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XL
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> Dossier
> O centro do Mundo


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| D O S S I E R |
Junho
de 2006 |
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Durante
um mês, Berlim será a sede do
Mundial de Futebol. E depois? Depois será
como sempre foi – será a capital
do mundo e o pomo da discórdia. Continuará
a cativar, a atrair divisões, e a trair
a sua História. Falará todas
as línguas, reunirá todos os
povos, e tropeçará antes de
cair, para novamente se voltar a erguer, gloriosa
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Texto de Miguel Somsen e fotos de Pedro
Sampayo Ribeiro |
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Sandy
pede-me para eu pôr as mãos nos ombros dela
e vira as costas, preparada para marchar. Ficamos assim
os dois de pé, à procura de uma sintonia
que nos permita iniciar a visita sem atropelos. Sei que
inevitavelmente irei tropeçar nas suas pernas,
mas ela não se incomoda. “Sorry”, repito
pela terceira vez. “It’s OK”, conforma-se.
Ao contrário de outros empregados do restaurante,
Sandy não é invisual, mas tem um problema
ocular que lhe retira acutilância visual. No entanto,
dentro daquela sala, no meio daquele labirinto, a vantagem
passou a ser sua – Sandy guiava-me, e explicava
os truques do ofício, ou como contornar os incontornáveis.
“Aqui é uma coluna. Tenta evitá-la.
Consegues sentir estas cadeiras? Estão desarrumadas”.
Ali, o escuro não é uma ausência de
luz, mas a morte momentânea de um dos nossos sentidos.
Ali, durante um jantar de três horas, durante um
segundo histórico, seremos todos iguais –
sem a visão, restam-nos todos os sentidos que nos
restam, todos os momentos que nos sobram, para a eles
juntarmos a ideia, ou a percepção, de estarmos
a viver uma experiência inesquecível. Trata-se
apenas de um restaurante em Berlim, ainda nos falta o
resto do labirinto. Por onde começar?
Berlim

| A
cúpula que Norman Foster desenhou para
o Reichstag |
|
Não
é possível fazer Berlim em cinco dias, nem
em duas semanas. Não é possível conhecer
a cidade num mês, nem sequer numa vida, mas cada
um faz aquilo que é possível no tempo que
nos é concedido. Diz-se que “Paris será
sempre Paris e Berlim nunca será Berlim”.
É capaz de ser verdade, mas as teorias mudam de
viajante para viajante. E, tal como as opiniões,
Berlim muda por sistema; por sistema é uma cidade
orgânica que se destrói, se renova e contraria.
É uma cidade-árvore, que desabrocha na Primavera
para empalidecer no Outono e novamente rebentar na Primavera.
“Berlim representa tanta coisa”, diz o arquitecto
Daniel Libeskind, autor do edifício do Museu Judaico.
“Mesmo no seu vazio e na sua vastidão, continuou
a ser o foco daquilo que o mundo representava. Lembro-me
que a frase de Kennedy, “Ich bin ein berliner”
tinha o seu quê de verdade. Que todas as pessoas,
mesmo aquelas que nunca aqui estiveram, fazem, e farão
sempre parte desta cidade”.

| Restaurante
que também é discoteca |
|

| A
Fernsehturm ou torre de televisão,
na Alexanderplatz |
|
Em 1989, o muro foi abaixo e outra
cidade se ergueu, como uma nova civilização.
Berlim aumentou consideravelmente a sua cintura, mas não
deixou ninguém de fora. Todos os bairros continuam
a ser Berlim e, por isso, são facilmente visitáveis,
para não dizer acessíveis. O comboio (S-Bahn)
e o metropolitano (U-Bahn), ao preço de amigo de
€2,10 a carreira, fazem milagres em horas de ponta,
garantindo a pontualidade à população
activa, e uma eficácia geográfica a repórteres
sem fronteiras (a multa para quem for apanhado sem bilhete
é de 600 euros). Nunca, em qualquer momento da
viagem, algum de nós teve de esperar mais de cinco
minutos no apeadeiro pelo comboio que nos levaria daqui
para ali em dois tempos.
A Ku’damm

| Catedral
neo-barroca; e o Spindler & Klatt |
|

| Nu,
restaurante de inspiração oriental
na zona ocidental de Berlim |
|
Charlottenburg continua a ser o
centro demonstrativo da antiga cidade ocidental, e isso
nota-se na ostentação e arrogância
comercial da principal avenida, a Kurfurstendamm (Ku’damm
para os amigos e familiares). As lojas são de um
luxo quase carnavalesco, com marcas e preços que
atraem antes de repelir. Cada esquina é um dilema
moral com implicações graves na renda da
casa e abono de família. Chanel vs Bulgari. Louis
Vuitton vs Cartier. Escada vs Piaget. Valentino vs Hermès.
Sonia Rykiel vs Jill Sander.
Ao fim da esquina, um balcão da Commerzbank rivaliza
com um da Deutsche Bank no financiamento desta aventura
que é a sobrevivência na terra dos ricos.
A Ku’damm é uma espécie de Las Vegas,
mas com menos néons e garantias bancárias.
De qualquer forma, e pessoalmente, tudo que seja uma loja
com porteiro é de acautelar. Faz-me lembrar algumas
discotecas da capital, há uns anos, nas quais era
impossível entrar com um par de ténis colado
aos pés e um blusão de ganga agarrado ao
corpo. Claro que as coisas mudaram: agora entramos de
sapatos de verniz na melhor loja de Lisboa ou Berlim para
destemidamente adquirir os ténis Yamamoto da montra,
que custam dois salários mínimos nacionais.
“American Express ou Mastercard?”, é
o único dilema que se nos é colocado.

