de camisolas, de nomes de cervejas, de referências de seguradoras ou companhias aéreas, enfim, conflito de interesses. De um lado, o Hertha de Berlim, do outro o Mundial da FIFA.

Embora este pareça ser um tema alienado deste contexto, acaba por reflectir no espírito olímpico que a cidade de Berlim deveria estar a viver, antes do pontapé de saída do campeonato do mundo (que começa em Munique, a 9 de Junho, e termina em Berlim, a 9 de Julho). Para dar um exemplo, o Estádio Olímpico estará encerrado para visitas turísticas durante mais de dois meses, excluindo os dias de jogos, em que só poderão comparecer os titulares de bilhetes para os desafios do Mundial, e o habitual grupúsculo de convidados VIP que se junta nas cerimónias protocolares.


Conjunto de fãs de futebol, que em Junho vão invadir Berlim e toda a Alemanha
Berlim, de qualquer forma, não quer conflitos nem chatices. O lema do Mundial é “a chance to make friends”, uma oportunidade para fazer amigos. E, se não for dentro do futebol, será fora de jogo – nos restaurantes, nos bares, nas discotecas, através da partilha emocional, do espírito de conquista, da ilusão da vitória e da responsabilidade na desilusão. A presença dos brasileiros na cidade (como em Paris em 1998), fará por incentivar a festa e esquecer a crise, ou tudo aquilo que a cidade sofreu. Não é assim de um dia para o outro, mas aqui a vida nunca são apenas os tais dois dias que tanto se apregoa.

À frente da Porta de Brandenburgo exibe-se o orgulho senhorial da Alemanha, através de uma réplica majestosa de um automóvel Audi.

The Automobile é uma maquete composta de aço, fibra de vidro e espuma, com cerca de dez metros de comprimento por dois e meio de altura, muito longe da vaidade nacional que gostaria de reproduzir, mas servirá para acompanhar as habituais fotografias de família durante o cortejo do Mundial. A instalação faz parte de um circuito de seis peças, o walk of ideas, que expõe o conceito defendido pela Land of Ideas para a cidade; e tenta, à sua maneira, elevar o nível da consciência desportiva, ou o modelo de competitividade industrial. The Automobile, por exemplo, resume a contribuição da Alemanha para o universo automóvel, através do Diesel, da tracção às quatro rodas, do ABS ou dos airbags. A Land of Ideas é um elogio à criação da arte e do engenho: pela cidade, os berlinenses sustêm a respiração defronte de uma aspirina de 10 metros de diâmetro, de um par de botas de futebol de 20 toneladas, e de uma torre de livros de doze metros de altura. As restantes réplicas não estavam ainda terminadas durante a nossa estadia.


  página seguinte

Pesquisas relacionadas com este artigo:

   
Anunciar on-line | Assinaturas | Contactos | Notícias por RSS | Promoções | Serviços Móveis Record | Serviços Móveis CM
ADSL.XL | Classificados | Emprego | Directórios | Jogos | Horóscopo | Tempo

Copyright ©. Todos os direitos reservados. É expressamente proíbida a reprodução na totalidade ou em parte, em qualquer tipo de suporte, sem prévia permissão por escrito da Edirevistas, S.A. , uma empresa Cofina Media - Grupo Cofina.
Consulte as condições legais de utilização.