|
 |
Em 17 anos, Berlim também
mudou radicalmente. O muro caiu e, entretanto, a festa
mudou-se para leste, a antiga zona comunista. É
aí que tudo se passa, é onde tudo acontece,
ou pelo menos é onde se espera que aconteça
(ninguém percebe quem serão as testemunhas
e os intervenientes). “É sempre a arraia
miúda que muda as coisas, nunca são os políticos
ou os mais poderosos”, assinala o realizador francês
Luc Besson. “Afinal de contas, quem deitou o muro
de Berlim abaixo? Foi o povo nas ruas. Os especialistas
não tinham ideia nenhuma do que iria acontecer
na véspera”.
Em Berlim, a revolução começa na
Mitte, ou na Stadtmitte, o meio da cidade, ou a cidade
do meio, e vai por aí fora, atravessando a Uter
den Linden, depois da Porta de Brandenburgo, em direcção
a leste, para a expansiva Alexanderplatz, em obras, e
daí para os bairros de Friedrichshain, Prenzlauer
Berg, a nordeste, ou Kreuzberg, a sudeste. Vai-se sem
olhar para trás, sem olhar a meios, sem pensar
duas vezes, com os olhos bem atentos ao mapa. Por onde
começar?
A Ku’damm

| O
impressionante Memorial ao Holocausto de Peter
Eisenmann ocupa um quarteirão da cidade |
|

| Velotaxi,
uma espécie de riquexó,muito
popular entre os turistas |
|
A nova Potsdamer Platz, com cerca
de 480 mil metros quadrados, é a menina dos olhos
de Berlim, e parece combinar as linhas clínicas
da Defense de Paris com o romantismo interrompido do Parque
das Nações da Expo. Tem um valor histórico
inestimável, por herdar um simbolismo que tardava,
e por recuperar uma vida ultrapassada. A fama da praça
vem dos anos 20, mas depois foi-se, com os nazis na vanguarda
e os soviéticos na retaguarda. Durante anos, depois
da II Guerra Mundial, a Potsdamer foi uma terra de ninguém,
uma espécie de hinterland deixado ao abandono,
e apenas dois edifícios sobreviveram à indiferença
generalizada da espécie: a casa de vinhos Huth,
e a estrutura parcial do antigo Hotel Esplanade (o actual
Grande Hotel Esplanade é no Tiergarten).

| O
Ständige Vertretung, frequentado pelos
deputados do Parlamento alemão |
|
Em 1991 foi lançado o desafio
a 16 escritórios de arquitectos do mundo para desenvolver
um plano de ordenamento que conseguisse “misturar
lazer, shopping, cultura e finanças” na zona
de Potsdamerplatz, segundo Michael Imhof Verlag, autor
do livro Berlin, New Architecture. O resultado final está
à vista, tanto na Potsdamer Platz como no concorrido
Sony Center, uma unificação de “comércio
gargantual”, que abre três flancos de ar na
base, e é protegida do céu por uma cúpula
de metal e vidro, semelhante a um balão. O Hotel
Hyatt e os escritórios da Mercedes-Benz são
da autoria do espanhol José Rafael Moneo; o Sony
Center é da responsabilidade do germano-americano
Helmut Jahn; o IMAX, o Teatro Musical, o Casino e o quartel
general da Daimler-Chrysler foram entregues a Renzo Piano,
que vai igualmente dinamizar a zona oriental de Lisboa,
um dia destes. Procure o Museu do Cinema, o bar-restaurante
Billy Wilder, e procure ter tempo para perder, em vez
de dinheiro para gastar.
O Memorial do Holocausto

| Guarda
no muro “para turista ver” que
ainda existe na Mühlenstrasse |
|

| A
Igreja Memorial Kaiser--Wilhelm, bombardeada
em 1943 |
|
Inspirado no cemitério judaico
de Praga, o Memorial do Holocausto (de Peter Eisenmann)
é um ponto de convergência e perplexidade
da cidade, por surpreender todos aqueles que percorrem
o caminho da Potsdamer Platz para a Porta de Brandenburgo,
seguindo percurso das sandes e salsichas de caril da Eberstrasse.
O Memorial ocupa um quarteirão, ou dois campos
de futebol, e é composto por uma seara desalinhada
de mais de 2000 túmulos a mármore negro,
no qual não se pode, nem se consegue, escrever
qualquer dedicatória à namorada.
Uma guia americana no local referia a sinistra coincidência
da empresa Degussa, que garante a imunidade química
das pedras contra a poesia de rua dos graffiti, ter ligações
remotas à companhia que providenciou o gás
Zyklon B aos nazis, para extermínio dos judeus.
Claro que esse dilema só estalou depois da polémica,
ou durante a construção do memorial, em
2003. Antes disso, em 2000, a maioria dos alemães
considerava absurdo o empreendimento de um memorial que
apenas homenageasse os judeus mortos no Holocausto. “Não
estamos a construir para os judeus, ou para todas as outras
vítimas do Holocausto”, esclarecia, em 2000,
o então presidente do Parlamento, Wolfgang Thierse.
“Estamos a construí-lo para nós. Agora,
não poderá haver mais negação
ou indiferença”.

| Exposição
de Warhol no museu de arte contemporânea
instalado na antiga Hamburgerbahnhof |
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| O
sempre animado Centro Sony, na Potsdamer Platz |
|
No entanto, a ladainha não
ficou por aqui: antes da construção, a zona
desmilitarizada teve ainda de ser sapada, por se recear
a descoberta de minas e armadilhas com o carimbo da II
Guerra Mundial e sem prazo de validade. O que os engenheiros
descobriram foram bunkers nazis e um passado que dificilmente
pode ser deixado debaixo da terra, ou longe da vista.
Isso fez com que o americano Peter Eisenmann tivesse de
requalificar os seus esboços três vezes,
antes da aprovação final.
A Terra das Ideias
Um jornalista de Berlim comentava,
na sua crónica mensal, o facto de este Mundial
de Futebol não ser dos alemães, mas da FIFA.
E de a FIFA não ser realmente de ninguém,
mas de ter ainda a faca e o queijo na mão. O que
ele queria dizer era que o Mundial deixou de ser uma festa
de futebol para passar a ser um festival de dinheiro.
E que o dinheiro é trazido pela publicidade, e
que a publicidade é gerida pelos patrocinadores,
e que os patrocinadores são os clientes que determinam
as regras do mercado ou as leis do fora-de-jogo.

| O
Museu Judaico de Daniel Libeskind |
|
Para ilustrar o inexplicável,
o jornalista utilizou como exemplo o caso absurdo do Hertha
de Berlim, o clube da bundesliga que joga no Estádio
Olímpico da sua cidade, mas que, durante a breve
passagem do tsunami Mundial, não estará
autorizado a vender merchandising da sua equipa nas imediações
do estádio. Razão? Conflito comercial: de
marcas de camisolas, de nomes de cervejas, de referências
de seguradoras ou companhias aéreas, enfim, conflito
de interesses. De um lado, o Hertha de Berlim, do outro
o Mundial da FIFA.
Embora este pareça ser um tema alienado deste contexto,
acaba por reflectir no espírito olímpico
que a cidade de Berlim deveria estar a viver, antes do
pontapé de saída do campeonato do mundo
(que começa em Munique, a 9 de Junho, e termina
em Berlim, a 9 de Julho). Para dar um exemplo, o Estádio
Olímpico estará encerrado para visitas turísticas
durante mais de dois meses, excluindo os dias de jogos,
em que só poderão comparecer os titulares
de bilhetes para os desafios do Mundial, e o habitual
grupúsculo de convidados VIP que se junta nas cerimónias
protocolares.

| Conjunto
de fãs de futebol, que em Junho vão
invadir Berlim e toda a Alemanha |
|
Berlim, de qualquer forma, não
quer conflitos nem chatices. O lema do Mundial é
“a chance to make friends”, uma oportunidade
para fazer amigos. E, se não for dentro do futebol,
será fora de jogo – nos restaurantes, nos
bares, nas discotecas, através da partilha emocional,
do espírito de conquista, da ilusão da vitória
e da responsabilidade na desilusão. A presença
dos brasileiros na cidade (como em Paris em 1998), fará
por incentivar a festa e esquecer a crise, ou tudo aquilo
que a cidade sofreu. Não é assim de um dia
para o outro, mas aqui a vida nunca são apenas
os tais dois dias que tanto se apregoa.
À frente da Porta de Brandenburgo exibe-se o orgulho
senhorial da Alemanha, através de uma réplica
majestosa de um automóvel Audi.
The Automobile é uma maquete composta de aço,
fibra de vidro e espuma, com cerca de dez metros de comprimento
por dois e meio de altura, muito longe da vaidade nacional
que gostaria de reproduzir, mas servirá para acompanhar
as habituais fotografias de família durante o cortejo
do Mundial. A instalação faz parte de um
circuito de seis peças, o walk of ideas, que expõe
o conceito defendido pela Land of Ideas para a cidade;
e tenta, à sua maneira, elevar o nível da
consciência desportiva, ou o modelo de competitividade
industrial. The Automobile, por exemplo, resume a contribuição
da Alemanha para o universo automóvel, através
do Diesel, da tracção às quatro rodas,
do ABS ou dos airbags. A Land of Ideas é um elogio
à criação da arte e do engenho: pela
cidade, os berlinenses sustêm a respiração
defronte de uma aspirina de 10 metros de diâmetro,
de um par de botas de futebol de 20 toneladas, e de uma
torre de livros de doze metros de altura. As restantes
réplicas não estavam ainda terminadas durante
a nossa estadia.

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